{"id":26991,"date":"2007-09-17T09:48:31","date_gmt":"2007-09-17T09:48:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/09\/17\/prefiro-a-misericordia-ao-sacrificio\/"},"modified":"2007-09-17T09:48:31","modified_gmt":"2007-09-17T09:48:31","slug":"prefiro-a-misericordia-ao-sacrificio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/prefiro-a-misericordia-ao-sacrificio\/","title":{"rendered":"<i> Prefiro a miseric\u00f3rdia ao sacrif\u00edcio<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente durante a Peregrina\u00e7\u00e3o de Setembro 2007 no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima:   Amados irm\u00e3os e peregrinos do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, neste Setembro, anivers\u00e1rio das apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora:  T\u00eam as peregrina\u00e7\u00f5es esta natureza \u00fanica de, realmente, nunca se repetirem. Manifestando devo\u00e7\u00e3o, t\u00eam o tempo do cora\u00e7\u00e3o, que se fixa sempre no primeiro apelo. Cada vez que aqui vimos, a este sagrado recinto em que o C\u00e9u tocou a terra, \u00e9 como se nos redescobr\u00edssemos onde afinal j\u00e1 estamos: no rega\u00e7o da M\u00e3e, ao encontro de Cristo e da Trindade Sant\u00edssima. Passam os anos, cansa-se mais o corpo, diminui o alcance dos olhos, somam-se porventura os cuidados e desgastes\u2026 Mas aqui tudo remo\u00e7a, duma juventude eterna que refresca mil velhices: refiro-me \u00e0 juventude de Deus, permanente come\u00e7ar e recome\u00e7ar das coisas, fonte cantante de surpreendente vida, sempre surpreendente&#8230;  E \u00e9 por isso tamb\u00e9m, irm\u00e3os e irm\u00e3s aqui reunidos nesta vig\u00edlia t\u00e3o desperta, fulgurante de velas de cera e de esp\u00edrito, que tudo quanto a Deus respeita nos soa agora como se o ouv\u00edssemos pela primeira vez. Come\u00e7ando pela sua palavra, que acab\u00e1mos de escutar.  Sim, irm\u00e3os peregrinos, a palavra de Deus \u00e9 Deus comunicado, garantindo-se assim na imensid\u00e3o da fonte. Aprendamos ent\u00e3o:  Porque \u00e9 de aprender que se trata, segundo a ordem de Jesus. Ouvimo-la: \u201cIde aprender o que significa: \u2018Prefiro a miseric\u00f3rdia ao sacrif\u00edcio\u2019. Porque eu n\u00e3o vim chamar os justos mas os pecadores\u201d (Mt 9, 13). \u201cIde aprender!\u201d, \u00e9 ordem de Deus incarnado, para ser ainda melhor escutado, compreendido e obedecido. Pois aqui estamos, para que Nossa Senhora, constante Sede da Sabedoria divina, nos ensine o que ela mesma aprendeu e h\u00e1 noventa anos aqui mesmo recordou, nesta bendita Cova da Iria.  Aprender, finalmente, que em Deus, a miseric\u00f3rdia, antes de ser ac\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira natureza, modo \u00edntimo de ser e, por isso, defini\u00e7\u00e3o cabal. &#8211; Parece simples, esta primeira li\u00e7\u00e3o? Todos constatamos que o n\u00e3o \u00e9. Porque, se o fosse, h\u00e1 muito que a Igreja toda e aquela por\u00e7\u00e3o que formamos dela, fam\u00edlia a fam\u00edlia, comunidade a comunidade, muito melhor viveria a li\u00e7\u00e3o oferecida por toda a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, sobretudo quando finalizada na vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Mas ainda tarda. Tarda em n\u00f3s, esta aprendizagem concreta do Deus-miseric\u00f3rdia, que em cada uma das sagradas p\u00e1ginas se narrou para ser lembrado e convivido, para a salva\u00e7\u00e3o do mundo. N\u00e3o quero, nem por sombras, ser cr\u00edtico ou rebarbativo, pois desse modo nem sairia da minha pr\u00f3pria consci\u00eancia. Mas deixai-me, caros peregrinos de Deus, fazer em voz alta esta urgent\u00edssima pergunta: &#8211; Ser\u00e1 que, quando penso em Deus, O penso, espont\u00e2nea e primeiramente como miseric\u00f3rdia e amor compassivo, em rela\u00e7\u00e3o a tudo e a todos? Ou ser\u00e1 que nem sequer penso em Deus a partir d\u2019Ele e das p\u00e1ginas b\u00edblicas em que se revela, mas sim a partir de mim, agigantando muito os meus pr\u00f3prios sentimentos, quando n\u00e3o ressentimentos? E, a esta luz, ou antes obscuridade, perguntemo-nos ainda se muito do ate\u00edsmo dos outros n\u00e3o corresponde ao escasso te\u00edsmo nosso, ou \u00e0 deformada imagem que damos do Deus verdadeiro, a que t\u00e3o demoradamente nos convertemos.  Sim, \u00e9-nos tamb\u00e9m dirigida esta noite a ordem estrita de Jesus: \u201cIde aprender o que significa: \u2018Prefiro a miseric\u00f3rdia ao sacrif\u00edcio1\u2019\u201d. E como haveria Deus, suma bondade, verdade e beleza, de preferir outra coisa sen\u00e3o aquilo que Ele mesmo \u00e9, criando-nos a todos, para o fruirmos tamb\u00e9m? Deus prefere a miseric\u00f3rdia, porque nela se define e nela como que infindamente se resume.  &#8211; E como falou de Deus a \u201cM\u00e3e de Miseric\u00f3rdia\u201d, quando aqui nos exortou, sobre os bra\u00e7os da azinheira? Essencialmente como de Algu\u00e9m inconformado, por nos perdermos pelo pecado, que \u00e9 sempre e s\u00f3 outro nome do desamor e da n\u00e3o-miseric\u00f3rdia.  Sejamos concretos, irm\u00e3os peregrinos, sejamos concretos, precisos e eficazes: entre agora mesmo cada um pela porta do seu cora\u00e7\u00e3o e da sua consci\u00eancia e verifique bem l\u00e1 por dentro o que tem ou n\u00e3o tem, em rela\u00e7\u00e3o a Deus e ao pr\u00f3ximo. Sonde cada um a luz e a sombra que l\u00e1 estejam, repassando de olhar interior cada rosto mais ou menos estimado, cada encontro e cada desencontro, cada desejo e at\u00e9 cada avers\u00e3o. E isto, irm\u00e3os e irm\u00e3s, sem andar depressa nem desistir de si mesmo ou de algu\u00e9m. Porque mais acima, irradiando do Alto e jorrando dos Cora\u00e7\u00f5es de Cristo e de Maria, novamente acolhida por cora\u00e7\u00f5es plenos da inf\u00e2ncia espiritual dos Pastorinhos, a miseric\u00f3rdia nos toca e nos cura, como dom imenso desta hora bendita.  N\u00e3o ser\u00e1 de s\u00fabito, mas ser\u00e1 eficaz, esta convers\u00e3o a Deus-miseric\u00f3rdia. Da efic\u00e1cia a que chamamos mais propriamente gra\u00e7a, ac\u00e7\u00e3o gratuita da bondade divina. N\u00e3o a merecemos, nem a ganhamos por qualquer sacrif\u00edcio exterior e formal, como os que Jesus afastava no trecho que ouvimos. H\u00e1-de induzir-nos, isso sim, ao novo sacrifico da oferta dos cora\u00e7\u00f5es e das vidas, entregues com Jesus ao Pai, como o Esp\u00edrito nos possibilitar\u00e1 fazer de seguida, na sagrada Eucaristia. Como o Esp\u00edrito nos possibilitar\u00e1 fazer\u2026 Sim, o Esp\u00edrito que nos transmite os sentimentos do Pai e de Cristo. O Esp\u00edrito suave e fort\u00edssimo, que tudo refaz na miseric\u00f3rdia divina, desde que encontre em n\u00f3s algo da absoluta disponibilidade que encontrou um dia na jovem Virgem de Nazar\u00e9. Nela o Esp\u00edrito p\u00f4de come\u00e7ar a recria\u00e7\u00e3o do mundo, na humanidade que ela cedeu ao Verbo eterno do Pai. Era um cora\u00e7\u00e3o imaculado, era a sua verdade original e inteira, a da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Connosco, o trabalho do Esp\u00edrito de Deus ter\u00e1 de come\u00e7ar pela correc\u00e7\u00e3o profunda duma natureza que n\u00e3o nos chegou imaculada. Por isso o baptismo que tivemos, por isso a penit\u00eancia que de algum modo o recupera e sempre aprofunda. Trabalhos de Deus, afinal, trabalhos do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito, para que o nosso cora\u00e7\u00e3o possa aproximar-se do de Maria, na disponibilidade e correspond\u00eancia cabal \u00e0 miseric\u00f3rdia divina, que \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o do mundo. Deste nosso mundo, pr\u00f3ximo ou global. Trabalho da Igreja tamb\u00e9m, de todos n\u00f3s que escutamos a Palavra, actualizada pelo Esp\u00edrito em cada sacramento e circunst\u00e2ncia, difundida e partilhada em toda a caridade solid\u00e1ria. Para que do Deus-miseric\u00f3rdia renas\u00e7a um mundo misericordioso, por ac\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos de Cristo. Miseric\u00f3rdia divina nos disc\u00edpulos de Cristo, que possam dizer hoje aquilo mesmo que um inolvid\u00e1vel Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico disse h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas e todos dever\u00edamos saber de cor. Deixai-me repeti-lo como se proferisse uma ora\u00e7\u00e3o, certo de que a M\u00e3e de Miseric\u00f3rdia, Senhora da Visita\u00e7\u00e3o, gostar\u00e1 tamb\u00e9m: \u201cAs alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens do nosso tempo, sobretudo as dos pobres e de todos os aflitos, s\u00e3o tamb\u00e9m as alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que n\u00e3o encontre eco no seu cora\u00e7\u00e3o\u201d (Conc\u00edlio Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o pastoral Guadium et Spes, n\u00ba 1). O cora\u00e7\u00e3o de Deus, o cora\u00e7\u00e3o de Maria, o nosso cora\u00e7\u00e3o, unidos numa \u00fanica e activa miseric\u00f3rdia, para com tudo e todos, sempre.  Des\u00edgnio grande, na verdade, que comove e preenche todo o cora\u00e7\u00e3o generoso: os vossos cora\u00e7\u00f5es, queridos peregrinos! Mas que tem um requisito pr\u00e9vio, um s\u00f3 e inevit\u00e1vel, a nossa convers\u00e3o. Exige de cada um a decis\u00e3o firme de reconhecer o que lhe falta, emendar o que o deforma e acolher inteiramente a ac\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a. Diante da proposta divina, Maria respondeu com a sua verdade: \u201cEis a serva do Senhor, fa\u00e7a-se em mim segundo a tua palavra\u201d (Lc 1, 38). N\u00f3s teremos de responder, nesta noite e sempre, com a verdade de cada um, onde encontraremos resist\u00eancias que Maria n\u00e3o tinha nem admitia. Mas tamb\u00e9m confiados na palavra de Deus, que nos recria em miseric\u00f3rdia.  Deixai-me repetir: Deus recria-nos mesmo, quando O deixamos tocar as nossas vidas, com o fogo do seu amor. Ouvimo-lo a S\u00e3o Jo\u00e3o ainda h\u00e1 pouco: \u201cSe confessamos os nossos pecados, Deus \u00e9 fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a iniquidade\u201d (1 Jo 1, 9). Pequeno trecho para dizer tant\u00edssimo! Mas certeza absoluta do poder de Deus, da sua \u00fanica inten\u00e7\u00e3o, da sua \u00fanica alegria at\u00e9. Assim \u00e9, amados irm\u00e3os, porque a alegria de Deus \u00e9 que vivamos; e o seu comprazimento \u00e9 que afastemos tudo quanto nos amesquinha e destr\u00f3i. Ouvimo-Lo a Ele mesmo, ao Deus-miseric\u00f3rdia, bradando pela voz do profeta: \u201cpois Eu n\u00e3o me comprazo com a morte de quem quer que seja. Convertei-vos e vivei!\u201d.  Irm\u00e3os peregrinos: a nossa celebra\u00e7\u00e3o agora, a nossa vig\u00edlia atenta, \u00e9 a resposta, grata e decidida, \u00e0 mesma exorta\u00e7\u00e3o divina, reactivada aqui pela \u201cM\u00e3e de Miseric\u00f3rdia\u201d. Como no cora\u00e7\u00e3o de Maria, \u00e9 agora neste cora\u00e7\u00e3o da Serra de Aire em que vigiamos todos, que a miseric\u00f3rdia divina encontrar\u00e1 correspond\u00eancia plena para que o eterno des\u00edgnio se cumpra: um mundo de Filhos de Deus, um mundo de irm\u00e3os verdadeiros! Que n\u00e3o seja por nenhum de n\u00f3s que demore o seu cumprimento.  F\u00e1tima, 12 de Setembro de 2007 <i>+ D. Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente durante a Peregrina\u00e7\u00e3o de Setembro 2007 no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima: Amados irm\u00e3os e peregrinos do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, neste Setembro, anivers\u00e1rio das apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora: T\u00eam as peregrina\u00e7\u00f5es esta natureza \u00fanica de, realmente, nunca se repetirem. 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