{"id":27179,"date":"2007-09-25T12:09:12","date_gmt":"2007-09-25T12:09:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/09\/25\/o-vulcao-na-primeira-pessoa\/"},"modified":"2007-09-25T12:09:12","modified_gmt":"2007-09-25T12:09:12","slug":"o-vulcao-na-primeira-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-vulcao-na-primeira-pessoa\/","title":{"rendered":"O Vulc\u00e3o na primeira pessoa"},"content":{"rendered":"<p>O dia 27 de Setembro de 1957 ficar\u00e1 na hist\u00f3ria do povo a\u00e7oriano e, mais concretamente, da Ilha do Faial. O vulc\u00e3o dos Capelinhos come\u00e7ou a sua saga temorosa que se prolongou por v\u00e1rios meses. Quando deu os primeiros sinais, Monsenhor J\u00falio Rosa estava em Lisboa, mas voltou no final desse m\u00eas para a ilha.   Nesses dias \u2013 relatou \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA o p\u00e1roco de Nossa Senhora das Ang\u00fastias \u2013 organizaram-se, na freguesia do Capelo, \u201cv\u00e1rias peregrina\u00e7\u00f5es com a imagem de S. Mateus, santo de grande devo\u00e7\u00e3o daqueles habitantes\u201d. A peregrina\u00e7\u00e3o de S. Mateus \u201ccontinua a realizar-se todos os anos mesmo depois do vulc\u00e3o ser dado como extinto\u201d. Da igreja do paroquial at\u00e9 ao canto do capelo dista cerca de 2 quil\u00f3metros. Durante o percurso \u201cas pessoas rezavam e pediam a Deus que acalmasse o vulc\u00e3o\u201d \u2013 disse Monsenhor J\u00falio Rosa. Do outro lado da freguesia, o povo \u2013 \u201cliderado pela tia Joaquina, senhora muito piedosa que ensinava catequese \u00e0s crian\u00e7as\u201d \u2013 levou consigo \u201ca coroa do Esp\u00edrito Santo\u201d. Quando chegaram perto do fen\u00f3meno da natureza \u201clevantaram a coroa e pediram ao Esp\u00edrito Santo que terminasse com o terror\u201d \u2013 disse o actual p\u00e1roco de Nossa Senhora das Ang\u00fastias, na cidade da Horta. O Vulc\u00e3o dos Capelinhos, situa-se na Ponta dos Capelinhos, freguesia do Capelo, na Ilha do Faial. O nome Capelinhos deve-se \u00e0 exist\u00eancia de 2 ilh\u00e9us (Ilh\u00e9us dos Capelinhos) e insere-se no complexo vulc\u00e2nico do Capelo, constituido por cerca de 20 cones de esc\u00f3rias e respectivos derrames l\u00e1vicos. Este manteve-se em actividade de Setembro de 1957 a Outubro de 1958. A crise s\u00edsmica, associada \u00e0 erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica e \u00e0 queda de cinzas e materiais de projec\u00e7\u00e3o, provocaram a destrui\u00e7\u00e3o generalizada das habita\u00e7\u00f5es e dos campos das freguesias do Capelo e da Praia do Norte. Actualmente, o Vulc\u00e3o dos Capelinhos encontra-se inactivo. No Cabe\u00e7o Norte existe uma pequena fenda que \u00e9 o respiradouro do vulc\u00e3o. <b>Constantes sobressaltos<\/b> Desde o dia 17 de Setembro desse ano que a popula\u00e7\u00e3o vivia em constante sobressalto e com as pernas a tremer. Alguns dos cerca de 200 sismos de baixa intensidade que se sentiram na ilha abriram fendas nas paredes das casas. \u201cMuitos deles fugiram logo para a cidade da Horta e outros para a Ilha do Pico\u201d \u2013 sublinha o p\u00e1roco octogen\u00e1rio. E acrescenta: \u201cPrimeiro, o vulc\u00e3o rebentou no mar s\u00f3 depois se ligou \u00e0 terra. A ilha aumentou cerca de cinco quil\u00f3metros quadrados\u201d.  A 27 de Setembro, iniciou-se uma erup\u00e7\u00e3o submarina a 300 metros da Ponta dos Capelinhos. A partir de 3 de Outubro, as explos\u00f5es de piroclastos e a erup\u00e7\u00e3o, evolu\u00edu formando primeiro uma ilha a 10 de Outubro, chamada \u00abIlha Nova\u00bb (e ainda, por \u00abIlha do Esp\u00edrito Santo\u00bb ou \u00abIlha dos Capelinhos\u00bb), com 800 metros de di\u00e2metro e 99 metros de altura, ficando com a cratera aberta ao mar. Com o aparecimento de um istmo (por\u00e7\u00e3o de terra estreita cercada por \u00e1gua em dois lados e que conecta duas grandes extens\u00f5es de terra), a fim de poucos meses, a ilha liga-se \u00e0 Ilha do Faial.  Nos dias seguintes e ap\u00f3s as primeiras explos\u00f5es, a ilha recebeu muitos turistas. \u201cMuitos deles vieram comigo no barco que me trouxe at\u00e9 \u00e0 cidade da Horta\u201d \u2013 real\u00e7a Mons. J\u00falio Rosa. Na primeira fase, o vulc\u00e3o projectava muita lava que subia a grande altitude. \u201cO fumo era frequente mas eram cenas empolgantes\u201d. O povo da ilha, sobretudo da cidade da Horta, ia \u201cvisualizar os acontecimentos\u201d mas \u201cera proibido avan\u00e7ar at\u00e9 muito perto\u201d. Os furores da terra n\u00e3o lhes eram estranhos, em especial os abalos que com grande frequ\u00eancia lhes fazem tremer as casas. Escreveu Vitorino Nem\u00e9sio: \u201cA geografia, para n\u00f3s, vale tanto como a hist\u00f3ria, e n\u00e3o \u00e9 debalde que as nossas recorda\u00e7\u00f5es escritas inserem dos cinquenta por cento de relatos de sismos e enchentes. Como as sereias temos uma dupla natureza: somos de carne e pedra. Os nossos ossos mergulham no mar\u201d. <b>Noite dolorosa de 12 de Maio<\/b> Em Novembro de 1957, aumentou progressivamente a actividade atingindo o seu m\u00e1ximo na primeira quinzena de Dezembro. Nos primeiros meses do ano seguinte, as erup\u00e7\u00f5es do vul\u00e7\u00e3o dos capelinhos mantiveram-se em actividade constante. Enquanto os peregrinos de F\u00e1tima celebravam, no Santu\u00e1rio Mariano, mais um anivers\u00e1rio das apari\u00e7\u00f5es, os habitantes da Ilha do Faial viveram os dias 12 e 13 de Maio 58 em permanente sobressalto. \u201cO vulc\u00e3o come\u00e7ou a expelir jactos de lava com cerca de 40 metros de altura\u201d \u2013 afirmou Mons. J\u00falio Rosa. E avan\u00e7a: \u201cEra um chuveiro de fa\u00edscas que iluminavam a noite\u201d. A terra \u201ctremeu imenso\u201d e lava escorria para o mar. A freguesia da Praia do Norte ficou \u201ccompletamente destru\u00edda\u201d e muitas das casas da ilha sofreram com os abalos. \u201cCom os tremores criou-se uma fenda &#8211; com cerca dois metros &#8211; que atravessou a freguesia e ainda se pode ver junto da Caldeira\u201d. Com o p\u00e2nico, os habitantes das terras circundantes ao vulc\u00e3o come\u00e7aram a fugir, mas \u201clevavam consigo umas estampas religiosas e uns crucifixos\u201d. As freguesias vizinhas acolheram-nas. \u201cMuitas pessoas da ilha dormiam na rua porque tinham medo que as casas ca\u00edssem. A ilha do Faial estava continuamente a baloi\u00e7ar\u201d \u2013 recorda o sacerdote faialense. Numa das par\u00f3quias da cidade da Horta cantavam-se as novenas de Maio. \u201cAs pessoas ficaram assustadas com os constantes abalos e pararam de cantar\u201d. O Pe. Medeiros tentou transmitir calma, mas as pessoas fugiram para a Pra\u00e7a do Infante ou para os quintais de suas casas porque tinham medo. \u201cNessa noite tamb\u00e9m dormi no quintal. N\u00e3o choveu mas a terra tremia constantemente\u201d \u2013 lembra. <b>Acalmar a popula\u00e7\u00e3o<\/b> Pela Meia-Noite sentiu-se \u201cum berro, uma explos\u00e3o da ilha\u201d. No fundo da Caldeira rebentou um buraco onde \u201csa\u00eda cinza que cobriu a Caldeira e as zonas circundantes.  Ficou tudo negro\u201d \u2013 afirmou o Mons. J\u00falio Rosa. Passados tr\u00eas dias, o nosso interlocutor foi, com um amigo, ver os estragos. No fundo da caldeira estava \u201cum buraco a fumegar e a \u00e1gua da caldeira tinha desaparecido\u201d.  Na altura, o jovem padre pediu ao Governador Civil, Ant\u00f3nio Freitas Pimentel, que organizasse grupos para acalmar as pessoas. \u201cNa cidade da Horta n\u00e3o havia espa\u00e7o para tantos faialenses\u201d. Nos v\u00e1rios trajectos, as pessoas caminhavam pelo meio da rua porque tinham medo que as casas ca\u00edssem. \u201cMuita gente come\u00e7ou a fugir para a Ilha do Pico\u201d \u2013 contou. Na abertura do ba\u00fa das suas mem\u00f3rias, Monsenhor J\u00falio Rosa real\u00e7a tamb\u00e9m que  o Eng. Frederico Machado lhe pediu para transmitir ao Ant\u00f3nio Freitas Pimentel que ordenasse grupos para retirar as pessoas do Capelo e da Praia do Norte porque \u201co ch\u00e3o estava a abrir\u201d. E completa: \u201cApareceram muitas fendas\u201d. Transmitido o pedido, o padre faialense \u00abmeteu-se\u00bb na furgoneta com o Casimiro \u2013 \u201csenhor do continente que se estabeleceu aqui na ilha\u201d \u2013 e come\u00e7aram a recolher pessoas e bens. \u201cQuando chegaram \u00e0 freguesia de Castelo Branco come\u00e7ou a aparecer uma chuva miudinha e um nevoeiro. \u201cNa Lombada, junto a Castelo Branco, come\u00e7amos a encontrar grupos de pessoas, acompanhados por crucifixos e quadros religiosos, que rezavam com imenso fervor\u201d \u2013 sublinha. Na aldeia do Capelo estavam muitos idosos de joelhos junto \u00e0s Coroas do Esp\u00edrito Santo a \u201cpedir a Deus que terminasse com aquele terror\u201d. E avan\u00e7a: \u201cEnchemos o carro com as pessoas mais idosas e doentes. <b>Temor a Deus<\/b> Depois da celebra\u00e7\u00e3o do dia 13 de Maio, o Pe. J\u00falio Rosa foi com o Pe. Henrique buscar \u201co Sant\u00edssimo \u00e0 Igreja do Capelo\u201d. Daquela igreja \u201ccompletamente negra\u201d retiraram tamb\u00e9m as \u201calfaias lit\u00fargicas e a imagem de S. Mateus\u201d. Na Praia do Norte, a igreja j\u00e1 tinha \u201cca\u00eddo\u201d mas \u201ca Senhora da Dores &#8211; imagem alta do escultor Lapa, do Porto, de 1910 &#8211;  ficou intacta\u201d. A terra continuava aos solavancos mas durante a viagem \u201crecolhemos muitas imagens de santos\u201d. Passados 50 anos, Monsenhor J\u00falio Rosa recorda os acontecimentos como se fossem de ontem. Naquelas ocasi\u00f5es \u201cn\u00e3o temos mais ningu\u00e9m para recorrer sen\u00e3o a Deus\u201d. Depois de terminada a f\u00faria do vulc\u00e3o, as pessoas come\u00e7aram a ter uma grande devo\u00e7\u00e3o \u201cao Senhor Santo Cristo da Praia de Almoxarife\u201d. E acrescenta: \u201c\u00c9 o chamado temor a Deus\u201d. Foram treze meses de grande sofrimento. Na altura, a ilha do Faial tinha cerca de 27 mil habitantes e \u201cveio parar aos 15 mil\u201d. E lamenta: \u201ca Ilha do Faial est\u00e1 diferente porque naquele tempo n\u00e3o havia a indiferen\u00e7a religiosa que temos hoje\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 27 de Setembro de 1957 ficar\u00e1 na hist\u00f3ria do povo a\u00e7oriano e, mais concretamente, da Ilha do Faial. O vulc\u00e3o dos Capelinhos come\u00e7ou a sua saga temorosa que se prolongou por v\u00e1rios meses. Quando deu os primeiros sinais, Monsenhor J\u00falio Rosa estava em Lisboa, mas voltou no final desse m\u00eas para a ilha. 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