{"id":272076,"date":"2023-02-19T09:30:26","date_gmt":"2023-02-19T09:30:26","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=272076"},"modified":"2023-02-17T18:48:48","modified_gmt":"2023-02-17T18:48:48","slug":"igreja-abusos-temos-de-ser-todos-a-fazer-a-diferenca-marta-neves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-abusos-temos-de-ser-todos-a-fazer-a-diferenca-marta-neves\/","title":{"rendered":"Igreja\/Abusos: \u00abTemos de ser todos a fazer a diferen\u00e7a\u00bb &#8211; Marta Neves"},"content":{"rendered":"<p><em>Numa semana marcada pela divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente para o Estudo do Abuso de Crian\u00e7as na Igreja Portuguesa, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Marta Neves, que coordena a Comiss\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o de Menores e Adultos Vulner\u00e1veis da Diocese de Coimbra e que tamb\u00e9m integra a coordena\u00e7\u00e3o nacional das comiss\u00f5es diocesanas de prote\u00e7\u00e3o de menores ou adultos vulner\u00e1veis<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (ECCLESIA)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-272006 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"882\" height=\"588\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1.jpeg 882w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1-391x260.jpeg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marta_neves-1-480x320.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 882px) 100vw, 882px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Como recebeu os dados apresentados pelo relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente?<\/em><\/p>\n<p>Tivemos oportunidade, no dia 13, de escutar a apresenta\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o independente. Os n\u00fameros n\u00e3o nos surpreendem, primeiro porque n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma ideia pr\u00e9via, sab\u00edamos apenas que existiam muitas pessoas. Porqu\u00ea? Porque \u00e9 um fen\u00f3meno que \u00e9 sist\u00e9mico, que \u00e9 global e que \u00e9 universal. Portanto, se nos outros pa\u00edses havia estes resultados, era mais ou menos expect\u00e1vel que em Portugal tamb\u00e9m existissem, o importante era esta coragem para os olhar de frente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Surpreendeu-a, de algum modo, o n\u00famero de v\u00edtimas do sexo feminino?<\/em><\/p>\n<p>Depende muito da dos estudos e dos resultados, ou seja, nem sempre os estudos s\u00e3o representativos da realidade. Pode ter a ver com a forma como foram divulgados\u2026 a nossa amostra aqui pode n\u00e3o ser representativa da popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o quest\u00f5es que t\u00eam mais a ver com o estudo em si do que, propriamente, com a realidade. N\u00e3o me surpreende que haja quer caso femininos, quer casos masculinos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O estudo diz que as mulheres em Portugal t\u00eam uma representatividade nas queixas de 42,2%, o que \u00e9 n\u00famero superior aos resultados que conhecemos de outros pa\u00edses\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos os resultados de todos os pa\u00edses, depende tamb\u00e9m dos estudos, eu acho que \u00e9 muito prematuro estarmos j\u00e1 com conclus\u00f5es. Precisamos, se calhar, de conhecer melhor a realidade em mais pa\u00edses, n\u00e3o podemos comparar resultados sem perceber a metodologia que est\u00e1 por tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o quest\u00f5es mais de an\u00e1lise metodol\u00f3gica do do do que est\u00e1 em causa, do tipo de amostra e do que \u00e9 poss\u00edvel comparar face ao tipo de amostra de outros pa\u00edses. Gostaria de conversar consigo sobre uma chamada de aten\u00e7\u00e3o muito particular que Daniel Sampaio, psiquiatra, fez durante a confer\u00eancia de imprensa, defendendo a necessidade de um estudo a n\u00edvel nacional sobre abusos de menores. Lembrava, a partir de uma metan\u00e1lise de v\u00e1rios estudos internacionais, que 18% das meninas s\u00e3o abusadas at\u00e9 os 18 anos de idade e 8% dos rapazes tamb\u00e9m\u2026<\/em><\/p>\n<p>Os estudos europeus h\u00e1 muito tempo dizem que uma em cada cinco pessoas pode ser v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. Infelizmente, os n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o muito animadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de agora: se n\u00f3s pensarmos no in\u00edcio da evolu\u00e7\u00e3o humana, os graus de viol\u00eancia deviam ser muito maiores. Portanto, n\u00e3o \u00e9 que a viol\u00eancia esteja a aumentar agora, mais do que no Neandertal. A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s estamos cada vez mais conscientes, estamos cada vez mais a querer olhar os problemas, a classific\u00e1-los e encontrar as respostas para eles. \u00c9 \u00f3bvio que existem n\u00fameros assustadores de viol\u00eancia: existem nas fam\u00edlias, existem em todas as institui\u00e7\u00f5es, existem na Igreja, isso n\u00e3o nos surpreende. O que \u00e9 importante \u00e9 o que n\u00f3s, nesta \u00e9poca, aqui e agora, podemos fazer para mudar essa tend\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estud\u00e1-la ser\u00e1 o primeiro, o primeiro passo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Claro, claro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 expect\u00e1vel que a divulga\u00e7\u00e3o destes testemunhos leve mais gente a querer falar da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Espero sim. Eu acho que h\u00e1 v\u00e1rios casos: h\u00e1 muitas pessoas que j\u00e1 t\u00eam a vida completamente organizada e que n\u00e3o querem mexer no assunto, porque ultrapassaram a situa\u00e7\u00e3o &#8211; s\u00e3o pessoas resilientes, que conseguiram integrar esta hist\u00f3ria, esta experi\u00eancia traum\u00e1tica, que conseguiram avan\u00e7ar e que n\u00e3o veem vantagens em andar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>H\u00e1 de haver outras pessoas que ainda n\u00e3o tiveram coragem de falar e que est\u00e3o a tentar perceber o que \u00e9 que vai acontecer a estes testemunhos, a estas pessoas que os deram, se \u00e9 seguro ou n\u00e3o, se vale a pena ou n\u00e3o falar. H\u00e1 de haver imensas realidades diferentes. O que temos d pensar \u00e9, como \u00e9 que n\u00f3s, sociedade podemos ser uma cultura de cuidado? Como \u00e9 que n\u00f3s podemos acolher n\u00e3o apenas as pessoas que foram v\u00edtimas, mas acolher tamb\u00e9m os abusadores e ajudar a prevenir que n\u00e3o aconte\u00e7am outras situa\u00e7\u00f5es no futuro.<\/p>\n<p>A minha perspetiva \u00e9 muito esta, daqui para frente, o que \u00e9 que n\u00f3s podemos fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As Comiss\u00f5es Diocesanas de Prote\u00e7\u00e3o de Menores merecem reparos, no relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente. H\u00e1 caminho a percorrer para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, com eventuais v\u00edtimas, e para o trabalho na preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria?<\/em><\/p>\n<p>Claro, claro. N\u00f3s, nas comiss\u00f5es, precisamos de ter forma\u00e7\u00e3o, precisamos de nos organizar. N\u00e3o se esque\u00e7a que as comiss\u00f5es come\u00e7aram a relativamente pouco tempo\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A partir da cimeira de 2019, em que o Papa convocou todas as dioceses a ter a sua Comiss\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. N\u00f3s come\u00e7amos, por assim dizer, de uma forma muito amadora a tentar perceber o que era necess\u00e1rio fazer e s\u00f3 agora, com dois, tr\u00eas anos de experi\u00eancia, come\u00e7amos a avaliar o trabalho feito, a perceber o que \u00e9 que estava bem, o que podemos melhorar e, sobretudo, os procedimentos que podem ser uniformizados, at\u00e9 que ponto \u00e9 que, todos juntos, conseguimos fazer um trabalho.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s temos fragilidade, podemos aprender e melhorar o nosso trabalho. Defendo que o trabalho da Comiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas de acolhimento e de acompanhamento das pessoas que foram v\u00edtimas, mas \u00e9 tamb\u00e9m, sobretudo, de preven\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o: forma\u00e7\u00e3o de cultura, forma\u00e7\u00e3o de pessoas, forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos de cuidado e tamb\u00e9m desta mentalidade da toler\u00e2ncia zero.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o podemos virar a cara, n\u00f3s n\u00e3o podemos fingir que n\u00e3o percebemos, e isto \u00e9 fundamental para que cada pessoa que faz parte da Igreja interiorize este papel de corresponsabilidade. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 duas ou tr\u00eas pessoas que mudam, temos de ser todos a fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o relata mesmo o caso em que um bispo desautorizou uma comiss\u00e3o diocesana. Ora, isto tamb\u00e9m prejudica essa rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a indispens\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p>Em cada comiss\u00e3o deve haver imensas situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o agradam a uns ou outros. Somos todos pessoas que estamos a tentar colaborar e trabalhar em equipa. Qualquer pessoa que tenha um trabalho de equipa, sabe que a linguagem n\u00e3o \u00e9 a mesma, portanto, \u00e9 preciso negociar, \u00e9 preciso ceder, aprofundar.<\/p>\n<p>Eu at\u00e9 defendo a necessidade de haver conflito, diferen\u00e7as, de haver discuss\u00e3o: \u00e9 normal e \u00e9 expect\u00e1vel que haja diferentes posi\u00e7\u00f5es. O que eu acho importante \u00e9 que esta onda da sinodalidade venha tamb\u00e9m ao encontro das comiss\u00f5es, que todas as pessoas sintam que podem falar e ser escutadas, que \u00e9 o contributo de todos que leva depois de uma decis\u00e3o mais consciente, mais respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 agora tivemos o relato de muitos poucos casos \u00e0s comiss\u00f5es. Significa que n\u00e3o h\u00e1 essa confian\u00e7a necess\u00e1ria?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei, dos casos que foram reportados \u00e0s comiss\u00f5es, cerca de 32, 33, quais foram participados, por exemplo, ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o Independente, porque esta n\u00e3o nos disse. N\u00e3o temos conhecimento dos dados, mas faz sentido, por exemplo, pensar que as pessoas que t\u00eam denunciado situa\u00e7\u00f5es nas Comiss\u00f5es Diocesanas o fa\u00e7am relativamente a situa\u00e7\u00f5es mais recentes. As situa\u00e7\u00f5es, se calhar, de h\u00e1 70 ou h\u00e1 50 anos, ter\u00e3o sido apenas reportadas \u00e0 Comiss\u00e3o Independente. Mas n\u00e3o temos os dados concretos poder proceder a esses n\u00fameros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 um trabalho, um trabalho que ainda est\u00e1 por fazer, de cruzamento de dados\u2026<\/em><\/p>\n<p>De cruzamento lado e n\u00e3o s\u00f3. Concordo que h\u00e1 muito poucas pessoas, ainda, que confiam nas Comiss\u00f5es Diocesanas: por um lado, porque somos o rosto da Igreja e, se foi a Igreja que que magoou, \u00e9 dif\u00edcil acreditar que pode haver um outro rosto diferente na Igreja, n\u00e3o \u00e9? E, por outro lado, tamb\u00e9m como somos ainda muito recentes, as pessoas ainda n\u00e3o nos conhecem, ainda n\u00e3o me confiam, \u00e0s vezes \u00e9 preciso ver o que \u00e9 que acontece aos primeiros que se chegam \u00e0 frente para perceber se \u00e9 um caminho seguro ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m com esta entrevista, espero que as pessoas comecem a conhecer as Comiss\u00f5es, a experimentar, a perceber quem \u00e9 que est\u00e1 por tr\u00e1s, os rostos, as pessoas, o trabalho que est\u00e1 a ser feito, para podermos tamb\u00e9m todos ajudar a divulgar. Mais uma vez, a corresponsabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mais do que um papel de den\u00fancia falava h\u00e1 pouco da toler\u00e2ncia zero. As comiss\u00f5es diocesanas podem ser agentes de promo\u00e7\u00e3o deste princ\u00edpio de toler\u00e2ncia zero, que tem sido assumido pela hierarquia cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s somos Igreja e quando o Presidente da CEP (Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa) diz toler\u00e2ncia zero, n\u00f3s queremos tamb\u00e9m dizer a mesma mensagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9, como \u00e9 que essa cultura se vai implementando porque n\u00f3s os 3 sabemos muito bem o que s\u00e3o as Comiss\u00f5es e pode haver ouvintes que n\u00e3o saibam. \u00c9 um trabalho multidisciplinar, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, em 2019 o Papa e exigiu a cada diocese, portanto, a cada bispo que criasse uma Comiss\u00e3o para acolher as den\u00fancias, acolher as v\u00edtimas para as acompanhar e tamb\u00e9m para fazer este trabalho de preven\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o dos agentes pastorais do clero, de todas as pessoas que est\u00e3o na igreja.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que cada bispo na sua diocese foi mais ou menos livre para constituir uma comiss\u00e3o, uma Comiss\u00e3o diocesana.<\/p>\n<p>Todas as comiss\u00f5es s\u00e3o equipas multidisciplinares, s\u00e3o pessoas que trabalham noutras \u00e1reas, portanto, dentro da \u00e1rea da sa\u00fade mental, da \u00e1rea do direito, da \u00e1rea dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica, etc., de v\u00e1rias \u00e1reas. E estas pessoas re\u00fanem normalmente uma vez por m\u00eas, e discutem n\u00e3o apenas os processos que est\u00e3o a acompanhar, mas tamb\u00e9m formas de mudar a mentalidade, mudar esta cultura que antes era de protecionismo e de obscurantismo, mudar para uma cultura de cuidado, transpar\u00eancia de toler\u00e2ncia zero.<\/p>\n<p>Cada diocese tem um bocadinho o seu ritmo, tem a sua cultura, tem as suas tradi\u00e7\u00f5es. Portanto, n\u00e3o estamos ainda todos a falar a uma s\u00f3 voz, no mesmo ritmo e aqui, temos tamb\u00e9m de encontrar o olhar Misericordioso de Deus e este amor incondicional de cada um est\u00e1 a fazer o<\/p>\n<p>seu ritmo e o melhor que pode dentro das suas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Aqui penso que compete um bocadinho quer \u00e0 CEP, quer \u00e0 equipa de coordena\u00e7\u00e3o nacional, promover a motiva\u00e7\u00e3o e promover aqui uma homogeneiza\u00e7\u00e3o dos procedimentos das atividades que est\u00e3o a ser feitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O apoio psicol\u00f3gico e psicoterap\u00eautico das v\u00edtimas \u00e9 certamente uma prioridade. O psiquiatra Daniel Sampaio volto a cit\u00e1-lo, disse numa entrevista recente \u00e0 Renascen\u00e7a e ao P\u00fablico que \u00e9 preciso uma via verde no Servi\u00e7o nacional de sa\u00fade para as v\u00edtimas de abuso sexual. As comiss\u00f5es diocesanas est\u00e3o a preparar uma resposta conjunta neste?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Algumas das dioceses j\u00e1 tinham respostas, nomeadamente em Coimbra. O que acontece \u00e9 que h\u00e1 algumas comiss\u00f5es que disseram no dia 4 de Fevereiro, no encontro nacional, que existiram algumas comiss\u00f5es que disseram, porque nas zonas onde est\u00e3o a sa\u00fade, se calhar, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o privilegiada, &#8211; zonas mais de interior &#8211; que tinham mais dificuldade em encaminhar as v\u00edtimas e as fam\u00edlias das v\u00edtimas e tamb\u00e9m os agressores E a aquilo que a equipa de coordena\u00e7\u00e3o nacional disse \u00e9 que ia tentar criar uma bolsa nacional que pudesse dar resposta \u00e0s zonas com menos capacidade. Concordo com o Doutor Daniel Sampaio quando diz essa via verde do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Da minha experi\u00eancia de vida, que n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o grande; \u00e9 que nem sempre o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade se disponibiliza para criar assim grandes vias Verdes. Portanto, \u00e0s vezes \u00e9 mesmo preciso criar respostas paralelas.\u00a0N\u00e3o parece mal que, por exemplo, que as comiss\u00f5es diocesanas possam pagar o acompanhamento em psicoterapia que est\u00e1 a ser feito por t\u00e9cnicos especializados e que d\u00e1 uma resposta, se calhar de mais adequada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sim essa ali\u00e1s, \u00e9 uma das quest\u00f5es do relat\u00f3rio em parte pelo menos\u2026.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 outra quest\u00e3o que tem sido at\u00e9 bastante badalada na opini\u00e3o p\u00fablica, que \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o dos alegados abusadores ainda vivos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Duas quest\u00f5es: o tratamento destes casos \u00e9 uma prioridade para quem integra comiss\u00f5es diocesanas? e a segunda \u00e9 que interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica \u00e9 poss\u00edvel fazer junto destes agressores?<\/em><\/p>\n<p>Sim, s\u00e3o 2 quest\u00f5es muito boas. Primeiro que tudo \u00e9 preciso, de facto, identificar. Identificar e mais uma vez, a quest\u00e3o da toler\u00e2ncia zero. Portanto, se est\u00e3o no ativo e se h\u00e1 den\u00fancias, ent\u00e3o isto tem de ser primeiro que tudo, encaminhado para os \u00f3rg\u00e3os de decis\u00e3o que aqui j\u00e1 n\u00e3o passa pelas comiss\u00f5es como sabem.<\/p>\n<p>E a\u00ed nas dioceses existe a possibilidade &#8211; eu n\u00e3o sei os termos t\u00e9cnicos &#8211; mas existe a possibilidade de suspens\u00e3o enquanto est\u00e1 a decidir o processo, enquanto est\u00e1 a fazer averigua\u00e7\u00e3o do processo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou da parte do direito, nem can\u00f3nico, nem criminal. Portanto n\u00e3o sei a terminologia, mas existe essa possibilidade exatamente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Sim, mas \u00e9 uma suspens\u00e3o preventiva, enquanto.\u00a0corre o processo&#8230;..<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o. A segunda quest\u00e3o tem a ver com acompanhamento terap\u00eautico. S\u00f3 compete a um tribunal for\u00e7ar. Ou seja, imagine que uma pessoa n\u00e3o quer fazer terapia, ent\u00e3o n\u00f3s n\u00e3o podemos for\u00e7ar, s\u00f3 um juiz \u00e9 que pode for\u00e7ar a terapia, n\u00e3o \u00e9. Normalmente aquilo que \u00e9 feito \u00e9<\/p>\n<p>uma op\u00e7\u00e3o alternativa a uma pena efetiva a se fazer um tratamento compulsivo. E a\u00ed existem j\u00e1 respostas no terreno e nomeadamente aqui em Coimbra, no Hospital Sobral Cid, existem respostas nesse sentido que acompanham j\u00e1 agressores sexuais que existem na sociedade.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que acontece? Eu acho que tem de haver aqui tamb\u00e9m quando eu falo de uma cultura de cuidado, \u00e9 tamb\u00e9m neste sentido.\u00a0N\u00f3s temos de olhar para os abusadores n\u00e3o como monstros, mas como pessoas que precisam de apoio e se todos n\u00f3s conseguirmos perceber esta necessidade de apoiar, podemos at\u00e9 ser n\u00f3s, dentro do poss\u00edvel, a sensibilizar a necessidade de apoio e de psicoterapia para todos os agressores. Neste sentido de apoio. N\u00e3o \u00e9 no sentido punitivo, mas no de reconstru\u00e7\u00e3o de apoio.\u00a0E como tamb\u00e9m j\u00e1 ouviram falar o Doutor Rui Abrunhosa, entre outros, que s\u00e3o especialistas na mat\u00e9ria &#8211; eu n\u00e3o sou especialista nesta mat\u00e9ria &#8211; mas aquilo que n\u00f3s sabemos \u00e9 que h\u00e1 muitas dificuldades, mas existem processos que s\u00e3o poss\u00edveis de fazer e que t\u00eam possibilidade de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a caminhar para o final da nossa entrevista. H\u00e1 ainda 2 ou 3 quest\u00f5es. Faz sentido falar na cria\u00e7\u00e3o de uma nova Comiss\u00e3o independente com membros externos para prosseguir o acompanhamento dos novos casos?<\/em><\/p>\n<p>Depende dos objetivos. Se o objetivo for o acompanhamento dos casos, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a continuidade da Comiss\u00e3o independente, porque a Comiss\u00e3o independente serviu aqui para um estudo at\u00e9 muito sociol\u00f3gico e muito com base na estat\u00edstica. A Comiss\u00e3o independente n\u00e3o fez acompanhamento das v\u00edtimas. Quem \u00e9 suposto fazer esse acompanhamento s\u00e3o as comiss\u00f5es diocesanas que j\u00e1 existem e que est\u00e3o no terreno. Se surgir aqui uma nova figura, aquilo que eu acho que \u00e9 muito importante \u00e9 que a CEP estude quais \u00e9 que seriam as necessidades e os objetivos para criar aqui outra Comiss\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A minha pergunta final tem a ver com o encontro de 3 de mar\u00e7o, a reuni\u00e3o da Confer\u00eancia Episcopal portuguesa, uma Assembleia plen\u00e1ria extraordin\u00e1ria para analisar o relat\u00f3rio. Ao longo da semana t\u00eam-se multiplicado as declara\u00e7\u00f5es de bispos a falar de uma realidade triste que os envergonha. Espera que este encontro seja j\u00e1 um ponto de viragem para a forma de enfrentar o fen\u00f3meno?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, eu acho que sim. Eu acho que a Igreja acordou, este dia 13 de fevereiro surgiu, um bocadinho, como um murro no est\u00f4mago para muitas pessoas.<\/p>\n<p>Acho, de facto, que os senhores bispos est\u00e3o muito conscientes desta situa\u00e7\u00e3o e est\u00e3o mesmo com muita vontade para mudar esta mentalidade. A partir deles e a partir de deste momento, eu acredito que haja possibilidades para nascer uma nova forma de estar na Igreja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa semana marcada pela divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente para o Estudo do Abuso de Crian\u00e7as na Igreja Portuguesa, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Marta Neves, que coordena a Comiss\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o de Menores e Adultos Vulner\u00e1veis da Diocese de Coimbra e que tamb\u00e9m integra a coordena\u00e7\u00e3o nacional das comiss\u00f5es diocesanas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":272006,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[94],"class_list":["post-272076","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-protecao-de-menores"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=272076"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272076\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/272006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=272076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=272076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=272076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}