{"id":277437,"date":"2023-04-06T18:32:58","date_gmt":"2023-04-06T17:32:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=277437"},"modified":"2023-04-05T16:12:17","modified_gmt":"2023-04-05T15:12:17","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor-4\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Que hei-de fazer de Jesus? Deixa que te ensine o Amor!<\/p>\n<p>No Domingo de Ramos, medit\u00e1vamos na interroga\u00e7\u00e3o de Pilatos diante do Povo que pedia a liberta\u00e7\u00e3o de Barrab\u00e1s: \u201cQue hei-se fazer de Jesus, chamado o Cristo?\u201d. A presente celebra\u00e7\u00e3o convida-nos a dar uma primeira resposta: \u201cDeixa que Jesus te ensine a amar at\u00e9 ao fim\u201d.<\/p>\n<p>Com efeito, \u00e9 desse modo que S. Jo\u00e3o inicia o relato da \u00daltima Ceia, como acab\u00e1mos de escutar: \u201cSabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele que amara os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta a Jesus tecer algumas amizades \u2014 muito menos encontrar algumas depend\u00eancias cegas que possam ser usadas para criar um movimento de seguidores. Essa n\u00e3o \u00e9, definitivamente, a sua miss\u00e3o, nem esse \u00e9 o seu objectivo: esse \u00e9 antes o prop\u00f3sito de quantos procuram um momento de poder ilus\u00f3rio, sensa\u00e7\u00f5es superficiais de dom\u00ednio. Mesmo que, mentirosamente, lhe chamem \u201camor\u201d.<\/p>\n<p>O amor, ao contr\u00e1rio, traz sempre consigo a verdade e a liberdade de quantos nele se encontram envolvidos. Diz respeito a todas as dimens\u00f5es do ser humano; consiste em encontrar a felicidade no bem do outro \u2014 consiste, por isso, num \u201cquerer bem ao outro\u201d, qualquer que seja a sua dimens\u00e3o ou profundidade. Em suma: o amor \u00e9 Deus em n\u00f3s (mesmo que n\u00e3o nos demos conta), a modificar constantemente o nosso ser, a torn\u00e1-lo mais pr\u00f3ximo de Si. Deus \u00e9 amor, e o seu objectivo \u00e9 ensinar-nos a amar.<\/p>\n<p>De facto, o amor \u00e9 pr\u00f3prio de Deus: \u201cDeus \u00e9 amor; e aquele que permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele\u201d, afirma S. Jo\u00e3o na sua primeira Carta. \u00c9 a este amor, pr\u00f3prio de Deus, que \u2014 para o distinguir das redu\u00e7\u00f5es que o ser humano sempre faz quando vive algo de divino, porque incapaz de chegar ao sublime de Deus \u2014 \u00e9 a este amor que chamamos \u201ccaridade\u201d.<\/p>\n<p>A caridade \u00e9 o amor de Deus: amor que \u00e9 a raz\u00e3o de todos os seus actos criadores, em particular da cria\u00e7\u00e3o do ser humano \u201c\u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d; caridade que \u00e9 a raz\u00e3o de Deus n\u00e3o desistir de ningu\u00e9m; caridade que, ao mesmo tempo, o faz respeitar infinitamente a liberdade de todos e cada um. Caridade que \u00e9 a raz\u00e3o da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo; que \u00e9 a raz\u00e3o de tudo quanto Jesus diz e faz \u2014 que \u00e9 a raz\u00e3o do seu existir.<\/p>\n<p>\u201cTendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d: amou-os at\u00e9 ao final da sua exist\u00eancia, e amou-os o mais intensamente que algu\u00e9m pode amar.<\/p>\n<p>Habitualmente fazemos uma esp\u00e9cie de caminho ascendente: julgamos saber o que seja o amor; sabemos que somos amados pelos nossos pais e sabemos que somos amigos da nossa fam\u00edlia e daqueles que, por qualquer raz\u00e3o, nos s\u00e3o pr\u00f3ximos. N\u00e3o raras vezes confundimos a paix\u00e3o com o amor. Daqueles que sofrem, compadecemo-nos. Pensamos que o amor de Deus seja semelhante a isso que chamamos amor, s\u00f3 que vivido de um modo mais perfeito. Parece ser algo de admir\u00e1vel mas distante, impessoal.<\/p>\n<p>Os gestos de Jesus na \u00faltima Ceia convidam ao movimento contr\u00e1rio. Deixemos que Jesus nos ensine o que \u00e9 o amor, e o amor at\u00e9 ao fim \u2014 ou melhor, a caridade, amor de Deus em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Tal como o vemos (e como esta celebra\u00e7\u00e3o nos procura mostrar) o amor de Deus em n\u00f3s, a caridade, \u00e9, em primeiro lugar, viver em constante atitude de servi\u00e7o: tomar o lugar do servo, estar disposto n\u00e3o apenas a realizar aquele gesto de maior humildade que \u00e9 o de lavar os p\u00e9s aos que chegam para a refei\u00e7\u00e3o, mas a assumir essa atitude sempre, em qualquer momento. S\u00f3 aquele que serve \u00e9 capaz de amar.<\/p>\n<p>Caridade, amor de Deus em n\u00f3s \u00e9, como nos mostra tamb\u00e9m Jesus, a pr\u00f3pria Eucaristia. A caridade, o seu amor por n\u00f3s (por cada um de n\u00f3s que aqui estamos, e por todos) \u00e9 um querer permanecer connosco para sempre, tornando-se alimento que conduz \u00e0 vida eterna \u2014 quer dizer: \u00e0 uni\u00e3o com o Pai. Somos \u201cos seus\u201d, aqueles por quem Ele se entrega e por quem e a quem d\u00e1 a vida, a sua vida divina. Amar \u00e9 a entrega desarmada de quem oferece a sua vida a outro e se disp\u00f5e a fazer caminho com ele, em qualquer momento, seja ele de felicidade ou de tristeza.<\/p>\n<p>Caridade, amor de Deus em n\u00f3s, \u00e9 a entrega da vida que Jesus faz na cruz. \u00c9 fazer nossa a morte daquele que amamos para lhe dar a vida. Amor at\u00e9 ao fim. Fidelidade, desprendimento total de si; cruz, c\u00e1lice sem o qual a ceia da P\u00e1scoa ficaria incompleta.<\/p>\n<p>De Jesus e destas suas atitudes finais de Quinta-feira Santa, aprendamos tamb\u00e9m n\u00f3s a amar. Elas convidam-nos a rever aquilo a que chamamos amor, talvez de um modo errado. Convidam-nos a colocarmo-nos na escola de Jesus e a aprender dele o que significa amar at\u00e9 ao fim. Convidam-nos a sermos disc\u00edpulos \u2014 ou melhor, crist\u00e3os, quer dizer: outros Cristos. N\u00e3o por palavras mas em atitudes concretas, surpreendentes e abundantes (porque o amor, ou melhor, a caridade \u00e9 assim: surpreendente e abundante) em que nos \u00e9 dada a gra\u00e7a de fazermos espelho ao amor de Deus e, desse modo, transformar o mundo.<\/p>\n<p>Como dizia S. Le\u00e3o Magno: \u201cSe Deus \u00e9 amor, a caridade n\u00e3o deve ter fronteiras, porque a grandeza de Deus n\u00e3o tem limites. \u00c9 certo, irm\u00e3os car\u00edssimos, que todos os tempos s\u00e3o bons para o exerc\u00edcio da caridade. Mas estes dias [da Quaresma] a isso nos exortam de modo especial. Quem deseja celebrar a P\u00e1scoa do Senhor em santidade de alma e cora\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7a-se o mais poss\u00edvel por adquirir essa virtude que em si cont\u00e9m todas as outras e cobre a multid\u00e3o dos pecados\u201d (Sermo 10 In Quadragesima, 3-5).<\/p>\n<p>\u201cQue hei-de fazer com Jesus, chamado o Cristo?\u201d, perguntava Pilatos e pergunt\u00e1vamo-nos tamb\u00e9m n\u00f3s. Deixemos que Ele nos ensine a amar. A amar sem fronteiras, porque a grandeza de Deus n\u00e3o tem limites.<\/p>\n<p>Catedral do Funchal, 5 de abril de 2023<br \/>\nD. Nuno Br\u00e1s, bispo do Funchal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":124486,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186,275],"class_list":["post-277437","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=277437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277437\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/124486"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=277437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=277437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=277437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}