{"id":26836,"date":"2007-09-08T14:07:24","date_gmt":"2007-09-08T14:07:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/09\/08\/teresa-de-calcuta-luz-desde-a-escuridao\/"},"modified":"2007-09-08T14:07:24","modified_gmt":"2007-09-08T14:07:24","slug":"teresa-de-calcuta-luz-desde-a-escuridao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/teresa-de-calcuta-luz-desde-a-escuridao\/","title":{"rendered":"Teresa de Calcut\u00e1: luz desde a escurid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista do postulador da causa de canoniza\u00e7\u00e3o, Pe. Kolodiejchuk, \u00e0 Ag\u00eancia Zenit sobre o livro  <!--more--> O Pe. Brian Kolodiejchuk, postulador da causa de canoniza\u00e7\u00e3o de Madre Teresa de Calcut\u00e1, \u00e9 o autor do livro &#8220;Come Be My Light&#8221;, que recolhe os escritos da beata, em parte in\u00e9ditos, revelando o sofrimento de n\u00e3o experimentar o amor de Deus. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Zenit (Roma), o autor fala desta &#8220;noite escura&#8221;, que tanta pol\u00e9mica tem gerado.  <i>Ag\u00eancia Zenit  (AZ) &#8211; A extraordin\u00e1ria vida interior da Madre Teresa foi descoberta depois da sua morte. Segundo os seus directores espirituais, como era a sua vida, especialmente seu sofrimento de escurid\u00e3o espiritual, oculto a todos os que a conheceram? Pe. Brian Kolodiejchuk (BK) &#8211; <\/i> Ningu\u00e9m fazia sequer a menor ideia do que ela vivia interiormente, pois os seus directores espirituais conservavam estas cartas. Os jesu\u00edtas conservam algumas, outras est\u00e3o na arquidiocese e o Pe. Joseph Neuner, outro dos seus directores espirituais, tem algumas. Estas cartas foram descobertas quando busc\u00e1vamos os documentos para a causa.  Enquanto vivia, a Madre Teresa pediu que sua informa\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica n\u00e3o se desse a conhecer. Pediu ao Arcebispo Ferdinand P\u00e9rier, de Calcut\u00e1, que n\u00e3o dissesse a nenhum outro bispo como come\u00e7ou tudo. Disse-lhe: &#8220;Por favor n\u00e3o diga nada dos in\u00edcios porque, uma vez que as pessoas conhe\u00e7am os in\u00edcios, quando ouvem falar das locu\u00e7\u00f5es interiores, ent\u00e3o a aten\u00e7\u00e3o se centrar\u00e1 em mim e n\u00e3o em Jesus&#8221;. Ela dizia sempre: &#8220;Obra de Deus. Esta \u00e9 a obra de Deus&#8221;.  Inclusive as irm\u00e3s mais pr\u00f3ximas dela n\u00e3o conheciam a sua vida interior. Muitos poderiam ter pensado que ela tinha uma grande intimidade com Deus e que esta iluminava o seu caminho no meios das dificuldades da Ordem ou da pobreza material que sofreu.   <i> AZ &#8211; O livro fala do voto secreto que ela fez no princ\u00edpio da sua voca\u00e7\u00e3o, pelo qual prometeu n\u00e3o negar a Deus nada que tivesse a ver com a dor provocada pelo pecado mortal. Que papel desempenhou este voto na sua vida? BK &#8211; <\/i> Madre Teresa fez o voto, em 1942, de n\u00e3o negar nada a Deus. As suas cartas inspiradas por Jesus chegaram logo depois. Em v\u00e1rias cartas, Jesus lhe pergunta, comentando o seu voto: &#8220;Deixar\u00e1s de fazer isso por mim?&#8221;.  Portanto, o voto \u00e9 o substrato da sua voca\u00e7\u00e3o. Depois, nas cartas inspiradas, v\u00ea-se que Jesus lhe explica o seu chamamento. Ela ent\u00e3o segue adiante porque sabe que Jesus quer. Est\u00e1 motivada pelo pensamento da dor de Jesus, porque os pobres n\u00e3o o conhecem e, portanto, n\u00e3o o amam. Este foi um dos pilares que a manteve no seu caminho atrav\u00e9s da prova da escurid\u00e3o. Gra\u00e7as \u00e0 certeza do seu chamamento e a este voto, numa das cartas escreve: &#8220;Estive a ponto de deix\u00e1-lo e ent\u00e3o recordei o voto, e isso me fez levantar-me&#8221;.   <i> AZ &#8211; Falou-se muito sobre a noite escura da Madre Teresa. O seu livro descreve-a como um &#8220;mart\u00edrio de desejo&#8221;. A sua sede de Deus foi desconhecida durante muito tempo. Pode descrev\u00ea-la? BK &#8211; <\/i> Um bom livro para ler e compreender algumas dessas coisas \u00e9 &#8220;Fire Within&#8221; (Fogo interior), do Pe. Thomas Dubay, que fala do sofrimento da perda e do sofrimento da sede para explicar que o sofrimento da sede \u00e9 mais duro. Como declara o Pe. Dubay, no caminho para a aut\u00eantica uni\u00e3o com Deus, existe a etapa purgativa, chamada &#8220;noite escura&#8221;, e depois a alma entra num estado de \u00eaxtase e verdadeira uni\u00e3o com Deus.  No caso da Madre Teresa, parece que a etapa purgativa aconteceu durante a sua forma\u00e7\u00e3o no convento de Loreto. No momento de sua profiss\u00e3o, disse a uma companheira que com frequ\u00eancia experimentava a escurid\u00e3o. As cartas dessa \u00e9poca s\u00e3o as t\u00edpicas cartas de uma pessoa que est\u00e1 na &#8220;noite escura&#8221;.  O Pe. Celeste Van Exem, seu director espiritual naquela \u00e9poca, disse que provavelmente em 1946 ou 1945 se encontrava j\u00e1 perto do \u00eaxtase.  Depois h\u00e1 uma refer\u00eancia ao momento em que apareceram as inspira\u00e7\u00f5es e as locu\u00e7\u00f5es interiores, o momento no qual as dificuldades de f\u00e9 cessaram.  Posteriormente, a Madre Teresa escreveu ao Pe. Neuner, explicando: &#8220;Voc\u00ea sabe como Ele actuou. E foi como se nosso Senhor se entregasse a mim plenamente. Mas a do\u00e7ura, o consolo e a uni\u00e3o daqueles seis meses passados desapareceu logo&#8221;. De maneira que a Madre Teresa experimentou seis meses de intensa uni\u00e3o, ap\u00f3s as locu\u00e7\u00f5es interiores e o \u00eaxtase. Estava j\u00e1 na etapa espiritual da uni\u00e3o transformadora. Nesse momento, voltou a escurid\u00e3o. Mas, a partir de ent\u00e3o, a escurid\u00e3o que experimentava acontecia juntamente com a uni\u00e3o com Deus. Isso n\u00e3o significa que viveu a uni\u00e3o e depois a perdeu. Perdeu a consola\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o que se alternava com a dor da perda e com uma profunda nostalgia de Deus, uma verdadeira sede.  Como dizia o Pe. Dubay, &#8220;\u00e0s vezes a contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 deleitosa, e outras vezes \u00e9 substitu\u00edda por uma forte sede de Deus&#8221;. Mas no caso da Madre Teresa, com excep\u00e7\u00e3o de um m\u00eas, em 1958, ela n\u00e3o teve esta consola\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o.  H\u00e1 uma carta na qual ela diz: &#8220;N\u00e3o, padre, n\u00e3o estou s\u00f3, tenho sua escurid\u00e3o, tenho a sua dor, tenho uma terr\u00edvel nostalgia de Deus. Amar e n\u00e3o ser amado, eu sei que tenho Jesus na uni\u00e3o que n\u00e3o foi quebrada, minha mente est\u00e1 fixa n\u2019Ele e s\u00f3 n\u2019Ele&#8221;.   A sua experi\u00eancia da escurid\u00e3o na uni\u00e3o \u00e9 sumamente rara, inclusive entre os santos, pois para a maioria o final \u00e9 a uni\u00e3o sem escurid\u00e3o. O seu sofrimento, ent\u00e3o \u2013 utilizando o termo do te\u00f3logo dominicano Reginald Garrigou-Lagrange \u2013, deve-se mais aos pecados dos outros do que ao car\u00e1cter purificador dos seus pr\u00f3prios pecados. Est\u00e1 unida a Jesus com uma f\u00e9 e um amor capazes de lev\u00e1-la a partilhar a sua experi\u00eancia do Getsemani e da cruz.   Madre Teresa comentou que o sofrimento no Getsemani foi pior que o da cruz. E agora compreendemos de onde vinha isso, porque ela tinha compreendido a sede de almas de Jesus.   O importante \u00e9 que se trata de uma uni\u00e3o. Como indicava Carol Zaleski num artigo publicado na revista &#8220;First Things&#8221;, esse tipo de prova \u00e9 novo. Trata-se de uma experi\u00eancia moderna de santos dos \u00faltimos 100 anos: sofrer o sentimento de que n\u00e3o se tem f\u00e9 e de que a religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdadeira.  <b>Sofrimento<\/b> Na segunda parte desta entrevista concedida \u00e0 ag\u00eancia Zenit, o padre Brian Kolodiejchuk, mission\u00e1rio da Caridade, explica pontos centrais do livro que acaba de publicar.  <i> AZ -O nome do livro, &#8220;Vem ser a minha luz&#8221;, foi um pedido de Jesus \u00e0 Madre Teresa. Como se relaciona o seu sofrimento redentor pelos demais, no meio dessa profunda escurid\u00e3o, com o seu carisma particular?  BK &#8211; <\/i> Durante os anos 50 do s\u00e9culo passado, Madre Teresa rendeu-se e aceitou a escurid\u00e3o. O padre Joseph Neuner [um dos directores espirituais, ndr] ajudou-a a compreender isso, relacionando a escurid\u00e3o com o seu carisma: saciar a sede de Deus.  Ela costumava dizer que a maior pobreza era n\u00e3o se sentir amado, solicitado, cuidado por ningu\u00e9m, e era exactamente o que ela estava a viver na sua rela\u00e7\u00e3o com Jesus. O seu sofrimento redentor era parte da viv\u00eancia do seu carisma ao servi\u00e7o dos mais pobres entre os pobres.  De maneira que, para ela, o sofrimento era n\u00e3o s\u00f3 um meio para identificar-se com a pobreza f\u00edsica e material, mas, no \u00e2mbito interior, identificava-se com os n\u00e3o amados, com os que est\u00e3o sozinhos, com os que s\u00e3o rejeitados.  Renunciou \u00e0 sua pr\u00f3pria luz interior para iluminar os que viviam na escurid\u00e3o, dizendo: &#8220;Sei que n\u00e3o s\u00e3o mais que sentimentos&#8221;.  Numa carta a Jesus, escreveu: &#8220;Jesus, ouve minha ora\u00e7\u00e3o, se isso te agrada. Se minha dor e sofrimento, minha escurid\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o te d\u00e1 uma gota de consola\u00e7\u00e3o, faz comigo o que queiras, todo o tempo desejes. N\u00e3o olhes aos meus sentimentos nem \u00e0 minha dor&#8221;.  &#8220;Sou tua. Imprime em minha alma e vida os sofrimentos do teu cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o olhes aos meus sentimentos, n\u00e3o olhes nem sequer \u00e0 minha dor&#8221;.  &#8220;Se a minha separa\u00e7\u00e3o de ti permite que outros se aproximem de ti e tu encontras alegria e deleite no seu amor e companhia, quero de todo cora\u00e7\u00e3o sofrer o que sofro, n\u00e3o s\u00f3 agora, mas pela eternidade, se for poss\u00edvel&#8221;.  Numa carta \u00e0s suas Irm\u00e3s, torna mais expl\u00edcito o carisma da Ordem: &#8220;Minhas queridas filhas, sem sofrimento, nosso trabalho seria somente trabalho social, muito bom e \u00fatil, mas n\u00e3o seria obra de Jesus Cristo, n\u00e3o participaria da reden\u00e7\u00e3o. Jesus desejava ajudar-nos partilhando a nossa vida, nossa solid\u00e3o, nossa agonia e morte. Tudo isso ele assumiu em si mesmo e levou-o \u00e0 noite mais escura. Somente sendo um de n\u00f3s podia redimir-nos&#8221;.  A n\u00f3s, permite-nos fazer o mesmo: toda a desola\u00e7\u00e3o dos pobres, n\u00e3o apenas a sua pobreza material, mas tamb\u00e9m a sua profunda mis\u00e9ria espiritual, deve ser redimida e compartilhada. Orai, ent\u00e3o, assim quando isso se torne dif\u00edcil: \u00abQuero viver neste mundo que est\u00e1 longe de Deus, que se distanciou da luz de Jesus, para ajud\u00e1-lo, para carregar uma parte do seu sofrimento\u00bb&#8221;.  E isso resume o que considero o fundamento da sua miss\u00e3o: &#8220;Se um dia chegar a ser santa, seguramente serei uma santa da &#8216;escurid\u00e3o&#8217;. Continuarei ausente do C\u00e9u para dar luz aos que est\u00e3o na escurid\u00e3o na terra\u2026&#8221; Assim compreendeu a sua escurid\u00e3o. Muitas das coisas que disse t\u00eam mais sentido e acabam por ser mais profundas agora que sabemos isso.  <i> AZ -Ent\u00e3o, o que dizer a quem qualifica a sua experi\u00eancia como uma crise de f\u00e9 e que ela realmente n\u00e3o acreditava em Deus, ou a quem sugere que a sua escurid\u00e3o era um sinal de instabilidade psicol\u00f3gica? BK &#8211; <\/i> Ela n\u00e3o teve crises de f\u00e9, ou falta de f\u00e9, mas teve uma prova de f\u00e9 na qual experimentou o sentimento de que ela n\u00e3o acreditava em Deus. Esta prova requereu muita maturidade humana, porque, se n\u00e3o, n\u00e3o teria sido capaz de suport\u00e1-la. Teria ficado desequilibrada.  Como disse o padre Garrigou Lagrange, \u00e9 poss\u00edvel experimentar simultaneamente sentimentos contradit\u00f3rios entre si. \u00c9 poss\u00edvel ter uma &#8220;alegria crist\u00e3 objetiva&#8221;, como a chamou Carol Zaleski, e ao mesmo tempo entrar na prova ou sentimento de n\u00e3o ter f\u00e9.  N\u00e3o h\u00e1 duas pessoas aqui, mas uma pessoa com sentimentos em diferentes n\u00edveis.  Podemos realmente estar a viver a cruz de algum modo \u2013 \u00e9 dolorosa e faz doer\u2013 e, ainda que a espiritualizemos, isto n\u00e3o tira a dor. Agora, ao mesmo tempo, podemos estar alegres porque estamos a viver com Jesus e isto n\u00e3o \u00e9 falso. Aqui est\u00e1 o como e o porqu\u00ea a Madre Teresa viveu uma vida t\u00e3o cheia de alegria.  <i> AZ -Como postulador de sua causa de canoniza\u00e7\u00e3o, quando cr\u00ea que poderemos cham\u00e1-la santa? BK &#8211; <\/i>  Precisamos de outro milagre \u2013 examinamos alguns, mas nenhum \u00e9 suficientemente claro. Houve um para a beatifica\u00e7\u00e3o, mas estamos \u00e0 espera do segundo. Talvez Deus tenha esperado que se publicasse antes o livro, pois muitos tinham a Madre Teresa por santa, mas era t\u00e3o simples e se expressava de uma maneira t\u00e3o simples que n\u00e3o compreendiam a profundidade da sua santidade.  No outro dia, escutei dois sacerdotes falarem sobre isso. Um dizia que nunca tinha sido muito f\u00e3 da madre Teresa porque pensava que era piedosa, devota, e que fez obras admir\u00e1veis, mas que quando ouviu falar da sua vida interior, isso mudou o que pensava dela.  Agora temos algo mais que uma mera ideia da sua evolu\u00e7\u00e3o espiritual e uma parte da sua profundidade foi revelada.  Assim que chegue o milagre, demoraremos pelo menos dois anos, ainda que o Papa possa acelerar o processo se desejar.  <i> AZ -O que aconteceu com a Ordem [Mission\u00e1rias da Caridade, ndr] desde a morte da Madre Teresa? BK &#8211; <\/i> A Ordem cresceu quase em mil irm\u00e3s, passou de 3850 para a 4800, hoje, e acrescentamos cerca de 150 casas em mais de 14 pa\u00edses. A obra de Deus continua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista do postulador da causa de canoniza\u00e7\u00e3o, Pe. 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