{"id":269706,"date":"2023-02-01T09:57:13","date_gmt":"2023-02-01T09:57:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=269706"},"modified":"2023-02-01T09:57:13","modified_gmt":"2023-02-01T09:57:13","slug":"cibercultura-o-apostolo-desconhecido-da-fraternidade-universal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-o-apostolo-desconhecido-da-fraternidade-universal\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; O Ap\u00f3stolo Desconhecido da Fraternidade Universal"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Pensar na Paz por um dia s\u00f3, sabe a pouco. Se dedicamos o m\u00eas de Setembro a reflectir, rezar e falar sobre o Tempo da Cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poder\u00edamos fazer o mesmo em Janeiro e passar a dedicar todo o m\u00eas a reflectir, rezar e falar sobre a Paz? O m\u00eas terminou, mas a Paz ainda n\u00e3o foi atingida na Ucr\u00e2nia, como em muitas outras partes do mundo. Por que raz\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil chegar \u00e0 paz num mundo t\u00e3o tecnol\u00f3gico e (supostamente) moderno como o de hoje? Talvez por termos compreendido a liberdade, a igualdade, mas ainda pouco a <em>fraternidade<\/em>.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00ab(\u2026) \u00e9 urgente buscar e promover, juntos, os valores universais que tra\u00e7am o caminho desta <strong>fraternidade<\/strong> humana.\u00bb<\/em> (n. 3 da Mensagem do Papa no Dia Mundial da Paz)<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-269707\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034-1080x608.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034-980x551.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/IMG_0034-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A tecnologia ajuda-nos a resolver os problemas, o progresso parece fazer-nos avan\u00e7ar na qualidade de vida e a globaliza\u00e7\u00e3o parece aproximar-nos, mas o Papa alerta que a confian\u00e7a excessiva depositada nestas tr\u00eas coisas \u2014 <em>\u00abtransformou-se numa intoxica\u00e7\u00e3o individualista e id\u00f3latra, minando a desejada garantia de justi\u00e7a, conc\u00f3rdia e paz.\u00bb<\/em> \u2014 O mundo vive a grande velocidade e perde pouca da sua aten\u00e7\u00e3o a pensar nos desequil\u00edbrios das nossas ac\u00e7\u00f5es. Na sequ\u00eancia da urg\u00eancia de caminhar mais assertivamente para a Paz, brota <em>\u00abmais forte a consci\u00eancia que convida a todos, povos e na\u00e7\u00f5es, a colocar de novo no centro a palavra \u201cjuntos\u201d. Com efeito, \u00e9 juntos, na fraternidade e solidariedade, que constru\u00edmos a paz, garantimos a justi\u00e7a, superamos os acontecimentos mais dolorosos.\u00bb<\/em> (n. 3). Foi nesse esp\u00edrito de que \u201cjuntos\u201d constru\u00edmos a paz que o desconhecido Elihu Burritt tentou no s\u00e9culo XIX iniciar uma Demanda pela Fraternidade Universal.<\/p>\n<p>Elihu Burritt (1810-1879), um simples ferreiro que se tornou diplomata, poliglota e filantropista, entre 1844 e 1851 publicou o <em>The Christian Citizen<\/em> (O Cidad\u00e3o Crist\u00e3o) como seman\u00e1rio dedicado \u00e0 temperan\u00e7a, anti-escravatura e \u00e0 paz mundial. Burritt foi um dos primeiros a apoiar o congresso das na\u00e7\u00f5es como forma de evitar a guerra e em 1848 chegou a organizar o Congresso de Bruxelas dos Amigos da Paz, tornando-se um agente fundamental na promo\u00e7\u00e3o da paz entre os povos.<\/p>\n<p>Em 1846, quando estava em Inglaterra, fundou a <em>Liga da Fraternidade Universal<\/em>. Diz-se que a ideia surgiu-lhe enquanto preparava uma aula sobre \u201cA Anatomia da Terra\u201d e se deu conta da unidade e interdepend\u00eancia presente nos elementos naturais, levando-o a escrever um manifesto pela paz internacional. J\u00e1 no seu tempo, mesmo sem internet, a cacofonia entre as pessoas a ver quem falava mais alto era comum, e, tamb\u00e9m aqui, Elihu encontrava sabedoria a partir do mundo natural dizendo que \u2014 <em>\u00abEstes oradores que nos d\u00e3o muito ru\u00eddo e muitas palavras, mas pouco argumento e menos sagacidade ainda, deviam aprender a li\u00e7\u00e3o do grande volume da natureza; muitas vezes, ela d\u00e1-nos o rel\u00e2mpago sem o trov\u00e3o, mas nunca d\u00e1 o trov\u00e3o sem o rel\u00e2mpago.\u00bb<\/em> Como rel\u00e2mpago sem trov\u00e3o, durante as tens\u00f5es entre os Estados Unidos e a Gr\u00e3-Bretanha por causa do territ\u00f3rio de Oregon, Burritt procurava estabelecer a boa vontade com breves ensaios a promover a paz nos jornais de ambos os pa\u00edses. Ensaios que ficaram conhecidos como &#8220;folhas de oliveira&#8221; simbolizando a perten\u00e7a ao ramo da paz que, um dia, o levaria a criar a Liga da Fraternidade Universal. O objectivo dessa liga era o de \u2014 <em>\u00abempregar todos os meios leg\u00edtimos e morais para a aboli\u00e7\u00e3o de toda a guerra, e todo o esp\u00edrito e manifesta\u00e7\u00f5es de guerra pelo mundo; pela aboli\u00e7\u00e3o de todas as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 correspond\u00eancia internacional e relacionamentos amig\u00e1veis, e de tudo o resto que tende a fazer das na\u00e7\u00f5es, inimigas, ou impe\u00e7a a sua fus\u00e3o numa s\u00f3 fraternidade pac\u00edfica; pela aboli\u00e7\u00e3o de todas as institui\u00e7\u00f5es e costumes que n\u00e3o reconhecem e respeitam a imagem de Deus e de um irm\u00e3o humano em cada homem, de qualquer clima, cor ou condi\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em> Palavras escritas no s\u00e9culo XIX, n\u00e3o XX.<\/p>\n<p>A simpatia de Elihu caracterizava-o em todas as iniciativas para promover a fraternidade universal, desde a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o da correspond\u00eancia (estou a falar de carta, lembram-se?) entre o Estados Unidos e a Gr\u00e3-Bretanha ao al\u00edvio da fome na Irlanda devido aos preju\u00edzos gerados por falhas no cultivo da batata em 1847. A sua ac\u00e7\u00e3o era discreta e sem grandes custos relativamente ao bem que fazia. N\u00e3o havia emails, mas soube comunicar atrav\u00e9s dos relacionamentos pessoais. N\u00e3o haviam redes sociais, mas a sua simpatia tornou-se viral. N\u00e3o tinha grandes recursos sen\u00e3o um grande cora\u00e7\u00e3o, mas era o suficiente para plantar no s\u00e9culo XIX, a semente daquilo que no s\u00e9culo XX viria a tornar-se as actuais Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Na cibercultura, a capacidade que temos de comunicar mudou radicalmente e a possibilidade de interagirmos uns com os outros \u00e9 inimaginavelmente maior e veloz quando comparada com o tempo de Elihu Burritt. Devido a problemas financeiros e a alguma dispers\u00e3o na sua ac\u00e7\u00e3o, a Liga da Fraternidade Universal n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es para continuar e o desfecho \u00e9 que poucos ou quase ningu\u00e9m conhece Elihu Burritt e a sua iniciativa. Com todos os meios digitais que temos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, aparentemente, tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos chegar ainda \u00e0 fraternidade universal e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e0 Paz.<\/p>\n<p>A fraternidade atinge-se quando somos capazes de viver la\u00e7os fortes, dur\u00e1veis e inevit\u00e1veis entre as pessoas, formando comunidades fraternas. A comunica\u00e7\u00e3o eficiente na web reflecte-se na efici\u00eancia com que se formam grupos de interesse comum (por exemplo, nas redes sociais), mas a capacidade de ajudar a humanidade a viver uma fraternidade universal parece ainda estar limitada. Quando as pessoas decidem realizar actividades virtuais sob o pretexto de que isso ir\u00e1 atrair mais pessoas do que se as actividades fossem presenciais, o resultado na maioria das vezes fica aqu\u00e9m do esperado. E a ideia que temos \u00e9 a do esfor\u00e7o enorme e necessidade de grandes recursos para fazer alguma coisa pela paz ao n\u00edvel de umas Na\u00e7\u00f5es Unidas, o que torna a pessoa de Elihu intrigante.<\/p>\n<p>Como pode um homem como Elihu Burritt, auto-didata e sem grandes recursos ou nome, fazer no s\u00e9culo XIX aquilo que n\u00e3o conseguimos fazer no s\u00e9culo XXI com tanta capacidade que temos para comunicar as nossas ideias e ideais? Ozora Davis que escreveu sobre Elihu como &#8220;Ap\u00f3stolo da Fraternidade Internacional&#8221; descreve-o como ambicioso, diligente, sens\u00edvel e cat\u00f3lico em simpatia, capaz de amar os grandes (pa\u00edses ou personalidades), como amar os pequenos (pensado nos da sua cidade em Nova Bretanha). <em>\u00abAo tornar-se um cidad\u00e3o do mundo, o Sr. Burritt n\u00e3o perdeu, mas antes dignificou a sua cidadania no lugar onde nasceu.\u00bb<\/em> A Paz no mundo come\u00e7a em casa.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o 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