{"id":271147,"date":"2023-02-12T09:31:29","date_gmt":"2023-02-12T09:31:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=271147"},"modified":"2023-02-11T21:57:26","modified_gmt":"2023-02-11T21:57:26","slug":"abusos-igreja-dizer-os-casos-estao-prescritos-nao-ha-nada-a-fazer-seria-uma-machadada-na-reputacao-ricardo-barroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/abusos-igreja-dizer-os-casos-estao-prescritos-nao-ha-nada-a-fazer-seria-uma-machadada-na-reputacao-ricardo-barroso\/","title":{"rendered":"Abusos\/Igreja: \u00abDizer &#8216;os casos est\u00e3o prescritos, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer&#8217; seria uma machadada na reputa\u00e7\u00e3o\u00bb &#8211; Ricardo Barroso"},"content":{"rendered":"<p><em>Presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Psicologia da Justi\u00e7a acredita que o processo vai permitir \u00e0 Igreja mudar a sua imagem e reputa\u00e7\u00e3o, se avan\u00e7ar com as medidas certas ao n\u00edvel da preven\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, respeitando e valorizando as v\u00edtimas<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em> <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-271148 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"960\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-1080x810.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ricardo_barroso_utad-480x360.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que viu a iniciativa de a Igreja pedir esta investiga\u00e7\u00e3o a uma comiss\u00e3o independente? E como \u00e9 que acompanhou o processo e a metodologia que foi seguida?<\/em><\/p>\n<p>Tenho uma perspetiva muito positiva do trabalho que foi feito pela Comiss\u00e3o, e tenho tamb\u00e9m uma opini\u00e3o muito positiva pelo facto de ter sido organizada e proposta nos moldes em que foi, nomeadamente, por ter sido sempre destacada a independ\u00eancia da Comiss\u00e3o e de todo o processo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um aspeto que gostava de destacar: estas comiss\u00f5es t\u00eam vindo a surgir em v\u00e1rios pa\u00edses, a ideia \u00e9 perceber o que se passa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias de abuso sexual cometidas, nomeadamente por parte de elementos da Igreja Cat\u00f3lica. E v\u00eam procurar &#8211; de uma forma lenta, provavelmente &#8211; fazer justi\u00e7a ao que se tem passado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e que vamos conhecendo, e que \u00e9 um problema transversal e que podemos afirmar, neste momento, que se tornou sist\u00e9mico.<\/p>\n<p>Isto acontece em todas as confiss\u00f5es religiosas, t\u00eam vindo a ser detetados casos tanto em igrejas cat\u00f3licas como em igrejas protestantes. Neste momento h\u00e1 uma discuss\u00e3o p\u00fablica muito intensa nos Estados Unidos em torno da Igreja dos M\u00f3rmons, como \u00e9 habitualmente conhecida &#8211; a Igreja de Jesus Cristo dos Santos \u00daltimos Dias &#8211; em rela\u00e7\u00e3o um conjunto de abusos que sucederam ao longo dos anos. A Igreja Metodista tem tamb\u00e9m alguns problemas noutros pa\u00edses, e a Igreja Batista est\u00e1 a bra\u00e7os com v\u00e1rios problemas no Canad\u00e1 e nos EUA. Isto \u00e9 transversal a muitas outras confiss\u00f5es religiosas. Isto \u00e9 transversal a muitas confiss\u00f5es, porque as igrejas funcionavam da mesma forma. Havia um motivo principal, a prote\u00e7\u00e3o da reputa\u00e7\u00e3o da Igreja, e isso foi sendo considerado priorit\u00e1rio, em detrimento do impacto que isto poderia ter nas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Independentemente do contexto da comunidade religiosa, e do contexto nacional, \u00e9 poss\u00edvel identificar isso?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel identificar, dentro destas igrejas e contextos, circunst\u00e2ncias muito pr\u00f3prias que iam mantendo muitos destes comportamentos de agress\u00e3o sexual. Por um lado, a prioridade sempre foi a reputa\u00e7\u00e3o da Igreja e, com isso, todas as confiss\u00f5es, de alguma forma, descredibilizavam as v\u00edtimas. Havia at\u00e9 alguma intimida\u00e7\u00e3o. Quando muito, havia o afastamento de padres, ou pastores, para outras igrejas, muitas vezes at\u00e9 para miss\u00f5es fora do pa\u00eds &#8211; \u00c1frica, \u00c1sia, Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Depois havia uma circunst\u00e2ncia associada \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9 das pessoas. Em todas estas confiss\u00f5es religiosas destaca-se muitas vezes o perd\u00e3o, como pilar da f\u00e9. Tudo era resolvido com o argumento do perd\u00e3o &#8211; ou que haveria algum problema em quem n\u00e3o perdoasse.<\/p>\n<p>Eu recordo, pelo menos, uma das pessoas que cheguei a ouvir, h\u00e1 uns anos, que dizia que, a partir de certa altura, a m\u00e3e insistiu que tinha havido determinado problema, houve uma esp\u00e9cie de admiss\u00e3o de que o problema tinha ocorrido, mas que tinha de se ultrapassar, com os argumentos todos centralizados na quest\u00e3o da Igreja e da import\u00e2ncia do perd\u00e3o. Houve um momento em que ela n\u00e3o estava a conseguir perdoar, e sentiu uma invers\u00e3o da responsabilidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Este trabalho que foi feito em Portugal, pela Comiss\u00e3o Independente, serviu tamb\u00e9m para fazer essa invers\u00e3o e colocar o \u00f3nus em quem abusou, e n\u00e3o nas v\u00edtimas?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim, ou seja, o trabalho que a Comiss\u00e3o faz &#8211; reconhecendo o valor profissional das pessoas que a integram -, creio que \u00e9 um trabalho correto, isento e independente. E que todas sabiam que a press\u00e3o que iam ter era enorme, e que iria haver desvaloriza\u00e7\u00e3o das den\u00fancias&#8230;<\/p>\n<p>Creio que esse trabalho foi positivo e h\u00e1 aqui tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia, que me parece que foi interessante e propositada, quando em outubro [2022] foi comunicado numa confer\u00eancia de imprensa que a Comiss\u00e3o tinha validado 400 e poucos casos. \u00c9 que h\u00e1 um aspeto no processo de regula\u00e7\u00e3o do abuso sexual, em que as pessoas tipicamente sentem muita desconfian\u00e7a. V\u00e3o revelar a quem? Parte muito da perce\u00e7\u00e3o que t\u00eam, se eventualmente v\u00e3o ser protegidas, se n\u00e3o v\u00e3o ser enxovalhadas ou intimidadas, etc. Creio que a Comiss\u00e3o procurou fazer isso bem, ao deixar ficar claro que as pessoas podiam fazer essa den\u00fancia.<\/p>\n<p>Depois, ao anunciarem que havia 400 e poucos casos validados, entendi isso como uma mensagem, na reta final do funcionamento da Comiss\u00e3o, no sentido de dizer que quem estiver com d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o a isso, n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. Creio que foi essa a mensagem. Confesso que tenho alguma curiosidade em perceber o n\u00famero total de casos que foram detetados, e se nestas \u00faltimas semanas e meses n\u00e3o houve at\u00e9 um aumento deste n\u00famero de casos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sendo que os casos validados foram os recebidos at\u00e9 ao final de outubro. Ou seja, a Comiss\u00e3o pode ter recebido outros casos posteriormente, mas os que analisaram e ser\u00e3o revelados agora, s\u00e3o apenas os que foram encaminhados at\u00e9 essa altura. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, nesta quest\u00e3o dos abusos, fala-se sempre no celibato, h\u00e1 quem insista que \u00e9 uma das causas para os abusos acontecerem. \u00c9 um fator relevante, tendo em conta que referiu h\u00e1 pouco que ocorrem noutras Igrejas onde n\u00e3o h\u00e1 a quest\u00e3o do celibato?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma boa quest\u00e3o. Isto acaba por ser transversal a muitas outras Igrejas. Obviamente, a discuss\u00e3o em torno do celibato, \u00e9 um assunto que diz respeito \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica e ao seu modo de funcionar, confesso que n\u00e3o tenho opini\u00e3o sobre isso\u2026<\/p>\n<p>O que \u00e9 importante destacar \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nenhum estudo que nos diga que os abusos sexuais ocorrem devido ao celibato. Temos de ter a no\u00e7\u00e3o de que estamos a falar de pessoas. Temos casos de abuso sexual praticados por professores, m\u00e9dicos, as mais variadas profiss\u00f5es, e pais, av\u00f3s, elementos da fam\u00edlia. N\u00e3o podemos atribuir ao celibato a responsabilidade por este tipo de atos. O que temos \u00e9 pessoas que, em determinados momentos, t\u00eam problemas ao n\u00edvel da sexualidade. E aqui vai tocar um dos pontos que, para o futuro, parece-me importante olhar: reconhecer que a sexualidade faz parte do ser humano, independentemente de ser religioso ou n\u00e3o, e que em determinados momentos pode haver a necessidade de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias religi\u00f5es, confiss\u00f5es religiosas, t\u00eam de ter esta no\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 pessoas que se envolvem (nas religi\u00f5es) porque isso lhes permite um maior contacto com pessoas ou fam\u00edlias mais fr\u00e1geis, e pode haver esse aproveitamento das situa\u00e7\u00f5es. O que quero dizer \u00e9 que h\u00e1 aqui um padr\u00e3o de funcionamento dos agressores sexuais que tende a ser semelhante, no contexto religioso ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Portanto, seja num contexto educativo ou do desporto, o padr\u00e3o pode ser identificado como sendo o mesmo?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito semelhante. Aquela ideia que muitas vezes se tem, de que o agressor sexual \u00e9 um predador que est\u00e1 ali atr\u00e1s da esquina, \u00e0 espera de atacar a v\u00edtima. Evidentemente que isso acontecer &#8211; e acontece nalguns casos \u2013, mas n\u00e3o corresponde \u00e0 maioria dos casos, e em especial quando estamos a falar de abuso de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que h\u00e1 um padr\u00e3o e uma din\u00e2mica de funcionamento: uma aproxima\u00e7\u00e3o sucessiva, para ganhar a confian\u00e7a da crian\u00e7a ou do adolescente, o que f\u00f4r mais fr\u00e1gil do ponto de vista emocional, ou tenha menos liga\u00e7\u00f5es ao contexto da fam\u00edlia, perceber se podem ter uma ascend\u00eancia sobre a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O processo de abuso, muitas vezes, at\u00e9 \u00e9 continuado e tem caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias, em termos do funcionamento. A partir de certa altura tende a come\u00e7ar a complicar-se, a haver maior culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, responsabilizando-a ao mesmo tempo por aquilo que fez. O padr\u00e3o de funcionamento tende a ser muito semelhante, seja fora da Igreja ou dentro da Igreja.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias em que as Igrejas em si funcionam, de alguma forma, podem proporcionar esse contacto com mais v\u00edtimas. Aquelas circunst\u00e2ncias de que fal\u00e1mos h\u00e1 pouco, da prote\u00e7\u00e3o, da pr\u00f3pria reputa\u00e7\u00e3o, do n\u00e3o levantar muitas ondas, ter uma estrat\u00e9gia de descredibilizar as v\u00edtimas, essa postura protege o agressor. E muitos deles estavam em contextos onde se sentiam protegidos, porque sabiam que, quando muito, no limite dos limites, podiam apenas ser afastados de onde estavam. A \u00fanica diferen\u00e7a que eu consideraria &#8211; de ser fora da Igreja, ou dentro, vamos dividir assim &#8211; era, de facto, as circunst\u00e2ncias da pr\u00f3pria Igreja, que protegiam os agressores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Amanh\u00e3 teremos uma melhor no\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o dos abusos, e \u00e9 preciso olhar para o que se segue. O que \u00e9 que os resultados podem fazer mudar, em primeiro lugar na Igreja, mas tamb\u00e9m na forma como se olha este fen\u00f3meno?<\/em><\/p>\n<p>A Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, na minha opini\u00e3o, est\u00e1 num momento crucial para marcar a diferen\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 em termos nacionais, que evidentemente \u00e9 o que importa. Mas creio, sinceramente, que pode marcar a diferen\u00e7a com o que aconteceu em muitos pa\u00edses. Por um lado, \u00e9 reconhecer que isto aconteceu e, mais importante, reconhecer que isto pode vir a acontecer no futuro. E seguramente vai acontecer no futuro\u2026<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que as entidades s\u00e3o como as pessoas: devem reconhecer o erro, procurar que n\u00e3o se repita, e pedir desculpa quando necess\u00e1rio. E este \u00e9 um aspeto importante. E mais do isso, haver esta prepara\u00e7\u00e3o para o futuro, com forma\u00e7\u00e3o interna sobre o que \u00e9 que \u00e9 o abuso sexual, os elementos da Igreja Cat\u00f3lica perceberem como \u00e9 que funcionam tipicamente os agressores, que cuidados \u00e9 que devem ser tomados, e que h\u00e1 pessoas que se envolvem nas igrejas precisamente com este tipo de inten\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O cuidado ao n\u00edvel da preven\u00e7\u00e3o tem de se uma prioridade?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3, mas tamb\u00e9m. Infelizmente n\u00e3o podemos afirmar, seja em que contexto f\u00f4r, que se reconhece o problema e n\u00e3o vai voltar a acontecer. N\u00e3o acredito. Tem de haver este trabalho de preven\u00e7\u00e3o, assumir que a sexualidade \u00e9 um tema que tem de ser abordado como qualquer outro, e que as igrejas, pelas suas caracter\u00edsticas, muitas vezes podem levar a que algumas pessoas se envolvam no seu funcionamento, com outro tipo de inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 um pensamento que muitas vezes surge em muitas igrejas &#8211; seguramente j\u00e1 ouviram &#8211; que \u00e9: &#8216;aqui n\u00e3o h\u00e1 disso&#8217;. Seja na igreja da aldeia x, da vila y ou da cidade z, muitas vezes \u00e9 isto: &#8216;isso n\u00e3o h\u00e1 c\u00e1&#8217;. N\u00e3o, n\u00e3o! Pode eventualmente um dia vir a acontecer! E tem de haver esta forma\u00e7\u00e3o interna, dos pr\u00f3prios membros da Igreja cat\u00f3lica, sobre o abuso sexual, como \u00e9 que funcionam os agressores, desenvolver planos de seguran\u00e7a, e quando houver queixas, qual \u00e9 o fluxo e o seguimento que t\u00eam de ter. Tudo isto \u00e9 importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos muito do acompanhamento das v\u00edtimas, que \u00e9 uma quest\u00e3o central. E o acompanhamento dos agressores, de quem cometeu os abusos? O que \u00e9 que \u00e9 preciso fazer? Como \u00e9 que se pode evoluir neste campo? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma boa quest\u00e3o. Creio que tamb\u00e9m a\u00ed tem de ser assumido que podem estar envolvidos em qualquer igreja, e que t\u00eam necessidade de fazer este acompanhamento psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Neste momento existem um conjunto de interven\u00e7\u00f5es que t\u00eam vindo a ser testadas com uma efic\u00e1cia bastante significativa, que permitem que estas pessoas possam recorrer a ajuda t\u00e9cnica, atualmente at\u00e9 online e por v\u00eddeo confer\u00eancia. Aquilo que queremos com muitas destas interven\u00e7\u00f5es, at\u00e9 \u00e9 ao n\u00edvel da preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. E tamb\u00e9m isto pode fazer parte destas forma\u00e7\u00f5es internas de que fal\u00e1vamos h\u00e1 pouco: haver um n\u00famero, um contacto, que \u00e9 poss\u00edvel que ocorra de forma an\u00f3nima, mas que haja uma resposta, &#8216;se lhe acontecer isto e isto, pode recorrer a esta ajuda&#8217;.<\/p>\n<p>Com isto, o que pretendemos \u00e9 que nunca venha a ocorrer o epis\u00f3dio de abuso, \u00e9 mesmo num n\u00edvel de preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 envolvido num projeto internacional, de preven\u00e7\u00e3o da pedofilia, o &#8216;Troubled Desire&#8217;, que d\u00e1 apoio a pessoas que se sintam sexualmente atra\u00eddas por menores. Trouxe este programa para Portugal. Em que ponto est\u00e1?<\/em><\/p>\n<p>O programa j\u00e1 est\u00e1 a funcionar. Se consultarem o site www.troubled-desire.com, que tem vers\u00e3o em portugu\u00eas, v\u00e3o encontrar essa informa\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel, atrav\u00e9s de uma conversa de Chat, totalmente an\u00f3nima \u2013 deixem-se dizer que o site est\u00e1 sitiado no contexto alem\u00e3o onde, devido a quest\u00f5es legais e do pr\u00f3prio processo, a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente an\u00f3nima.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de um chat, de um registo que a pessoa pode fazer, encontra uma ajuda psicol\u00f3gica e psiqui\u00e1trica tamb\u00e9m, ou um encaminhamento para uma consulta especializada mais tarde. Portanto, j\u00e1 est\u00e1 a funcionar. No futuro vai ter uma outra vertente, um sistema de intelig\u00eancia artificial que vai estar associado \u00e0s pr\u00f3prias respostas, n\u00e3o \u00e9 um computador que conversa com as pessoas, \u00e9 um profissional, o que vai \u00e9 aumentar a velocidade e capacidade de resposta. Desde que o processo est\u00e1 a funcionar em l\u00edngua portuguesa, temos tido muito mais intera\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o brasileira, ou de outros pa\u00edses de l\u00edngua oficial portuguesa, do que propriamente do contexto nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 apoiaram muitas pessoas?<\/em><\/p>\n<p>No espa\u00e7o de um ano e meio foram 26 pessoas envolvidas no processo de interven\u00e7\u00e3o. Umas s\u00f3 estiveram numa primeira fase, depois as coisas estabilizaram e ficou uma porta aberta para o caso de surgir mais tarde alguma quest\u00e3o. Outras fizeram um primeiro contacto, mas optaram por uma interven\u00e7\u00e3o presencial e foram encaminhadas para especialistas na \u00e1rea. Mas, esta \u00e9 uma possibilidade de resposta a estas pessoas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Porque, de facto, n\u00e3o h\u00e1 muitas respostas e n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil um agressor procurar ajuda&#8230;<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. Ali\u00e1s, uma das quest\u00f5es que pomos nas primeiras intera\u00e7\u00f5es que temos \u00e9: &#8216;mas, alguma vez falou sobre isto a algu\u00e9m?&#8217;. E n\u00e3o. E muitas vezes s\u00e3o pessoas casadas, at\u00e9 com bons contactos familiares, mas nunca falaram, nem com irm\u00e3os, nem com companheiras ou companheiros, n\u00e3o falaram com rigorosamente ningu\u00e9m, at\u00e9 porque \u00e9 um assunto em que claramente h\u00e1 a probabilidade de serem criticados, colocados de lado, das outras pessoas n\u00e3o entenderem.<\/p>\n<p>Na verdade, para quem ouve, este \u00e9 um assunto muito dif\u00edcil de ouvir. Pensar em pessoas depravadas do ponto de vista mental, predadores sexuais, a maioria n\u00e3o \u00e9, a maioria s\u00e3o pessoas que est\u00e3o perfeitamente integradas na sua vida pessoal e profissional, t\u00eam \u00e9 um conjunto de conex\u00f5es sexuais &#8211; pensamentos, aquilo que do ponto de vista t\u00e9cnico, chamamos fantasias sexuais &#8211; que as ativa para aquele est\u00edmulo, que \u00e9 desviante, n\u00e3o pode acontecer e que necessita de algum acompanhamento para esse controle de impulsos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Antecipando j\u00e1 a divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio pela Comiss\u00e3o Independente, e a confer\u00eancia de imprensa de resposta dos bispos portugueses, acredita que este pode ser um momento de mudan\u00e7a, de viragem?<\/em><\/p>\n<p>Acredito que sim, sinceramente. Por um conjunto de mensagens, umas mais claras, outras menos, que foram ocorrendo nos \u00faltimos meses, acredito que vai mudar, que se vai come\u00e7ar a olhar para as v\u00edtimas mais do que pensar na reputa\u00e7\u00e3o da Igreja, sendo que essa reputa\u00e7\u00e3o da Igreja, na minha opini\u00e3o, vai subir consideravelmente da forma como a Igreja olha para as v\u00edtimas. Isto ao longo do tempo, s\u00e3o coisas que demoram d\u00e9cadas, muitas vezes.<\/p>\n<p>Enfim, isto \u00e9 como as pessoas&#8230; a reputa\u00e7\u00e3o das pessoas demora muito tempo a ser constru\u00edda e neste momento, claramente, h\u00e1 aqui um impacto na reputa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica, mas seguramente, se forem tomados um conjunto de passos e as pessoas vejam que as v\u00edtimas s\u00e3o respeitadas, e h\u00e1 acompanhamento, creio que \u00e9 muito importante. Se me perguntar o que \u00e9 que de pior a Igreja pode fazer para estragar isto tudo? Na minha opini\u00e3o \u00e9 proteger-se em torno da prescri\u00e7\u00e3o dos casos.\u00a0 Espero que n\u00e3o aconte\u00e7a. O pior seria dizer &#8216;os casos est\u00e3o prescritos, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer&#8217;. Seria uma machadada na reputa\u00e7\u00e3o. Isto infelizmente acontece na criminalidade em geral, e na criminalidade sexual, mas n\u00e3o pode acontecer na Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No caso do Direito Can\u00f3nico, a prescri\u00e7\u00e3o tem uma abordagem diferente da lei civil portuguesa, e \u00e9 sempre pass\u00edvel de ser contornada. H\u00e1 uma quest\u00e3o que tem a ver com o facto de a Comiss\u00e3o Independente acabar o seu trabalho, com a apresenta\u00e7\u00e3o deste relat\u00f3rio. Seria desej\u00e1vel alargar este trabalho, ou um trabalho semelhante ao desta Comiss\u00e3o, de recolha de testemunhos e reflex\u00e3o, a toda a sociedade portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza que sim. Creio que h\u00e1 aqui um conjunto de li\u00e7\u00f5es que vamos aprendendo. H\u00e1 estudos comunit\u00e1rios que t\u00eam vindo a ser feitos nos \u00faltimos anos, e vamos conhecendo o terreno desde a adolesc\u00eancia at\u00e9 aos adultos. Vamos conhecendo o fen\u00f3meno da viol\u00eancia sexual e a sua ocorr\u00eancia em Portugal. Este tipo de comiss\u00f5es permite, de uma forma independente, isenta e profissional, outro tipo de acolhimento das pr\u00f3prias queixas.<\/p>\n<p>Neste processo deixe-me reconhecer o trabalho que a APAV (Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio \u00e0 V\u00edtima) tem vindo a fazer nos \u00faltimos anos, como institui\u00e7\u00e3o e contacto privilegiado, de acolhimento das pr\u00f3prias v\u00edtimas, do seu encaminhamento jur\u00eddico e acompanhamento t\u00e9cnico, psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico, em alguns casos. Portanto, eu diria que em Portugal j\u00e1 tem vindo a acontecer, h\u00e1 alguns anos, no caso da APAV. Mas, creio que h\u00e1 a necessidade de um trabalho mais apurado do pr\u00f3prio Estado em todo este processo.<\/p>\n<p>No acompanhamento que \u00e9 feito aos agressores sexuais, uma coisa interessante \u00e9 que os tribunais &#8211; os ju\u00edzes e os magistrados &#8211; ficaram consciencializados e com uma ideia muito mais clara, at\u00e9 pelas forma\u00e7\u00f5es internas que foram ocorrendo, da necessidade de interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica junto destes indiv\u00edduos. Ou seja, n\u00e3o era mand\u00e1-los para a pris\u00e3o que ia resolver o assunto. Em muitos casos tem de ser, evidentemente, mas em muitos outros \u00e9 poss\u00edvel fazer este seguimento na comunidade. O problema \u00e9 para onde enviar, e aquilo que temos neste momento \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o que \u00e9 feita de uma forma muito deficit\u00e1ria. Posso dizer que s\u00f3 nas grandes cidades do pa\u00eds \u00e9 que vai havendo este acompanhamento, que n\u00e3o existe noutras localidades ou regi\u00f5es. Este \u00e9 um problema.<\/p>\n<p>Todo este trabalho que a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 a fazer, e as suas consequ\u00eancias, devem-nos fazer pensar no futuro, reconhecer o que est\u00e1 bem e, evidentemente, alterar para melhor, em termos de acompanhamento t\u00e9cnico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Psicologia da Justi\u00e7a acredita que o processo vai permitir \u00e0 Igreja mudar a sua imagem e reputa\u00e7\u00e3o, se avan\u00e7ar com as medidas certas ao n\u00edvel da preven\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, respeitando e valorizando as v\u00edtimas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":271148,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[94],"class_list":["post-271147","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-protecao-de-menores"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=271147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271147\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=271147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=271147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=271147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}