{"id":275774,"date":"2023-03-26T09:30:03","date_gmt":"2023-03-26T08:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=275774"},"modified":"2023-03-25T09:43:15","modified_gmt":"2023-03-25T09:43:15","slug":"sociedade-nascemos-frageis-vamos-morrer-frageis-e-no-meio-vamos-cuidar-uns-dos-outros-mariana-abranches-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociedade-nascemos-frageis-vamos-morrer-frageis-e-no-meio-vamos-cuidar-uns-dos-outros-mariana-abranches-pinto\/","title":{"rendered":"Sociedade: \u00abNascemos fr\u00e1geis, vamos morrer fr\u00e1geis e no meio vamos cuidar uns dos outros\u00bb &#8211; Mariana Abranches Pinto"},"content":{"rendered":"<p><em>A poucos dias do Parlamento voltar a apreciar o diploma sobre a eutan\u00e1sia, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Mariana Abranches Pinto, presidente da \u00abCompassio\u00bb, uma associa\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que se dedica a tentar construir comunidades mais compassivas<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-275775 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"910\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-400x190.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-1024x485.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-768x364.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-1536x728.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-1080x512.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-1280x607.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-980x464.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio3-480x228.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Sabemos que a Compassio n\u00e3o tem uma posi\u00e7\u00e3o sobre a eutan\u00e1sia e que o seu foco est\u00e1 no cuidado. Pergunto-lhe se est\u00e3o a ser dados os passos necess\u00e1rios para que as pessoas n\u00e3o se sintam desprotegidas, perante situa\u00e7\u00f5es de sofrimento extremo?<\/em><\/p>\n<p>Acima de tudo, n\u00e3o estarem s\u00f3s e serem acompanhados: a pior coisa \u00e9 a solid\u00e3o, o abandono das pessoas. Isso \u00e9 o drama maior e acho que n\u00f3s, Compassio, e as comunidades compassivas no mundo, em geral, tentamos capacitar para um cuidado mais compassivo, sabermos cuidar de uma forma mais compassiva. E tentar dinamizar as pessoas, para se envolverem no cuidado, porque nas grandes cidades acontece muito isto: um grande isolamento, uma grande solid\u00e3o, apesar de tanta gente e de estarmos t\u00e3o conectados.<\/p>\n<p>A Compassio existe para recolocar a compaix\u00e3o no centro das rela\u00e7\u00f5es humanas, das comunidades, mas com foco nas pessoas em situa\u00e7\u00e3o de fragilidade relacionada com a doen\u00e7a, o isolamento social e solid\u00e3o, promovendo a \u00e9tica do cuidar como um compromisso fundamental da sociedade.<\/p>\n<p>Queremos muito voltar a uma sociedade em que a sua base seja a compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fale-nos um pouco da realidade da Compassio? Quantos colabores ou volunt\u00e1rios tem? A quantas pessoas chega? E, j\u00e1 agora, com que idades e com que dificuldades associadas?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s somos duas pessoas, na equipa. \u00c9 uma associa\u00e7\u00e3o muito recente, temos fundos e vivemos de financiamentos e temos agora dois financiamentos a decorrer: um do or\u00e7amento colaborativo daqui de uma Uni\u00e3o de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e outro do BPI\/Funda\u00e7\u00e3o \u201dla Caixa\u201d. Conseguimos ent\u00e3o contratar recursos humanos, o que para n\u00f3s \u00e9 essencial, porque realmente, sem pessoas contratadas a tempo inteiro, \u00e9 muito dif\u00edcil avan\u00e7ar com os projetos.<\/p>\n<p>Trabalhamos em tr\u00eas eixos: tentamos sensibilizar e capacitar para esta cultura compassiva. Fazemos muitos workshops, do g\u00e9nero \u2018Socorro. A minha prima est\u00e1 doente. O que \u00e9 que lhe digo? O que \u00e9 que n\u00e3o digo?\u2019, \u2018Todos vamos morrer. 100% de efic\u00e1cia\u2019, \u2018O que ser\u00e1 importante para mim quando estiver a morrer?\u2019.<\/p>\n<p>O luto \u00e9 um dos nossos grandes temas. Temos um workshop que se chama \u2018O luto, \u00e9 a coisa com penas\u2019, ou seja, queremos muito falar destes temas que s\u00e3o tabus, atualmente: a morte, o sofrimento, o envelhecimento, a finitude da vida. Temos outro que se chama \u2018Estou mortinho por chegar aos 78\u2019. Pensarmos em conjunto nestas coisas e, com as pessoas, tentarmos trabalhar para uma comunidade mais compassiva. Como \u00e9 que eu, ao meu redor, posso ser mais compassivo e posso contribuir para uma comunidade mais compassiva? E desmistificar estes temas, porque n\u00e3o se fala, e n\u00e3o falar \u00e9 muito mau.<\/p>\n<p>Por exemplo, fazemos tamb\u00e9m ideia de caf\u00e9s. Ainda agora, na segunda-feira, tivemos um \u2018Death Cafe\u2019, foi mesmo bom: uma tert\u00falia sobre a morte em que h\u00e1 bolo, caf\u00e9, ch\u00e1 e nos juntamos \u00e0 volta de uma mesa. para falar da morte. Sem querer chegar a lado nenhum, com aquelas pessoas que est\u00e3o ali. Isto acontece dentro de um movimento Internacional, n\u00e3o \u00e9 uma ideia nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A morte costuma ser tabu, na nossa sociedade ocidental, mas a associa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vem trabalhando para tentar desmitificar o tema, com iniciativas estas de que nos falou. T\u00eam tido um bom acolhimento?<\/em><\/p>\n<p>Sim, nunca tivemos nenhum \u2018Death Cafe\u2019 sem ningu\u00e9m e \u00e9 engra\u00e7ado, porque no site do movimento Internacional diz assim: mesmo que n\u00e3o apare\u00e7a ningu\u00e9m no \u2018Death Cafe\u2019, se um post no Facebook provocar uma conversa l\u00e1 em casa, \u2018que horror, que macabro!\u2019, j\u00e1 \u00e9 servi\u00e7o, j\u00e1 est\u00e1.<\/p>\n<p>Mas nunca aconteceu ningu\u00e9m aparecer num \u2018Death Cafe\u2019 e \u00e9 realmente muito interessante, nenhum \u2018Death Cafe\u2019 \u00e9 igual ao outro, porque as pessoas s\u00e3o diferentes, tamb\u00e9m. N\u00f3s, cada dia, estamos diferentes\u2026 E \u00e9 muito interessante, tentamos muito que as pessoas n\u00e3o se interrompam, n\u00e3o deem conselhos, e falem na primeira pessoa: na minha situa\u00e7\u00e3o, eu penso assim. Ouvem-se diferentes perspetivas, realmente.<\/p>\n<p>Queremos depois \u00e9 que isso provoque uma conversa l\u00e1 em casa, com a m\u00e3e, com o pai, com os filhos. Esse \u00e9 que \u00e9 o objetivo final.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 essa a import\u00e2ncia de falar da finitude?<\/em><\/p>\n<p>Da finitude, a import\u00e2ncia de falar disto. \u2018Olha m\u00e3e, quando morreres, como \u00e9 que queres ser enterrada? Queres ser cremada?\u2019. E outras coisas, muito mais profundas do que s\u00f3 o ritual. \u201cComo \u00e9 que queres que seja o funeral?\u2019. Falar destas coisas. Para quem fica, saber que faz o que a pessoa que morreu queria, d\u00e1 uma grande paz, d\u00e1 uma grande paz. Por exemplo, com o meu pai tive essa experi\u00eancia, deixou tudo escrito de como \u00e9 que queria e n\u00f3s s\u00f3 tivemos de cumprir: foi uma grande parte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A associa\u00e7\u00e3o coloca a compaix\u00e3o no centro das rela\u00e7\u00f5es humanas, e em particular nas situa\u00e7\u00f5es de fragilidade relacionadas com a sa\u00fade e isolamento social. Da sua experi\u00eancia pode fazer um retrato da forma como quem precisa tem acesso aos cuidados paliativos?<\/em><\/p>\n<p>Estamos longe, longe, 30% dos portugueses, penso, \u00e9 que t\u00eam acesso a cuidados paliativos\u2026 Mas esse \u00e9 o eixo das redes compassivas e eu gostaria de acabar de falar sobre o eixo da sensibiliza\u00e7\u00e3o: al\u00e9m do \u2018Death Caf\u00e9\u2019, tamb\u00e9m fizemos um mural, \u2018Antes de eu morrer, eu quero\u2019, que tamb\u00e9m \u00e9 um movimento internacional. Foi um espet\u00e1culo, teve imenso sucesso, est\u00e1vamos com um bocado de receio, mas as pessoas aderiram. O convite era completar a frase: \u2018Antes de morrer, quero\u2019\u2026<\/p>\n<p>O quadro era um quadro na rua, grande, completava-se com giz, todos os dias t\u00ednhamos de limpar o quadro, estava sempre cheio, cheio de frases, coisas disparatadas e coisas profundas tamb\u00e9m. Foi muito, muito bonito. Tamb\u00e9m fazemos outra coisa, vamos para a rua, com atividades com arte, chamar a aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o da vizinhan\u00e7a compassiva. Por exemplo, fizemos uma atividade no outro dia que era \u2018ouve uma hist\u00f3ria, conta uma hist\u00f3ria\u2019: havia um telefone, as pessoas pegavam no telefone e ouviam uma hist\u00f3ria de algu\u00e9m relacionado com a Compassio sobre o luto, sobre o cuidado, cuidar de um pai acamado. V\u00e1rios destes temas. A pergunta, no fim, era: \u2018e tu, o que farias nesta situa\u00e7\u00e3o?\u2019 Muito para chamar a aten\u00e7\u00e3o destes temas.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m os grupos de partilha, chamados \u2018Casa\u2019, que s\u00e3o dirigidos a pessoas em processo de luto, a pessoas com viv\u00eancia da doen\u00e7a, e tamb\u00e9m vamos ter uma para cuidadores formais e outro para cuidadores informais. Queremos muito que as pessoas n\u00e3o se fechem em si e que partilhem, que tenham um espa\u00e7o seguro onde possam falar com outros que passam por situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Nunca \u00e9 igual, porque cada situa\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente \u00fanica e irrepet\u00edvel, mas tem sido um caminho muito, muito bonito, este caminho dos grupos comunit\u00e1rios de partilha.<\/p>\n<p>Por fim, ativar e dinamizar as redes comunit\u00e1rias, para pessoas com doen\u00e7a e em situa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o e isolamento social, a que chamamos os \u2018vizinhos compassivos\u2019.\u00a0O que n\u00f3s queremos \u00e9 que os servi\u00e7os de sa\u00fade &#8211; a\u00ed estamos muito ligados aos cuidados paliativos &#8211; nos encaminhem pessoas que estejam em situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e que tenham redes sociais enfraquecidas ou que sintam s\u00f3s, porque \u00e0s vezes tamb\u00e9m estamos no meio de muita gente e sentimo-nos s\u00f3s. Se as pessoas aceitarem o projeto, n\u00f3s vamos para l\u00e1, temos uma figura que \u00e9 a mobilizadora comunit\u00e1ria, a qual vai tentar com a pessoa fazer um diagn\u00f3stico, a que n\u00f3s chamamos o \u2018mapa do cuidado e do sonho\u2019. Vemos tudo que a pessoa j\u00e1 tem, os apoios, o que que falta e o que que deseja tamb\u00e9m, para este tempo de vida, e vamos \u00e0 comunidade tentar colmatar o que falta. A\u00ed queremos muito envolver as pessoas de proximidade, mas tamb\u00e9m outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1.jpeg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-275777\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-195x260.jpeg\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-195x260.jpeg 195w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-300x400.jpeg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-1152x1536.jpeg 1152w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-1080x1440.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-1280x1707.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-980x1307.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1-480x640.jpeg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio1.jpeg 1440w\" sizes=\"(max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/><\/a>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que parece importante sublinhar: a resposta \u00e9 uma resposta comunit\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 abandonar a pessoa \u00e0 pr\u00f3pria sorte\u2026<\/em><\/p>\n<p>Comunit\u00e1ria. Porque antigamente era assim, n\u00e3o \u00e9? N\u00f3s n\u00e3o queremos voltar ao antigamente, n\u00e3o sou nada saudosista, mas numa aldeia ningu\u00e9m morria sozinho, todas as pessoas se envolviam, iam levar comida, iam ajudar com as crian\u00e7as. Todas as pessoas se envolviam, de alguma maneira. Hoje isso n\u00e3o acontece. N\u00e3o queremos voltar ao passado, mas queremos combater a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 mesmo o risco se morrer sozinho num hospital, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Num hospital e em casa, n\u00e3o \u00e9? Ouvem-se casos de pessoas que morreram sozinhas em casa, o que \u00e9 uma coisa completamente inacredit\u00e1vel. Como \u00e9 que na nossa sociedade, no s\u00e9culo XXI, algu\u00e9m pode morrer em casa e depois d\u00e1-se pelo cheiro ao fim de uns dias? N\u00e3o pode ser. N\u00e3o pode ser. Temos de fazer alguma coisa. Temos de estar mais atentos. Olha, aquela Senhora n\u00e3o apareceu; a minha vizinha do quinto andar j\u00e1 n\u00e3o aparece h\u00e1 tr\u00eas dias. O que \u00e9 que se passar\u00e1? O melhor \u00e9 ir l\u00e1 ver o que \u00e9 que se passa. Conhecermos os vizinhos, tentarmos voltar a uma cultura de maior proximidade.<\/p>\n<p>E \u00e9 muito isto. Mas neste momento, e voltando \u00e0 sua quest\u00e3o, temos poucos benefici\u00e1rios porque tamb\u00e9m o projeto, sobretudo esta parte das redes compassivas come\u00e7ou em julho e isto \u00e9 um trabalho de fundo. Vai demorar tempo, porque aqui h\u00e1 muitas quest\u00f5es culturais para desmistificar. Por exemplo, uma \u00e9: vizinhos c\u00e1 em casa, nem pensar, nem pensar&#8230;. vizinhos aqui em casa, nem pensar. Portanto, as pessoas tamb\u00e9m t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de vizinhan\u00e7a dif\u00edcil. E outra que me afeta muito, que me questiona muito, \u00e9 esta frase que se ouve sempre: \u2018Eu n\u00e3o quero incomodar ningu\u00e9m\u2019.\u00a0 \u2018Eu n\u00e3o quero ser um peso para ningu\u00e9m\u2019. Estamos sempre a ouvir isto. Nos workshops, nas redes de vizinhan\u00e7a, estamos sempre a ouvir isto. Pois olhem, n\u00f3s vamos ser um peso para algu\u00e9m: As crian\u00e7as, um beb\u00e9 \u00e9 um grande peso. O beb\u00e9 d\u00e1 um trabalho enorme, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 completamente dependente, pois n\u00f3s nascemos completamente dependentes a precisar de cuidado dos outros. E no fim, se tivermos uma doen\u00e7a prolongada, se n\u00e3o for algo de repente, vamos novamente precisar de ser cuidados. Isto \u00e9 a nossa realidade; aceitemo-la. E n\u00e3o \u00e9 um peso. Eu amo a minha m\u00e3e.\u00a0 Eu vou cuidar da minha m\u00e3e, n\u00e3o \u00e9 um peso. O Senhor Jos\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um peso. \u00c9 uma realidade. Hoje \u00e9 ele, amanh\u00e3 sou eu. Quer dizer, a ideia \u00e9: nascemos fr\u00e1geis, vamos morrer fr\u00e1geis e no meio vamos cuidar uns dos outros.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 pessoas que nascem fr\u00e1geis e v\u00e3o ser fr\u00e1geis a vida toda e v\u00e3o ter de ser cuidadas e h\u00e1 outras que morrem a cuidar. E \u00e9 muito bonito isto. Portanto, \u00e9 preciso muito desmistificar esta ideia do: Eu n\u00e3o quero incomodar ningu\u00e9m. J\u00e1 incomodamos quando \u00e9ramos beb\u00e9s, e vamos incomodar outra vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acho que \u00e9 a quest\u00e3o central que coloca e que tem a ver com essa ideia do cuidado. E eu tenho aqui uma pergunta, a fazer-lhe sobre esta experi\u00eancia de trabalho. Que grandes desafios \u00e9 que se colocam al\u00e9m destes que nos tem estado a dizer a quem vive a experi\u00eancia de sofrimento. A espiritualidade tamb\u00e9m tem lugar neste processo? <\/em><\/p>\n<p>Sim. A espiritualidade \u00e9 essencial e \u00e9 um dos valores da Compassio; n\u00e3o a religiosa.\u00a0A espiritualidade \u00e9 muito mais vasta, n\u00e3o \u00e9? Tem muito a ver com o sentido de vida, com o procurar encontrar um sentido nas situa\u00e7\u00f5es, procurar sana\u00e7\u00e3o, que \u00e9 algo essencial, que \u00e9 viver da melhor maneira poss\u00edvel, viv\u00ea-lo em paz e isso consegue-se.<\/p>\n<p>Eu vejo isto frequentemente. Pessoas em situa\u00e7\u00f5es de fim de vida, em situa\u00e7\u00f5es de finitude e que encontram situa\u00e7\u00e3o. Pode-se morrer sano, pode-se morrer em paz. Isto \u00e9 uma procura. Esta espiritualidade \u00e9 uma procura e n\u00f3s tamb\u00e9m nos grupos de partilha, falamos muito desta procura de sentido. O Pablo d&#8217; Ors (padre, te\u00f3logo espanhol) alude muito \u00e0 diferen\u00e7a entre espiritualidade e religiosidade. A religi\u00e3o, \u00e9 ta\u00e7a ou copo. O vinho \u00e9 a espiritualidade, todos o que queremos \u00e9 beber o vinho, depois, cada um escolhe a maneira como vai beber o vinho, e o copo, com que vai beber esse vinho. Mas tamb\u00e9m sem um copo, diz ele \u00e9 muito dif\u00edcil beber o vinho. Mas isso \u00e9 outro aspeto. Por exemplo, tamb\u00e9m nos workshops tentamos falar destas quest\u00f5es da espiritualidade. Temos um workshop que se chama \u00abEspiritualidade no hospital, isso existe?\u00bb \u00c9 muito engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o que \u00e9 que respondem as pessoas? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu fui a uma consulta e ouvi duas m\u00e9dicas a falar. E uma disse \u00e0 outra: Ah! sabes que esta noite h\u00e1 uma conversa sobre espiritualidade no hospital. E a outra disse: espiritualidade no Hospital, isso existe? Portanto, est\u00e1 a ver o que \u00e9 que respondem. E \u00e9 por isso que se chama assim. Mas claro que h\u00e1 espiritualidade porque onde houver pessoas humanas h\u00e1 espiritualidade. A espiritualidade \u00e9-nos inerente, quer queiramos ligar-lhe ou n\u00e3o. Mas nesse workshop tentamos muito que as pessoas entrem em contato com a sua espiritualidade. Atrav\u00e9s da m\u00fasica, de fazer sil\u00eancio, da express\u00e3o pl\u00e1stica, da natureza; entra em contato com a sua interioridade. A palavra espiritualidade tamb\u00e9m tem um grande preconceito, por isso, at\u00e9 nos workshops usamos muito a palavra interioridade, que contem menos preconceito e \u00e9 a mesma coisa. Aceder ao meu mundo interior, ir ao meu mundo interior. E as pessoas t\u00eam for\u00e7as quando v\u00eam estas situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7a, de sofrimento h\u00e1 for\u00e7as internas que v\u00eam. E as pessoas acedem a essas for\u00e7as internas. E nos workshops tamb\u00e9m falamos muito disto.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a compassiva, o estar ao p\u00e9 de algu\u00e9m que sofre tem muito a ver com o sil\u00eancio, com a presen\u00e7a, com o escutar, que \u00e9 muito mais do que dar conselhos, do que dizer palavras bonitas, palavras gastas. As pessoas se forem escutadas\u2026 o que cada um n\u00f3s mais quer, seja em que situa\u00e7\u00e3o for, mas nas situa\u00e7\u00f5es de sofrimento de uma forma mais aguda, \u00e9 ser escutado. \u00c9 o meu sofrimento, \u00e9 validado, ela ouviu-me, ela compreendeu-me. E isso alivia imenso o sofrimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou da import\u00e2ncia da comunidade e da mobiliza\u00e7\u00e3o da com comunidade. Perguntava-lhe qu\u00e3o importante \u00e9 a sociedade mobilizar-se para suprir em muitos casos as car\u00eancias do Estado?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho importante porque o Estado sozinho n\u00e3o vai l\u00e1. \u00c9 a sociedade civil que tem de se envolver.\u00a0 Tem de se envolver para colmatar o que falta. \u00c9 muito isto. Cuidamos da nossa Comunidade, dos membros mais fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recordamos, recentemente, o terceiro anivers\u00e1rio do primeiro confinamento. A pandemia condicionou a forma de viver o luto e de lidar com a morte. Pensa que vai deixar marcas no futuro? <\/em><\/p>\n<p>Isso \u00e9 melhor falar com os psic\u00f3logos, mas o que eu oi\u00e7o dizer \u00e9 que sim. Porque realmente foi horr\u00edvel, as pessoas n\u00e3o poderem ver o corpo, estar num saco&#8230;. As hist\u00f3rias que se ouve obviamente que depois levam a um luto mais complicados.<\/p>\n<p>N\u00e3o se poder despedir, n\u00e3o poder estar com a pessoa, muitos n\u00e3o poderem ir ao\u00a0funeral, porque depois tamb\u00e9m estavam com Covid. Isto deixa marcas que vai demorar muito tempo a sanar. Porque realmente todos esses rituais, a despedida, isso \u00e9 essencial para estar em paz com a morte das pessoas. O ser cortada essa despedida e esses rituais que s\u00e3o t\u00e3o importantes, \u00e9 dram\u00e1tico.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2.jpeg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-275776 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2-347x260.jpeg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2-480x360.jpeg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/compassio2.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a>Vamos terminar a nossa entrevista e para o fim deixava-lhe ainda duas perguntas. Uma primeira relacionada com a necessidade de melhorarmos os cuidados paliativos, e depois perguntava-lhe o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para melhorar a qualidade de vida de quem est\u00e1 a morrer?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Acho devia haver mais que cuidados paliativos, n\u00e3o \u00e9? Por exemplo, aqui no Porto, s\u00f3 h\u00e1 muito pouco tempo \u00e9 que h\u00e1 equipas comunit\u00e1rias de cuidados paliativos. E eu n\u00e3o posso comparar a situa\u00e7\u00e3o do Porto com muitas cidades do pa\u00eds, por amor de Deus. Acho que dev\u00edamos apostar mais nos cuidados paliativos que realmente \u00e9 uma arte de cuidar de uma forma integral da pessoa. Eu sou completamente apaixonada pelos cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Ter mais acesso a cuidados paliativos e uma comunidade mais envolvida, mais capaz de cuidar. E tamb\u00e9m profissionais de sa\u00fade mais bem cuidados, que cuidem mais de si. N\u00f3s falamos tamb\u00e9m da import\u00e2ncia da autocompaix\u00e3o e do autocuidado para ent\u00e3o poder cuidar melhor. Falamos muito disto. \u00c9 mesmo muito importante, mas no fundo o que queremos muito \u00e9 isto. Uma Comunidade que saiba cuidar melhor das pessoas, que se saiba autocuidar para ent\u00e3o depois poder cuidar melhor das pessoas. E voltarmos a esta cultura de proximidade e, com base na compaix\u00e3o. Ou seja, fazer tudo para aliviar ou evitar o sofrimento do outro e o nosso pr\u00f3prio tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A poucos dias do Parlamento voltar a apreciar o diploma sobre a eutan\u00e1sia, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Mariana Abranches Pinto, presidente da \u00abCompassio\u00bb, uma associa\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que se dedica a tentar construir comunidades mais compassivas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":275775,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-275774","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/275774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=275774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/275774\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/275775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=275774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=275774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=275774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}