{"id":26912,"date":"2007-09-12T12:41:56","date_gmt":"2007-09-12T12:41:56","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/09\/12\/testemunhas-da-ternura-de-deus-2\/"},"modified":"2007-09-12T12:41:56","modified_gmt":"2007-09-12T12:41:56","slug":"testemunhas-da-ternura-de-deus-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/testemunhas-da-ternura-de-deus-2\/","title":{"rendered":"<i>Testemunhas da Ternura de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Carta Pastoral de D. Ant\u00f3nio Marto sobre o acolhimento e a voca\u00e7\u00e3o <!--more--> Car\u00edssimos Diocesanos  Irm\u00e3os e Irm\u00e3s no Senhor  \u201cA gra\u00e7a do Senhor Jesus esteja convosco. Eu amo-vos a todos em Cristo Jesus\u201d (1Cor 16,23-24). Com estas palavras do Ap\u00f3stolo Paulo sa\u00fado-vos cordialmente e expresso-vos o meu fraterno afecto, bem como a minha gratid\u00e3o pela vossa colabora\u00e7\u00e3o durante o meu primeiro ano entre v\u00f3s. Foi para mim verdadeiramente consolador sentir um povo interessado e entusiasmado em descobrir e celebrar a beleza e a alegria da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Pude verific\u00e1-lo, de modo mais vis\u00edvel, no bom acolhimento da carta pastoral e da carta \u00e0s crian\u00e7as, nas vig\u00edlias vocacionais, na grande peregrina\u00e7\u00e3o diocesana a F\u00e1tima, na celebra\u00e7\u00e3o das ordena\u00e7\u00f5es sacerdotais e do jubileu das v\u00e1rias voca\u00e7\u00f5es, no reiniciar do pr\u00e9-semin\u00e1rio e no grupo vocacional Santo Agostinho. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel medir o acontecimento de gra\u00e7a que, ao longo do ano, tocou as consci\u00eancias e as comunidades, nem os frutos da semente lan\u00e7ada. Mas, no termo do ano pastoral, quero agradecer convosco as pequenas e grandes maravilhas que o Senhor fez por n\u00f3s, com a ora\u00e7\u00e3o do salmista: \u201cLouvai o Senhor porque Ele \u00e9 bom, porque \u00e9 eterno o Seu amor\u201d (Sl 118,1). Hoje \u2013 ap\u00f3s ampla consulta aos v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os diocesanos, cujos preciosos contributos agrade\u00e7o \u2013, apresento-vos o percurso pastoral para o ano 2007\/08 com o t\u00edtulo \u201cTestemunhas da Ternura de Deus\u201d.  1. Uma paragem em Elim  A Sagrada Escritura, narrando-nos a caminhada do \u00eaxodo do povo de Deus atrav\u00e9s do deserto, diz a certa altura: \u201cChegaram a Elim onde est\u00e3o doze nascentes e setenta palmeiras. E acamparam ali \u00e0 beira da \u00e1gua\u201d (Ex 15, 27). O lugar de Elim, com as setenta palmeiras e as doze fontes, \u00e9 um aut\u00eantico o\u00e1sis que oferece ao povo, j\u00e1 fatigado pela longa caminhada, a possibilidade de parar, de retomar f\u00f4lego e de fazer o ponto da situa\u00e7\u00e3o: onde estamos? Como vivemos esta caminhada? O que nos espera? Como e por onde nos conduz o Senhor? A que nos chama? Este epis\u00f3dio serve para iluminar o nosso caminho pastoral j\u00e1 tra\u00e7ado pelo s\u00ednodo diocesano. Ap\u00f3s o primeiro bi\u00e9nio dedicado ao acolhimento e \u00e0 voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3, tamb\u00e9m n\u00f3s sentimos a necessidade de fazer uma paragem. Com isso queremos consolidar os dinamismos, as iniciativas e propostas, as ac\u00e7\u00f5es que foram desencadeadas e corriam o risco de depressa serem esquecidas, sem lan\u00e7arem ra\u00edzes s\u00f3lidas em todas as comunidades e vigararias.  \u00c9 tamb\u00e9m um convite a saborear de novo, a gostar interiormente, a sentir como s\u00e3o deliciosos para n\u00f3s os dons de Deus, concretamente os dons do acolhimento e da voca\u00e7\u00e3o, t\u00e3o caracter\u00edsticos da exist\u00eancia crist\u00e3.  Por isso, escolhemos como lema b\u00edblico para este ano pastoral 2007\/2008 a frase do salmista: \u201cSaboreai e vede como \u00e9 bom o Senhor\u201d (SI 34,9). Saboreai e vede, isto \u00e9, saboreai e ent\u00e3o vereis, sereis iluminados pela bondade do Senhor, pela sua ternura; vereis como a vossa vida se ilumina e adquire grandeza e beleza. E, como s\u00edmbolo, escolhemos a B\u00edblia porque cont\u00e9m os mais belos testemunhos da ternura de Deus e tamb\u00e9m para estarmos em sintonia com a prepara\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo s\u00ednodo dos bispos sobre \u201cA Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja\u201d A tem\u00e1tica do primeiro bi\u00e9nio pastoral estava centrada na \u201cVoca\u00e7\u00e3o como dom e miss\u00e3o\u201d. Mas na base, como ponto de partida, p\u00f4s-se o \u201cAcolhimento\u201d. De facto, o acolhimento \u00e9 o pressuposto, a atitude fundamental que nos abre a Deus, aos outros, ao mundo e, por conseguinte, \u00e0 nossa voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o. Antes de empreender e organizar iniciativas, devemos p\u00f4r-nos a quest\u00e3o: somos crist\u00e3os e comunidades capazes de acolher Deus e os outros? Assim, nesta carta pastoral, retomo os temas do acolhimento e da voca\u00e7\u00e3o em conjunto, procurando conjug\u00e1-los e ilumin\u00e1-los na perspectiva da ternura de Deus.   2. Um mundo in\u00f3spito que invoca ternura  Vivemos numa sociedade que, antes de mais, quer recuperar o valor do acolhimento porque sente que a vida se torna demasiado dura e fria se n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o verdadeira e calorosa com os outros. Pertencemos \u00e0 era fascinante da comunica\u00e7\u00e3o global. E, todavia, hoje aumenta cada vez mais a pobreza relacional e o vazio de sentido. Vivemos num mundo que se move e transforma a grande velocidade, que privilegia o ritmo empresarial e a efic\u00e1cia imediata. Somos a primeira gera\u00e7\u00e3o do stress e do zapping, s\u00edmbolos do activismo fren\u00e9tico e da febre do consumismo de coisas, e de af\u00e3s tantas vezes in\u00fateis. N\u00e3o temos tempo para parar, olhar, escutar prestar aten\u00e7\u00e3o, acolher, cuidar do outro. N\u00e3o temos tempo para Deus. Por isso a nossa sociedade encontra muita dificuldade em criar espa\u00e7os, tempos, lugares e condi\u00e7\u00f5es para o acolhimento. O acolhimento torna-se cada vez mais aleat\u00f3rio. Um outro fen\u00f3meno \u00e9 o crescente individualismo e o escasso sentido de comunidade. Cada um ocupa-se de si e dos seus interesses, pensa que pode realizar-se e ser feliz sem os outros. Ou v\u00ea o outro em fun\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Este facto traz como consequ\u00eancia uma quebra de fraternidade e solidariedade entre as pessoas. As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o dominadas pela competi\u00e7\u00e3o agressiva e invasora. Acresce ainda a cultura mercantilista que afecta as rela\u00e7\u00f5es humanas. Vivemos num mundo onde tudo se compra e vende. O modelo do \u00eaxito social e de felicidade veiculado pelos \u201cmedia\u201d \u00e9 o da aquisi\u00e7\u00e3o do poder, do saber e do ter. Perde-se o sentido da gratuidade para com os outros, j\u00e1 desde a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia. Tende-se a marginalizar os que n\u00e3o t\u00eam poder nem efic\u00e1cia produtiva.  \u00c0 escala mundial assistimos ao fen\u00f3meno da mobilidade e da imigra\u00e7\u00e3o que nos introduz numa sociedade e num tipo de conviv\u00eancia com diversas culturas e religi\u00f5es. Mas tal facto traz consigo os problemas do desenraizamento e as dificuldades de acolhimento e integra\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 diferente. Esta diversidade cultural pode tornar-se num enriquecimento, mas tamb\u00e9m pode suscitar reac\u00e7\u00f5es de xenofobia, de viol\u00eancia e transformar-se num \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d e de culturas.  O estilo de vida fren\u00e9tico e consumista, o individualismo e a indiferen\u00e7a, a ambi\u00e7\u00e3o e a avidez desenfreada, a cultura mercantilista produzem o drama moderno da incomunicabilidade, do anonimato, da solid\u00e3o existencial. Por vezes temos a sensa\u00e7\u00e3o de vivermos num \u201carquip\u00e9lago de solid\u00f5es\u201d em que cada um se sente uma ilha no meio de muita gente, estranho ao outro e, por fim, estranho a si mesmo.  Tudo isto repercute-se na quest\u00e3o fundamental de cada pessoa sobre o sentido a dar \u00e0 sua vida, isto \u00e9, na quest\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o. Numa sociedade fragmentada e confusa, a vida torna-se para muitos apenas uma coisa ocasional a usar e gozar no momento presente, sem projecto. Outros sentem-se \u201cperdidos\u201d, sem b\u00fassola, e por isso sem norte e sem rumo. Sintomas disso s\u00e3o o alto n\u00famero de doen\u00e7as ps\u00edquicas ligadas \u00e0 solid\u00e3o, ao stress, ao vazio interior e a busca de seitas onde muitos encontram acolhimento com a aceita\u00e7\u00e3o de regras claras e seguras. \u00c9 muito significativo que, nos pa\u00edses onde as grandes religi\u00f5es diminuem em n\u00famero de fi\u00e9is, proliferam seitas, bem como grupos de terapia, de auto ajuda\u2026 Que sociedade se est\u00e1 a construir no in\u00edcio do terceiro mil\u00e9nio? Que futuro se est\u00e1 a preparar? Numa leitura evang\u00e9lica dos sinais dos tempos, n\u00f3s, crist\u00e3os descobrimos nesta situa\u00e7\u00e3o um desafio e uma voca\u00e7\u00e3o. Trata-se de criar uma cultura da ternura e do acolhimento, da comunh\u00e3o e da solidariedade, como alternativa \u00e0 anti-cultura do ego\u00edsmo, da indiferen\u00e7a, da dureza e da frieza de rela\u00e7\u00f5es, da divis\u00e3o e da viol\u00eancia. Mas devemos come\u00e7ar por nos interrogar a n\u00f3s mesmos: qual a qualidade do nosso acolhimento nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, na fam\u00edlia, na comunidade crist\u00e3? Oferecemos propostas s\u00e9rias para o discernimento da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 no mundo de hoje, sobretudo aos jovens? N\u00e3o nos deix\u00e1mos contaminar pela l\u00f3gica do mundo? Sempre me impressionou, profundamente, a reprova\u00e7\u00e3o que Heinrich Boll, pr\u00e9mio Nobel da Literatura em 1972, dirige aos cat\u00f3licos: \u201cAquilo que at\u00e9 hoje faltou aos mensageiros do cristianismo \u00e9 a ternura\u201d aos v\u00e1rios n\u00edveis: de comunica\u00e7\u00e3o, de vida afectiva, de compromisso social. Sem ternura n\u00e3o h\u00e1 vida, n\u00e3o h\u00e1 beleza, n\u00e3o h\u00e1 felicidade!  3. O Evangelho da Ternura  O Deus de Jesus Cristo convida-nos, atrav\u00e9s do salmista, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o deslumbrante do seu mist\u00e9rio de Amor: \u201cO Senhor \u00e9 bom para com todos; cheio de ternura para com todas as suas criaturas\u201d (Sl 144,9). E pede-nos que nos tornemos, uns com os outros e uns para os outros, testemunhas da Sua ternura, se queremos que a casa do mundo possa ser acolhedora para todos e generosa para com todos. Levar a ternura de Deus ao mundo \u00e9 levar a salva\u00e7\u00e3o do Evangelho. O acolhimento de que falamos n\u00e3o \u00e9 o que se oferece num hotel ou num aeroporto ou numa ag\u00eancia banc\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia para captar ou fidelizar clientes. \u00c9 antes um estilo de vida. Acolhemos o outro a partir da nossa identidade de disc\u00edpulos de Jesus Cristo e do Seu Evangelho. Este acolhimento requer pois uma espiritualidade que o sustente e uma pedagogia que o configure a partir da f\u00e9. Deus \u00e9 Amor. Por isso \u00e9 Deus da ternura. As entranhas da Sua ternura manifestam-se como acolhimento puro. E o nosso pr\u00f3prio acolhimento \u00e9 um dom de Deus, reflexo da sua ternura. A B\u00edblia narra hist\u00f3rias maravilhosas de acolhimento e hospitalidade de Deus para com os homens e destes para com Ele, que s\u00e3o tamb\u00e9m hist\u00f3rias de voca\u00e7\u00e3o e que vamos contemplar e meditar.  3.1 Deus \u00e9 o primeiro a acolher-nos  3.1.1 \u201cE Deus viu que tudo era muito bom e belo\u201d: o encanto do primeiro acolhimento  Logo nos primeiros cap\u00edtulos, o livro do G\u00e9nesis mostra-nos como e quanto Deus \u00e9 acolhedor das suas criaturas. \u00c9 com uma exclama\u00e7\u00e3o cheia de encanto e de deslumbramento, terna e amorosa, que Deus acolhe o homem e a mulher, a obra-prima da sua cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a: \u201c E Deus viu que era muito bom e belo\u201d (1,31)!  E o cap\u00edtulo segundo, num estilo narrativo-simb\u00f3lico, p\u00f5e-nos a contemplar Deus como o Artista divino que modelou o homem e lhe \u201csoprou um alento de vida\u201d (2,7). O verbo \u201csoprar\u201d, na l\u00edngua original (naphah), admite tamb\u00e9m o significado de \u201cdar um beijo\u201d: a criatura humana recebe no seu rosto um beijo de Deus, s\u00edmbolo de ternura e intimidade, tal como o primeiro beijo da m\u00e3e ao acolher, em seus bra\u00e7os, o filho que acaba de dar \u00e0 luz! De seguida, \u00e9-nos apresentado o homem na sua solid\u00e3o existencial: \u201cN\u00e3o \u00e9 bom que o homem esteja s\u00f3\u201d (2,18). Esta solid\u00e3o prepara-o para o acolhimento da mulher, o seu semelhante, que n\u00e3o encontrara no mundo infra-humano. E como que despertando de um sono e de um sonho ansiado, o homem acolhe-a com um hino de j\u00fabilo: \u201cFinalmente, esta \u00e9 carne da minha carne, osso dos meus ossos\u201d (2,23). O ser humano adverte que, s\u00f3 acolhendo o outro, se torna plenamente humano. Criando-os \u00e0 Sua imagem e semelhan\u00e7a, Deus inscreveu no cora\u00e7\u00e3o de cada homem e de cada mulher a capacidade e a voca\u00e7\u00e3o de amar, de acolher.  Deus, por\u00e9m, continua a acolher o homem ao longo da hist\u00f3ria com as suas alegrias e tristezas, com as suas fragilidades e fadigas. Jesus, o Filho de Deus feito homem, \u00e9 um ser de acolhimento. Ao longo do Evangelho podemos contemplar a qualidade e a universalidade do Seu acolhimento.  3.1.2 \u201cSe conhecesses o dom de Deus\u201d: acolhidos nas nossas fragilidades  O encontro entre a Samaritana e Jesus junto ao po\u00e7o de Jacob (Jo 4,1-42) \u00e9 bem conhecido.  Num pa\u00eds onde a \u00e1gua \u00e9 rara, os po\u00e7os de \u00e1gua s\u00e3o lugares privilegiados de encontros e comunica\u00e7\u00e3o, de conflitos e reconcilia\u00e7\u00e3o, de recorda\u00e7\u00f5es e surpresas do quotidiano da gente. Sozinha, com o c\u00e2ntaro vazio, \u00e0 hora de maior calor talvez para n\u00e3o encontrar ningu\u00e9m, esta mulher solit\u00e1ria chega ao lugar onde Jesus est\u00e1 sentado. E \u00e9 surpreendida pela iniciativa da palavra de Jesus: \u201cD\u00e1-me de beber.\u201d Surpresa para a mulher, que um judeu fale a uma samaritana; e para os disc\u00edpulos, que o Mestre fale \u00e0 primeira mulher que encontrou. A palavra do Mestre come\u00e7ou por derrubar as barreiras sociais, culturais e religiosas. Como se quisesse p\u00f4r em comunica\u00e7\u00e3o pessoas e mundos que as sociedades e religi\u00f5es fecham nas suas particularidades e preconceitos. Para Jesus, o que conta \u00e9 a pessoa concreta, \u00fanica, amada por Deus. Assim, o encontro casual junto ao po\u00e7o de Jacob torna-se ocasi\u00e3o para entrar no \u201cpo\u00e7o profundo\u201d da consci\u00eancia e da vida atribulada da mulher samaritana. Com uma pedagogia humano-divina, Jesus aceita, de in\u00edcio, que o di\u00e1logo comece pelas coisas banais, por lugares comuns, feito at\u00e9 com alguma ironia. Mas depois, lenta e delicadamente, entra no cora\u00e7\u00e3o da samaritana. Leva-a a interrogar-se, a entrar no profundo dos seus problemas, a confessar as desilus\u00f5es e amarguras da vida e a abrir-se \u00e0 novidade de Cristo: \u201cSe conhecesses o dom de Deus!\u201d. O encontro com a samaritana revela como Jesus acolhe a partir da situa\u00e7\u00e3o espiritual concreta da pessoa, com uma grande e delicada aten\u00e7\u00e3o, sem pretender dominar, sem fazer ju\u00edzos nem proferir condena\u00e7\u00f5es \u00e0 partida; mas tamb\u00e9m sem se deixar capturar, condicionar e bloquear. Antes, ajuda a superar os bloqueamentos. O Senhor revela \u00e0 sua interlocutora uma experi\u00eancia surpreendente: um caminho para o interior de si mesma que a abre ao exterior, que a conduz ao Deus vivo e aos outros. O caminho vivo de Amor e a voca\u00e7\u00e3o a testemunh\u00e1-lo. No final, ela reconhecer\u00e1 e acolher\u00e1 abertamente o \u201cdom de Deus\u201d que transcende toda a discrimina\u00e7\u00e3o de pessoas e todas as barreiras interiores e exteriores: esse dom \u00e9 Jesus, o Cristo, a fonte de \u00e1gua viva, que sacia toda a sua sede, todo o desejo de viver. Tendo-O escutado at\u00e9 ao fim, a mulher, abandonando o seu c\u00e2ntaro, correu \u00e0 cidade a testemunhar esta experi\u00eancia de Cristo e da Sua Palavra que transformou e transfigurou a sua vida. Ei-la mission\u00e1ria de Cristo! A samaritana \u00e9 figura de todos n\u00f3s; \u00e9 a nossa sociedade desiludida depois de tantas experi\u00eancias e promessas, tentada a fechar-se sobre si, sobre os seus ego\u00edsmos e as suas desilus\u00f5es, sobre o t\u00e9dio da vida, mas \u00e0 espera de ser acolhida por Algu\u00e9m que a ajude a retomar respira\u00e7\u00e3o, \u00e2nimo e entusiasmo, a reencontrar o melhor de si mesma.  3.1.3 \u201cFitando nele o olhar, amou-o\u201d: acolhidos apesar da recusa    O encontro do jovem rico com Jesus (Mc 10,17-22) n\u00e3o \u00e9 ocasional. \u00c9 desejado e procurado: \u201co jovem corre para Ele, ajoelha-se, pergunta e escuta\u201d. Trata-se de um jovem rico, uma pessoa com possibilidades, energias, talentos, riquezas. Pelo seu modo de agir e falar aparece como um jovem simp\u00e1tico, religioso enquanto cumpre e respeita formalmente a religi\u00e3o, procurando agir correctamente, preocupado pelo que faz e lhe falta ainda fazer. Olha para Jesus como algu\u00e9m em quem p\u00f5e a sua confian\u00e7a, com quem pode falar sobre as suas interroga\u00e7\u00f5es existenciais sem medo de ser mal entendido. E p\u00f5e-lhe a quest\u00e3o mais importante e mais s\u00e9ria sobre o sentido a dar \u00e0 sua vida, para que seja vida verdadeira, plena e feliz: \u201cQue devo fazer para alcan\u00e7ar a vida eterna?\u201d. \u201cJesus fitando nele o olhar, amou-o\u201d \u2013 diz o texto. Quer dizer, Jesus acolheu-o com amor.  Com o seu olhar de afecto, manifestou-lhe a sua ternura, ofereceu-lhe a sua amizade, f\u00ea-lo sentir no centro da pr\u00f3pria aten\u00e7\u00e3o, valorizou a sua boa vontade e a sua rectid\u00e3o, mostrou-lhe quanto \u00e9 precioso aos seus olhos e digno de estima. E responde \u00e0 sua quest\u00e3o de fundo convidando-o a dar um salto qualitativo na sua vida: abrir-se \u00e0 novidade do Evangelho e \u00e0 beleza da santidade de vida. O que Jesus lhe prop\u00f5e \u00e9 a liberdade do cora\u00e7\u00e3o para O seguir e partilhar a riqueza dos seus bens e talentos com os que precisam. Mostra-lhe o caminho da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 em que se realiza o homem e a sua dignidade. Por\u00e9m, o jovem partiu triste e, porventura, desiludido com Jesus. Estava disposto a observar as regras fundamentais da vida, mas fechado no mundo das suas coisas e seguran\u00e7as. N\u00e3o acolhe a novidade de Jesus. Chegou \u00e0 fronteira duma nova etapa e voca\u00e7\u00e3o da sua vida, mas n\u00e3o teve a coragem de a transpor. Ficou s\u00f3 com a religiosidade da lei de n\u00e3o fazer mal aos outros (n\u00e3o mato nem roubo), mas sem ir mais longe. Parece-nos um \u201cfalhan\u00e7o\u201d pastoral de Jesus! Estamos diante do mist\u00e9rio do dom da f\u00e9 e da liberdade do homem. Mist\u00e9rio que requer respeito! Os encontros de Cristo cont\u00eam uma espiritualidade e uma pedagogia do acolhimento. Para Jesus, cada pessoa \u00e9 \u00fanica, com o seu nome pr\u00f3prio, o seu rosto, a sua hist\u00f3ria. Atrav\u00e9s de um procedimento progressivo e revelador, Jesus valoriza, purifica e leva \u00e0 verdade plena o desejo de vida, de amor, de verdade, de alegria e esperan\u00e7a que move o cora\u00e7\u00e3o e a liberdade de cada pessoa.  3.2 Chamados a acolher Deus e os seus dons  3.2.1 \u201cN\u00e3o passes adiante sem parar em casa do teu servo\u201d: acolher Deus no quotidiano   \u00c9 cl\u00e1ssico o epis\u00f3dio do acolhimento de Deus por Abra\u00e3o junto ao carvalho de Mambr\u00e9 (Gen18,1-15) onde est\u00e1 acampado. Vemos a\u00ed tr\u00eas personagens, desconhecidas e misteriosas, acolhidas por Abra\u00e3o e Sara. Prometem que Sara gerar\u00e1 um filho na sua velhice. Abra\u00e3o descobre nesta visita inesperada a passagem de Deus, a significar que Deus chega sempre de surpresa: \u201cSenhor, pe\u00e7o-te que n\u00e3o passes adiante sem parar em casa do teu servo\u201d. A hospitalidade generosa de Abra\u00e3o \u00e9-nos descrita com tra\u00e7os de significado m\u00edstico-simb\u00f3lico. Configura-se como uma liturgia do acolhimento, uma festa de alegria do encontro \u00e0 mesa. Oferece o melhor que tem, d\u00e1-lhe o lugar central; d\u00e1-lhe o tempo que \u00e9 necess\u00e1rio e n\u00e3o \u00e0 pressa. Tem tempo para Deus. O gesto de Abra\u00e3o indica que a experi\u00eancia espiritual da f\u00e9 exige uma tomada de consci\u00eancia da presen\u00e7a de Deus no nosso quotidiano. Querendo que Deus pare em sua casa, Abra\u00e3o deseja que Deus se torne familiar. A vida de f\u00e9 traz em si o desejo de n\u00e3o deixar que Deus passe ao lado, de O acolher \u201cem casa \u201d. Deus quer ser acolhido: e quando O acolhemos, Ele torna fecunda a nossa vida, abre-nos um futuro novo, desperta em n\u00f3s o sentido do outro e da miss\u00e3o, a voca\u00e7\u00e3o.  3.2.2 \u201cSentada aos p\u00e9s do Senhor, escutava a Sua Palavra\u201d: acolher a Palavra  Esta p\u00e1gina do Evangelho (Lc 10, 38-42) mostra-nos Jesus acolhido por Marta e Maria em sua casa, onde ele gostava de saborear a amizade, a intimidade, o repouso sereno.  Marta, como boa dona de casa, disp\u00f5e-se a preparar tudo para um acolhimento digno de t\u00e3o estimado h\u00f3spede. Maria \u201csentada aos p\u00e9s do Senhor, escutava a Sua palavra\u201d. Marta mostra-se agitada, inquieta, perturbada, ansiosa e impaciente pelas muitas coisas a fazer, e pede a Jesus que reprove o aparente desinteresse de Maria. E a resposta de Jesus soa como uma advert\u00eancia afectuosa: \u201cMarta, Marta, andas t\u00e3o inquieta e perturbada, mas uma s\u00f3 coisa \u00e9 necess\u00e1ria. Maria escolheu a melhor parte que n\u00e3o lhe ser\u00e1 tirada\u201d. N\u00e3o se trata aqui de uma li\u00e7\u00e3o de cortesia, de boas maneiras. Jesus n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ing\u00e9nuo que desconhe\u00e7a tudo o que \u00e9 preciso fazer para receber bem um h\u00f3spede. A frase de Jesus constitui um pequeno \u201cevangelho\u201d: \u00e9 o an\u00fancio da Palavra que pode preencher o cora\u00e7\u00e3o, salvando-o da dispers\u00e3o das muitas coisas. Quer salvar do perigo de perder o valor da Sua visita, da Sua presen\u00e7a, da Sua palavra sobre Deus e sobre o mist\u00e9rio da vida. Os tra\u00e7os do car\u00e1cter de Marta podem ser vistos no homem moderno: o homem fren\u00e9tico, doente da pressa e da ansiedade cr\u00f3nica, que cai num activismo sem profundidade, vazio de interioridade, com a \u00e2nsia de fazer muitas coisas. E corre o risco de perder o centro de gravidade, o sentido do essencial. As muitas coisas impedem n\u00e3o s\u00f3 a escuta, mas tamb\u00e9m o verdadeiro servi\u00e7o. Fazer muito \u00e9 sinal de amor; mas tamb\u00e9m pode fazer morrer o amor, at\u00e9 na fam\u00edlia, quando desvia a aten\u00e7\u00e3o para as coisas em detrimento das pessoas. Acolher n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer ou dar coisas, mas, antes de mais, \u00e9 dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa, fazer companhia, dar tempo e espa\u00e7o para escutar a Palavra. Maria \u00e9 o s\u00edmbolo do disc\u00edpulo e da Igreja \u00e0 escuta de Cristo: abre-lhe o seu cora\u00e7\u00e3o, deixa-o entrar na sua vida, cultiva a amizade pessoal com Ele, consciente de que \u201cnem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus\u201d. Tamb\u00e9m, nesta hist\u00f3ria, Aquele que \u00e9 acolhido \u00e9 o mesmo que vem para acolher, para dar uma Palavra de vida, de luz, de esperan\u00e7a, de alegria e de paz. Esta \u00e9 a \u201cparte melhor\u201d que n\u00e3o ser\u00e1 retirada: o que d\u00e1 consist\u00eancia e sentido \u00e0 vida do disc\u00edpulo, aquilo que permanece e n\u00e3o passa. \u201cFeliz aquele que escuta a Palavra e a p\u00f5e em pr\u00e1tica\u201d, diz Jesus, conjugando assim as atitudes do acolhimento completo: o cora\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, \u00e0 escuta, de Maria e as m\u00e3os servi\u00e7ais de Marta. A Palavra acolhida \u00e9 um dom que cont\u00e9m em si a voca\u00e7\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o, ao servi\u00e7o, ao testemunho.  3.2.3 \u201cHoje, a salva\u00e7\u00e3o entrou nesta casa\u201d: acolher a Miseric\u00f3rdia    Vejamos ainda a narra\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel do encontro de Zaqueu com Jesus (Lc 19,1-10). A personagem de Zaqueu \u00e9-nos descrita com cores negativas: \u201cchefe dos publicanos e rico\u201d. \u00c9 colaboracionista do poder romano, um odiado cobrador de impostos, corrupto, \u00e1vido de lucro e escravo do dinheiro, desprezado pelo povo, temido mas isolado. \u00c9 um pecador p\u00fablico. E, todavia, este homem tem uma ansiedade interior: \u201cProcurava ver Jesus\u201d e soube aproveitar a ocasi\u00e3o de uma passagem irrepet\u00edvel de Jesus pela cidade. Provavelmente tinha mais do que simples curiosidade; talvez uma insatisfa\u00e7\u00e3o, uma inquieta\u00e7\u00e3o interior. Intui que Jesus tem algo de misterioso e fascinante que o atrai. Adverte que Jesus pode fazer algo por ele. Sente-se pequeno e distante, mas arrisca, at\u00e9 ao rid\u00edculo, subindo a uma \u00e1rvore.  E Jesus, passando \u201clevantou os olhos\u201d e disse-lhe uma palavra imprevista, extraordin\u00e1ria, inesperada: \u201cZaqueu, desce depressa, porque hoje devo hospedar-me em tua casa\u201d. E Zaqueu acolhe-o \u201ccheio de alegria\u201d, express\u00e3o t\u00edpica de S. Lucas que manifesta bem a consequ\u00eancia interior de acolher Deus. A entrada de Jesus naquela casa \u00e9 a entrada da miseric\u00f3rdia. Ao acolher Jesus, Zaqueu acolhe a miseric\u00f3rdia. \u00c9 essa experi\u00eancia de miseric\u00f3rdia, e s\u00f3 ela, que abre o cora\u00e7\u00e3o de Zaqueu \u00e0 generosidade (\u201cdarei a metade dos meus bens aos pobres; e se defraudei algu\u00e9m, restituirei quatro vezes mais\u201d). De cobrador passa a dador. Ganha uma nova sensibilidade para os outros dando-lhes muito mais do que \u00e9 devido: ao receber ele pr\u00f3prio mais do que merecia (a entrada de Jesus em sua casa), d\u00e1 muito mais do que os outros merecem. Podemos ver isto em perspectiva vocacional: quem n\u00e3o (se) d\u00e1, \u00e9 porque n\u00e3o recebeu; quem n\u00e3o vive a sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o acolheu a ternura, o amor terno de Jesus. Notemos que este encontro acontece por iniciativa de Jesus, do seu olhar de amor, que procura Zaqueu superando todos os obst\u00e1culos, como a sua condi\u00e7\u00e3o de pecador ou a hostilidade e a cr\u00edtica da multid\u00e3o que se escandaliza e murmura A pr\u00f3pria busca de Zaqueu \u00e9 acolhida, valorizada, purificada e regenerada de tal modo que, de curiosidade inicial, se transforma em acolhimento alegre de Jesus e em generosa voca\u00e7\u00e3o a segui-l\u2019O.  3.3 \u201cAcolhei-vos uns aos outros como Cristo vos acolheu\u201d: o acolhimento fraterno   O acolhimento de Cristo na f\u00e9 prolonga-se no acolhimento de Cristo nos irm\u00e3os: \u201cQuem acolhe um destes pequeninos, \u00e9 a Mim que Me acolhe; e quem Me acolhe a Mim, acolhe o Pai que Me enviou\u201d (Mc 9, 37). Mais rica e paradoxal \u00e9 outra afirma\u00e7\u00e3o de Jesus, no contexto do ju\u00edzo final: \u201cEu era estrangeiro e v\u00f3s acolhestes-Me\u201d (Mt 25, 35). Aqui est\u00e1 toda a espiritualidade espec\u00edfica do acolhimento crist\u00e3o. Por isso, S. Paulo, depois de ter contemplado o mist\u00e9rio de Cristo em dimens\u00e3o universal, exclama na carta aos Romanos: \u201cO Deus da perseveran\u00e7a e da consola\u00e7\u00e3o vos conceda os mesmos sentimentos de uns para com os outros segundo Jesus Cristo, para que, com um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, acolhei-vos uns aos outros como Cristo vos acolheu para gl\u00f3ria de Deus\u201d (15, 5-7). S. Paulo v\u00ea no acolhimento uma express\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e da realiza\u00e7\u00e3o da lei de Cristo. Convida-nos a ter o nosso olhar fixo em Jesus para nos acolhermos mutuamente. Ele acolheu todos para nos reunir numa \u00fanica grande fam\u00edlia de irm\u00e3os, filhos do \u00fanico Pai. Viver como crist\u00e3os significa, pois, viver acolhendo-nos no amor rec\u00edproco. N\u00e3o se trata de um mero altru\u00edsmo ou de uma filantropia natural. Exige uma convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, uma mudan\u00e7a de estado de esp\u00edrito. No sentido crist\u00e3o do termo, o acolhimento fraterno \u00e9 modelado pelo Evangelho de Jesus e pela gra\u00e7a de Deus.  Assim, a partir daqui, podemos ver as suas caracter\u00edsticas: O acolhimento \u00e9, antes de mais, abertura relacional. \u00c9 mais amplo que a simples ajuda, porque significa abrir-se \u00e0 pessoa e n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s suas necessidades. Significa abrir o cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 dar ajuda; tratar o outro como a si mesmo e nele servir o Senhor de todo o cora\u00e7\u00e3o. Tudo come\u00e7a pelo apre\u00e7o do outro, pela aten\u00e7\u00e3o, escuta, di\u00e1logo, respeito e delicadeza. O acolhimento implica a disponibilidade. Para que o outro possa ser recebido como um ser \u00fanico \u00e9 preciso tempo, a fim de que a pessoa possa \u201cdizer-se\u201d, exprimir-se, sentir-se \u00e0 vontade, desafogar os seus problemas, as suas dores por vezes profundas e ocultas. Isto n\u00e3o suporta a precipita\u00e7\u00e3o.  O acolhimento crist\u00e3o \u00e9 solidariedade, comunh\u00e3o e partilha nas alegrias e tristezas, sem qualquer sentimento de superioridade ou rela\u00e7\u00e3o paternalista. Assim resultar\u00e1 num enriquecimento m\u00fatuo. O acolhimento crist\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m universal, sem fazer acep\u00e7\u00e3o de pessoas, sem restri\u00e7\u00e3o nem segrega\u00e7\u00e3o. Por isso, estende-se em diversas direc\u00e7\u00f5es: em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo que vive continuamente a nosso lado (familiar, vizinho, companheiro de trabalho); ao diferente, \u00e0quele que n\u00e3o pensa, nem vive como n\u00f3s, que n\u00e3o \u00e9 da nossa religi\u00e3o, do nosso partido, da nossa ra\u00e7a, da nossa forma\u00e7\u00e3o; ao \u201cindiferente\u201d, ao marginalizado, exclu\u00eddo, que faz parte da multid\u00e3o de an\u00f3nimos, com quem n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rela\u00e7\u00e3o; e, por fim, at\u00e9 ao inimigo, ao advers\u00e1rio, atrav\u00e9s do perd\u00e3o, da comunica\u00e7\u00e3o reencontrada que nos leva a ultrapassar as atitudes de \u00f3dio, vingan\u00e7a e desprezo. O acolhimento e o cuidado dos outros \u00e9 ainda um lugar e um caminho para despertar e descobrir a voca\u00e7\u00e3o e as diferentes voca\u00e7\u00f5es na Igreja. Deus chama-nos tamb\u00e9m atrav\u00e9s das necessidades da Igreja e do mundo. Quantos e quantas descobriram, deste modo, a sua voca\u00e7\u00e3o ao sacerd\u00f3cio ou \u00e0 vida religiosa e mission\u00e1ria!  4. A Igreja, \u201ccasa e escola\u201d do Acolhimento  A Igreja, porque \u00e9 habitada pelo Esp\u00edrito de Jesus \u2013 que \u00e9 Esp\u00edrito de caridade e comunh\u00e3o \u2013 \u00e9 pois, por natureza e voca\u00e7\u00e3o, \u201ccasa e escola\u201d de acolhimento crist\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, poss\u00edvel imaginar o acolhimento como uma pr\u00f3tese, um suplemento das comunidades crist\u00e3s delegado a alguns \u201cespecialistas\u201d ou profissionais de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Toda a pessoa \u00e9 um apelo que pede para ser acolhida e escutada. O acolhimento \u00e9 como um livro aberto onde cada um de n\u00f3s pode ler que tamb\u00e9m \u00e0 sua vida, t\u00e3o cheia de coisas, falta o \u201c\u00fanico necess\u00e1rio\u201d, que \u00e9 a capacidade de rela\u00e7\u00e3o, de partilha, de amor, de dedica\u00e7\u00e3o, e voca\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o dos outros. Na atitude de acolhimento e em comunidades acolhedoras \u00e9 onde a nossa civiliza\u00e7\u00e3o encontrar\u00e1 os novos \u201cpo\u00e7os de Jacob\u201d para saciar a sua sede, abrigar-se do calor abrasador, receber o dom da vida verdadeira. \u00c9 aqui que muitos homens e mulheres encontrar\u00e3o rem\u00e9dio para a solid\u00e3o.  A pastoral do acolhimento \u00e9 pois um elemento constitutivo e b\u00e1sico da Igreja que revela o cora\u00e7\u00e3o de Cristo cheio de ternura, miseric\u00f3rdia e esperan\u00e7a. O acolhimento deve dar uma alma e um pouco de cora\u00e7\u00e3o, de afecto e calor humano \u00e0s rela\u00e7\u00f5es, \u00e0 vida e \u00e0s estruturas de cada comunidade. Assim, apresentamos algumas pistas de ac\u00e7\u00e3o a serem reflectidas em cada comunidade, para um exame de consci\u00eancia e iniciativas pastorais concretas.  4.1 Cultivar a espiritualidade do acolhimento  Antes de programar iniciativas concretas \u00e9 preciso promover uma espiritualidade do acolhimento e da comunh\u00e3o. Em primeiro lugar, esta espiritualidade tem a sua fonte na ora\u00e7\u00e3o e em toda a celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de mais, um momento de acolhimento em que se escuta Deus que fala \u00e0 mente e ao cora\u00e7\u00e3o, em que nos deixamos acolher por Deus que vem ao nosso encontro, nos precede, acompanha e chama a colaborar com Ele. Ele \u00e9 o primeiro que nos acolhe tal como somos e na situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos. \u00c9 Ele que dilata o nosso cora\u00e7\u00e3o e o abre aos outros. Mas o acolhimento de Deus requer o nosso recolhimento. \u00c9 necess\u00e1rio estar dispon\u00edvel, ter tempo para Deus. Nesta linha, propomos viver a Quaresma como um tempo de recolhimento, dando-lhe o car\u00e1cter de um \u201cretiro popular\u201d, isto \u00e9, para todo o povo de Deus: cada comunidade reunir-se-\u00e0 uma vez por semana, para meditar sobre a espiritualidade e a pastoral do acolhimento e da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Para isso ofereceremos, a seu tempo, as medita\u00e7\u00f5es quaresmais, sob a forma de leitura familiar e orante da Palavra de Deus (Lectio divina), que nos p\u00f5e \u00e0 escuta de Deus e nos faz sentir que a Sua Palavra n\u00e3o \u00e9 long\u00ednqua nem impessoal, mas fala hoje, pessoalmente, ao cora\u00e7\u00e3o de cada um. Pe\u00e7o aos p\u00e1rocos que fa\u00e7am, atempadamente, uma especial sensibiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do povo de Deus para este aspecto.  4.2 Presen\u00e7a de proximidade na par\u00f3quia  A par\u00f3quia \u00e9 a presen\u00e7a viva e vis\u00edvel da Igreja de Jesus no meio das casas dos homens. N\u00e3o h\u00e1-de ser vista como esta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os religiosos, mas como casa de acolhimento fraterno das pessoas e de experi\u00eancia significativa do Evangelho. \u00c9 preciso, pois, incrementar e dar qualidade evang\u00e9lica \u00e0 dimens\u00e3o do acolhimento, como express\u00e3o de um amor que a todos abra\u00e7a: homens e mulheres, fracos e fortes, entusiastas e desiludidos, estranhos e conhecidos. Significa dar testemunho de uma Igreja interessada mais nas pessoas que nas estruturas, dialogante, calorosa. A presen\u00e7a de proximidade exprime-se em tecer rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, directas com todos os seus habitantes, crist\u00e3os ou n\u00e3o, participantes da vida da comunidade ou \u00e0 sua margem. Nada na vida das pessoas, acontecimentos alegres ou tristes, deve escapar \u00e0 presen\u00e7a discreta e activa da par\u00f3quia, feita de proximidade, de aten\u00e7\u00e3o e partilha. Por isso h\u00e1 que cuidar, \u00e0 partida, de aspectos e atitudes fundamentais:  &#8211; No servi\u00e7o pastoral dedicar mais tempo a cada pessoa, escut\u00e1-la, estar a seu lado nos acontecimentos mais importantes e ajudar a buscar, com ela, as respostas \u00e0s suas dificuldades e necessidades. Fa\u00e7amos com que todos, ao serem e sentirem-se valorizados, se possam sentir na Igreja como na sua pr\u00f3pria casa;   &#8211; Programar o acolhimento em forma de \u201crede de rela\u00e7\u00f5es\u201d de conhecimento, amizade, convite, colabora\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s de pessoas dedicadas e id\u00f3neas para os v\u00e1rios \u00e2mbitos. Trata-se de criar e valorizar o minist\u00e9rio do acolhimento que \u00e9 como que o \u201ccart\u00e3o de visita\u201d duma comunidade;   &#8211; Cuidar do atendimento a quem vem pedir um servi\u00e7o ou informa\u00e7\u00e3o ou expor um problema, atrav\u00e9s de um estilo de aten\u00e7\u00e3o, delicadeza, escuta, paci\u00eancia, compreens\u00e3o e disponibilidade de tempo programado (que entra nos programas) de modo que as pessoas se sintam \u00e0 vontade. S\u00e3o contr\u00e1rias a este estilo as atitudes de frieza, indiferen\u00e7a, falta de gentileza ou o querer despachar de qualquer modo e o mais rapidamente poss\u00edvel;  &#8211; Dar vida a pequenos grupos ou comunidades onde seja poss\u00edvel viver melhor o acolhimento fraterno (a escuta rec\u00edproca, a partilha, a ora\u00e7\u00e3o) e rela\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas e familiares;  &#8211; Aproveitar ou criar o \u201cdia da comunidade paroquial\u201d como ocasi\u00e3o para sair das rela\u00e7\u00f5es an\u00f3nimas, para o m\u00fatuo conhecimento, para derrubar barreiras e incrementar o sentido de fam\u00edlia e de fraternidade.  Nos momentos mais significativos da vida  Nos momentos mais importantes e significativos da vida, alegres ou tristes, de \u00eaxito ou fracasso \u2013 nascimento, casamento, morte \u2013 \u00e9 quando aflora, mais ou menos fortemente, \u00e0 consci\u00eancia e ao cora\u00e7\u00e3o humano o sentido do sagrado e da transcend\u00eancia, a dimens\u00e3o espiritual que envolve a exist\u00eancia humana. S\u00e3o ocasi\u00e3o de uma maior aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja para pedir os sacramentos. S\u00e3o momentos carregados de fortes emo\u00e7\u00f5es. Muitas pessoas vivem afastadas da Igreja, com uma f\u00e9 t\u00e9nue; sem saber o que \u00e9 preciso fazer e sentem-se embara\u00e7adas num ambiente que n\u00e3o lhes \u00e9 habitual. Nestas situa\u00e7\u00f5es requere-se um acolhimento muito pr\u00f3prio de empatia, delicadeza e compreens\u00e3o, de esclarecimento inteligente e paciente, de di\u00e1logo sereno. H\u00e1 que valorizar estes momentos com propostas em ordem a uma boa prepara\u00e7\u00e3o e a uma boa celebra\u00e7\u00e3o do baptismo e do matrim\u00f3nio para que os dons de Deus sejam acolhidos, por quem os pede, com seriedade, dignidade, verdade e beleza. Esta mesma sensibilidade e empatia s\u00e3o necess\u00e1rias para o acolhimento relativo ao sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos funerais. Neste \u00faltimo aspecto, todos sabemos o que representa a dor da perda de uma pessoa querida. A comunidade crist\u00e3 sente-se interpelada a manifestar os seus sentimentos de comunh\u00e3o com a fam\u00edlia enlutada. Quando for poss\u00edvel e oportuno, com a colabora\u00e7\u00e3o das irmandades e confrarias e de outros animadores leigos, pode propor \u00e0s fam\u00edlias um momento de ora\u00e7\u00e3o no lugar do \u201cvel\u00f3rio\u201d, preparando-o cuidadosamente. Al\u00e9m disso, podem envolver-se os familiares na celebra\u00e7\u00e3o confiando-lhes a leitura da Palavra ou a formula\u00e7\u00e3o das inten\u00e7\u00f5es dos fi\u00e9is. E como \u00e9 importante a homilia de estilo meditativo e afectuoso! N\u00e3o h\u00e1 nada de mais irritante que uma pr\u00e9dica de lugares comuns ou fria como um acto notarial.  Nas situa\u00e7\u00f5es de fragilidade  Um acolhimento particular, solid\u00e1rio e afectuoso, deve ser reservado \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de maior fragilidade, por motivo de qualquer forma de pobreza ou de sofrimento. Penso, em primeiro lugar nos doentes, nos idosos e nas pessoas portadoras de defici\u00eancia juntamente com os seus familiares. \u00c9 um aspecto para que as nossas comunidades j\u00e1 est\u00e3o bastante sensibilizadas e a que v\u00e3o procurando dar resposta. Mas ainda h\u00e1 muito a fazer e a melhorar. Neste momento, gostaria, sobretudo, de lembrar aos catequistas e aos p\u00e1rocos a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as portadoras de defici\u00eancia, na catequese e nos sacramentos de inicia\u00e7\u00e3o. Estas crian\u00e7as, capacitadas de modo diferente, tamb\u00e9m apreendem a mesma f\u00e9, ainda que de modo diverso. \u00c9 necess\u00e1rio ter isto presente para que, de modo nenhum, sejam discriminadas, prejudicadas e muito menos humilhadas. Hoje batem \u00e0 porta das nossas comunidades cada vez mais pessoas com problemas ou perturba\u00e7\u00f5es de ordem ps\u00edquico-espiritual, com uma fragilidade interior a toda a prova. Para elas \u00e9 necess\u00e1rio criar espa\u00e7os e condi\u00e7\u00f5es de acolhimento, escuta, aconselhamento, acompanhamento e ora\u00e7\u00e3o que levem \u00e0 cura ou ao al\u00edvio das suas feridas, atrav\u00e9s de pessoas id\u00f3neas, preparadas para isso. Uma cura que, por vezes, \u00e9 uma longa viagem de liberta\u00e7\u00e3o e de reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus, consigo mesmas e com os outros. Com esta finalidade propomo-nos constituir um grupo multidisciplinar de volunt\u00e1rios no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima. E organizaremos tamb\u00e9m um semin\u00e1rio para partilha de experi\u00eancias e reflex\u00e3o sobre este problema. Um outro tipo de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de fragilidade \u00e9 o dos imigrados, estrangeiros, diversos de n\u00f3s pela sua cultura, pelos seus costumes, pela sua l\u00edngua e pela sua religi\u00e3o. O nosso acolhimento manifestar-se-\u00e0 na conviv\u00eancia fraterna e em ajudar a criar espa\u00e7os e condi\u00e7\u00f5es para a sua integra\u00e7\u00e3o.  Nas fam\u00edlias  A fam\u00edlia \u00e9 o lugar primordial da ternura e do acolhimento. E, no entanto, em muitas fam\u00edlias, vivem-se situa\u00e7\u00f5es silenciosas de azedume, de amargura, de ressentimento e de ruptura entre c\u00f4njuges e entre pais e filhos, que se prolongam porque cada um se fecha no seu casulo, no seu mutismo e n\u00e3o se cultiva o acolhimento quotidiano, sincero e transparente, respeitador e sereno. Porque n\u00e3o recuperar a ora\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia, ao menos uma vez por semana, que ajuda a abrir e pacificar os cora\u00e7\u00f5es? Quero deixar aqui uma palavra esclarecedora e pacificadora a prop\u00f3sito de duas situa\u00e7\u00f5es familiares hoje muito frequentes. Que fazer quando um filho segue o seu caminho, mas que \u00e9 contr\u00e1rio aos princ\u00edpios e valores dos pais, por exemplo, quando opta por uma \u201cuni\u00e3o de facto\u201d? Naturalmente estes pais t\u00eam o direito de dizer ao filho que, no seu modo de ver, tal comportamento n\u00e3o \u00e9 correcto. Ser\u00e1 necess\u00e1rio diz\u00ea-lo de modo claro, leal e respeitoso. Mas, uma vez esclarecido o assunto, \u00e9 preciso acrescentar: \u201ccontinuamos a ser os teus pais, n\u00e3o te fechamos a porta. Porque o sofrimento que sentimos e a prova\u00e7\u00e3o que sofrem as nossas convic\u00e7\u00f5es religiosas n\u00e3o nos eximem do primeiro dever de pais, o de amar o nosso filho apesar de tudo\u201d. A outra situa\u00e7\u00e3o refere-se aos divorciados recasados que querem conservar a sua f\u00e9. \u00c9 um dos problemas mais delicados na Igreja de hoje. Que acolhimento lhes reserva a Igreja? S\u00f3 diz ou s\u00f3 pode dizer mal do segundo casamento? Antes de mais, s\u00f3 Deus conhece o cora\u00e7\u00e3o de quem se divorcia e volta a casar. S\u00f3 Ele julga da sua culpabilidade. Nem todos os casos s\u00e3o iguais. Mas, objectivamente, o novo casamento depois do div\u00f3rcio n\u00e3o pode ser reconhecido pela Igreja, por fidelidade ao Evangelho do matrim\u00f3nio uno e indissol\u00favel. Por isso, a Igreja lhes pede que se abstenham dos sacramentos. Mas isso n\u00e3o significa que estejam ex-comungados da Igreja: \u201cos divorciados recasados, n\u00e3o obstante a sua situa\u00e7\u00e3o, continuam a pertencer \u00e0 Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperan\u00e7a de que cultivem, quanto poss\u00edvel, um estilo crist\u00e3o de vida, atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o na Santa Missa ainda que sem receber a comunh\u00e3o, da escuta da Palavra de Deus, da adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, da ora\u00e7\u00e3o, da coopera\u00e7\u00e3o na vida comunit\u00e1ria, do di\u00e1logo franco com um sacerdote ou mestre de vida espiritual, da dedica\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da caridade, das obras de penit\u00eancia, da educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos filhos\u201d (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 29). Apesar da atitude rigorosa da Igreja, n\u00e3o \u00e9 esta, de algum modo, uma boa palavra de acolhimento para eles? Mas \u00e9 dita raramente e quase nunca no momento oportuno&#8230;  4.3 Acolher o dom da voca\u00e7\u00e3o: uma chama que ama e chama!  No ano passado, propusemo-nos descobrir a beleza e a alegria da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Agora, ao longo desta carta, consideramo-la na perspectiva da ternura de Deus e do acolhimento: acolher a voca\u00e7\u00e3o (chamamento) como dom da Sua ternura. A vida \u00e9 bela porque Deus nos ama e chama; e \u00e9 s\u00e9ria porque Deus nos confia uma miss\u00e3o. De facto, aquele que acolhe e recebe a ternura de Deus, sente-se, por sua vez, chamado a testemunhar, comunicar e servir aos outros essa ternura que quer estender-se a todas as criaturas. Todas as voca\u00e7\u00f5es s\u00e3o um raio da beleza da ternura de Deus que quer encher o mundo: a vida laical de quem assume a vida e o trabalho no mundo na fidelidade ao Evangelho e como uma miss\u00e3o em ordem ao desenvolvimento justo, solid\u00e1rio, fraterno e acolhedor para todos; o matrim\u00f3nio como primeiro lar e comunidade particular da ternura de Deus no mundo; o sacerd\u00f3cio de quem sente arder a ternura de Deus dentro de si e se oferece todo para ser servidor dos dons da ternura de Deus (palavra, sacramentos, comunh\u00e3o fraterna) aos homens; a voca\u00e7\u00e3o de especial consagra\u00e7\u00e3o ao Senhor, na vida religiosa, mission\u00e1ria ou laical, para testemunhar, de modo prof\u00e9tico, o amor \u00e0 ternura de Deus e a sua universalidade, sobretudo aos pequeninos e aos mais necessitados. O nosso objectivo \u00e9 imprimir um novo ardor \u00e0 pastoral vocacional, levando-a ao cora\u00e7\u00e3o de cada comunidade crist\u00e3 para que a sinta e assuma como elemento constitutivo da experi\u00eancia de f\u00e9 viva e como uma responsabilidade que a todos diz respeito. O pr\u00f3prio s\u00edmbolo do ano vocacional, a lamparina a arder e a passar de comunidade em comunidade, \u00e9 muito significativo tamb\u00e9m para este ano: uma chama (ternura de Deus) que ama e chama! Importa manter esta chama acesa no cora\u00e7\u00e3o e na pastoral. Assim propomo-nos reavivar e consolidar as ac\u00e7\u00f5es mais significativas que j\u00e1 inici\u00e1mos: continuar a \u201cgrande ora\u00e7\u00e3o pelas voca\u00e7\u00f5es\u201d sobretudo com uma vig\u00edlia, particularmente destinada a adolescentes e jovens, em cada vigararia; manter o funcionamento do \u201cgrupo vocacional Santo Agostinho\u201d para os jovens seriamente interessados na descoberta da sua voca\u00e7\u00e3o e incrementar o pr\u00e9-semin\u00e1rio para os interessados no discernimento da voca\u00e7\u00e3o sacerdotal; aproveitar a prepara\u00e7\u00e3o para o Crisma como um particular momento vocacional; criar o grupo de animadores vocacionais nas vigararias ou na par\u00f3quia.  5. Nossa Senhora da Ternura e do Acolhimento  Maria, m\u00e3e de Jesus, \u00e9 a M\u00e3e da ternura. Contempl\u00e1-la \u00e9 contemplar a ternura de Deus e as maravilhas que esta realiza quando a criatura humana se abre e acolhe a Palavra de Deus e a Sua gra\u00e7a. Ningu\u00e9m mais do que Maria \u00e9 o s\u00edmbolo do acolhimento, precisamente porque ningu\u00e9m como ela acolheu o Filho de Deus no seu cora\u00e7\u00e3o e no seu seio \u2013 a ternura de Deus encarnada. Com o \u201cSim\u201d acolhedor da f\u00e9 respondeu \u00e0 voca\u00e7\u00e3o, dispondo-se inteiramente a colaborar, como M\u00e3e, na d\u00e1diva da ternura de Deus \u00e0 humanidade. Acolhe o dom e d\u00e1-o, por sua vez, partilha-o, como no encontro com Isabel. A\u00ed vemos como o acolhimento de Deus faz brotar o reconhecimento alegre da Sua bondade, no c\u00e2ntico do Magnificat, o c\u00e2ntico da Ternura de Deus de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. A Ela confiamos a realiza\u00e7\u00e3o do nosso caminho pastoral:  \u00d3 Virgem Maria, M\u00e3e da Ternura, Rainha do acolhimento e da comunica\u00e7\u00e3o, Senhora do sim ao chamamento do Pai, Tu, espelho fiel do rosto da ternura de Deus: Alcan\u00e7a-nos a gra\u00e7a de sermos Igreja do acolhimento, Casa aberta para todos. Ajuda-nos a ser como Tu: Acolhedores e testemunhas da ternura de Deus,  Atentos \u00e0s necessidades dos irm\u00e3os, Generosos no sim \u00e0 voca\u00e7\u00e3o a que o Senhor nos chama. Acompanha e guia a nossa Igreja no seu caminho pastoral!          Sa\u00fada-vos afectuosamente,                      <i>+ Ant\u00f3nio Marto, Bispo de Leiria-F\u00e1tima<\/i>                                         8 de Setembro de 2007                        Festa da Natividade de Nossa Senhora <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Pastoral de D. Ant\u00f3nio Marto sobre o acolhimento e a voca\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,154,177,187,193,199,206,207,246,91,294,311,314],"class_list":["post-26912","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-crianca","tag-diocese-de-leiria-fatima","tag-diocese-do-porto","tag-educacao","tag-espiritualidade","tag-familia","tag-fatima","tag-liturgia","tag-quaresma","tag-sacramentos","tag-sinodo-dos-bispos","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26912","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26912"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26912\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26912"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26912"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26912"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}