{"id":274242,"date":"2023-03-11T09:00:56","date_gmt":"2023-03-11T09:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=274242"},"modified":"2023-03-10T11:41:33","modified_gmt":"2023-03-10T11:41:33","slug":"vitimas-que-sao-tantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/vitimas-que-sao-tantas\/","title":{"rendered":"V\u00edtimas\u2026 Que s\u00e3o tantas!"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-271042 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Foi na madrugada do dia 11 de Mar\u00e7o de 2004. Num espa\u00e7o de tempo de poucos minutos, atentados terroristas em v\u00e1rias esta\u00e7\u00f5es dos comboios suburbanos de Madrid tiravam a vida a 193 pessoas e feriram mais de 2.000, n\u00fameros que poderiam ter subido se as for\u00e7as de seguran\u00e7a n\u00e3o tivessem descoberto mais tr\u00eas engenhos que estariam preparados para serem detonados quando chegassem aos locais os primeiros socorros \u00e0s v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Poucos dias passados, o Conselho Europeu instituiu o 11 de Mar\u00e7o como \u201c<em>Dia Europeu das V\u00edtimas do Terrorismo<\/em>\u201d. \u00c9, por conseguinte, desde Mar\u00e7o de 2005 que a Uni\u00e3o Europeia lembra \u2013 e convida todos a lembrar \u2013 as v\u00edtimas do terrorismo. Lembrando as v\u00edtimas e fam\u00edlias enlutadas, a Uni\u00e3o Europeia incita a avivar as consci\u00eancias de todos e dos governos para a necessidade de combater este terr\u00edvel flagelo da sociedade contempor\u00e2nea e promover a defesa dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Todos vamos entendendo, no nosso \u00edntimo, o que \u00e9 o terrorismo. Ou o que julgamos ser o terrorismo. At\u00e9 somos tentados a pens\u00e1-lo exclusivamente \u00e0 luz dos \u00faltimos grandes atentados terroristas. Contudo, todos sabemos que o terrorismo est\u00e1 muito para al\u00e9m dos actos de dimens\u00e3o medi\u00e1tica e que n\u00e3o h\u00e1 entendimento universal sobre o que seja o terrorismo. A perspectiva ideol\u00f3gica vai ofuscando a verdade dos factos e, tamb\u00e9m aqui, o relativismo vai-se instalando no ar que respiramos.<\/p>\n<p>O terrorismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um fen\u00f3meno das nossas sociedades. Lembremos a Fran\u00e7a, na \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, nos finais do s\u00e9culo XVIII. Foi ent\u00e3o que a palavra \u201cterrorismo\u201d ter\u00e1 come\u00e7ado a circular para caracterizar a doutrina defendida pelos partid\u00e1rios do \u201cPer\u00edodo do Terror\u201d (1793-1794) que tinha \u00e0 frente Maximiliano Francisco de Robespierre (1758-1794). Nesta altura muitos milhares de pessoas encontraram a morte no cadafalso da guilhotina. O terrorismo seria, \u00e0 altura, uma esp\u00e9cie de doutrina pol\u00edtica, situa\u00e7\u00e3o que contrasta com o terrorismo t\u00e1ctico dos nossos tempos.<\/p>\n<p>Sem contarmos com as eras geol\u00f3gicas dos processos de forma\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o da Terra, n\u00f3s, humanos, quando pensamos o tempo por n\u00f3s vivido com as suas disposi\u00e7\u00f5es t\u00edpicas, somos tentados a encontrar nomes para as v\u00e1rias \u00e9pocas, e isto independentemente das cl\u00e1ssicas divis\u00f5es da Hist\u00f3ria Humana: Pr\u00e9-Hist\u00f3ria, Hist\u00f3ria Antiga, Medieval, Moderna e Contempor\u00e2nea. Assim falamos, por exemplo, da \u201cEra dos m\u00e1rtires\u201d, da \u201cEra das Catedrais\u201d, da \u201cEra das Cruzadas\u201d, da \u201cEra das Descobertas\u201d, da \u201cEra da Raz\u00e3o\u201d ou, mais recentemente, mas j\u00e1 do s\u00e9culo passado, da \u201cEra da Guerra Fria\u201d.<\/p>\n<p>E \u00e0 nossa \u00e9poca, a era em que vivemos, como havemos de a chamar? Dada a complexidade dos tempos, n\u00e3o t\u00eam faltado denomina\u00e7\u00f5es. Vivemos em tempos incertos, dizem uns, n\u00e3o sem raz\u00e3o. \u00c9 a \u201cEra da incerteza\u201d. Vivemos tempos em que povos outrora colonizados incendeiam, intolerantemente, os caminhos de compreens\u00e3o hist\u00f3rica. \u00c9 a \u201cEra da Vingan\u00e7a\u201d, dizem outros. Vivemos num mundo em que parece ter-se perdido o valor da verdade. \u00c9 a \u201cEra da p\u00f3s-verdade\u201d, diz-se, ou foi-se dizendo por a\u00ed. Vivemos numa \u00e9poca em que n\u00e3o se perdeu s\u00f3 o sentido da verdade, como se perdeu tamb\u00e9m o sentido da vida. Vivemos numa \u201cEra de niilismo\u201d generalizado, dizem outros mais subtilmente. Vivemos numa \u00e9poca que parece ter perdido o equil\u00edbrio da lucidez e do bom senso. Encontramo-nos na \u201cEra da insensatez\u201d, diz-se tamb\u00e9m. Vivemos numa \u00e9poca em que o Cristianismo perdeu a energia que alimentava vidas e culturas, acentuam outros. A nossa \u00e9poca \u00e9, pois, uma \u201cEra p\u00f3s-crist\u00e3\u201d, como se l\u00ea por a\u00ed. Vivemos numa fase da Hist\u00f3ria em que grosseiros fundamentalismos religiosos e pol\u00edticos se cruzam com meios tecnol\u00f3gicos, simples ou sofisticados, que se encontram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de t\u00e1cticas de pol\u00edticas de terror. Encontramo-nos numa \u201cEra do Terrorismo\u201d, como j\u00e1 tenho encontrado.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se encontre uma ideia de terrorismo aceite pela generalidade das correntes de opini\u00e3o pol\u00edtica, aceitemos que o terrorismo \u00e9 a pr\u00e1tica da dissemina\u00e7\u00e3o do terror por meio de ac\u00e7\u00f5es violentas a que damos o nome de atentados terroristas, sejam elas levadas a efeito por organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas espec\u00edficas ou por indiv\u00edduos isolados, a que se vai dando o nome de \u00ablobos solit\u00e1rios\u00bb inspirados em organiza\u00e7\u00f5es terroristas ou a elas directamente ligados. Sejam estas ac\u00e7\u00f5es violentas de efeito espectacular que enchem os meios de comunica\u00e7\u00e3o social e que assombram o mundo, como os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA, ou levadas a efeito em zonas ignoradas do globo e que v\u00e3o ficando mediaticamente esquecidas, como esquecidas ficam as suas v\u00edtimas. Sejam, por exemplo, as v\u00edtimas de Cabo Delgado no norte de Mo\u00e7ambique, onde atentados se v\u00e3o sucedendo desde h\u00e1 v\u00e1rios anos e de que rarissimamente ouvimos falar.<\/p>\n<p>Todos sabemos que, para al\u00e9m das mortes, os efeitos destes actos &#8211; medo, terror e p\u00e2nico &#8211; ultrapassam em muito o campo das v\u00edtimas imediatas. Alargam-se, psicologicamente, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o, de um pa\u00eds, de muitos pa\u00edses. E isto sem esquecermos as v\u00edtimas dos populismos e do terrorismo ideol\u00f3gico que, se n\u00e3o mata fisicamente, destr\u00f3i a lucidez de esp\u00edrito e alimenta a cegueira.<\/p>\n<p>\u00c0s ac\u00e7\u00f5es devastadoras de agress\u00e3o cruel levadas a efeito por um Estado que invade, com carros de combate, armas e m\u00edsseis, outro Estado, e que este, legitimamente, se defende, chamamos guerra. Com ela, atentados terroristas em s\u00e9rie, espalha-se a destrui\u00e7\u00e3o, a morte e o terror por todo um pa\u00eds e o medo alastra a muitos outros pa\u00edses, a um continente e, de algum modo, a todos os continentes. E o mundo parece suspenso nas m\u00e3os da loucura dos homens. De alguns homens.<\/p>\n<p>Infelizmente \u00e9 verdade que h\u00e1 v\u00edtimas do terror de guerras que ficam longe da nossa porta, noutros continentes, de que raramente se fala e que importa recordar tamb\u00e9m neste dia. Mas, dada a dimens\u00e3o que tomou, por mais que se queira evitar, \u00e9 imposs\u00edvel, hoje, neste dia 11 de Mar\u00e7o de 2023, n\u00e3o pensar, n\u00e3o falar, n\u00e3o lembrar as v\u00edtimas do terror da guerra na Europa, do terrorismo de Estado do imperialismo russo contra a Ucr\u00e2nia, seu pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<p>E as v\u00edtimas s\u00e3o muitas. S\u00e3o tantas! V\u00edtimas que s\u00e3o os mortos \u2013 tantos! -, v\u00edtimas que s\u00e3o os feridos \u2013 tantos! -, v\u00edtimas que s\u00e3o os exilados \u2013 tantos! -, v\u00edtimas que s\u00e3o os refugiados \u2013 tantos! -, v\u00edtimas que s\u00e3o os desalojados \u2013 tantos! -, v\u00edtimas que s\u00e3o os idosos \u2013 tantos! -, v\u00edtimas que s\u00e3o as crian\u00e7as \u2013 tantas! -, v\u00edtimas que s\u00e3o as fam\u00edlias desmembradas &#8211; tantas! -, V\u00edtimas tantas e tanta dor e sofrimento semeados nos campos, nas aldeias, nas cidades! V\u00edtimas tantas que j\u00e1 ser\u00e1 moralmente l\u00edcito falar de um genoc\u00eddio russo na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Tantas v\u00edtimas a merecerem a nossa homenagem neste \u201c<em>Dia Europeu das V\u00edtimas do Terrorismo<\/em>\u201d. \u00c9 um dever da mem\u00f3ria e da nossa alma, se \u00e9 que ainda n\u00e3o deix\u00e1mos morrer nela a chama da Fraternidade, da Paz, da Dignidade e do Bem.<\/p>\n<p>Para protegermos as gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras, importa honrar aqueles que foram sendo apanhados pelas armas do terror quando se encontravam, serenamente, em paz e com esperan\u00e7a, a percorrer os caminhos promissores da Vida.<\/p>\n<p>Guarda, 8 de Mar\u00e7o de 2023<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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