{"id":27522,"date":"2007-10-12T08:54:35","date_gmt":"2007-10-12T08:54:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/10\/12\/esplendor-do-ouro-em-fatima\/"},"modified":"2007-10-12T08:54:35","modified_gmt":"2007-10-12T08:54:35","slug":"esplendor-do-ouro-em-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/esplendor-do-ouro-em-fatima\/","title":{"rendered":"Esplendor do ouro em F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Ivan Rupnik apresenta o painel de 500 metros quadrados, em ouro e terracota, da nova igreja da Sant\u00edssima Trindade <!--more--> A entrada na nova igreja da Sant\u00edssima Trindade significar\u00e1, para muitas pessoas, um momento quase imediato de espanto perante o painel de 500 metros quadrados, atr\u00e1s do altar, em ouro e terracota. A obra \u00e9 da autoria do Pe. Ivan Rupnik, jesu\u00edta esloveno famoso pelo seu trabalho na capela Redemptoris Mater, no Pal\u00e1cio Apost\u00f3lico do Vaticano. Com uma equipa de 20 artistas de 8 pa\u00edses conseguiu, em menos de um m\u00eas, dar vida a um espa\u00e7o de luz, sem sombras, que entra em forte contraste com a grande e pesada cruz que se eleva sobre o altar. Em entrevista conjunta \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA e ao jornal P\u00fablico, o sacerdote explica qual o sentido desta obra &#8220;apocal\u00edptica&#8221; que quer falar aos peregrinos de F\u00e1tima.  <i>AG\u00caNCIA ECCLESIA\/P\u00daBLICO \u2013  Que sentido d\u00e1 ao grande painel do altar, que espiritualidade est\u00e1 por detr\u00e1s? P. MARKO IVAN  RUPNIK \u2013(MIR)<\/i> Como ponto de partida tomei dois elementos das apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima: a mensagem \u00e9 uma mensagem apocal\u00edptica. Mas este apocalipse \u00e9 comunicado, expresso, com uma enorme compaix\u00e3o, miseric\u00f3rdia e amor pelos mais fracos, ou seja, pelos pecadores. Parto do cap\u00edtulo 22 do Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o: a pra\u00e7a toda em ouro, com o trono de Deus e do Cordeiro e, dos lados, como se se visse atrav\u00e9s de uma pequena abertura, os santos como na antiga tradi\u00e7\u00e3o: \u00e0 direita do Cordeiro a Senhora, \u00e0 esquerda Jo\u00e3o Baptista que apontou Cristo como o Cordeiro de Deus. A Senhora est\u00e1 com Jacinta, Francisco e L\u00facia ao lado; depois est\u00e3o os ap\u00f3stolos, os santos e os anjos. H\u00e1 um canto franciscano, com a presen\u00e7a de Francisco [de Assis], Clara [de Assis] e o padre Pio. Do outro lado, est\u00e1 Isabel de Portugal, muito vis\u00edvel, e Madre Teresa de Calcut\u00e1. A outra coisa interessante \u00e9 que nas apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima aparece uma grande familiaridade com o c\u00e9u que hoje, neste mundo, \u00e9 uma coisa estranha, mas muito importante. Estes mi\u00fados. por exemplo, L\u00facia quase desiludida por n\u00e3o ir para o c\u00e9u, Francisco [que] quer ir depressa. Por isso, tomei em considera\u00e7\u00e3o um outro dado importante: na liturgia, h\u00e1 uma convoca\u00e7\u00e3o universal. Rompem-se o espa\u00e7o e o tempo, todos somos contempor\u00e2neos e sucede uma coisa bonita: no meio est\u00e1 o altar, daqui est\u00e1 a Igreja da hist\u00f3ria, de l\u00e1 est\u00e1 a Igreja do c\u00e9u. Repete-se quase a cena de F\u00e1tima: as crian\u00e7as que t\u00eam uma abertura ao c\u00e9u. N\u00f3s estamos do lado das crian\u00e7as, ainda que n\u00e3o nos encontremos l\u00e1, estamos face a face com a Igreja do c\u00e9u e a Igreja da hist\u00f3ria.  <i>Artisticamente, teve tamb\u00e9m uma intencionalidade. MIR \u2013<\/i> Quis representar um painel de luz. Tomei como fundo o ouro, que j\u00e1 desde Jo\u00e3o Damasceno [te\u00f3logo, 675-749] representa sempre a fidelidade e a santidade de Deus que n\u00e3o falha, uma luz que n\u00e3o se apaga. Com o ouro, basta pouqu\u00edssima luz para que brilhe. Toda a mat\u00e9ria de suporte est\u00e1 colocada de tal modo que surge um grande dinamismo, que n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico. Mesmo para fazer ver que a vida eterna \u00e9 um cont\u00ednuo movimento, \u00e9 uma comunh\u00e3o, uma converg\u00eancia, um encontro.  <i>Teve uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em ligar a express\u00e3o art\u00edstica \u00e0 B\u00edblia, que nem sempre est\u00e1 presente no fen\u00f3meno \u00e0 volta de F\u00e1tima. MIR \u2013<\/i> Para mim, \u00e9 important\u00edssimo. A arte lit\u00fargica tem de ter tr\u00eas pernas para estar em p\u00e9. Sen\u00e3o, n\u00e3o se manter\u00e1 de p\u00e9: a Palavra de Deus [\u00e9 a primeira], que n\u00e3o devo tomar como a compreendo subjectivamente, mas deve haver um eco, uma correspond\u00eancia na liturgia que pertence a toda a Igreja, n\u00e3o apenas a mim. Ambas estas coisas &#8211; a liturgia, a palavra de Deus &#8211; se quero compreend\u00ea-las bem, devo estar dentro da mem\u00f3ria das gera\u00e7\u00f5es. A mem\u00f3ria, a Tradi\u00e7\u00e3o, com mai\u00fascula. Tentei fazer algo assim: est\u00e1 a B\u00edblia (o Apocalipse), est\u00e1 o discurso da liturgia que expliquei, e a composi\u00e7\u00e3o e uso das cores segundo a mem\u00f3ria da Igreja. Com tr\u00eas pernas j\u00e1 se mant\u00e9m de p\u00e9, mas falta uma quarta, importante: o tempo em que se trabalha, uma abertura ao contempor\u00e2neo. Na liturgia h\u00e1 sempre qualquer coisa que n\u00e3o muda e algo que muda com o tempo. \u00c9 uma dimens\u00e3o mais ligada \u00e0 pessoa, ao sujeito, \u00e0 cultura, ao lugar, ao tempo. Creio que se compreende ali que os meus mestres s\u00e3o tamb\u00e9m artistas do s\u00e9culo XX, como Kandinsky.  <i>Essa \u00e9 uma perna que nem sempre est\u00e1 presente na arte crist\u00e3 contempor\u00e2nea&#8230; MIR \u2013<\/i> Sim, esse \u00e9 um ponto muito d\u00e9bil. Se [a arte] se baseia apenas na imita\u00e7\u00e3o do passado, n\u00e3o diz nada e \u00e9 sempre uma arte an\u00e9mica, porque n\u00e3o est\u00e1 atenta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, est\u00e1 atenta a si mesma. Se se baseia apenas no di\u00e1logo contempor\u00e2neo, arrisca-se a ficar por diversas emo\u00e7\u00f5es imediatas.  <i>\u00c9 poss\u00edvel perceber uma influ\u00eancia da arte oriental, pelo menos visualmente. H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 oriental que se torna presente aqui em F\u00e1tima. Foi intencional? MIR \u2013<\/i> N\u00e3o. Desligando de F\u00e1tima, creio que chegou o tempo de uma troca de dons entre Oriente e Ocidente: a arte lit\u00fargica ocidental perdeu-se num subjectivismo que as pessoas j\u00e1 n\u00e3o percebem. A arte oriental perdeu-se numa esclerose e numa fossiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 viva. Quando na hist\u00f3ria se encontraram estes dois grandes pulm\u00f5es, foi sempre um bem. Veja-se o que aconteceu na Sic\u00edlia, Ravena, ou o que fizeram El Greco ou Matisse, o \u00faltimo exemplo.  Pessoalmente, procuro sempre ver como poderei, com os olhos de um icon\u00f3grafo, pintar com linguagens que eu conhe\u00e7o, contempor\u00e2neas, modernas. N\u00e3o se trata de uma imita\u00e7\u00e3o do Oriente, n\u00e3o s\u00e3o \u00edcones.  Por outro lado, penso que em F\u00e1tima quase n\u00e3o poderia haver uma arte exclusivamente ocidental, porque F\u00e1tima teve esta marca importante de tudo o que respeita a R\u00fassia, ate\u00edsmo, comunismo, Leste. Uma influ\u00eancia dos dois pulm\u00f5es em F\u00e1tima \u00e9 importante. Ali\u00e1s, basta ver como Jo\u00e3o Paulo II est\u00e1 ligado a F\u00e1tima.  <i>Foi dif\u00edcil a concep\u00e7\u00e3o de uma obra desta envergadura? MIR \u2013<\/i> Digamos que n\u00e3o foi f\u00e1cil. O arquitecto Tombazis foi muito exigente, n\u00e3o queria arcos, n\u00e3o queria figuras, s\u00f3 abstracto, n\u00e3o figurativo. Mas como poderia em F\u00e1tima, aquela gente de joelhos, chegar a uma igreja e n\u00e3o ver um rosto da Senhora, um santo? Como \u00e9 poss\u00edvel? N\u00e3o o imagino. A \u00e9poca que mais estudo como artista, para inspira\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pr\u00e9-rom\u00e2nico, o primeiro rom\u00e2nico e o primeiro bizantino, no primeiro mil\u00e9nio. Aqui, propus uma figura\u00e7\u00e3o a que cheguei depois de muitos anos, uma figura\u00e7\u00e3o n\u00e3o agressiva, mas que p\u00f4de ser tamb\u00e9m aceite pelo arquitecto. No final, cheg\u00e1mos a acordo, a uma comunh\u00e3o. Acabei por fazer algo que nunca tinha feito, pois os meus mosaicos s\u00e3o feitos de pedra, m\u00e1rmore, esmalte, ouro sobre vidro, nunca em ouro e terracota. Foi algo completamente in\u00e9dito.  <i>Foi muito dif\u00edcil do ponto de vista t\u00e9cnico? MIR \u2013<\/i> Sim, foi muito complexo, dado que cada pe\u00e7a do painel passou pelas nossas m\u00e3os nove vezes, \u00e9 um trabalho enorme. Quando, no in\u00edcio, nos fomos distribuindo pelo espa\u00e7o, era impressionante, parec\u00edamos formigas. \u00c9 precisa, verdadeiramente, uma for\u00e7a criadora, uma vontade muito forte para n\u00e3o desanimarmos ap\u00f3s um m\u00eas num ritmo tremendo. O dom\u00ednio espacial n\u00e3o foi f\u00e1cil, porque \u00e9 grand\u00edssimo. S\u00f3 chegando mais perto percebemos: 500 metros quadrados&#8230;  <i>O painel dominar\u00e1 visualmente o ambiente do altar, mas tem a companhia de uma cruz de 7,5 metros, em bronze. Os dois elementos convivem bem? MIR \u2013<\/i> Sim, teologicamente, deveria ser perfeito, porque primeiro est\u00e1 o crucifixo e depois o Cordeiro da vit\u00f3ria. Neste momento, o Cristo est\u00e1 um pouco baixo, sobretudo para o celebrante, \u00e9 enorme e muito escuro, tem um certo peso. Apesar disso, sobre um fundo dourado, luminoso, emergir\u00e1 ainda mais. N\u00e3o sei se as pessoas v\u00e3o olhar mais para o crucifixo ou para o Cordeiro, a Senhora, os santos que est\u00e3o por tr\u00e1s&#8230;  <i>Oct\u00e1vio Carmo e Ant\u00f3nio Marujo <i>FOTO: LUSA<\/i> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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