{"id":273357,"date":"2023-03-05T09:30:42","date_gmt":"2023-03-05T09:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=273357"},"modified":"2023-03-02T16:05:05","modified_gmt":"2023-03-02T16:05:05","slug":"caritas-um-euro-ou-uma-hora-neste-momento-pode-fazer-toda-a-diferenca-a-quem-mais-precisa-rita-valadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/caritas-um-euro-ou-uma-hora-neste-momento-pode-fazer-toda-a-diferenca-a-quem-mais-precisa-rita-valadas\/","title":{"rendered":"C\u00e1ritas: \u00abUm Euro ou uma hora, neste momento, pode fazer toda a diferen\u00e7a a quem mais precisa\u00bb &#8211; Rita Valadas"},"content":{"rendered":"<p>A semana nacional da C\u00e1ritas decorre de 5 a 12 de mar\u00e7o, este ano com o mote \u201cO Amor que Transforma\u201d. Anualmente, a organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica apoia cerca de 120 mil pessoas em atendimento social atrav\u00e9s da rede nacional das C\u00e1ritas Diocesanas e dos muitos grupos paroquiais que est\u00e3o espalhados por todo o pa\u00eds.\u00a0A presidente da C\u00e1ritas Portuguesa aborda o impacto da crise, num momento desafiante para a popula\u00e7\u00e3o<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_252667\" aria-describedby=\"caption-attachment-252667\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-252667 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos.jpeg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos.jpeg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1080x810.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1280x960.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-480x360.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-252667\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/HM<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>De acordo com os n\u00fameros mais recentes, a C\u00e1ritas aponta para o apoio anual a cerca de 120 mil pessoas. Admite a possibilidade de um aumento de ajudas face \u00e0s dificuldades que estamos a viver? <\/em><\/p>\n<p>120 mil \u00e9 o nosso n\u00famero de refer\u00eancia para as pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza resistente; aquela pobreza para a qual, infelizmente, ainda n\u00e3o conseguimos encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para a quebrar. Ap\u00f3s as v\u00e1rias crises que se t\u00eam sucedido nos \u00faltimos anos juntam-se muitas outras pessoas, mas que n\u00f3s resistimos muito a juntar ao n\u00famero das pobrezas, porque a estat\u00edstica est\u00e1 sempre atrasada muitos anos e eu nem sequer acredito muito na estat\u00edstica. A verdade \u00e9 que temos esperan\u00e7a de que estas pessoas n\u00e3o venham a engrossar esse n\u00famero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es pontuais&#8230;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exato.\u00a0 S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es agravadas por uma crise e que n\u00f3s esperamos que possam utilizar todos os seus recursos pessoais para sair dela. Com essas pessoas \u00e9 nessa perspetiva que n\u00f3s tentamos investir. Tentar investir na promo\u00e7\u00e3o de recursos que v\u00e3o desde a criatividade at\u00e9 \u00e0s pr\u00f3prias compet\u00eancias das pessoas que ainda n\u00e3o est\u00e3o em uso para que consigam sair desta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro que com o aumento de custos e o aumento taxas de juro, a coisa n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A nossa pergunta decorre de facto de percebermos que as consequ\u00eancias da guerra e da infla\u00e7\u00e3o da subida das taxas de juro, como referiu, fizeram aumentar o conjunto de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. A dificuldade com o pagamento das rendas das faturas da luz da \u00e1gua s\u00e3o das mais citadas, s\u00e3o das mais procuradas para uma solu\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Sim. N\u00f3s neste momento temos pedidos de todo o tipo. Diria que o dia em que as pessoas pedem (algo) para comer \u00e9 o pior dia da sua vida, porque naturalmente, tenta-se resolver com as outras despesas aquilo que n\u00e3o se consegue resolver com a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E n\u00f3s temos pedidos de todos os n\u00edveis. Temos pedidos quando as pessoas t\u00eam medo de perder a casa, quando temem que lhes cortem a luz, que lhes cortem a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Todas essas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o sucessivas. Hoje podemos quase encontrar\u00a0um padr\u00e3o que \u00e9 o padr\u00e3o da primeira situa\u00e7\u00e3o do primeiro tempo de crise em que as pessoas v\u00e3o procurar tudo. Por exemplo, nas compras v\u00e3o \u00e0s marcas brancas em vez de ir \u00e0s outras. Na sua situa\u00e7\u00e3o pessoal, procuram ter menos consumos de \u00e1gua, luz \u2026 Na situa\u00e7\u00e3o da renda, tudo o que estava amealhado, portanto, todas as gorduras financeiras que possam ter, s\u00e3o esgotadas e quando chegam a essa situa\u00e7\u00e3o e come\u00e7am a comprometer a situa\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o e do sustento da fam\u00edlia &#8211; e muitas vezes essas situa\u00e7\u00f5es s\u00f3 nos chegam nessa altura &#8211; \u00e9 realmente a mais dram\u00e1tica das situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os pedidos que nos veem, veem-nos de todas estas modula\u00e7\u00f5es, e afetam muitas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou da quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e9 um dado da \u00faltima quarta-feira a informa\u00e7\u00e3o de que os portugueses fizeram o maior corte nas despesas de alimenta\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 registo. Ou seja, vai aumentar a fome?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se vai aumentar a fome porque vivemos em Portugal, mas eu acho que vai diminuir a qualidade alimentar.<\/p>\n<p>As pessoas v\u00e3o prescindir de algumas coisas que se calhar deviam fazer-lhes falta e, sobretudo, quando t\u00eam necessidade por raz\u00f5es de sa\u00fade de suplementos alimentares, isso n\u00e3o vai acontecer, e, portanto, vai piorar a sa\u00fade. E vai haver mais pessoas a procurar todas as facilidades que possam ter em termos de doa\u00e7\u00f5es de alimentos que podem ser pela C\u00e1ritas ou por outras institui\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 pelo Banco Alimentar contra a fome. Portanto, s\u00e3o desafios muito grandes. Tenho algum pudor em dizer que vai aumentar a fome.\u00a0 Acho que n\u00f3s ainda temos recursos internos que podemos coordenar para que cheguem a quem mais precisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esse movimento solid\u00e1rio vai estar \u00e9 sobre uma enorme press\u00e3o. Imagino &#8230;.<\/em><\/p>\n<p>Sim. Claro que sim. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso estar muito atento a esta possibilidade de se organizar para que seja de facto distribu\u00eddo da melhor maneira para n\u00e3o criarmos desperd\u00edcios num s\u00edtio e d\u00e9ficits noutro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesse sentido e tamb\u00e9m olhando para o que foram os anos anteriores,\u00a0<\/em><em>essa press\u00e3o sobre o movimento solid\u00e1rio tem a ver com os recursos que ele consegue amealhar. Perante este cen\u00e1rio de que estamos a falar, teme, por exemplo\u00a0que o pedit\u00f3rio nacional, que \u00e9 uma das principais fontes de rendimento C\u00e1ritas &#8211; pedit\u00f3rio publico &#8211; possa tamb\u00e9m repercutir a queda das receitas? <\/em><\/p>\n<p>Eu tenho esperan\u00e7a que n\u00e3o. Eu acho que o natural \u00e9 pensarmos que sim, que naturalmente, quando as pessoas est\u00e3o j\u00e1 muito afrontadas e sabendo n\u00f3s, como sabemos que alguns dos nossos doadores j\u00e1 foram apanhados na situa\u00e7\u00e3o da crise, nas outras crises anteriores; o natural ser\u00e1 dizer que sim, que iremos ter mais dificuldades. E, por isso o meu apelo \u00e9 que as pessoas n\u00e3o pensem que s\u00f3 podem ajudar se tiverem\u00a0uma determinada disponibilidade. Eu costumo dizer um Euro, ou uma hora, neste momento, a quem mais precisa pode fazer toda a diferen\u00e7a. E \u00e9 por isso que este nosso lema: &#8220;Caritas o Amor que transforma&#8221; \u00e9 t\u00e3o significativo, que n\u00f3s conseguimos larg\u00e1-lo. H\u00e1 2 anos que temos este lema e quando reunimos e pensamos, qual vai ser o lema da semana C\u00e1ritas; n\u00e3o conseguimos sair disto, porque isto \u00e9 a g\u00e9nese, \u00e9 a verdade.\u00a0As pessoas t\u00eam de facto, \u00e0s vezes disponibilidades com que n\u00e3o contam por vergonha de n\u00e3o poder dar mais, e isso n\u00e3o pode acontecer. N\u00f3s, neste momento temos que estar todos uns para os outros. Aquilo que \u00e0s vezes nos pode parecer rid\u00edculo doar, pode ser muito importante. Assim todos tenhamos consci\u00eancia de que esta crise h\u00e1 de ser ultrapassada e eu acredito que sim, mas tem de ser com o contributo de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Analisemos agora um pouco o conjunto das medidas avan\u00e7adas pelo Governo para mitigar ou fazer face \u00e0s dificuldades. Em setembro \u00faltimo, o executivo avan\u00e7ou, na altura com 8 medidas. A esta dist\u00e2ncia, j\u00e1 perdemos completamente os seus efeitos? <\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o temos medidas estruturais ainda. E enquanto tivermos medidas pontuais, como qualquer tipo de apoio pontual esgota-se muito rapidamente. N\u00e3o produz nenhum efeito na diferen\u00e7a da vida das pessoas. Portanto, esgota-se no tempo da dura\u00e7\u00e3o financeira.\u00a0O que eu acho interessante \u00e9 que tantas vezes a mim me foi perguntado se a nossa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o era caritativa; assim como se fosse uma coisa de menos valia.\u00a0E eu sempre disse que o nosso sonho, aquilo que n\u00f3s gostar\u00edamos de atingir, era poder promover a inser\u00e7\u00e3o das pessoas.\u00a0 N\u00e3o era claramente jogar s\u00f3 na emerg\u00eancia. O problema \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o estamos a conseguir sair da emerg\u00eancia. E agora parece que nem o Estado est\u00e1, porque o pr\u00f3prio Estado est\u00e1 a fazer socio caritativo porque acaba por ser quase uma esmola de um valor muito mais significativo, mas que se esgota tamb\u00e9m como qualquer esmola. Faz uma diferen\u00e7a, cria uma alegria, portanto, e eu n\u00e3o quero desvalorizar isso.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em causa. \u00c9 muito importante para qualquer pessoa ter -e ent\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o de grande desalento &#8211; ter um apoio \u00e9 significativo, \u00e9 importante, mais que n\u00e3o seja para autoestima, para a alegria que d\u00e1 naquele momento. Agora n\u00e3o faz a diferen\u00e7a e esgota-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na altura, precisamente em setembro, dizia, em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ecclesia que os apoios n\u00e3o resolviam a vida de ningu\u00e9m e que chegavam tarde.\u00a0No presente tardam outras e novas medidas ou falta de facto a essa refer\u00eancia estrutural? <\/em><\/p>\n<p>Sim e sim. Falta a refer\u00eancia estrutural. N\u00e3o temos feito grande caminho desse ponto de vista. E naturalmente, na situa\u00e7\u00e3o em que estamos, com os aumentos de custo de vida, das coisas essenciais n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o agir em emerg\u00eancia. Neste modelo pontual e em consci\u00eancia de que ele n\u00e3o resolve a vida das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos temas em que C\u00e1ritas tem investido at\u00e9 do ponto de vista do estudo, tem sido o tema da habita\u00e7\u00e3o em Portugal. <\/em><em>N\u00f3s temos um pacote de medidas, enfim, mais ou menos pol\u00e9micas que est\u00e3o em consulta p\u00fablica at\u00e9 sexta-feira, 10 de mar\u00e7o. Parece-lhe que \u00e9 um pacote de medidas equilibrado? <\/em><\/p>\n<p>Naquilo que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas, nem tenho opini\u00e3o. No que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es completas, assusta-me um bocadinho porque eu ouvi falar de projetos concretos de constru\u00e7\u00e3o de rendas acess\u00edveis, e n\u00e3o vejo isso acontecer. E agora vejo procurar ao lado. E \u00e9 sempre esta m\u00e1goa que fica de que nada chega ao fim.\u00a0Se h\u00e1 projetos para fazer, para se investir na habita\u00e7\u00e3o condigna para todos, porque \u00e9 que chegamos a este ponto e o que estava planeado n\u00e3o se fez e agora est\u00e1-se a ir a outra coisa? Que ainda por cima \u00e9 pol\u00e9mica, que levanta imensas quest\u00f5es ao n\u00edvel da confus\u00e3o dos direitos b\u00e1sicos constitucionais que as pessoas t\u00eam. E, portanto, eu temo que seja mais um espa\u00e7o de grande discuss\u00e3o, anima\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo forte para depois n\u00e3o haver consequ\u00eancias. E neste momento, a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal escolho na resolu\u00e7\u00e3o de problemas sociais, porque n\u00f3s podemos estar todos relativamente equilibrados, mas o problema afronta todos.\u00a0Afronta os idosos que est\u00e3o a ser expulsos por causa dos \u2018short rentals\u2019 (alugueres curtos) e afins. Envolve os jovens que n\u00e3o conseguem ficar nos s\u00edtios onde t\u00eam emprego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o problemas a longo prazo da sociedade, porque n\u00e3o tem s\u00f3 a ver com o facto de a pessoa ter ou n\u00e3o um s\u00edtio onde ficar, tem a ver com o seu projeto de vida, com aquilo que a define&#8230; <\/em><\/p>\n<p>Tem a ver com o futuro de n\u00f3s todos e do pa\u00eds. E tamb\u00e9m dos estrangeiros, que n\u00f3s estamos a receber.\u00a0Porque n\u00f3s convidamos as pessoas para vir, mas se n\u00f3s n\u00e3o conseguimos resolver os problemas dos nacionais, como \u00e9 que vamos ter espa\u00e7o para resolver os problemas de quem chega? Isto tinha de ser antes. N\u00f3s t\u00ednhamos de criar as condi\u00e7\u00f5es para poder receber as pessoas. E agora temos at\u00e9 depois alguma revolta social, porque as pessoas come\u00e7am a ver medidas tomadas para grupos, seja ele nacional ou estrangeiro &#8211; nem sequer tem a ver com isso &#8211;\u00a0 resolvem os problemas de uns grupos, mas n\u00e3o se resolvem os problemas que est\u00e3o na g\u00e9nese dos problemas de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E potenciamos extremismos? <\/em><\/p>\n<p>Eu acho que estamos a facilitar. N\u00e3o sei se estamos a potenciar, mas a facilitar estamos claramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza em Portugal \u00e9 dram\u00e1tico. Sem apoios sociais, sabemos, mais de 4 milh\u00f5es de pessoas seriam pobres. Sem fazermos futurologia, os n\u00fameros poder\u00e3o pecar por defeito, no final do ano?<\/em><\/p>\n<p>Eu sou eu sou uma desalentada dos nomes, portanto, tenho muita dificuldade em responder isso porque todas as taxas, estat\u00edsticas e coisas que aparecem s\u00e3o absolutamente cor-de-rosa e com solu\u00e7\u00e3o. Diminui a pobreza, temos pleno emprego\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A taxa de desemprego aumentou em janeiro\u2026<\/em><\/p>\n<p>Pois \u00e9, no meio de tanto cor-de-rosa, uma pinta de outra coisa parece nem fazer a diferen\u00e7a. Uma taxa \u00e9 um n\u00famero relativo que faz refer\u00eancia a uma mediana de qualquer coisa. \u00c9 t\u00e3o estranha para mim a diminui\u00e7\u00e3o da taxa de risco de pobreza, como \u00e9 insuficiente a diminui\u00e7\u00e3o da taxa da infla\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 mesma coisa.<\/p>\n<p>Houve n\u00fameros que diziam que tinha diminu\u00eddo a taxa de infla\u00e7\u00e3o. Vamos l\u00e1 ver em que produtos \u00e9 que diminuiu a taxa da infla\u00e7\u00e3o e quando vamos ver, vemos que n\u00e3o \u00e9 na alimenta\u00e7\u00e3o\u2026 ou a taxa de infla\u00e7\u00e3o influencia os bens b\u00e1sicos para a sobreviv\u00eancia e bem-estar das pessoas ou \u00e9 um n\u00famero que n\u00e3o interessa para nada.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Uma pessoa pobre n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero para a C\u00e1ritas\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, de todo. Tem um nome, uma fam\u00edlia, tem um conjunto de recursos e um conjunto de fragilidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A C\u00e1ritas tem preocupa\u00e7\u00f5es que se alargam a crises noutros pa\u00edses, como aconteceu com o recente sismo na Turquia e S\u00edria, bem como as crises de refugiados ou a guerra na Ucr\u00e2nia. Teme que a resposta solid\u00e1ria seja comprometida pelas dificuldades da popula\u00e7\u00e3o portuguesa, neste momento?<\/em><\/p>\n<p>Acho que estar\u00e1 comprometida, at\u00e9 por outras raz\u00f5es, mas no que diz respeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o Internacional da Rede C\u00e1ritas, devo dizer que tenho um enorme orgulho em pertencer a esta rede. Quando uns podem mais, outros podem menos, a rede funciona no seu conjunto? N\u00e3o vale que quanto \u00e9 que deu a Maria, quanto \u00e9 que deu o Manel, neste caso, quanto \u00e9 que deu Portugal, quanto \u00e9 que deu Espanha ou os Estados Unidos, Mo\u00e7ambique: vale aquilo que a rede consegue fazer. O nosso sistema de funcionamento em rede faz chegar \u00e0s zonas de emerg\u00eancia, de acordo com o que se pede, \u00e9 muito concreto: \u00e9 preciso x dinheiro para comprar isto, para fazer isto, para concluir isto, durante n\u00e3o sei quanto tempo. Ao fim desse tempo, avalia-se, audita-se e o dinheiro \u00e9 claramente entregue a quem precisa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Essa transpar\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 uma mais-valia? Vimos isso em Portugal, por exemplo, na quest\u00e3o do dos projetos de apoio \u00e0s pessoas que foram afetadas pelos inc\u00eandios, toda a gente sabia exatamente para onde \u00e9 que tinha ido o dinheiro da C\u00e1ritas.<\/em><\/p>\n<p>Sim, isso \u00e9 uma marca que nos honra, tentamos, por todos os modos, encontrar a transpar\u00eancia. N\u00e3o podemos falar de diminui\u00e7\u00e3o ou aumento sem ter isso em considera\u00e7\u00e3o, porque uma coisa \u00e9 confiar quando se d\u00e1-\u00a0 as pessoas podem fazer um sacrif\u00edcio, mas t\u00eam um prop\u00f3sito. A nossa aposta \u00e9 que o prop\u00f3sito de cada pessoa seja concretizado e isso tem de se fazer com transpar\u00eancia. Seja nacional, seja internacionalmente, tenho sentido, nos \u00faltimos anos, que o dinheiro chega \u00e0 C\u00e1ritas, as horas que chegam \u00e0 C\u00e1ritas, as pessoas que chegam \u00e0 C\u00e1ritas, chegam confiando de que isto vai acontecer. Posso dizer que o meu maior objetivo \u00e9 que assim aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A estrat\u00e9gia nacional de combate \u00e0 pobreza foi publicada em di\u00e1rio da rep\u00fablica no final de 2021. Quase um ano depois, o Governo nomeou Sandra Ara\u00fajo para assumir a sua coordena\u00e7\u00e3o. Quanto tempo mais iremos ter de esperar para sentir os seus efeitos?<\/em><\/p>\n<p>Naturalmente, n\u00e3o est\u00e1vamos \u00e0 espera de que os efeitos fossem imediatos. Tenho, como convic\u00e7\u00e3o, que uma estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 uma forma de resolver um problema agudo, \u00e9 uma forma de olhar o futuro com um caminho.<\/p>\n<p>A doutora Sandra Ara\u00fajo foi nomeada muito recentemente, ainda est\u00e1 a dar os primeiros passos. Ali\u00e1s, n\u00f3s convidamo-la para ir ao Conselho Geral, fica o convite outra vez. Gost\u00e1vamos muito de a ter e somos uma rede que pode ajudar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 por aqui que tem de passar essa tal resposta estruturada, de que vem falando ao longo desta entrevista?<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro que sim. Uns podem dar a estrat\u00e9gia e outros podem dar a proximidade. Sem as duas coisas, os problemas n\u00e3o se resolvem. A C\u00e1ritas pode dar a proximidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltamos ao in\u00edcio da entrevista e aos ciclos que n\u00e3o se conseguem quebrar, porque \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que que acompanha quem estuda o fen\u00f3meno e que acompanha quem est\u00e1 no terreno, junto das pessoas. Olhando para a famosa bazuca, o PRR, falta uma maior mobiliza\u00e7\u00e3o destes fundos para o combate \u00e0 pobreza, para o terreno?<\/em><\/p>\n<p>Acho que eles podiam ser muito importantes, se forem utilizados de forma consistente no futuro, quer dizer que n\u00e3o seja s\u00f3 para resolver s\u00f3 situa\u00e7\u00f5es pontuais, porque \u00e9 um problema estrutural e sem cortar essa linha, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Devo dizer que n\u00e3o senti ainda muito o PRR. E tenho pena, porque temos um tempo para o usar, isto \u00e9 um empr\u00e9stimo, e se n\u00e3o utilizarmos como deve ser, corremos o risco de ficar empenhados sem proveito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s temos tido a indica\u00e7\u00e3o de fundos do PRR para este e aquele setor, mas s\u00e3o poucas as refer\u00eancias aos fundos da bazuca para o combate \u00e0 pobreza, para o combate \u00e0s desigualdades\u2026<\/em><\/p>\n<p>Pois \u00e9, n\u00e3o \u00e9 muito concreto. N\u00f3s estamos agora a tentar colaborar numa \u00e1rea, que visa habilitar Portugal com uma rede de alojamento de emerg\u00eancia. Mesmo a n\u00f3s, que fomos inicialmente abordados para saber que potencial \u00e9 a Igreja que poderia ter para colaborar, passou-nos completamente despercebido a abertura da abertura da chamada. H\u00e1 aqui tamb\u00e9m um problema de informa\u00e7\u00e3o &#8211; e eu digo informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 informa\u00e7\u00e3o nos lugares chiques, \u00e9 informa\u00e7\u00e3o a quem pode dar e fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tem de ser uma coisa muito \u00e1gil e muito pr\u00f3xima. Se vamos achar que basta dar esta informa\u00e7\u00e3o a nesta pessoa que representa o setor, estamos a p\u00f4r uma responsabilidade enorme na pessoa e n\u00e3o vamos ter informa\u00e7\u00e3o no setor.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Podemos estar aqui perante uma oportunidade perdida?<\/em><\/p>\n<p>Podemos, mas eu acho que ainda vamos a tempo, desde que, muito rapidamente, se acione isto. Eu n\u00e3o acredito que seja uma coisa muito dif\u00edcil. Acho que \u00e9 f\u00e1cil. Temos \u00e9 de ir ao essencial e deixar aquilo que \u00e9 acess\u00f3rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A semana nacional da C\u00e1ritas decorre de 5 a 12 de mar\u00e7o, este ano com o mote \u201cO Amor que Transforma\u201d. 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