{"id":27010,"date":"2007-09-17T12:46:48","date_gmt":"2007-09-17T12:46:48","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/09\/17\/em-cristo-a-liberdade-a-alegria-e-a-misericordia\/"},"modified":"2007-09-17T12:46:48","modified_gmt":"2007-09-17T12:46:48","slug":"em-cristo-a-liberdade-a-alegria-e-a-misericordia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/em-cristo-a-liberdade-a-alegria-e-a-misericordia\/","title":{"rendered":"<i>Em Cristo a liberdade, a alegria e a miseric\u00f3rdia<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Carta pastoral de in\u00edcio de ano pastoral de D. Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santar\u00e9m <!--more-->  1. Unidade e novidade na ac\u00e7\u00e3o da Igreja Amados fi\u00e9is da nossa diocese de Santar\u00e9m: A Gra\u00e7a e a Paz do Senhor estejam convosco! Ao iniciar o novo ano pastoral de 2007\/2008, sa\u00fado-vos fraternalmente e dirijo-vos, como nos anos anteriores, uma Carta Pastoral para apresentar um plano de ac\u00e7\u00e3o que d\u00ea unidade e novidade \u00e0s actividades da Igreja nas v\u00e1rias par\u00f3quias e nos organismos diocesanos. Desejo que estas propostas contribuam para a vossa forma\u00e7\u00e3o e ajudem a aprofundar a actualidade do evangelho face aos desafios sempre novos da nossa \u00e9poca. Agrade\u00e7o toda a aten\u00e7\u00e3o e a generosa colabora\u00e7\u00e3o prestada e pe\u00e7o ao Senhor que aceite e fa\u00e7a frutificar o nosso humilde contributo para o crescimento do Seu Reino. Ofere\u00e7o este documento aos crist\u00e3os empenhados na miss\u00e3o da Igreja: presb\u00edteros, di\u00e1conos, religiosos (as), consagrados (as), leigos respons\u00e1veis por actividades apost\u00f3licas (colaboradores na catequese, na liturgia, na caridade, membros dos Conselhos pastorais ou econ\u00f3micos, ou de outros servi\u00e7os da comunidade crist\u00e3). A minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 propor aos estimados colaboradores na miss\u00e3o apost\u00f3lica alguns crit\u00e9rios e linhas comuns de ac\u00e7\u00e3o para realizarmos um trabalho articulado ao servi\u00e7o do mesmo Senhor e na constru\u00e7\u00e3o da \u00fanica Igreja. No centro da nossa f\u00e9 est\u00e1 a pessoa de Jesus Ressuscitado. Descobrir e seguir Jesus Cristo, caminho para a verdade e para a vida, e crescer na configura\u00e7\u00e3o com Ele \u00e9 sempre finalidade principal de todos os programas e cartas pastorais. Numa cultura resistente aos valores crist\u00e3os, \u00e9 necess\u00e1rio viver a f\u00e9 no interior do cora\u00e7\u00e3o, com convic\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e com uma experi\u00eancia pessoal, ou seja, numa rela\u00e7\u00e3o de amizade, confian\u00e7a e obedi\u00eancia ao Senhor. Com esta preocupa\u00e7\u00e3o propusemo-nos, a partir do ano 2000, seguir o itiner\u00e1rio dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, como \u00edcone inspirador do programa pastoral. Numa primeira etapa, de 2000 a 2003, aprendemos a escutar a Palavra das Escrituras que nos falam de Cristo e nas quais Cristo nos fala. A escuta da Sagrada Escritura aprofunda a atitude de ora\u00e7\u00e3o e prepara para viver os sacramentos como lugares de encontro com o Senhor Ressuscitado. Foi a segunda etapa aprofundada nos \u00faltimos tr\u00eas anos, de 2003 a 2006. As Escrituras e os sacramentos recebem-se e vivem-se na comunidade crist\u00e3 e conduzem \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na miss\u00e3o. Ser\u00e1 a terceira etapa a aprofundar proximamente. Estas etapas, depois de percorridas, n\u00e3o se tornam ultrapassadas mas caminho a retomar constantemente. Se descobrimos a presen\u00e7a de Jesus Ressuscitado na nossa vida, como os disc\u00edpulos de Ema\u00fas, tamb\u00e9m Lhe pediremos que fique connosco na Palavra das Escrituras e na Eucaristia. Assim, continuaremos sempre a aprofundar a nossa rela\u00e7\u00e3o com o Senhor que anima a nossa esperan\u00e7a, atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da lectio divina, da participa\u00e7\u00e3o esclarecida e atenta na liturgia e da aten\u00e7\u00e3o e cuidado pelas pessoas feridas.  \u201cFica connosco, Senhor, porque sem Ti o nosso caminho ficaria submerso na noite. Fica connosco, Senhor Jesus, para nos levar pelos caminhos da esperan\u00e7a que n\u00e3o morre, para nos alimentar com o p\u00e3o dos fortes que \u00e9 a Tua Palavra. Fica connosco at\u00e9 \u00e0 \u00faltima noite, quando, fechados os nossos olhos, voltemos a abri-los perante o teu rosto transfigurado pela gl\u00f3ria e nos encontremos entre os bra\u00e7os do Pai no Reino do divino esplendor\u201d(1)    2. Sacramentos, sinais do encontro com Cristo  Ao concluir o segundo tri\u00e9nio dedicado \u00e0 liturgia, aprofund\u00e1mos, ao longo do ano pastoral 2006\/2007, os sacramentos da cura (Reconcilia\u00e7\u00e3o e Santa Un\u00e7\u00e3o), com o lema \u201cBendigamos ao Senhor que cura as nossas feridas\u201d. Este tema mereceu grande acolhimento e interesse pela sua densidade humana e espiritual. Chegados ao fim e fazendo a avalia\u00e7\u00e3o, com o Conselho Pastoral Diocesano e outros conselhos, conclu\u00edmos que n\u00e3o alcan\u00e7\u00e1mos todos os objectivos que nos t\u00ednhamos proposto. Esta conclus\u00e3o leva-nos a n\u00e3o iniciar j\u00e1 o novo tema da comunidade, previsto para o pr\u00f3ximo tri\u00e9nio, mas a aprofundar a rela\u00e7\u00e3o da f\u00e9 com os sacramentos e a consolidar algumas propostas que fizemos nos \u00faltimos anos. Na verdade, no \u00faltimo ano, program\u00e1mos formar nas par\u00f3quias servi\u00e7os pastorais que pusessem em pr\u00e1tica a miseric\u00f3rdia e a for\u00e7a curativa da f\u00e9, como os \u201cVisitadores dos doentes\u201d e os \u201cAnimadores da pastoral das Ex\u00e9quias\u201d. Mas, na realidade, em muitas par\u00f3quias, estas actividades ainda n\u00e3o funcionam com suficiente solidez. N\u00e3o foi s\u00f3 no ano anterior que deix\u00e1mos algumas metas por atingir. A problem\u00e1tica de fundo destes seis anos, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9, que se apoia na Palavra de Deus, e os sacramentos, enquanto celebra\u00e7\u00f5es do encontro com o Senhor Ressuscitado, encontra-se ainda pouco fortalecida na vida crist\u00e3. Na verdade, os candidatos que pedem \u00e0 Igreja sacramentos ou sacramentais, sobretudo os que se situam nos momentos marcantes da vida, como o Baptismo de crian\u00e7as, a Primeira Comunh\u00e3o, o Crisma, o Matrim\u00f3nio, as Ex\u00e9quias Crist\u00e3s, s\u00e3o motivados, frequentemente, por raz\u00f5es de natureza sociol\u00f3gica, antropol\u00f3gica ou de h\u00e1bitos tradicionais. Estes motivos podem conter riqueza humana e religiosidade natural, manifestar abertura e criar disposi\u00e7\u00e3o para o caminho da f\u00e9. S\u00e3o fruto dos h\u00e1bitos de uma sociedade de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, actualmente em forte processo de secularismo. Por\u00e9m, a forma de pensar e de agir das pessoas em geral n\u00e3o reflecte hoje uma cultura crist\u00e3. Pedem ritos sacramentais mas n\u00e3o est\u00e3o iniciadas na f\u00e9 crist\u00e3. Ora os sacramentos t\u00eam sentido quando celebrados na f\u00e9 da Igreja que os considera como sinais vis\u00edveis do encontro com Deus. Precisamos, por isso, de preparar os candidatos de modo a que adquiram consci\u00eancia de que os ritos sacramentais n\u00e3o s\u00e3o apenas cerim\u00f3nias exteriores, mas gestos da Igreja atrav\u00e9s dos quais o Senhor Jesus, Ressuscitado e Vivo entre n\u00f3s, toca a nossa vida com o Seu amor e nos acompanha na peregrina\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. Como os disc\u00edpulos de Ema\u00fas, precisamos tamb\u00e9m de fazer um percurso de f\u00e9 e de convers\u00e3o que nos permita encontrar, na Sua Palavra, a luz que ilumina as nossas trevas, aquece o nosso cora\u00e7\u00e3o e nos prepara para O encontrar quando celebramos os sacramentos.   \u201cPor este caminho que trilhamos, sempre peregrinos, &#8211; com o peso da solid\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o \u2013 vens Tu, \u00f3 Vivente entre os mortos, ao nosso encontro e partilhas o p\u00e3o do amor. Neste longo caminho, onde, ao p\u00f4r do sol, se estendem as nossas sombras, acende \u00f3 Viajante envolto em mist\u00e9rio, a luminosa fogueira do acampamento da tua Palavra e saberemos, pelo seu fogo ardente, que a nossa esperan\u00e7a ressuscitou mais viva e mais forte. Sim, abre a nossa mente para compreender a tua Palavra, porque s\u00f3 ela pode dissipar as d\u00favidas que ainda surgem no nosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (2)      3. A convers\u00e3o de S\u00e3o Francisco de Assis  Para compreender melhor o que \u00e9 um percurso de f\u00e9 e de convers\u00e3o \u00e9 interessante evocar o itiner\u00e1rio de S\u00e3o Francisco de Assis, de cuja convers\u00e3o celebramos, neste ano de 2007, o VIII centen\u00e1rio. Este Santo, t\u00e3o admirado universalmente, ser\u00e1 um exemplo oportuno e um \u00edcone luminoso para o nosso programa pastoral deste ano. A nossa diocese est\u00e1 ligada, desde as origens, \u00e0 espiritualidade franciscana e guarda uma mem\u00f3ria muito rica desta Ordem Religiosa. O Primeiro Bispo, Dom Ant\u00f3nio Francisco, era franciscano e foi ordenado na Igreja de Santa Clara, irm\u00e3 espiritual do Santo de Assis. Os templos franciscanos (S\u00e3o Francisco e Santa Clara) s\u00e3o dos mais antigos de Santar\u00e9m. A convers\u00e3o de Francisco aconteceu pelos vinte e cinco anos. N\u00e3o que antes fosse um grande pecador mas, como ele confessa no seu testamento, levava na juventude uma exist\u00eancia centrada nos sonhos de gl\u00f3rias do mundo, de vaidade, de gozo da vida terrena (era o \u201crei das festas\u201d entre os jovens de Assis). Pelos vinte e quatro \/ vinte e cinco anos fez algumas descobertas que deram um novo rumo e uma nova amplitude \u00e0 sua vida. Um dia que estava concentrado em ora\u00e7\u00e3o na Igreja de S\u00e3o Dami\u00e3o pareceu-lhe ouvir um apelo vindo do Crucifixo: \u201cFrancisco repara a minha casa\u201d. Pensando, no in\u00edcio, tratar-se do edif\u00edcio de S\u00e3o Dami\u00e3o, a precisar de restauro, come\u00e7ou a reunir meios nesse sentido \u00e0 custa dos bens paternos. Perante as amea\u00e7as do pai, despojou-se das suas vestes ricas, renunciou \u00e0 heran\u00e7a e dedicou-se a servir os doentes, dando carinho aos leprosos, chegando mesmo a beij\u00e1-los: \u201cA convers\u00e3o levou-o a exercer miseric\u00f3rdia e obteve-lhe tamb\u00e9m miseric\u00f3rdia\u201d, comentou o Papa Bento XVI. Na convers\u00e3o de Francisco aprendemos que converter-se \u00e9 descobrir que Deus est\u00e1 presente e interv\u00e9m na nossa vida. A experi\u00eancia do Crucifixo de S\u00e3o Dami\u00e3o \u00e9 marcante na mudan\u00e7a de vida deste Santo. O encontro com Deus conduz a uma nova vis\u00e3o da vida, da realidade e das pessoas. Converter-se \u00e9 ver com olhos novos, iluminados pelos crit\u00e9rios do evangelho, e n\u00e3o segundo a nossa perspectiva terrena, ego\u00edsta e mesquinha. \u201cNa Vossa luz Senhor veremos a luz\u201d (Salmo 35). A luz da f\u00e9 leva-nos a uma vis\u00e3o positiva do mundo, criatura de Deus, e dos outros nos quais Deus se nos manifesta. Esta nova perspectiva da realidade nota-se profundamente em S\u00e3o Francisco que come\u00e7ou a sentir-se irm\u00e3o universal de todas as criaturas. Ver de forma diferente leva a agir de forma diferente, orienta para o amor no servi\u00e7o humilde, para a miseric\u00f3rdia e para a paz. Por isso, S\u00e3o Francisco dedica-se ao servi\u00e7o dos pobres e dos feridos da vida em quem v\u00ea a presen\u00e7a de Cristo. A convers\u00e3o leva-o ainda a descobrir a Igreja numa nova dimens\u00e3o: \u201cRepara a minha casa\u201d. A casa de Deus \u00e9 o Seu povo, a sua Igreja de pedras vivas, para cuja renova\u00e7\u00e3o todos somos chamados a contribuir. A luz e a beleza que devem resplandecer no rosto da Igreja, alcan\u00e7am-se com a fidelidade, a santidade e a participa\u00e7\u00e3o de todos os fi\u00e9is. Por isso, Francisco esfor\u00e7a-se por viver em comunh\u00e3o com a Igreja e contribuir para a sua renova\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a de Deus na Igreja \u00e9 sinal e promessa da presen\u00e7a de Deus na cria\u00e7\u00e3o, obra do seu amor. O Santo de Assis viveu intensamente tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o fraterna com todas as criaturas. Francisco declara que, com a convers\u00e3o, a amargura transformou-se em do\u00e7ura de alma e do corpo. Ou seja, a convers\u00e3o levou-o a despojar-se de si mesmo e a experimentar a liberdade, a alegria, a miseric\u00f3rdia, a reconcilia\u00e7\u00e3o e a paz. Tornou-se um admirador e cantor da beleza da cria\u00e7\u00e3o, do louvor de Deus e da fraternidade universal.  \u201cLouvado seja Deus na natureza, M\u00e3e gloriosa e bela da Beleza, E com todas as suas criaturas: Pelo irm\u00e3o senhor sol, o mais bondoso E glorioso irm\u00e3o pelas alturas, O verdadeiro, o belo que alumia Criando a pura gl\u00f3ria &#8211; a luz do dia!\u201d  (C\u00e2ntico das criaturas de S\u00e3o Francisco)    4. Situar a prepara\u00e7\u00e3o dos sacramentos num percurso de convers\u00e3o   A convers\u00e3o de S\u00e3o Francisco mostra-nos como o encontro com Deus leva a viver o evangelho fielmente e nos torna novas criaturas, capazes de descobrir a beleza de Deus, do mundo e dos outros, e nos leva a servir com humildade e miseric\u00f3rdia os nossos irm\u00e3os, sobretudo os feridos. Como se alcan\u00e7a a convers\u00e3o?  \u00c9 fruto de um percurso demorado e progressivo que todos somos chamados a trilhar: \u201cConvertei-vos e acreditai no evangelho\u201d (Mc 1, 15) pede Jesus logo no in\u00edcio do Seu minist\u00e9rio. Ao longo da vida, Deus chama-nos em v\u00e1rias oportunidades e de v\u00e1rias formas a fazer ou a retomar o percurso de convers\u00e3o. A prepara\u00e7\u00e3o e a celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos deve ser entendida dentro deste percurso, como uma proposta do caminho que leva ao encontro de Cristo, luz e vida dos homens. Assim os sacramentos podem tornar-se verdadeiramente lugares de encontro com o Senhor Ressuscitado. A prepara\u00e7\u00e3o de cada um dos sacramentos precisa, portanto, de ser situada num percurso progressivo e global de convers\u00e3o, ou seja, orientado ao encontro com Cristo e \u00e0 integra\u00e7\u00e3o mais empenhada na comunidade crist\u00e3, em ambiente de ora\u00e7\u00e3o, com convite claro a uma nova vida segundo o evangelho. A convers\u00e3o n\u00e3o se resolve com alguns encontros. Mas estes podem levar a dar alguns passos que, depois, tenham continua\u00e7\u00e3o orientada ao crescimento espiritual, moral e humano. Como se conduz algu\u00e9m ao encontro com Cristo? Como se transmite a vida de f\u00e9? N\u00e3o basta ensinar e explicar a f\u00e9. Em muitos casos \u00e9 preciso come\u00e7ar pelo in\u00edcio, pelo despertar da f\u00e9, orientando para o sentido da presen\u00e7a do Deus vivo, para a rela\u00e7\u00e3o com Ele na ora\u00e7\u00e3o, para a fidelidade ao caminho da vida, para a experi\u00eancia de comunidade crist\u00e3. A transmiss\u00e3o da f\u00e9 passa pelo testemunho pessoal e comunit\u00e1rio dos crentes, fundamentada numa experi\u00eancia vivida, como aconteceu com os primeiros disc\u00edpulos de Jesus. Andr\u00e9 foi um dos primeiros a descobrir o mist\u00e9rio de Jesus. No dia seguinte encontrou o seu irm\u00e3o Sim\u00e3o (Pedro) e comunicou-lhe a descoberta: \u201cN\u00f3s encontr\u00e1mos o Messias\u201d. E levou-o a Jesus (Cf Jo 1, 40-42). Testemunhar a f\u00e9 \u00e9 levar algu\u00e9m a Jesus comunicando-lhe a pr\u00f3pria experi\u00eancia pessoal. Assim, para guiar no percurso de f\u00e9 e de convers\u00e3o precisamos de testemunhas da f\u00e9, ou seja, de animadores que vivam uma rela\u00e7\u00e3o de amizade e confian\u00e7a com o Senhor Ressuscitado.  Numa cultura de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, bastava ensinar e explicar a doutrina cat\u00f3lica. Hoje \u00e9 necess\u00e1rio introduzir os homens e as mulheres do nosso tempo no mist\u00e9rio da vida crist\u00e3 que \u00e9 comunh\u00e3o com Cristo, fonte de esperan\u00e7a e de amor. Com efeito, a tradi\u00e7\u00e3o ou entrega da f\u00e9, (\u201cTraditio\u201d, tradi\u00e7\u00e3o ou transmiss\u00e3o da vida de f\u00e9), encontra-se debilitada tanto na fam\u00edlia como no meio social (comunidade no sentido amplo). Uma comunidade (fam\u00edlia ou par\u00f3quia) transmite a f\u00e9, n\u00e3o s\u00f3 pelo ensino doutrinal mas ensinando a viv\u00ea-la na vida fraterna, na ora\u00e7\u00e3o, na celebra\u00e7\u00e3o e no conhecimento do evangelho. A Igreja, no in\u00edcio da sua hist\u00f3ria, quando se enfrentou com um mundo pag\u00e3o, sem a prepara\u00e7\u00e3o espiritual para o evangelho, como acontecia no mundo judaico, criou uma pedagogia pr\u00f3pria para introduzir no mist\u00e9rio crist\u00e3o e preparar os candidatos para o Baptismo, que designou como catecumenado. Era entendido como um caminho, \u00e0 maneira do caminho dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, que progredia na descoberta do mist\u00e9rio de Cristo, atrav\u00e9s de uma forma\u00e7\u00e3o global, atenta a todas as dimens\u00f5es da vida crist\u00e3: escuta da Palavra; ora\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o; pr\u00e1tica do evangelho da esperan\u00e7a e da caridade; vida em comunidade e testemunho da f\u00e9. Actualmente, tendo em conta as circunst\u00e2ncias parecidas em que nos encontramos, a Igreja, a partir do Conc\u00edlio Vaticano II, recupera e actualiza a pedagogia catecumenal para transmitir a f\u00e9 e preparar os catec\u00famenos para o Baptismo. Mais ainda: prop\u00f5e o catecumenado de adultos como modelo para a educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Ou seja, na catequese de inf\u00e2ncia, na prepara\u00e7\u00e3o de jovens e adultos para o Baptismo e para o Crisma, na prepara\u00e7\u00e3o dos sacramentos em geral, devemos procurar seguir a pedagogia catecumenal. \u00c9 neste contexto que devemos procurar a resposta \u00e0 quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o da f\u00e9 com os sacramentos.  \u201cN\u00f3s fizemos uma paragem junto de Ti Senhor E contempl\u00e1mos o rosto transfigurado do Teu Filho Nossa luz e nossa vida. N\u00f3s Te pedimos tamb\u00e9m: Que os nossos rostos se tornem um reflexo da tua luz, E n\u00f3s seremos no mundo testemunhas apaixonadas do Teu amor por todo o homem Tu, o Deus vivo por todos os s\u00e9culos\u201d.(3)   5. Marcos do percurso catecumenal  Para p\u00f4r em pr\u00e1tica a pedagogia catecumenal, precisamos, primeiramente, de definir o percurso do catecumenado, de conhecer as suas etapas, de aprofundar o seu estilo. Designadamente: 1. Sensibiliza\u00e7\u00e3o, motiva\u00e7\u00e3o e convocat\u00f3ria para o percurso de prepara\u00e7\u00e3o; 2. Como realizar o \u201cKerigma\u201d ou \u201cPrimeiro An\u00fancio\u201d; 3. Catequeses a propor; 4. Etapas celebrativas, ritos e exerc\u00edcios de f\u00e9 a realizar; 5. Celebra\u00e7\u00e3o do(s) sacramento (s); 6 Integra\u00e7\u00e3o na comunidade e continua\u00e7\u00e3o do percurso. Este projecto do catecumenado deve inspirar a prepara\u00e7\u00e3o de cada um dos sacramentos, de modo que esta se situe num percurso de convers\u00e3o que n\u00e3o se reduza \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o mas tenha um tempo antes e continuidade depois.  A pedagogia catecumenal tem um ponto de partida e de apoio: a comunidade crist\u00e3, onde a Igreja se torna presente. \u00c9 da comunidade que recebemos a f\u00e9; \u00e9 na comunidade que aprendemos a viv\u00ea-la; \u00e9 na comunidade que a testemunhamos e irradiamos. A nossa f\u00e9 \u00e9 fiel a Jesus Cristo, se for a f\u00e9 da Igreja. A comunidade crist\u00e3 \u00e9 a origem, o ambiente e a meta do percurso da f\u00e9. Assim como a Palavra de Deus se torna viva e actual na Igreja tamb\u00e9m os Sacramentos s\u00e3o ac\u00e7\u00f5es de Cristo oferecidas pela Igreja. Pedimos os Sacramentos \u00e0 Igreja e celebramo-los na Igreja. Precisam de ser preparados e vividos em Igreja e conduzir a uma integra\u00e7\u00e3o na comunidade eclesial.  Ter\u00e3o as nossas comunidades crist\u00e3s vitalidade pastoral para exercer esta fun\u00e7\u00e3o? Temos n\u00facleos ou fermentos que podem crescer e desenvolver-se. A comunidade perfeita \u00e9 sempre um projecto a construir que devemos ter presente na ac\u00e7\u00e3o pastoral: \u00e9 a casa de comunh\u00e3o fraterna onde todos se sentem acolhidos como em fam\u00edlia e onde cada um procura acolher o outro como irm\u00e3o. \u00c9 a assembleia reunida para escutar a Palavra Viva, celebrar a presen\u00e7a de Cristo nos sacramentos e aprender a viver o amor e a ajuda fraterna. A comunidade abrange, tamb\u00e9m, a multid\u00e3o das testemunhas do evangelho espalhadas pelo mundo inteiro, a Igreja formada por santos e pecadores, s\u00e1bios e humildes, profetas e servidores do amor, construtores da paz e da fraternidade, defensores dos pobres e dos humildes. Alarga-se, ainda, \u00e0 Igreja celeste formada pelos que se encontram j\u00e1 no seio de Deus. \u00c9 a Igreja una, santa, cat\u00f3lica e apost\u00f3lica que nos acolhe como filhos e irm\u00e3os e conta tamb\u00e9m com a nossa participa\u00e7\u00e3o e testemunho de f\u00e9.  Outra refer\u00eancia do catecumenado \u00e9 a globalidade. A ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9 n\u00e3o vem s\u00f3 do conhecimento e da compreens\u00e3o mas tamb\u00e9m do afecto e do cora\u00e7\u00e3o. O catecumenado, como percurso de f\u00e9 e de convers\u00e3o, deve ser global, tocar o cora\u00e7\u00e3o de modo a levar a viver a f\u00e9 e n\u00e3o s\u00f3 a conhec\u00ea-la, atrav\u00e9s de exerc\u00edcios que criam abertura \u00e0 presen\u00e7a de Cristo: escuta da Sagrada Escritura e conhecimento da f\u00e9 da Igreja; canto; ora\u00e7\u00e3o; amizade, di\u00e1logo e partilha fraterna no grupo; celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas; servi\u00e7o fraterno aos necessitados e pr\u00e1tica do evangelho no dia a dia. A ora\u00e7\u00e3o desempenha uma import\u00e2ncia fundamental na aprendizagem da f\u00e9, como vemos na vida e apostolado de tantos santos.  S\u00e3o ainda necess\u00e1rios os roteiros para o percurso (ou gui\u00f5es) bem como os animadores que orientem a prepara\u00e7\u00e3o. Quanto a roteiros n\u00e3o partimos do zero. Ao longo do \u00faltimo tri\u00e9nio, nalgumas reuni\u00f5es do clero e de outros colaboradores pastorais, fomos dialogando e definindo crit\u00e9rios sobre a prepara\u00e7\u00e3o dos sacramentos em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es: prepara\u00e7\u00e3o de adultos e jovens para o Baptismo, atrav\u00e9s do Catecumenado; prepara\u00e7\u00e3o dos candidatos para o sacramento do Crisma; prepara\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, em idade escolar ou de catequese, para o Baptismo a coincidir com a Primeira Comunh\u00e3o; prepara\u00e7\u00e3o de noivos para o Matrim\u00f3nio; de pais e padrinhos para o Baptismo de seus filhos ou afilhados, na inf\u00e2ncia. Temos elementos quase prontos para elaborar os roteiros ou gui\u00f5es. Est\u00e3o ainda em prepara\u00e7\u00e3o gui\u00f5es para Visitadores de doentes e Animadores da vig\u00edlia de ora\u00e7\u00e3o pelos defuntos. Mais importantes s\u00e3o os animadores que ajudem a preparar os candidatos para o encontro com o Senhor. Animadores que sejam peregrinos e fa\u00e7am caminho com os candidatos. Que escutem e gostem de aprender e partilhar com os outros e n\u00e3o professores para tudo explicar. Que sejam buscadores de Deus, orantes e contemplativos como o ap\u00f3stolo Andr\u00e9, que comuniquem o que eles pr\u00f3prios se esfor\u00e7am por viver. Animadores que, pelo seu testemunho, sejam sinais da alegria e da esperan\u00e7a que brota da f\u00e9. Chamar e formar estes animadores de modo que aprofundem a sua pr\u00f3pria f\u00e9 e adquiram pedagogia para liderar adultos no caminho do Senhor, torna-se uma prioridade pastoral que fundamenta este trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o.   \u201cCristo n\u00e3o tem m\u00e3os N\u00e3o tem sen\u00e3o as nossas m\u00e3os Para hoje realizar a sua obra.  Cristo n\u00e3o tem p\u00e9s N\u00e3o tem sen\u00e3o os nossos p\u00e9s Para conduzir os homens no seu caminho.  Cristo n\u00e3o tem l\u00e1bios. N\u00e3o tem sen\u00e3o os nossos l\u00e1bios Para falar Dele aos homens.  Cristo n\u00e3o tem ajudantes. N\u00e3o tem sen\u00e3o a nossa ajuda Para p\u00f4r os homens do seu lado.  N\u00f3s somos a \u00fanica B\u00edblia que o p\u00fablico ainda l\u00ea. N\u00f3s somos a \u00faltima mensagem de Deus escrita em actos e palavras\u201d.(4)   6. \u201cSe algu\u00e9m est\u00e1 em Cristo \u00e9 uma nova criatura\u201d   A quem dirigimos esta proposta? A afirma\u00e7\u00e3o da segunda Carta aos Cor\u00edntios (2 Cor 5,17), que serve de t\u00edtulo a este n\u00famero, ensina-nos que o convite \u00e0 convers\u00e3o a Cristo, fonte de vida nova, \u00e9 para todos os fieis. Assim, nesta Carta Pastoral, n\u00e3o propomos apenas uma ac\u00e7\u00e3o para determinados destinat\u00e1rios mas uma espiritualidade para todos os disc\u00edpulos de Cristo chamados \u00e0 novidade do evangelho.  \u201cConvertei-vos e acreditai na Boa Nova\u201d pede Jesus a todos n\u00f3s, seus disc\u00edpulos. A novidade do evangelho e da vida crist\u00e3 est\u00e1 associada \u00e0 convers\u00e3o. Na verdade, \u00e9 a convers\u00e3o que nos permite alcan\u00e7ar a verdadeira liberdade entendida como desapego, despojamento e independ\u00eancia face aos poderes do mundo; que nos disp\u00f5e para acolher o dom de Deus; que gera em n\u00f3s a alegria como atitude interior de confian\u00e7a e de aceita\u00e7\u00e3o do plano de Deus; que leva a revestirmo-nos de miseric\u00f3rdia, e nos abre ao acolhimento cordial e ao apre\u00e7o por todos. A pedagogia catecumenal caracterizada pelo caminho da convers\u00e3o pede certamente um estilo renovado de forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que deve ser levado \u00e0 pr\u00e1tica em v\u00e1rias actividades e grupos. Mencionamos alguns:  1. Candidatos aos sacramentos. Bastantes cat\u00f3licos pedem os sacramentos ou sacramentais por h\u00e1bito, por raz\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o sem conhecimento suficiente nem consci\u00eancia clara de que os sacramentos s\u00e3o sinais do encontro com Cristo. \u00c9 necess\u00e1rio oferecer-lhes uma prepara\u00e7\u00e3o que os desperte e os situe neste percurso de convers\u00e3o. Temos em vista, primeiramente, os adultos que ainda n\u00e3o realizaram ou n\u00e3o completaram a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e podem ser motivados para o Baptismo ou para o Crisma e Eucaristia. Pensamos tamb\u00e9m nas crian\u00e7as que, em idade escolar, pedem o Baptismo e nos jovens candidatos ao Crisma. A proposta dirige-se, igualmente, aos candidatos ao Matrim\u00f3nio e aos pais que pedem o Baptismo para os filhos de tenra idade.  2. Animadores que colaboram na orienta\u00e7\u00e3o de grupos de forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ou na prepara\u00e7\u00e3o dos candidatos aos sacramentos. Se a ac\u00e7\u00e3o que se lhes pede n\u00e3o \u00e9 apenas ensinar mas guiar no caminho que eles pr\u00f3prios percorrem, ent\u00e3o \u00e9 importante formar os animadores no conhecimento mais profundo do mist\u00e9rio crist\u00e3o, na escuta da Sagrada Escritura, na ora\u00e7\u00e3o, na capacidade de di\u00e1logo e de rela\u00e7\u00e3o fraterna, bem como na capacidade pedag\u00f3gica de liderar um grupo de adultos.  3. Grupos b\u00edblicos ou de forma\u00e7\u00e3o de adultos. Nas par\u00f3quias da diocese t\u00eam funcionado muitos grupos de forma\u00e7\u00e3o de adultos com bastante proveito dos membros e enriquecimento das comunidades de se tornam fermento de renova\u00e7\u00e3o e crescimento. Alguns mostram ind\u00edcios de cansa\u00e7o, outros mant\u00eam o interesse. Desejamos que esta Carta lhes sirva de est\u00edmulo e apoio para progredirem no seu percurso.  4. Grupos de jovens. Pedimos tamb\u00e9m aos jovens e aos animadores dos grupos juvenis que se esforcem por crescer na forma\u00e7\u00e3o global, prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 espiritualidade, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de amizade no grupo, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na comunidade, de modo que cres\u00e7am na liberdade, na alegria e na miseric\u00f3rdia.  5. Catequese de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. \u00c9 uma actividade fundamental nas par\u00f3quias, que precisa de ter em conta a pedagogia catecumenal, de modo que os catequizandos possam progredir no caminho do Senhor, crescendo no conhecimento da f\u00e9, na atitude de ora\u00e7\u00e3o, na integra\u00e7\u00e3o na comunidade.  6. Fam\u00edlias crist\u00e3s. Chamadas a ser escolas de forma\u00e7\u00e3o dos filhos, as fam\u00edlias precisam de cultivar a espiritualidade de modo que os filhos aprendam o caminho do Senhor na vida de fam\u00edlia, pela experi\u00eancia de ora\u00e7\u00e3o, de escuta da B\u00edblia e da pr\u00e1tica do evangelho. Nesse sentido, atrav\u00e9s dos organismos diocesanos, continuaremos a oferecer \u00e0s fam\u00edlias o apoio poss\u00edvel para cultivar a forma\u00e7\u00e3o humana e crist\u00e3.   Para al\u00e9m destes grupos, convidamos todos os fi\u00e9is que participam activamente nos v\u00e1rios servi\u00e7os da comunidade (colaboradores na caridade, na liturgia ou noutras actividades pastorais) a progredir no caminho do Senhor, caminho de liberdade, de alegria e de miseric\u00f3rdia. Pela escuta mais ass\u00eddua da Palavra de Deus, pela ora\u00e7\u00e3o mais frequente e renovada, pela rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua mais afectuosa, pela caridade mais generosa. Sobretudo pela participa\u00e7\u00e3o mais frutuosa na Eucaristia, principal fonte do crescimento espiritual.  \u201cVem Senhor pela Tua Eucaristia Leva-nos a ver com olhos novos Que ela nos conduza a Ti, E ao que n\u00f3s somos para Ti, Que ela transforme o nosso olhar e a nossa vida E aque\u00e7a o nosso cora\u00e7\u00e3o. Para que acolhendo o Teu amor Nos tornemos capazes de ser sinais de Ti. Que pelo amor A Tua Igreja se torne serva No seguimento de Teu Filho. \u00c1men\u201d.(5)  Santar\u00e9m, 8 de Setembro de 2007, festa da Natividade de Nossa Senhora  <i>Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santar\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta pastoral de in\u00edcio de ano pastoral de D. 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