{"id":273189,"date":"2023-03-02T09:00:20","date_gmt":"2023-03-02T09:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=273189"},"modified":"2023-03-01T10:18:10","modified_gmt":"2023-03-01T10:18:10","slug":"dorsal-atlantica-setenta-e-duas-vezes-servir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dorsal-atlantica-setenta-e-duas-vezes-servir\/","title":{"rendered":"Dorsal Atl\u00e2ntica &#8211; Setenta e duas vezes servir"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 J\u00falio Rocha, Diocese de Angra<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-265482 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>As tenta\u00e7\u00f5es de Jesus no deserto foram o tema do Evangelho do primeiro domingo da quaresma. Talvez o que de mais belo e intrigante eu li sobre as tenta\u00e7\u00f5es de Jesus foi obra de um russo, Dostoievski, num bel\u00edssimo cap\u00edtulo inserido na sua magna obra \u201cOs Irm\u00e3os Karam\u00e1zov\u201d. O cap\u00edtulo intitula-se \u201cA Lenda do Grande Inquisidor\u201d e \u00e9 uma hist\u00f3ria dentro da hist\u00f3ria do livro. Conta que Jesus desceu \u00e0 Terra, na Sevilha do s\u00e9culo XVI, em pleno esplendor da Inquisi\u00e7\u00e3o espanhola. O Inquisidor-mor reconhece Jesus, manda-O prender e, \u00e0 noite, vai \u00e0 Sua cela para O acusar. De qu\u00ea? O Inquisidor pergunta a Jesus porqu\u00ea n\u00e3o cedeu \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es do dem\u00f3nio. Porque n\u00e3o transformou as pedras em p\u00e3o? Porque preferiu que as pessoas O seguissem pelo amor e n\u00e3o pelo p\u00e3o? Ele bem sabia que a humanidade prefere o conforto do p\u00e3o \u00e0s incertezas do amor. Porque n\u00e3o se atirou do pin\u00e1culo do Templo? O espet\u00e1culo daquele milagre estrondoso atrairia as multid\u00f5es. Porque preferiu que O seguissem pela f\u00e9 e n\u00e3o pelos sinais espetaculares? Ele bem sabia que a humanidade n\u00e3o \u00e9 capaz de acreditar sem sinais. Porque n\u00e3o aceitou o poder dos reinos da Terra? Porque preferiu que a humanidade O seguisse pela liberdade, n\u00e3o pela for\u00e7a, n\u00e3o por ser obrigada a segui-Lo? Ele bem sabia que os homens t\u00eam medo da liberdade, preferem a seguran\u00e7a, algu\u00e9m que os guie, a liberdade mete medo.<\/p>\n<p>A grande afirma\u00e7\u00e3o do Inquisidor \u00e9 que a Igreja veio corrigir os erros de Jesus. N\u00e3o era vi\u00e1vel a Igreja que Jesus queria. Por isso a m\u00e3o pesada da autoridade da Igreja, que faz com que os crist\u00e3os vivam na ilus\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o, obedientes como cordeiros, com p\u00e3o, milagres e r\u00e9dea curta. Sim \u00e9 ele, o Inquisidor, que ama verdadeiramente a humanidade, que a conhece, que a n\u00e3o quer deixar perder.<\/p>\n<p>Esta lenda obriga qualquer pessoa de bom senso a pensar a Igreja e a sua hist\u00f3ria e a compar\u00e1-la com o Evangelho. Ser\u00e1 que o Evangelho que Jesus pregava, a Sua Boa-Nova, o Reino dos C\u00e9us que anunciava n\u00e3o passavam de uma utopia pouco vi\u00e1vel, que a Igreja foi corrigindo, muitas vezes \u00e0 for\u00e7a, para se manter fiel a esse mesmo Evangelho? \u00c9 poss\u00edvel perdoar 70X7, amar os inimigos, dar a outra face, n\u00e3o ter duas t\u00fanicas, servir sempre, dar a vida? N\u00e3o ser\u00e1 tudo isso contr\u00e1rio \u00e0 natureza humana? Kerigma ou institui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Um dia destes dediquei-me a esquadrinhar os quatro Evangelhos \u00e0 procura de saber quantas vezes Jesus fala em humildade, servi\u00e7o, fazer-se pequenino, fazer-se pobre. O n\u00famero \u00e9 impressionante! Em palavras e gestos, Jesus refere-se pelo menos setenta e duas vezes a isso. \u00c9 muito. \u00c9 demasiado eloquente ver Jesus, a Quem todo o poder foi dado, lavar os p\u00e9s aos disc\u00edpulos, mandando-os fazer o mesmo. Setenta e duas vezes servi\u00e7o, humildade ou pobreza s\u00e3o vezes suficientes para podermos ter entendido que a Igreja n\u00e3o tinha outro caminho sen\u00e3o esse. Mas a Igreja encontrou outro caminho\u2026<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 a maior fraqueza da Hist\u00f3ria da Igreja. Jesus era um n\u00f3mada. N\u00e3o tinha morada a n\u00e3o ser nas tabernas dos pecadores, nos barrancos dos leprosos, nas casas dos doentes, na outra margem do lago, n\u00e3o tinha onde reclinar a cabe\u00e7a. N\u00f3s constru\u00edmos igrejas, catedrais, bas\u00edlicas imponentes e s\u00f3 chamamos crist\u00e3os aos que nelas entram; alarg\u00e1mos as nossas filact\u00e9rias com ouro e soubemos servir a Deus e ao dinheiro. Talvez tenhamos sido demasiado escravos da pureza da f\u00e9 ao ponto de matar por isso. Nesse tempo \u00e9ramos uma autoridade humanamente indiscut\u00edvel e nada h\u00e1 mais perigoso do que isso: quem guardar\u00e1 os guardi\u00e3es? A cada invetiva contra o dep\u00f3sito da f\u00e9, a Igreja respondia com regras, leis, \u201cdogmas\u201d, condena\u00e7\u00f5es, an\u00e1temas, de tal modo que, em pleno s\u00e9culo XXI, vivemos numa camisa-de-for\u00e7as, presos a um passado que n\u00e3o conseguimos mudar porque o que os papas disseram tem uma import\u00e2ncia quase definitiva, mesmo que tenha sido dito h\u00e1 500 anos. H\u00e1 um respeitinho demasiado reverente pelas circunst\u00e2ncias do passado, por aquilo que a Igreja j\u00e1 disse, como se fosse tudo definitivo, uma esp\u00e9cie de medo de contrariar o passado que nos afasta um pouco \u2013 ou muito \u2013 do esp\u00edrito evang\u00e9lico de Jesus. A quest\u00e3o do celibato, do estatuto da mulher dentro da Igreja ou da moral sexual s\u00e3o tr\u00eas exemplos mais ou menos comuns desse enredado em que estamos, sem conseguir dar um passo em frente ou atr\u00e1s, porque j\u00e1 tanto foi escrito, dito ou feito que pouco mais conseguimos fazer.<\/p>\n<p>O erro foi s\u00f3 um: o poder. O poder quando n\u00e3o foi servi\u00e7o.<\/p>\n<p>O \u201caggiornamento\u201d do Conc\u00edlio Vaticano II foi t\u00e3o importante que ainda hoje muito est\u00e1 por p\u00f4r em pr\u00e1tica: que a Igreja n\u00e3o seja autorreferencial, n\u00e3o se justifique a si pr\u00f3pria, que a sua refer\u00eancia seja, cada vez mais, Jesus. Muitas coisas t\u00eam que mudar na Igreja.<\/p>\n<p>Uma das realidades que nos devem fazer pensar, e muito, s\u00e3o as novas voca\u00e7\u00f5es sacerdotais, poucas, que t\u00eam aparecido. H\u00e1 muitos jovens que se sentem atra\u00eddos pelo poder e pela prote\u00e7\u00e3o que a institui\u00e7\u00e3o lhes oferece. A r\u00edgida hierarquiza\u00e7\u00e3o, a liturgia pomposa das rendas, das batinas, dos incensos, dos ouros. A atra\u00e7\u00e3o que a Igreja exerce pela Igreja, n\u00e3o por Jesus Cristo. A verdadeira voca\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser servi\u00e7o, n\u00e3o consolo. E o celibato s\u00f3 se entende assim: como servi\u00e7o de entrega inteira, nunca como capa para uma afetividade n\u00e3o resolvida, que \u00e9 o p\u00e3o nosso de cada dia\u2026<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes Jesus foi tentado pelo poder. Ensinou-nos, por setenta e duas vezes, a servir. J\u00e1 dev\u00edamos ter aprendido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 J\u00falio Rocha, Diocese de Angra<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":265482,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-273189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=273189"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273189\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/265482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=273189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=273189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=273189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}