{"id":273192,"date":"2023-03-01T10:23:35","date_gmt":"2023-03-01T10:23:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=273192"},"modified":"2023-03-01T10:23:35","modified_gmt":"2023-03-01T10:23:35","slug":"cibercultura-sair-da-distopia-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-sair-da-distopia-digital\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; Sair da distopia digital"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Habitamos o mundo de entretenimento que consumimos. Os <em>feelies<\/em>, ou &#8220;cinema sensorial&#8221; do Admir\u00e1vel Mundo Novo de Aldous Huxley s\u00e3o, hoje, os TikTok que enchem a vida das pessoas de entretenimento. <em>&#8220;Feelies&#8221;<\/em> s\u00e3o pequenos v\u00eddeos que combinam a experi\u00eancia visual \u00e0 t\u00e1ctil para criar um ambiente imersivo e agrad\u00e1vel. A inten\u00e7\u00e3o dos <em>feelies<\/em> consiste em aproximar a fic\u00e7\u00e3o da realidade, mas o pre\u00e7o pago pode ser o gradual aumento da incapacidade de distinguir a realidade da fic\u00e7\u00e3o. Reparem como tantas pessoas est\u00e3o t\u00e3o entretidas, que <em>pensar<\/em> torna-se raro e <em>ceder<\/em> aos que nos pedem coisas estranhas com a promessa de um v\u00eddeo viral passa a ser a norma. \u00c9 isso que est\u00e1 a acontecer nos Estados Unidos com os estafetas de entregas da Amazon.<\/p>\n<figure id=\"attachment_273193\" aria-describedby=\"caption-attachment-273193\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-273193\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia-260x260.jpg 260w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia-150x150.jpg 150w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia-768x768.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia-300x300.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia-980x980.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/DALL_E_MOP_DigitalDystopia-480x480.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-273193\" class=\"wp-caption-text\">Imagem gerada pelo DALL-E com prompts de Miguel Pan\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<p>A jornalista Megan Garber fez notar esta onda num recente <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/magazine\/archive\/2023\/03\/tv-politics-entertainment-metaverse\/672773\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>; para o <em>The Atlantic<\/em>. Os clientes da Amazon come\u00e7aram a pedir aos estafetas uma dan\u00e7a (<em>Do a Dance<\/em>) e estes, inocentemente, fazem o que os &#8220;realizadores TikTok&#8221; pedem, de modo a que estes possam tentar que os seus v\u00eddeos se tornem virais. E isso \u00e9 o que as empresas que controlam as redes sociais pretende com a introdu\u00e7\u00e3o das realidades aumentadas nas aplica\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, que vivamos <em>dentro<\/em> das nossas ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Num outro <a href=\"https:\/\/www.vice.com\/en\/article\/z3nqn4\/dystopic-tiktok-trend-demands-amazon-workers-dance-for-surveillacameras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>;, a jornalista da <em>Vice<\/em>, Gita Jackson diz que \u2014 <em>\u00abTransformar seres humanos reais, que aguentam condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho para ter dinheiro para viver, em conte\u00fado, \u00e9 desumanizante.\u00bb<\/em> \u2014 Por isso, quando h\u00e1 algum tempo <a href=\"https:\/\/setemargens.com\/quem-segue-o-padre-tiktok-segue-jesus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escrevia<\/a>; sobre o fen\u00f3meno de padres a entrar no TikTok para chegar aos seus paroquianos ou aos mais jovens, fico agora a pensar se tamb\u00e9m na vida religiosa estaremos a perder a no\u00e7\u00e3o da realidade. Ou estar\u00e3o os crentes a contar que a linha que separa a realidade da fic\u00e7\u00e3o fique t\u00e9nue ao ponto de se tornar num instrumento de evangeliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Em Agosto, Lisboa acolher\u00e1 centenas de milhares de jovens que v\u00eam participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Ser\u00e1 que haver\u00e1 um pico de gera\u00e7\u00e3o de Terabytes de informa\u00e7\u00e3o, ou ser\u00e1 como o que vemos no <a href=\"https:\/\/youtu.be\/H1x2t2EstlI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hino das JMJ<\/a> em que n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 aten\u00e7\u00e3o dedicada ao ecr\u00e3 (excepto para ver um mapa), mas toda a aten\u00e7\u00e3o se volta para o conhecerem-se reciprocamente, conhecer a cidade e as pessoas que nela habitam, cantando de bra\u00e7os abertos como tanto caracteriza o t\u00edpico modo de ser do Portugu\u00eas? Vale a pena ver e ouvir este hino. Se realmente estamos a caminhar para um &#8220;Admir\u00e1vel Mundo Novo\u201d, onde o ambiente cibercultural assente no entretenimento se sobrep\u00f5e ao ambiente eco-cultural assente em relacionamentos face-a-face, qual o melhor testemunho que a Igreja poderia dar?<\/p>\n<p><em>Pessoas reais.<\/em> E n\u00e3o estou a referir-me \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o \u201c<em>Be Real<\/em>\u201d, mas antes a sermos no lugar e tempo onde vivemos, a personifica\u00e7\u00e3o da realidade para al\u00e9m de toda e qualquer virtualidade. E em vez de usarmos os ecr\u00e3s e as Apps para comunicarmos, sermos n\u00f3s pr\u00f3prios os meios daquilo que queremos comunicar. Marshall McLuhan dizia que &#8220;o meio \u00e9 a mensagem&#8221;, mas se cada pessoa \u00e9 <em>o meio<\/em> atrav\u00e9s do qual passa a mensagem que vive, ent\u00e3o, &#8220;n\u00f3s somos a mensagem&#8221;. Por isso, quem comunica, comunica-se. Mas o problema que muitos disc\u00edpulos dos meios digitais aponta (e com raz\u00e3o) \u00e9 que n\u00f3s, como mensagem e testemunho, temos um alcance muito limitado. Por\u00e9m, se pensarmos no exemplo de Jesus, ou dos Ap\u00f3stolos ap\u00f3s a Ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinham qualquer meio digital e tanto a sua vida, como o seu testemunho, chegou a todo o mundo. O que os ap\u00f3stolos dos meios digitais podem responder (e com raz\u00e3o) \u00e9 que a velocidade com que as mensagens circulam no mundo n\u00e3o \u00e9 a mesma que no tempo de Jesus. E se n\u00e3o nos adaptarmos ao mundo de hoje, a Evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Nunca mais que esque\u00e7o um cartoon do Professor Pardal criado por Wlat Disney que dizia \u2014 <em>\u00abInvento tudo. O imposs\u00edvel s\u00f3 demora mais tempo.\u00bb<\/em> Parece imposs\u00edvel voltarmos a ser pessoas reais que conseguem chegar a todos, independentemente dos meios digitais. Por\u00e9m, \u00e9 tudo uma quest\u00e3o &#8220;construtal&#8221;. Em 1996, Adrian Bejan, professor na Universidade de Duke nos Estados Unidos, formulou a Lei Construtal que diz \u2014 <em>\u00abpara um sistema finito persistir no tempo (evoluir), deve facilitar as correntes que por ele atravessam.\u00bb<\/em> \u2014 o resultado desta Lei s\u00e3o as redes dendr\u00edticas que vemos nas \u00e1rvores, bacias dos rios ou mesmo nos nossos pulm\u00f5es. A Evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece porque as pessoas recebem informa\u00e7\u00e3o. Os meios digitais facilitam a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a comunica\u00e7\u00e3o que as pessoas fazem de si mesmas. Contudo, n\u00f3s temos redes de comunica\u00e7\u00e3o. Basta dar-lhes mais valor: as comunidades.<\/p>\n<p>Se as comunidades viverem somente para si pr\u00f3prias, e n\u00e3o abrirem as portas dos relacionamentos entre as pessoas a novos membros, fecham-se os canais de comunica\u00e7\u00e3o inter-pessoal que possuem um efeito que nenhuma transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o possui: o efeito experiencial.<\/p>\n<p>Duas pessoas que come\u00e7am a fazer juntas um trilho numa floresta e n\u00e3o se conhecem, atrav\u00e9s de pequenas ajudas para superar as dificuldades do caminho, podem criar-se la\u00e7os que duram para sempre. Se na comunica\u00e7\u00e3o digital se partilham experi\u00eancias colectivas, quem por elas pode ficar tocado, sente-se induzido a desejar mais o encontro presencial para saciar a sua sede de comunicar-se, do que o saciar digital. Recordo a iniciativa que o meu amigo Jo\u00e3o Viana fundou em 2015 da <em><a href=\"https:\/\/walkingmentorship.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Walking Mentorship<\/a><\/em>, onde ele e o seu parceiro Nuno Santos Fernandes ajudam pessoas e grupos a encontrar os seus prop\u00f3sitos profissionais e at\u00e9 pessoais, usando a caminhada como m\u00e9todo para realizar a mentoria. Nas fotos v\u00eaem-se sempre pessoas a caminhar em grupo, ou nos seus momentos de solitude, mas presentes no mundo real. Olhar para aquelas imagens suscita o desejo de estarmos ali onde est\u00e3o. Os pequenos filmes n\u00e3o saciam sensorialmente, como os <em>feelies<\/em>, mas impulsionam a sair e sentir os passos com os p\u00e9s assentes no ch\u00e3o. S\u00f3 a vida real poder\u00e1 ajudar-nos a evitar o colapso da distopia digital em que vivemos e o efeito experiencial que as comunidades possuem \u00e9 insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-273192","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=273192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273192\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=273192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=273192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=273192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}