{"id":272366,"date":"2023-02-22T10:08:29","date_gmt":"2023-02-22T10:08:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=272366"},"modified":"2023-02-22T10:14:55","modified_gmt":"2023-02-22T10:14:55","slug":"e-agora-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/e-agora-2\/","title":{"rendered":"E agora?"},"content":{"rendered":"<p><em>Isabel Figueiredo, diretora do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-207515 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>\u00abE agora?\u00bb A pergunta repete-se, umas vezes no tom acusat\u00f3rio de quem se sente no direito leg\u00edtimo de exigir respostas, outras na pergunta genu\u00edna, de quem deseja saber o que fazer com a descoberta de uma realidade escondida.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crian\u00e7as na Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, no passado dia 13 de fevereiro, desencadeou uma rea\u00e7\u00e3o emocional e racional de enorme impacto medi\u00e1tico que nos obriga a continuar a refletir com discernimento, pondera\u00e7\u00e3o e verdade.<\/p>\n<p>A verdade imp\u00f4s a necessidade de se assumir a quest\u00e3o dos abusos a menores no seio da Igreja e o Papa Francisco exigiu-nos a concretiza\u00e7\u00e3o de uma toler\u00e2ncia zero e transpar\u00eancia total no tratamento desta realidade. Para tal foram criadas Comiss\u00f5es Diocesanas para Prote\u00e7\u00e3o de Menores e Adultos Vulner\u00e1veis &#8211; no Patriarcado de Lisboa, a Comiss\u00e3o trabalha desde 2019 &#8211; e surgiram outro tipo de Comiss\u00f5es que fizeram estudos sobre este drama, dimensionadas \u00e0 realidade de cada pa\u00eds. As respostas foram diferentes, como seria de esperar, mas comum \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o de que a Igreja n\u00e3o conseguiu evitar comportamentos abusivos no seu seio e encobriu, ao longo do tempo, esses mesmos comportamentos, que t\u00eam um espectro imenso. \u00a0Em muitos casos, o abuso e a pedofilia cruzam-se, o abuso do poder e o abuso sexual s\u00e3o cumulativos e os comportamentos imorais normalizam-se em vidas ocultas e paralelas.<\/p>\n<p>Mas, voltando ao relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente, um dos primeiros pontos que me parece ser de sublinhar refere-se ao facto de que este trabalho parte de testemunhos. N\u00e3o estamos a falar de den\u00fancias, nem de den\u00fancias que obrigaram \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias e, menos ainda, de acusa\u00e7\u00f5es resultantes de processos criminais. Mas \u00e9 um passo com carater de urg\u00eancia, que permite abrir a fresta de uma janela que desejamos escancarada e com os vidros transparentes de t\u00e3o limpos que estejam\u2026<\/p>\n<p>Por outro lado, julgo que a leitura de frases curtas, com uma carga visual tremenda, obteve o resultado pretendido, isto \u00e9, transformou centenas de p\u00e1ginas com informa\u00e7\u00e3o recolhida e trabalhada num documento vivo, em carne e sangue, capaz de dar vida a uma dose de sofrimento que nos coloca perante verdadeiras imagens de tortura, esquecidas h\u00e1 dezenas de anos. A vergonha, a compaix\u00e3o, a incompreens\u00e3o, tornaram-se palp\u00e1veis naquela sala cheia de gente que escutava em sil\u00eancio a leitura intensa que ia sendo feita.<\/p>\n<p>O meu primeiro pensamento foi para as v\u00edtimas \u2013 \u201cteriam autorizado aquela exposi\u00e7\u00e3o da sua intimidade? Teriam consci\u00eancia de que o anonimato \u00e9 muito fr\u00e1gil nos dias de hoje, em que tudo se cruza e h\u00e1 sempre algu\u00e9m que fala? Os fins justificam os meios?\u201d Tendo a dizer que era necess\u00e1rio tornar inesquec\u00edvel e inadi\u00e1vel esta revela\u00e7\u00e3o. Mas mesmo assim, guardo uma secreta esperan\u00e7a de que tenham sido salvaguardados todos os direitos de cada homem e cada mulher que corajosamente voltaram ao seu passado e o relataram na sua enorme dureza e crueldade\u2026<\/p>\n<p>Quase a seguir, pensei nos abusadores, nos homens que destru\u00edram a pureza das crian\u00e7as, a ingenuidade de tantas outras, os sonhos e as esperan\u00e7as de jovens que encontraram na Igreja o mist\u00e9rio da presen\u00e7a de Deus no mundo. S\u00e3o demasiadas destrui\u00e7\u00f5es que nos impelem \u00e0 vontade de punir exemplarmente os culpados. \u201cQue direitos lhes assistem? Que compaix\u00e3o nos merecem?\u201d Perguntas que permanecem no meu cora\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o encontro resposta. Ainda n\u00e3o consigo encontrar uma resposta que me tranquilize. \u00a0Mas sei que a certeza do exerc\u00edcio da justi\u00e7a \u00e9 fundamental numa vida em sociedade, estejamos a falar do ensino, da fam\u00edlia, do trabalho, da economia, do poder pol\u00edtico ou da Igreja.<\/p>\n<p>E no turbilh\u00e3o dos pensamentos que se seguiram \u00e0quela manh\u00e3, na sequ\u00eancia do visionamento de in\u00fameras pe\u00e7as jornal\u00edsticas, das capas de jornais, da escuta de m\u00faltiplas declara\u00e7\u00f5es, a pergunta mant\u00e9m-se persistente, inquietante: \u00abE agora?\u00bb Este \u00abagora\u00bb pode ter m\u00faltiplas facetas, todas elas exigentes e necess\u00e1rias. Das muitas que v\u00e3o surgindo, em conversas de caf\u00e9, \u00e0 mesa de nossas casas, em entrevistas e reportagens, entre amigos e inimigos, julgo que todos concordamos na necessidade de entregar \u00e0 Justi\u00e7a o que \u00e9 da Justi\u00e7a; tal como na certeza de que a Igreja em Portugal vai tomar medidas concretas e public\u00e1veis do cumprimento das ordens transmitidas: na convic\u00e7\u00e3o de que a revela\u00e7\u00e3o de abusos de crian\u00e7as na Igreja Cat\u00f3lica pode e deve abrir a investiga\u00e7\u00e3o, publica\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise da dimens\u00e3o dos abusos de crian\u00e7as em toda a sociedade portuguesa; na urg\u00eancia de falar de educa\u00e7\u00e3o sexual, de preven\u00e7\u00e3o de abusos, de comportamentos imorais, de viol\u00eancia, de uma forma adaptada a diferentes idades, mas clara e consequente. Na fam\u00edlia, na escola, na Igreja.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, uma certeza que me tem acompanhado, mas que se vincou com maior intensidade desde a passada segunda-feira: nunca podemos tomar a parte pelo todo. Na sua larga e imensa maioria, Bispos e Padres, Escuteiros e Catequistas, Professores e Superiores nunca exerceram qualquer forma de abuso sexual sobre crian\u00e7as, antes pelo contr\u00e1rio, d\u00e3o as suas vidas pela Igreja e na Igreja. Ajudam a cuidar dos nossos filhos e netos. Ajudam a cuidar dos nossos pais e av\u00f3s. S\u00e3o exemplares nos seus comportamentos e n\u00e3o merecem ser olhados de nenhuma outra forma.<\/p>\n<p><em>Isabel Figueiredo<\/em><br \/>\n<em>Diretora do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es da Igreja<\/em><br \/>\n<em>Membro da Comiss\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o de Menores do Patriarcado de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Figueiredo, diretora do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207515,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-272366","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272366","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=272366"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272366\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/207515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=272366"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=272366"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=272366"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}