{"id":277345,"date":"2023-04-07T16:05:30","date_gmt":"2023-04-07T15:05:30","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=277345"},"modified":"2023-04-07T13:42:07","modified_gmt":"2023-04-07T12:42:07","slug":"homilia-de-d-antonio-montes-moreira-bispo-emerito-de-braganca-miranda-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-sexta-feira-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-antonio-montes-moreira-bispo-emerito-de-braganca-miranda-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-sexta-feira-santa\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Ant\u00f3nio Montes Moreira, Bispo Em\u00e9rito de Bragan\u00e7a-Miranda, na\u00a0Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor, Sexta-feira Santa\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Sexta-Feira Santa \u2013 Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor<\/strong><\/p>\n<p>A <em>pergunta de Pilatos a Jesus \u00abQue \u00e9 a verdade?\u00bb <\/em>(Jo 18, 38) manifesta o ceticismo dominante em v\u00e1rios setores da sociedade romana no tempo do Imp\u00e9rio, designadamente na classe dirigente. Para esses grupos a religi\u00e3o tradicional era um verniz cultural que n\u00e3o forjava convic\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas. A religi\u00e3o n\u00e3o passava de mero ritualismo. Imperava o pragmatismo e a busca da efic\u00e1cia administrativa, bem carater\u00edstica da civiliza\u00e7\u00e3o romana.<\/p>\n<p>Pilatos nem parece interessado na resposta \u00e0 sua pr\u00f3pria pergunta, pois, acrescenta logo a seguir o evangelista, \u00abdito isto, saiu novamente para fora\u00bb do pret\u00f3rio para falar aos judeus (Jo 18, 38). A interroga\u00e7\u00e3o de Pilatos soa mais como\u00a0 coment\u00e1rio depreciativo\u00a0 \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de Jesus: \u00abvim ao mundo para dar testemunho da\u00a0 verdade. Todo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u00bb (Jo 18, 37).<\/p>\n<p>Mais ainda: o ceticismo de Pilatos impedia-o de ter as antenas do esp\u00edrito abertas \u00e0 busca da verdade. O c\u00e9tico deleita-se na d\u00favida. A verdade n\u00e3o se perfila no seu horizonte.<\/p>\n<p>Com este perfil, entendemos as hesita\u00e7\u00f5es e finalmente a ced\u00eancia de Pilatos. Apesar de ter afirmado tr\u00eas vezes que n\u00e3o encontrava culpa nenhuma em Jesus (Jo 18, 31 e 19, 4 e 6) e at\u00e9 de procurar libert\u00e1-l\u2019O (Jo 19, 12), Pilatos intimidou-se perante a argumenta\u00e7\u00e3o de que, \u00abse libertasse Jesus, n\u00e3o seria amigo de C\u00e9sar, pois todo aquele que se faz rei, como Jesus, \u00e9 contra C\u00e9sar\u00bb (Jo 19, 12); e acabou por entregar Jesus para ser crucificado (Jo 19,16). Foi uma recusa da verdade em nome do \u00abpoliticamente correto\u00bb.<\/p>\n<p>2. A <em>pergunta de Pilatos \u00abque \u00e9 a verdade?\u00bb atravessa os s\u00e9culos<\/em>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos dias de hoje largos setores da sociedade aderem ao ceticismo religioso e professam o agnosticismo. Certamente o laborioso itiner\u00e1rio espiritual de muitos n\u00e3o crentes merece respeito e considera\u00e7\u00e3o.\u00a0 Mas quantas vezes o agnosticismo \u00e9 ref\u00fagio c\u00f3modo que permite instalar-se na d\u00favida sem atender \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o existencial de refletir no sentido da vida: quem somos, donde viemos e para onde vamos? A resposta a estas perguntas basilares vai sendo adiada indefinidamente. Neste panorama nebuloso e distra\u00eddo impera o relativismo, a ditadura do relativismo, como lhe chamava o papa Bento XVI. Em tal horizonte parece n\u00e3o haver lugar para a pergunta de Pilatos: \u00abQue \u00e9 a verdade?\u00bb. Nem talvez haja interesse nem desejo de conhecer a resposta. Opta-se pelo que \u00e9 considerado correto politicamente, culturalmente ou socialmente.<\/p>\n<p>3. A<em> resposta estava ali, diante de Pilatos. \u00c9 o pr\u00f3prio Cristo.<\/em><\/p>\n<p>Um escrutador engenhoso do texto evang\u00e9lico at\u00e9 encontrou a resposta na\u00a0 formula\u00e7\u00e3o latina da pergunta de Pilatos: <em>Quid est veritas? <\/em>\/ Que \u00e9 a verdade? As 14 letras da pergunta, se forem ordenadas de outro modo, oferecem a resposta: <em>Est vir qui adest <\/em>\/ \u00ab\u00e9 o homem que est\u00e1 aqui\u00bb. As letras da resposta s\u00e3o as mesmas da pergunta.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m e mais fundo que esta curiosidade de palavras, a resposta \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo. No di\u00e1logo com Pilatos, Ele mesmo declarou: \u00abPara isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade\u00bb (Jo 18, 37).<\/p>\n<p>Cristo veio revelar-nos a verdade de Deus e do homem. De Deus que \u00e9 Pai de miseric\u00f3rdia e por isso enviou o Filho ao mundo para salvar o mundo; do homem que s\u00f3 se realiza plenamente vivendo na \u00f3rbita de Deus. Como escreveu Santo Ireneu de Li\u00e3o no final do s\u00e9culo II, \u00aba gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o homem vivo e vida do homem \u00e9 a vis\u00e3o de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>Revelando-nos a verdade profunda sobre Deus e sobre o homem, Cristo \u00e9, como Ele pr\u00f3prio disse, \u00abo caminho, a verdade e a vida\u00bb (Jo 14,6).<\/p>\n<p>4. Finalmente, a <em>pergunta de Pilatos constitui hoje uma interpela\u00e7\u00e3o constante<\/em> para cada um de n\u00f3s. Sem descer a casu\u00edsticas que nos podem afastar do essencial, o desafio \u00e9 este: sermos crist\u00e3os verdadeiros.<\/p>\n<p>Verdadeiros, no nome e na realidade da vida. Dentro e fora das quatro paredes da igreja. Celebrando aqui os sacramentos e vivendo l\u00e1 fora segundo crit\u00e9rios crist\u00e3os. Sendo os sacramentos encontro pessoal com Deus e momento privilegiado de compromisso crist\u00e3o, e n\u00e3o apenas nem primeiramente acontecimento social,\u00a0 quanto h\u00e1 que melhorar, entre n\u00f3s,\u00a0 na celebra\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia de casamentos, crismas,\u00a0 primeiras comunh\u00f5es e batismos?<\/p>\n<p>S\u00f3 deste modo responderemos adequadamente \u00e0 pergunta \u00abQue \u00e9 a verdade?\u00bb, dando testemunho da verdade de Cristo na nossa vida.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Catedral de Bragan\u00e7a, 7 de abril de 2023, 15 h.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":9,"featured_media":277343,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[173,275],"class_list":["post-277345","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-braganca-miranda","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=277345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277345\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/277343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=277345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=277345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=277345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}