{"id":270085,"date":"2023-02-05T09:30:44","date_gmt":"2023-02-05T09:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=270085"},"modified":"2023-02-03T14:05:30","modified_gmt":"2023-02-03T14:05:30","slug":"eutanasia-nova-lei-e-completamente-inaceitavel-no-cenario-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/eutanasia-nova-lei-e-completamente-inaceitavel-no-cenario-portugues\/","title":{"rendered":"Eutan\u00e1sia: Nova lei \u00e9 \u00abcompletamente inaceit\u00e1vel\u00bb no cen\u00e1rio portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><em>Dias depois de uma maioria de ju\u00edzes do Tribunal Constitucional ter decidido chumbar a \u00faltima vers\u00e3o da lei da eutan\u00e1sia, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia Catarina Pazes, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/catarina_pazes.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-270086\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/catarina_pazes-390x260.jpeg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/catarina_pazes-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/catarina_pazes-391x260.jpeg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/catarina_pazes-480x320.jpeg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/catarina_pazes.jpeg 519w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>O ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal Constitucional decidiu-se pela inconstitucionalidade da norma constante da al\u00ednea\u00a0f) do artigo 2.\u00ba, relacionada com a defini\u00e7\u00e3o de sofrimento de grande intensidade; e refere, por 59 vezes, a palavra \u201cpaliativos\u201d. Um dos ju\u00edzes recorda que a rede de cuidados paliativos n\u00e3o cobre as necessidades de todos aqueles que deles pretendem beneficiar. \u00c9 um alerta necess\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>Muito necess\u00e1rio: quando pensamos em sofrimento pensamos em algo muito dif\u00edcil de definir &#8211; \u00a0uma vez que o sofrimento \u00e9 aquele que o que a pessoa define como sendo o sofrimento -, quando falamos em sofrimento insuport\u00e1vel, estamos a falar de algo que \u00e9 muito individual. Mas aqui estamos, precisamente, a falar do sofrimento que decorre de uma doen\u00e7a, de uma doen\u00e7a grave, de uma doen\u00e7a que afeta a capacidade da pessoa. Se temos uma especialidade, na \u00e1rea da sa\u00fade, que tem como objetivo tratar e prevenir sofrimento, que se chama Cuidados Paliativos, e essa especialidade n\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel \u00e0 enorme maioria das pessoas que precisa destes cuidados, ent\u00e3o estamos a falar de um problema grav\u00edssimo, grav\u00edssimo, de acesso a cuidados de sa\u00fade que se vive no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Atendendo a isto, e tendo este este cen\u00e1rio como contexto, pensar numa lei que vai oferecer \u00e0s pessoas a possibilidade de antecipar a morte, por causa de um sofrimento considerado intoler\u00e1vel, quando esse mesmo sofrimento pode ser causado por aus\u00eancia de cuidados de sa\u00fade que o mesmo pa\u00eds n\u00e3o garante, estamos a falar de algo completamente inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A lei que foi chumbada previa que o m\u00e9dico orientador prestasse informa\u00e7\u00e3o e esclarecimento tratamentos aplic\u00e1veis, vi\u00e1veis e dispon\u00edveis, designadamente na \u00e1rea dos Cuidados Paliativos. Numa quest\u00e3o t\u00e3o delicada, basta informar dos cuidados dispon\u00edveis, n\u00e3o estando os mesmos assegurados, dependendo das disponibilidades do momento?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma pergunta excelente e \u00e9 uma enorme preocupa\u00e7\u00e3o para quem trabalha todos os dias nesta \u00e1rea, a lidar quer com doentes em situa\u00e7\u00e3o paliativa, com necessidades de paliativos, quer com profissionais de sa\u00fade que, n\u00e3o sendo da \u00e1rea de cuidados paliativos, manifestam grande desconhecimento, muitas vezes.<\/p>\n<p>Explicar o acesso \u00e0 possibilidade de Cuidados Paliativos deve implicar um conhecimento sobre aquilo que se est\u00e1 a oferecer e a possibilidade que se est\u00e1 a oferecer. Infelizmente, esse conhecimento, esse \u00e0 vontade para falar daquilo que \u00e9 esta \u00e1rea de cuidados, n\u00e3o est\u00e1 garantido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Outra observa\u00e7\u00e3o tem a ver com o facto de n\u00e3o se exigir uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em cuidados paliativos nem ao m\u00e9dico orientador nem ao m\u00e9dico especialista. \u00c9 mais um sinal da desvaloriza\u00e7\u00e3o desta \u00e1rea, por quem legisla?<\/em><\/p>\n<p>Entendo que o pr\u00f3prio legislador pode ter falta de conhecimento e de aprofundamento, um maior conhecimento, sobre o que se passa na realidade, do que s\u00e3o exatamente Cuidados Paliativos, daquilo que s\u00e3o a\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es espec\u00edficas desta \u00e1rea e daquilo que s\u00e3o a\u00e7\u00f5es paliativas: uma abordagem positiva, que deve estar garantida em qualquer servi\u00e7o de sa\u00fade, pois em qualquer contexto dos cuidados de sa\u00fade, existem doentes com necessidades a este n\u00edvel, doentes com a necessidade de al\u00edvio de sofrimento. Esta \u00e1rea de cuidados, como j\u00e1 disse, est\u00e1, n\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel ao n\u00edvel de especialidade, ou seja, o acesso a Cuidados Paliativos especializados est\u00e1 muito condicionado e tamb\u00e9m est\u00e1 condicionado o acesso a uma abordagem paliativa, ou seja, uma abordagem de qualquer profissional de sa\u00fade ao n\u00edvel do al\u00edvio de sofrimento.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de base para todos os profissionais de sa\u00fade em Cuidados Paliativos n\u00e3o est\u00e1 garantida. \u00c9 muito recente. \u00c9 muito recente que os cursos de Medicina, os cursos de Enfermagem e os cursos de Psicologia tenham nos seus curr\u00edculos esta \u00e1rea. E nem sequer \u00e9 garantido que todos os cursos j\u00e1 o tenham.<\/p>\n<p>Estamos a falar de um atraso enorme ao n\u00edvel do desenvolvimento desta \u00e1rea de cuidados no nosso pa\u00eds. Estamos a falar de um atraso que n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel, quando temos uma Lei de Bases de Cuidados Paliativos desde 2012; quando temos v\u00e1rios planos estrat\u00e9gicos que acabaram por ser desenhados e acabam por falhar na implementa\u00e7\u00e3o; quando temos um n\u00e3o investimento que se perpetua ao longo de v\u00e1rios anos e de v\u00e1rias legislaturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa falta de acesso est\u00e1 a deixar muita gente de fora? Quantas pessoas estima que estariam necessitados de Cuidados Paliativos em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Estima-se que cerca de 100 mil pessoas, todos os anos, precisem de acesso a Cuidados Paliativos especializados em Portugal. Estima se que 8 mil crian\u00e7as precisem, todos os anos, de acesso a Cuidados Paliativos pedi\u00e1tricos. Apenas cerca de 10% destas crian\u00e7as t\u00eam acesso; a n\u00edvel dos adultos, cerca de 30% destas pessoas t\u00eam acesso.<\/p>\n<p>Estamos a falar de uma percentagem que se mant\u00e9m e muito baixa, ao longo de muitos anos, portanto, precisamos urgentemente que os que t\u00eam poder pol\u00edtico e decisor, a n\u00edvel dos cuidados de sa\u00fade, olhe para isto como uma verdadeira prioridade.<\/p>\n<p>Sem o desenvolvimento dos Cuidados Paliativos, sem o desenvolvimento deste acesso, pomos em causa o pr\u00f3prio Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, que, n\u00e3o respondendo adequadamente a estes doentes, responde de uma forma que desperdi\u00e7a e continua a n\u00e3o colocar no centro aquilo que s\u00e3o as verdadeiras necessidades dos doentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Faz sentido legislar a antecipa\u00e7\u00e3o da morte regulada pelo Estado, num cen\u00e1rio como aquele de que temos vindo a falar?<\/em><\/p>\n<p>O que a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos tem reiterado \u00e9 que, de facto, estamos a inverter prioridades. Mesmo que a ideia da legisla\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da eutan\u00e1sia seja algo importante e que deva ser debatido, neste momento n\u00e3o h\u00e1, de todo, condi\u00e7\u00f5es no pa\u00eds para isso, tendo em conta o que acabamos de falar, a n\u00edvel do acesso a cuidados de sa\u00fade, e tendo em conta at\u00e9 aquilo que s\u00e3o os n\u00fameros conhecidos e as dificuldades a n\u00edvel dos cuidados de sa\u00fade, no geral.<\/p>\n<p>Temos problemas graves ao n\u00edvel da sa\u00fade, temos problemas graves a n\u00edvel social, temos problemas graves a n\u00edvel de condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas possam viver de uma forma positiva a sua situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a ou a situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia. Sabemos bem que ,a n\u00edvel de cuidadores informais, aquilo que s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para as pessoas poderem cuidar e poderem receber os cuidados, quer do ponto de vista do cuidador informal, quer do ponto de vista do cuidador formal, o nosso pa\u00eds tem um atraso grande a esse n\u00edvel.<\/p>\n<p>Precisamos de olhar para estas \u00e1reas como verdadeiras prioridades. H\u00e1 um pa\u00eds que n\u00e3o trata bem ou que n\u00e3o tem as condi\u00e7\u00f5es para tratar bem as pessoas vulner\u00e1veis e as pessoas que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade &#8211; porque essa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade \u00e9 algo que nos atinge a qualquer momento, a todos e a qualquer um de n\u00f3s, num momento inesperado da nossa vida. Precisamos de pensar nisto como um problema de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 um problema que devemos ter como priorit\u00e1rio, a n\u00edvel de respostas que precisam de ser criadas e a n\u00edvel daquilo que \u00e9 a resposta da sa\u00fade. Tem de haver uma preocupa\u00e7\u00e3o diferente em rela\u00e7\u00e3o aos Cuidados Paliativos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse quadro de evidente insufici\u00eancia de cuidados paliativos agrava o panorama de indetermina\u00e7\u00e3o, na medida em que torna menos fi\u00e1vel a afirma\u00e7\u00e3o da vontade, o que, por sua vez, agrava as exig\u00eancias de certeza das condi\u00e7\u00f5es a que essa vontade se dirige?<\/em><\/p>\n<p>O aspeto da vontade e da autonomia do doente, o melhor interesse em colocar o doente no centro, a sua autodetermina\u00e7\u00e3o, tem de implicar uma participa\u00e7\u00e3o do doente ao longo de todo o processo de sa\u00fade e todo o processo de doen\u00e7a. Ao longo de todo um processo de decis\u00e3o que \u00e9 preciso ter quando \u00e9 decidido fazer um tratamento ou n\u00e3o o fazer, saber as consequ\u00eancias de o fazer ou de n\u00e3o o fazer, tendo um consentimento informado a cada momento.<\/p>\n<p>Est\u00e1 demonstrado que o acompanhamento por uma equipa especializada em Cuidados Paliativos, ao longo do processo de doen\u00e7a, traz muito mais possibilidade ao doente de ter acesso a maior e melhor informa\u00e7\u00e3o, que lhe garanta a possibilidade de participar neste processo de forma muito mais ativa e muito mais autodeterminada.<\/p>\n<p>A escolha do momento de morte n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica escolha que importa. Parece que, de repente, \u00e9 a \u00fanica forma da pessoa ser autodeterminada. Esta autodetermina\u00e7\u00e3o tem de ser garantida e deve ser uma preocupa\u00e7\u00e3o de todos os profissionais de sa\u00fade ao longo de todo o processo.<\/p>\n<p>Um doente que manifesta o desejo de antecipar a sua morte \u00e9 por si s\u00f3, um crit\u00e9rio de alta complexidade em Cuidados Paliativos. Um doente que refere o desejo de morte, ou o desejo de antecipar a morte, \u00e9 um doente que est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de sofrimento intenso, numa situa\u00e7\u00e3o de sofrimento que precisa de ser abordada e que carece de uma interven\u00e7\u00e3o altamente especializada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O debate sobre a autonomia e a liberdade, por estar demasiado centrado no momento da morte, esquece o processo da doen\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Sim, de todo. E tem sido uma enorme falha ao longo de todos estes anos em que esta quest\u00e3o tem vindo a lume. Estamos a debater este tema h\u00e1 muito tempo, mas perdemos oportunidade, em quase todos os momentos, de debater aquilo que \u00e9 o exerc\u00edcio de autonomia do doente e de como ele pode estar condicionado quando, por exemplo, a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o clara ou acess\u00edvel, ou, quando n\u00e3o tem participa\u00e7\u00e3o ativa nas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 as quest\u00f5es da obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, ou seja, aqueles tratamentos que n\u00e3o trazendo benef\u00edcio trazem muito mais sofrimento. Cada interven\u00e7\u00e3o que tenha como objetivo prolongar processos no tempo, sem que se tenha em conta a qualidade do tempo, a dignidade e a qualidade de vida, o bem-estar, o conforto e a vontade do doente, configuram, do ponto de vista deontol\u00f3gico, algo que \u00e9 conden\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E algumas experi\u00eancias das pessoas est\u00e3o muito ligadas a isso\u2026 <\/em><\/p>\n<p>Ali\u00e1s, muitas vezes, quando converso sobre este tema da eutan\u00e1sia e sobre a ideia de a pessoa poder escolher o momento para antecipar a morte, muitos dizem-se a favor porque n\u00e3o querem que as pessoas sofram de uma forma desproporcionada ou que fiquem numa situa\u00e7\u00e3o de sofrimento prolongado por meios artificiais. E quando temos oportunidade de explicar que isso s\u00f3 acontece porque h\u00e1, de facto, uma dificuldade do ponto de vista da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade, a n\u00edvel de suspens\u00e3o de medidas f\u00fateis, a n\u00edvel das decis\u00f5es \u00e9ticas sobre os procedimentos e h\u00e1, tamb\u00e9m, a dificuldade em que o doente participe no processo de decis\u00e3o e que possa antecipar decis\u00f5es para quando n\u00e3o estiver em condi\u00e7\u00f5es de expressar a sua vontade.<\/p>\n<p>E, portanto, temos mecanismos legais, como o testamento vital que nos permite exercer essa vontade. No nosso pa\u00eds j\u00e1 temos muitas ferramentas e a oportunidade de lidar muito melhor com esta fase da vida do que aquilo que acontece na realidade.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que est\u00e1 a falhar? Est\u00e1 a falhar, por um lado, a forma\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea, do ponto de vista dos pr\u00f3prios profissionais de sa\u00fade, a iliteracia, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a n\u00edvel da sociedade em geral, mas, tamb\u00e9m, dentro dos pr\u00f3prios profissionais de sa\u00fade. Precisamos de debater muito mais estas quest\u00f5es sem ir para o lugar de discuss\u00e3o do ser a favor e contra, o que, no fundo, depois n\u00e3o traz benef\u00edcio nenhum para a pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do ponto de vista mais pol\u00edtico. Como entende que a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha sido ouvida pelos partidos que tiveram a iniciativa legislativa sobre a lei da eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>Devia ter havido a preocupa\u00e7\u00e3o, de quem quer legislar sobre esta \u00e1rea, em ouvir os profissionais que lidam com doentes em situa\u00e7\u00e3o de sofrimento. Seria importante ouvir esses profissionais de cuidados paliativos e perceber porque dizem que este n\u00e3o \u00e9 o momento e que esta lei \u00e9 completamente extempor\u00e2nea. No fundo n\u00e3o acho compreens\u00edvel n\u00e3o termos sido ouvidos. Justifico o facto que ningu\u00e9m ter procurado saber a nossa perspetiva sobre o assunto como n\u00e3o querer conhecer os argumentos que n\u00e3o sejam a favor deste projeto legislativo. Quem est\u00e1 a levar a cabo este projeto legislativo est\u00e1 a faz\u00ea-lo com uma boa inten\u00e7\u00e3o, a de melhorar algo na sociedade. N\u00e3o vejo de outra forma. No entanto, parece me que ao querermos legislar sobre um aspeto t\u00e3o sens\u00edvel, e n\u00e3o \u00e9 por acaso que foi reprovado mais uma vez pelo Tribunal Constitucional, \u00e9 porque realmente \u00e9 muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Estamos a falar de algo de que precisamos de conhecer muito mais a fundo e saber muito mais porque que se trata de algo completamente extempor\u00e2neo e muito perverso, tendo em conta o contexto do nosso pa\u00eds a n\u00edvel de cuidados de sa\u00fade e sociais oferecidos a quem est\u00e1 a passar pelo momento mais dif\u00edcil da sua vida marcado por uma doen\u00e7a grave.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 percebemos que os partidos promotores da legisla\u00e7\u00e3o v\u00e3o tentar avan\u00e7ar rapidamente com o processo, resolvendo aquilo que foi chamado a aten\u00e7\u00e3o pelo Tribunal Constitucional. H\u00e1 outros partidos que insistem na realiza\u00e7\u00e3o do referendo. Isso poderia ser um caminho? Colocar a decis\u00e3o nas m\u00e3os dos eleitores? Ou h\u00e1, tamb\u00e9m, falta de esclarecimento global sobre estas mat\u00e9rias?<\/em><\/p>\n<p>O referendo poderia trazer a possibilidade de mais tempo de debate. Essa seria a vantagem do referendo. No fundo, n\u00e3o acho que seja necess\u00e1rio o referendo para que o debate volte a estar em cima da mesa e para que reflita mais sobre o assunto.<\/p>\n<p>Ainda assim, parece me que a energia dos decisores e dos partidos pol\u00edticos deveria estar, neste momento, muito mais focada em garantir cuidados de sa\u00fade adequados para as pessoas e garantir que, de facto, o sofrimento seja prevenido e tratado.<\/p>\n<p>Portanto \u00e9 um cen\u00e1rio t\u00e3o, t\u00e3o pouco justo para quem est\u00e1 doente que, n\u00e3o tendo acesso a cuidados de sa\u00fade que precisa tenha, possa passar a ter acesso, a antecipar a morte por causa, justificando esse pedido com o sofrimento intoler\u00e1vel. Sofrimento esse que nunca foi tratado, mas pode ser o motivo para a morte. Acho que, de facto, n\u00e3o \u00e9 o pa\u00eds que n\u00f3s queremos, nem \u00e9 o pa\u00eds pelo qual devamos lutar.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falamos aqui das insufici\u00eancias ao n\u00edvel dos cuidados paliativos. E o pr\u00f3prio ministro da Sa\u00fade, Manuel Pizarro, admitiu no final do ano passado insufici\u00eancias em mat\u00e9ria de cuidados paliativos e falou da necessidade de alargar a rede. De l\u00e1 para c\u00e1, j\u00e1 encontrou alguns sinais concretos de investimento e de prioridade nos cuidados paliativos dentro do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/em><\/p>\n<p>De facto, quando ouvimos senhor ministro da Sa\u00fade, fizemos um comunicado alertando para v\u00e1rios v\u00e1rias quest\u00f5es. E \u00e9 muito importante que fique bem claro que o investimento em cuidados paliativos n\u00e3o \u00e9 alargar a cobertura de camas de internamento. N\u00e3o \u00e9 disso que estamos a falar. Essa, porventura, ser\u00e1 uma parte do investimento necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 o desenvolvimento de compet\u00eancias pelos profissionais e criar condi\u00e7\u00f5es para que as equipas de cuidados paliativos tenham a possibilidade de chegar aos doentes. Portanto, as condi\u00e7\u00f5es \u00e9 terem profissionais de sa\u00fade com compet\u00eancia na \u00e1rea. Estamos a falar de um investimento em profissionais que t\u00eam que chegar aos doentes onde eles est\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, quando falamos em investimento, falamos, do ponto de vista estrat\u00e9gico, de algo muito maior do que apenas o investimento em construir unidades ou criar camas. Porque n\u00e3o \u00e9 disso que se trata. Trata se de algo muito mais complexo e que precisa de uma interven\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica urgente. Portanto, n\u00e3o se resolve com o Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR) ou com algum investimento, de todo. Resolve se com uma estrat\u00e9gia muito mais bem pensada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E essa estrat\u00e9gia n\u00e3o existe?<\/em><\/p>\n<p>Sendo que, a cada dois anos, a Comiss\u00e3o Nacional de Cuidados Paliativos faz um plano estrat\u00e9gico que depois, no final desses dois anos, vamos ver aquilo que foi alcan\u00e7ado percebemos que estamos muito aqu\u00e9m daquilo que seria necess\u00e1rio e daquilo que foram os objetivos e isto ser sistem\u00e1tico. Infelizmente n\u00e3o podemos ter uma boa de que as coisas mudem se continuarmos assim. Quero acreditar e quero muito contribuir para, que de facto, essa estrat\u00e9gia seja encontrada e seja posta em pr\u00e1tica a bem da sa\u00fade das pessoas e bem da sa\u00fade do pr\u00f3prio Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias depois de uma maioria de ju\u00edzes do Tribunal Constitucional ter decidido chumbar a \u00faltima vers\u00e3o da lei da eutan\u00e1sia, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia Catarina Pazes, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":270086,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-270085","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270085","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=270085"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270085\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270086"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=270085"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=270085"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=270085"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}