{"id":266298,"date":"2023-01-04T09:00:32","date_gmt":"2023-01-04T09:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=266298"},"modified":"2023-01-03T15:19:14","modified_gmt":"2023-01-03T15:19:14","slug":"meu-pai-era-um-arameu-errante-dt-26-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/meu-pai-era-um-arameu-errante-dt-26-5\/","title":{"rendered":"\u201cMeu pai era um arameu errante\u201d (Dt 26, 5)"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. Hugo Gon\u00e7alves, Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-266299 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Com estas palavras do livro do Deuteron\u00f3mio, queria hoje refletir sobre uma realidade que enfrentamos no nosso pa\u00eds, mas que est\u00e1 essencialmente centrada na regi\u00e3o do Baixo Alentejo, a qual corresponde, em grande parte, ao territ\u00f3rio da Diocese de Beja &#8211; essa realidade, que tem estado debaixo dos holofotes da comunica\u00e7\u00e3o social \u00e9 a da explora\u00e7\u00e3o de imigrantes.<\/p>\n<p>O projeto do Alqueva transformou a plan\u00edcie alentejana, alterando a sua paisagem. As culturas de sequeiro d\u00e3o agora lugar ao olival intensivo, a amendoais e a outras \u00e1rvores de fruto, culturas hort\u00edcolas e frutos vermelhos \u2013 culturas mais rent\u00e1veis para os agricultores. No entanto, este tipo de culturas extensivas e intensivas necessitam do emprego de muitos trabalhadores, os quais n\u00e3o existem em n\u00famero suficiente na regi\u00e3o e nem mesmo no pa\u00eds. De facto, o Alentejo, como todo o interior do pa\u00eds, sofre a eros\u00e3o da desertifica\u00e7\u00e3o populacional, fazendo com que os propriet\u00e1rios, os agricultores, na falta de m\u00e3o-de-obra local e nacional, busquem nas empresas ditas de \u2018trabalho tempor\u00e1rio\u2019, a resposta \u00e0s suas necessidades.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que vemos surgir e proliferar as redes de trafego e explora\u00e7\u00e3o humana. S\u00e3o essencialmente homens, aqueles que chegam vindos de pa\u00edses asi\u00e1ticos como o Nepal, o Bangladesh e a \u00cdndia e, ultimamente, de Timor-Leste. Partem dos seus pa\u00edses como partiram os portugueses nos anos sessenta e setenta para a Fran\u00e7a, Alemanha, Luxemburgo, etc.; partem em busca de uma vida melhor, para si e para as suas fam\u00edlias. Atr\u00e1s deles deixam pais, esposas, filhos e uma divida enorme aos agiotas que lhes vendem o \u2018El Dorado\u2019 de Portugal e Europa, a pre\u00e7os insuport\u00e1veis. \u00c0 chegada a Portugal, ao Alentejo, rapidamente os sonhos se transformam em pesadelos: trabalho incerto, o dinheiro fica muitas vezes na posse dos agiotas, casas que mais parecem armaz\u00e9ns onde se amontoam seres humanos, fome, frio, mis\u00e9ria. Aqui todos ganham, menos os imigrantes: os agiotas, exploradores de m\u00e3o-de-obra escrava, enchem-se com o dinheiro que n\u00e3o lhes pertence e fogem ao controlo das autoridades que ainda n\u00e3o se adaptaram a esta nova realidade; os agricultores n\u00e3o t\u00eam que se preocupar em contratar individualmente os trabalhadores para as suas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, contratam estas pseudo-empresas de trabalho tempor\u00e1rio sem se preocupar em analisar a fundo as suas ra\u00edzes, sem se preocuparem com a situa\u00e7\u00e3o daqueles que lhes colhem os frutos da terra e lhes trazem riqueza; e depois h\u00e1 aqueles que ganham com as rendas das casas superlotadas, ou de armaz\u00e9ns transformados em camaratas sem dignidade, sem quaisquer condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade \u2013 cem a cento e cinquenta euros por pessoa.<\/p>\n<p>Em 2009, o ent\u00e3o Bispo de Beja, D. Ant\u00f3nio Vitalino denunciava esta situa\u00e7\u00e3o, o que levantou \u00e0 \u00e9poca um grande burburinho, no sentido de dar algum descr\u00e9dito \u00e0s suas palavras. Passados que s\u00e3o alguns anos, a sua denuncia torna-se vis\u00edvel nas centenas de imigrantes no concelho de Odemira, que por altura da pandemia, tinham sido contagiados pelo Covid19. Nesse momento o pa\u00eds descobriu a situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel em que viviam largas centenas de imigrantes. As autoridades colocaram-se ent\u00e3o no terreno e procuraram averiguar e dar solu\u00e7\u00e3o aos in\u00fameros problemas destas pessoas, no entanto parece que ainda h\u00e1 muito por fazer e exemplo disso \u00e9 o que se passa com os in\u00fameros timorenses que vieram para c\u00e1 e que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, alguns a viverem na rua. Foi novamente a comunica\u00e7\u00e3o social que despoletou e alertou para a situa\u00e7\u00e3o, com base nas denuncias da C\u00e1ritas de Beja entre outras entidades e alguns particulares.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse esta situa\u00e7\u00e3o de indignidade humana, estas pessoas sofrem ainda o flagelo, o estigma do preconceito por parte dos portugueses, porque eles se vestem de forma diferente, porque tem cor de pele diferente, porque at\u00e9 podem ter comportamentos diferentes dos nossos. Esta situa\u00e7\u00e3o de precaridade, de quase mendic\u00e2ncia, a incompreens\u00e3o de alguns dos portugueses tem feito aumentar os movimentos populistas que v\u00eam com maus olhos a presen\u00e7a destas pessoas. Num pa\u00eds envelhecido, a perder popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se compreende este tipo de posi\u00e7\u00f5es e muito menos se compreende num pa\u00eds cuja popula\u00e7\u00e3o maioritariamente se afirma como crist\u00e3. Esta forma de pensar que se expressa depois em palavras de \u00f3dio e de rancor e que manifestam um fechar de cora\u00e7\u00e3o ao outro e ao seu sofrimento, contradiz a f\u00e9 crist\u00e3 que assenta os seus pilares\u00a0 na Palavra de Deus, no Evangelho e na pessoa de Jesus Cristo. O acolhimento do outro, a ajuda aos pobres, o cuidado com o estrangeiro est\u00e1 bem patente na Sagrada Escritura; estes imigrantes s\u00e3o imagem e semelhan\u00e7a de Deus, s\u00e3o aqueles que t\u00eam fome, que t\u00eam sede, que s\u00e3o peregrinos e que precisam do nosso auxilio e amor (cf. Mt 25, 35-40), nos quais se revela o rosto do Senhor Jesus sofredor. Ser crist\u00e3o, ser cat\u00f3lico \u00e9 ter o cora\u00e7\u00e3o aberto para amar os outros como o Senhor nos amou, e sem fazer ace\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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