{"id":26996,"date":"2007-09-17T10:56:14","date_gmt":"2007-09-17T10:56:14","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/09\/17\/as-viagens-nos-tempos-de-sao-paulo\/"},"modified":"2007-09-17T10:56:14","modified_gmt":"2007-09-17T10:56:14","slug":"as-viagens-nos-tempos-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-viagens-nos-tempos-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"As viagens nos tempos de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p>Numa recente viagem pela Turquia, a antiga Anat\u00f3lia ou \u00c1sia Menor, convidado pelo assistente de um grupo de leigos do Patriarcado de Lisboa que estudava \u00abOs passos de S\u00e3o Paulo\u00bb, fui interrogado sobre as dificuldades que o ap\u00f3stolo dos gentios teria encontrado devido \u00e0s grandes dist\u00e2ncias que percorreu nas suas tr\u00eas viagens apost\u00f3licas. Impressiona, de facto, a grandeza de alma deste grande convertido que n\u00e3o limitou as suas viagens apost\u00f3licas aos portos mar\u00edtimos ou a uma cidade, como outros ap\u00f3stolos, mas se serviu de todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o para anunciar o evangelho, percorrendo o interior da Anat\u00f3lia e da Gr\u00e9cia at\u00e9 chegar a Roma onde foi decapitado e sepultado na actual bas\u00edlica romana que conserva o seu nome.  2 &#8211; Na carta aos G\u00e1latas (11, 23) para defender a integridade da f\u00e9 e defender-se dos que o atacavam, Paulo narra os sofrimentos que passou pelo Evangelho. \u00abS\u00e3o ministros de Cristo? Falo como louco: eu sou-o muito mais. Muito mais pelas fadigas; muito mais pelas pris\u00f5es; infinitamente mais pelos a\u00e7oites; frequentemente em perigo de morte; dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um; fui flagelado tr\u00eas vezes, uma vez fui apedrejado; tr\u00eas vezes naufraguei; passei um dia e uma noite no alto mar. Fiz muitas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladr\u00f5es, perigos por parte dos meus irm\u00e3os de ra\u00e7a, perigos por parte dos pag\u00e3os, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irm\u00e3os. Mais ainda: morto de cansa\u00e7o, muitas noites sem dormir, fome e sede, muitos jejuns, com frio e sem agasalho. Isto para n\u00e3o contar o resto: a minha preocupa\u00e7\u00e3o quotidiana, a aten\u00e7\u00e3o que tenho por todas as Igrejas\u00bb. A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 longa, mas \u00e9 o retrato da alma de um grande convertido, para o qual s\u00f3 conta Cristo que o levou a exclamar: \u00abAi de mim se n\u00e3o evangelizar\u00bb (1 cor, 9,16), \u00abpara mim viver \u00e9 Cristo\u00bb (Gal. 2, 20).  3 &#8211; Paulo, serviu-se, para as suas viagens, de todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o comuns no come\u00e7o do cristianismo, tanto por mar como por terra. No mundo antigo as pessoas deslocavam-se pouco. As viagens eram sempre arriscadas, dif\u00edceis e perigosas e exigiam \u00f3ptima sa\u00fade, meios econ\u00f3micos e uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica favor\u00e1vel.  Poucos eram os privilegiados que podiam deslocar-se, viajavam os guerreiros, os comerciantes, os mission\u00e1rios, os peregrinos em direc\u00e7\u00e3o aos santu\u00e1rios e os migrantes, \u00e0 procura de uma terra long\u00ednqua que lhe desse trabalho e alimento. A rede estradal romana da It\u00e1lia e das suas prov\u00edncias \u00e9 uma das gl\u00f3rias da civiliza\u00e7\u00e3o. Elas foram o suporte da romaniza\u00e7\u00e3o e atingiram n\u00e3o s\u00f3 a bacia do Mediterr\u00e2neo como o continente europeu, asi\u00e1tico e norte de \u00c1frica. Foram constru\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, feitas para durar, marcaram a paisagem geogr\u00e1fica das possess\u00f5es romanas, de tal forma que algumas das nossas estradas seguem o seu trajecto de cerca de dois mil anos. N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o o ditado \u00abtodas as estradas v\u00e3o dar a Roma\u00bb porque em Roma tinham a sua origem. Os meios de transporte mais frequentes eram as bigas ou quadrigas puxados por cavalos que, geralmente, eram carros de guerra. Tamb\u00e9m eram muito usados os burros e as mulas, principalmente nas aldeias e campos. Para chegar a terras long\u00ednquas, \u00abos h\u00famidos caminhos do mar\u00bb, segundo a express\u00e3o de Homero, usavam-se os barcos, nunca em alto mar, mas sem perder de vista a costa terrestre. No Mediterr\u00e2neo, nas zonas povoadas de ilhas, n\u00e3o era dif\u00edcil navegar, pois a presen\u00e7a da terra firme dava aos marinheiros a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. As viagens de mar aconteciam na primavera, ver\u00e3o e outono, de Novembro a Abril era muito arriscado navegar no mar, como aconteceu na terceira viagem de S\u00e3o Paulo com o naufr\u00e1gio em Malta (A. Ap. cf. 27, 28 e ss). Todos os g\u00e9neros de viagens estavam sujeitos a perigos, cors\u00e1rios no mar e bandidos em terra. Por mar, com bom tempo, chegaram a percorrer 70 quil\u00f3metros por dia e, com ventos favor\u00e1veis ainda mais. S\u00e3o Paulo fez o percurso de Reggio a Pazzuoli em pouco mais de um dia. A navega\u00e7\u00e3o nos rios era mais lenta. Para a distribui\u00e7\u00e3o do correio imperial, o imperador Augusto organizou um servi\u00e7o regular (cursus publicus) que, por vezes, os particulares podiam usar recebendo um diploma para seu uso. Os escritores latinos informam que se colocavam estafetas ao longo das estradas romanas, com esta\u00e7\u00f5es postais, onde os viajantes substitu\u00edam os cavalos por outros folgados. A velocidade m\u00e9dia do correio romano era de 80 quil\u00f3metros por dia. Uma magn\u00edfica estrada atravessava toda a \u00c1sia Menor, desde Constantinopola at\u00e9 Antioquia no Orontes e continuava na S\u00edria. Por estas estradas passavam as legi\u00f5es romanas, os ex\u00e9rcitos persas e os de Alexandre Magno e tamb\u00e9m S\u00e3o Paulo com os seus companheiros. Parece que Paulo n\u00e3o era bom marinheiro. Quando os seus companheiros embarcaram num navio para Assos, Paulo \u00abhavia determinado, que iria por terra\u00bb (A. Ap. 20, 13), mas depois teve de tomar uma nave para Mitilene. Geralmente o transporte por terra era mais veloz, tanto mais que dentro do imp\u00e9rio romano n\u00e3o havia fronteiras. As dist\u00e2ncias, como ainda hoje, eram marcadas nas \u00abpedras miliares\u00bb que indicavam as dist\u00e2ncias entre as localidades mais importantes. Em cada 10 a 15 quil\u00f3metros havia uma \u00abstatio\u00bb esp\u00e9cie de motel, onde se mudavam os cavalos e se repousava. Para os conc\u00edlios dos primeiros s\u00e9culos, decretados pelos imperadores crist\u00e3os, foi concedida uma \u00abtessera\u00bb ou permiss\u00e3o gratuita, aos 314 bispos quando deviam deslocar-se aos Conc\u00edlios. Era permitido a cada bispo levar consigo tr\u00eas acompanhantes. Para as comunidades crist\u00e3s era muito importante o correio, pois constitu\u00eda o meio mais frequente para manter vivos os contactos. S\u00e3o Paulo na carta aos Colossenses escreve: \u00abdepois de lerdes esta carta, fazei que seja lida tamb\u00e9m na Igreja de Laodiceia. E v\u00f3s, lede a de Laodiceia Por fim, dizei a Arquipo: \u00abprocura realizar bem o minist\u00e9rio que recebeste do Senhor\u00bb (Col. 4, 16-17). As cartas eram conhecidas n\u00e3o apenas pelo destinat\u00e1rio mas por muitos leitores imprevistos, por vezes, j\u00e1 todos falavam do assunto da carta antes de chegar \u00e0s m\u00e3os do destinat\u00e1rio! Como \u00e9 estranho e fascinante este S\u00e3o Paulo! Fogoso e de temperamento explosivo, a gra\u00e7a acentuou este vigor, mas tudo foi colocado ao servi\u00e7o de Jesus Cristo. Sem temer o sofrimento nem a fadiga, ele cruzou todo o universo do Mediterr\u00e2neo, por terra e por mar, para ganhar todos para o seu Mestre e Senhor Jesus Cristo.  Funchal, 16 de Setembro de 2007  <i>\u2020Teodoro de Faria, Bispo Em\u00e9rito do Funchal       <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa recente viagem pela Turquia, a antiga Anat\u00f3lia ou \u00c1sia Menor, convidado pelo assistente de um grupo de leigos do Patriarcado de Lisboa que estudava \u00abOs passos de S\u00e3o Paulo\u00bb, fui interrogado sobre as dificuldades que o ap\u00f3stolo dos gentios teria encontrado devido \u00e0s grandes dist\u00e2ncias que percorreu nas suas tr\u00eas viagens apost\u00f3licas. 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