{"id":269545,"date":"2023-02-01T09:00:41","date_gmt":"2023-02-01T09:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=269545"},"modified":"2023-01-31T17:26:38","modified_gmt":"2023-01-31T17:26:38","slug":"porque-sou-professor-catolico-e-de-emrc-faco-greve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/porque-sou-professor-catolico-e-de-emrc-faco-greve\/","title":{"rendered":"Porque sou professor cat\u00f3lico e de EMRC, fa\u00e7o greve."},"content":{"rendered":"<p><em>Bruno Alexandre, Diocese do Algarve<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-269652 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/professor-Bruno-Filipe-da-Cruz-Alexandre_EMRC_Algarve.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>A afirma\u00e7\u00e3o com que come\u00e7o o meu artigo pode parecer pol\u00e9mica. Muitas vezes, os cat\u00f3licos foram olhados com desconfian\u00e7a no meio sindical, ainda que Le\u00e3o XIII, na <em>Rerum Novarum<\/em>, tenha sido uma das primeiras autoridades a n\u00edvel mundial a se referir \u00e0 greve. Foi a\u00ed que se afirmou que \u00abo rem\u00e9dio [\u2026] mais eficaz e salutar \u00e9 prevenir o mal <em>[do dano das greves, NDA]<\/em> com a autoridade das leis, e impedir a explos\u00e3o, removendo a tempo as causas de que se prev\u00ea que h\u00e3o-de nascer os conflitos entre os oper\u00e1rios e os patr\u00f5es\u00bb (<em>RN<\/em>, 22). Esta afirma\u00e7\u00e3o tem norteado a nossa reflex\u00e3o teol\u00f3gica ao ponto de, no Comp\u00eandio de Doutrina Social da Igreja, reunindo os contributos de mais de cem anos de pensamento social eclesial, se afirmar que a greve \u00e9 leg\u00edtima quando esgotada a capacidade de di\u00e1logo, e mesmo que se configure como uma esp\u00e9cie de ultimato, desde que se mantenha dentro de limites pac\u00edficos (<em>cf<\/em>. Comp. DSI, 304).<\/p>\n<p>Estabelecido o princ\u00edpio de que a greve, \u00e0 luz do Magist\u00e9rio, pode ser leg\u00edtima, o que me levou a mim, professor cat\u00f3lico e, ainda mais, da disciplina de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica, a fazer greve? Ora, o que me levou a fazer greve, eu que quase nunca as fiz nos catorze anos em que tenho a gra\u00e7a de ser professor, foi a busca da justi\u00e7a para uma classe profissional injusti\u00e7ada, injuriada e vilipendiada e que, por acaso, \u00e9 aquela de que fa\u00e7o parte.<\/p>\n<p>Porque sou professor cat\u00f3lico e de EMRC, fa\u00e7o greve. Fa\u00e7o-a porque h\u00e1 catorze anos que estou em sucessivos contratos anuais incompletos, aumentando os hor\u00e1rios da nossa disciplina em diversos agrupamentos (e noutros, com menos sucesso), mas sou considerado sempre uma necessidade tempor\u00e1ria. Ou seja, sou um dispens\u00e1vel que volta a ser sempre necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o-a porque num pa\u00eds em que meio milh\u00e3o de euros dava para pagar a entrada, nos quadros, no primeiro \u00edndice de vencimento, de vinte e dois professores e ainda sobrava dinheiro (antes dos descontos, porque se nos referirmos aos vencimentos l\u00edquidos seriam mais dez professores), ou aumentar em cerca de mil o n\u00famero de alunos carenciados subsidiados nos seus estudos e alimenta\u00e7\u00e3o, ou atualizar milhares de computadores que ainda usam sistemas operativos obsoletos, preferimos n\u00e3o o fazer, dando como indemniza\u00e7\u00e3o a quem trabalhou, \u00e9 certo, mas talvez n\u00e3o por tanto tempo que merecesse tamanha verba.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o greve porque continuo a ter colegas meus de Bragan\u00e7a ou de Pa\u00e7os de Ferreira ou do Porto ou de Braga que, para conseguirem lecionar, t\u00eam de abandonar as suas fam\u00edlias e vir dar aulas para o nosso Algarve, a quinhentos quil\u00f3metros da sua resid\u00eancia, sem estabilidade, sem saberem como ser\u00e1 o ano a seguir, muitas vezes sem saberem em que fim-de-semana conseguir\u00e3o ter poupado o suficiente entre duas presta\u00e7\u00f5es da casa para ir ver os seus filhos, maridos, pais\u2026 de facto, n\u00e3o existem quaisquer subs\u00eddios de desloca\u00e7\u00e3o ou de alojamento aos professores: f\u00f4ssemos n\u00f3s deputados ou membros do governo\u2026<\/p>\n<p>Fa\u00e7o-a porque n\u00e3o sou um n\u00famero ou uma quota; porque quero justi\u00e7a na avalia\u00e7\u00e3o do meu trabalho, da minha entrega e dedica\u00e7\u00e3o pelos meus alunos e pela minha comunidade educativa. Porque quero que a minha escola possa afirmar \u201cTu \u00e9s muito bom professor!\u201d se for justo, como eu fa\u00e7o com os meus alunos, em vez de \u201cTu \u00e9s muito bom, mas n\u00e3o te podemos classificar como tal, porque as quotas est\u00e3o cheias\u201d. E o mesmo com os meus colegas de quadro que deveriam ver o seu esfor\u00e7o recompensado ao fim de anos de entrega, ao inv\u00e9s de estarem num purgat\u00f3rio administrativo \u00e0 espera da sua vez de passar ao escal\u00e3o seguinte da carreira. Imagine-se se fiz\u00e9ssemos n\u00f3s isso aos alunos\u2026 Deus nos livre e guarde desse dia\u2026<\/p>\n<p>Fa\u00e7o greve porque n\u00e3o consinto que voltemos a ser tristemente enganados, uma e outra vez, nas coisas grandes e nas pequenas. Como, por exemplo, na quest\u00e3o das datas de sa\u00edda das listas das reservas de recrutamento, em que Sua Excel\u00eancia, o Sr. Ministro, prometeu que sairiam muito antes do fim de agosto. E sa\u00edram, claro est\u00e1: no calend\u00e1rio ministerial, era 33 de agosto; no calend\u00e1rio gregoriano, 02 de setembro. Fa\u00e7o greve porque quero voltar a ter na minha entidade patronal um ente de bem, em que possa confiar, algo que n\u00e3o acontece agora.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o esta greve porque estamos a lutar por algo t\u00e3o poss\u00edvel que os nossos colegas das Regi\u00f5es Aut\u00f3nomas, t\u00e3o portugueses quanto n\u00f3s e que tamb\u00e9m reclamaram quanto reclamamos, conseguiram obt\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Porque sou professor cat\u00f3lico e de EMRC, fa\u00e7o greve. Fa\u00e7o-a pelos meus alunos, que querem melhores condi\u00e7\u00f5es para aprender, obras em escolas muitas vezes decr\u00e9pitas e degradadas; fa\u00e7o-a pelos assistentes operacionais, cada vez menos e com mais trabalho e que s\u00e3o a raz\u00e3o de, tantas vezes, a escola como edif\u00edcio e como comunidade humana se poder suster; fa\u00e7o-a pelos assistentes t\u00e9cnicos, assoberbados em cada vez mais trabalho burocr\u00e1tico, regras obsoletas e menor vencimento; fa\u00e7o-a pela quantidade absolutamente b\u00e1rbara de grelhas, folhas e tabelas que temos de preencher e que tiram tempo \u00e0 minha prepara\u00e7\u00e3o para ser melhor professor e \u00e0 minha entrega \u00e0 minha fam\u00edlia, \u00e0 minha Par\u00f3quia e \u00e0 minha Diocese e que, no fundo, de pouco ou nada servem; fa\u00e7o-a pelo poder de compra que, ano ap\u00f3s ano, todos os profissionais da educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o a perder; fa\u00e7o-a por mim e porque olho para os olhos de cada aluno meu que me diz \u201cProfessor, eu gostava de ser professor quando crescer\u201d e afirmo, com o meu cora\u00e7\u00e3o, \u201cEnt\u00e3o deixarei para ti esta profiss\u00e3o melhor do que a encontrei!\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 por muito mais que por poss\u00edveis quadros intermunicipais: essa foi a gota de \u00e1gua que fez transbordar o copo. \u00c9, como afirmei ao princ\u00edpio, pelo muito crist\u00e3o conceito de justi\u00e7a como \u201cdar a cada um aquilo que lhe \u00e9 devido\u201d. E, transversalmente a tudo isto, respeito. Por n\u00f3s e pelos alunos, a quem queremos dar mais e n\u00e3o nos deixam conseguir.<\/p>\n<p>Sim: porque sou professor cat\u00f3lico e de EMRC, fa\u00e7o greve!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bruno Alexandre<\/p>\n<p>Professor de EMRC no Agrupamento de Escolas Eng.\u00ba Duarte Pacheco, em Loul\u00e9, Diocese do Algarve<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Alexandre, Diocese do Algarve<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":269652,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-269545","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/269545","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=269545"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/269545\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/269652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=269545"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=269545"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=269545"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}