{"id":265031,"date":"2022-12-25T09:30:36","date_gmt":"2022-12-25T09:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=265031"},"modified":"2022-12-25T01:26:25","modified_gmt":"2022-12-25T01:26:25","slug":"entrevista-precisamos-da-luz-do-natal-para-pensar-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-precisamos-da-luz-do-natal-para-pensar-o-futuro\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u00abPrecisamos da luz do Natal para pensar o futuro\u00bb"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa disse na entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia que os encontros natal\u00edcios s\u00e3o promotores de paz, que o debate em torno da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade tem colocar as pessoas no centro, que encontra \u201cpouca l\u00f3gica\u201d na lei da eutan\u00e1sia e os casos de abuso \u00abn\u00e3o s\u00e3o para calar\u00bb<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_205993\" aria-describedby=\"caption-attachment-205993\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-205993 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/D-Jose-Ornelas-2-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-205993\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Renascen\u00e7a\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\">Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ecclesia)<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Afirmou na mensagem de Natal dirigida \u00e0 Diocese de Leiria-F\u00e1tima que vivemos o Natal num \u201cquadro mundial dos mais dram\u00e1ticos dos \u00faltimos dec\u00e9nios\u201d. A causa est\u00e1 s\u00f3 na guerra na Ucr\u00e2nia?\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A guerra da Ucr\u00e2nia j\u00e1 de si \u00e9 uma consequ\u00eancia de processos sociais, pol\u00edticos e econ\u00f3micos que se v\u00eam a degradar desde h\u00e1 muito. Depois da Segunda Guerra Mundial, come\u00e7\u00e1mos a sonhar que o mundo poderia ser melhor, mas foi logo travado pela Guerra Fria. Depois da queda do Muro de Berlim e de tudo o que ele significava, come\u00e7\u00e1mos a pensar que era poss\u00edvel uma alian\u00e7a pela democracia e pelos direitos humanos, por um futuro melhor e sem divis\u00f5es e sem muros. Mas durou muito pouco e, passados n\u00e3o muitos anos, os muros multiplicaram-se por todo o lado por causa de tens\u00f5es e das frustra\u00e7\u00f5es da humanidade, que \u00e9 a mis\u00e9ria, a injusti\u00e7a, a desigualdade. Ao mesmo tempo, a humanidade foi desenvolvendo processos cada vez mais sofisticados e eficientes para acudir \u00e0s necessidades das pessoas com capacidade de melhorar na luta \u00e0 doen\u00e7a, na luta \u00e0 mis\u00e9ria, na luta \u00e0 ignor\u00e2ncia; por outro lado, foram crescendo tamb\u00e9m as divis\u00f5es e as desigualdades, com o concentrar-se de tremendas possibilidades econ\u00f3mico financeiras de uma parte do mundo, de uma parte muito reduzida de pessoas em todo o mundo, \u00e0 custa da mis\u00e9ria de tantos outros.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Durante a pandemia, o Papa referiu que ningu\u00e9m se salva sozinho e repetiu agora na mensagem para o Dia Mundial da Paz. J\u00e1 o aprendemos? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isso \u00e9 o princ\u00edpio da esperan\u00e7a da constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor. Quando estamos numa situa\u00e7\u00e3o destas, de nuvens sombrias na atualidade e no horizonte do futuro, n\u00e3o s\u00f3 por causa da guerra, mas por causa da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, de todas as situa\u00e7\u00f5es que n\u00f3s vivemos, n\u00f3s verificamos que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil manter otimismo, manter o sonho do futuro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas \u00e9 precisamente isso que \u00e9 preciso. O Natal \u00e9 precisamente isso: a luz faz falta quando est\u00e1 escuro, faz falta o calor quando est\u00e1 frio, faz falta a esperan\u00e7a quando a gente a perdeu totalmente a coragem, e perdeu a energia de construir. E o Natal \u00e9 precisamente para isso. O Natal n\u00e3o tem de ser um tempo simplesmente quentinho e com muitas luzes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Natal tem de ser algo de novo. E algo de novo que come\u00e7a exatamente por aquilo que estava a mencionar: eu n\u00e3o estou sozinho. E a din\u00e2mica do Natal, com a acentua\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, \u00e9 precisamente isso. Eu fa\u00e7o parte de uma fam\u00edlia e este ambiente que n\u00f3s aprendemos desde pequenos, da aten\u00e7\u00e3o que damos particularmente \u00e0s crian\u00e7as, com os presentes, com o carinho, com fazer sentir um dia de bem&#8230; Para elas isto \u00e9 criar o ambiente de transforma\u00e7\u00e3o. E \u00e9 quando a crian\u00e7a se sente assim que ganha a confian\u00e7a na vida. N\u00e3o estou sozinho: os meus pais, a minha fam\u00edlia cuida de mim e eu tenho futuro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando estava em Mo\u00e7ambique, na altura em que tinham come\u00e7ado os campos de concentra\u00e7\u00e3o &#8211; que felizmente duraram pouco &#8211; uma pessoa foi levada para um campo de concentra\u00e7\u00e3o onde morrerau uma grande parte daqueles que para l\u00e1 tinham sido levados e apanhados na rua, sem dizer mais nada. Lembro-me a express\u00e3o que essa pessoa utilizava: n\u00f3s estamos num campo de concentra\u00e7\u00e3o; se apetecer ao comandante apetecer dar-te um tiro na cabe\u00e7a, d\u00e1-te e n\u00e3o acontece nada, n\u00e3o h\u00e1 jornais para se queixar, n\u00e3o h\u00e1 opini\u00e3o p\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 ju\u00edzes, n\u00e3o h\u00e1 nada. \u00c9 como cair sozinho numa parede lisa como o vidro onde n\u00e3o tens a que te agarrar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isto \u00e9 uma imagem tremenda do que \u00e9 o estar sozinho. Mas isto \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da humanidade. O sozinho pode ser um povo. O sozinho pode ser uma situa\u00e7\u00e3o de uma minoria \u00e9tnica ou o sozinho pode ser a situa\u00e7\u00e3o de quem luta por um mundo melhor, como os refugiados que v\u00eam \u00e0 procura de solu\u00e7\u00f5es para si e para a sua fam\u00edlia. Encontrar-se sozinho \u00e9 que n\u00e3o muda.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Uma andorinha s\u00f3 n\u00e3o faz primavera e uma pessoa sozinha n\u00e3o muda o mundo. \u00c9 preciso criar cultura. \u00c9 preciso habituar-se a isso e \u00e9 isso que, juntando-nos no Natal, seja na ceia, seja na Missa do Galo, seja naquilo que fazemos em conjunto, n\u00f3s estamos a criar uma cultura de paz.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O Papa Francisco insiste nos apelos \u00e0 paz. Parece-lhe que que \u00e9 uma voz sozinha? Porque \u00e9 que a voz do Papa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ouvida, uma vez que ele repete semanalmente apelos \u00e0 paz, seja na Ucr\u00e2nia, seja noutras partes do mundo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que a voz do Papa \u00e9 escutada por muita gente.\u00a0 Sobretudo por aqueles que s\u00e3o v\u00edtimas da guerra: s\u00e3o aqueles que s\u00e3o v\u00edtimas da injusti\u00e7a que desejam, a paz.\u00a0 \u00c9 por isso, que uma das Bem-aventuran\u00e7as \u00e9: felizes aqueles que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque deles \u00e9 o Reino dos C\u00e9us. S\u00e3o esses que v\u00e3o lutar pela paz. Aqueles que se aproveitam do sistema, aqueles que beneficiam com a guerra, aqueles que t\u00eam a ilus\u00e3o de se tornarem poderosos com a guerra, esses n\u00e3o est\u00e3o interessados na paz, n\u00e3o querem a paz. Aqueles que lutam pela paz s\u00e3o aqueles que sofrem as consequ\u00eancias da guerra.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o podemos dizer que a voz do Papa n\u00e3o \u00e9 escutada. A voz do Papa cria esperan\u00e7a em tanta gente. Como a dos profetas. Lembro aquela leitura de Natal: &#8220;o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e deitaram fora todo o cal\u00e7ado da guerra, as armas estrondosas de combate, porque o Menino nos nasceu&#8221;.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E infelizmente a maioria das pessoas neste mundo conta-se entre esses que t\u00eam sede de justi\u00e7a e de paz e esses escutam.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O ideal da fraternidade, permanece esquecido? evoca-se a liberdade e a igualdade. Onde ficou a fraternidade?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A fraternidade come\u00e7a precisamente no eu sentir que tenho irm\u00e3os e sentir a m\u00e3o, o carinho e o calor desses irm\u00e3os. Mas depois, \u00e0 medida que vou crescendo, n\u00e3o sou s\u00f3 eu o benefici\u00e1rio da fraternidade dos meus irm\u00e3os e irm\u00e3s. \u00c9 quando eu come\u00e7o a ter o gosto e a alegria de fazer com que o outro seja meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por exemplo, quando n\u00f3s adultos fazemos feliz uma crian\u00e7a, n\u00f3s &#8220;engordamos&#8221; com isso, cresce a nossa alegria por fazer a algu\u00e9m partilhar dessa alegria. A atitude de quem procura e o equ\u00edvoco da procura da felicidade, decorre da tend\u00eancia de concentrarmos a vida em n\u00f3s. E quanto mais angustiados nos sentimos, mais o nosso problema \u00e9 o problema principal. Quando somos capazes de nos libertar para dizer que h\u00e1 problemas piores do que o nosso e podemos ir ao encontro dos outros, n\u00f3s encontramos caminhos de felicidade para n\u00f3s e para os outros. O equ\u00edvoco da felicidade \u00e9 quando se pensa nela de um modo egoc\u00eantrico.\u00a0 Ent\u00e3o s\u00e3o os outros que t\u00eam de cuidar de n\u00f3s, porque nunca vai chegar. A crian\u00e7a come\u00e7a por um princ\u00edpio desses: a criancinha pequenina leva tudo \u00e0 boca porque \u00e9 a \u00fanica coisa que ela sabe fazer \u00e9 o sentir que algu\u00e9m cuida dela e precisa disso. Agora, \u00e0 medida que a gente vai crescendo, vai vendo a boca dos outros e vai tentando que a boca dos outros tamb\u00e9m seja saciada para que todos fiquemos saciados. \u00c9 uma atitude, \u00e9 um modo de estar na vida que \u00e9 importante para fazer Natal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Falemos de algumas situa\u00e7\u00f5es que marcam este Natal na sociedade portuguesa, onde s\u00e3o cada vez mais not\u00f3rios os indicadores de crise social e econ\u00f3mica e de descontentamento das popula\u00e7\u00f5es que se manifestam publicamente, como acontece com a greve de professores. Perguntava-lhe, D. Jos\u00e9 Ornelas, que sinais est\u00e3o a ser dados por diferentes classes profissionais?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os fen\u00f3menos sociais s\u00e3o sempre muito complexos, n\u00e3o se limitam apenas a uma interpreta\u00e7\u00e3o. Como dizia no in\u00edcio, h\u00e1 coisas que se vieram acumulando, percursos que em si t\u00eam ra\u00edzes numa pouca vis\u00e3o global da situa\u00e7\u00e3o, que fizeram deteriorar a qualidade de vida de muitos profissionais. Os que est\u00e3o no campo da sa\u00fade, no campo da educa\u00e7\u00e3o e que os levaram a um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o econ\u00f3mica: \u00e9 uma quest\u00e3o de apre\u00e7o e a possibilidade de ter um trabalho digno, muito importante nas situa\u00e7\u00f5es concretas e fundamentais para a pessoa humana, como s\u00e3o a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o e que, no fundo, acabam por ser n\u00e3o s\u00f3 pouco apreciadas, mas tamb\u00e9m objeto de manipula\u00e7\u00e3o de parte a parte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Falou da quest\u00e3o da sa\u00fade e, de facto, agravaram-se tamb\u00e9m os cuidados de sa\u00fade, com tempos crescentes de espera e somos confrontados tamb\u00e9m com o fecho de urg\u00eancias.\u00a0 Neste Natal, por exemplo \u00e9 mais dif\u00edcil nascer?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Este \u00e9 o grande drama. Se h\u00e1 um sinal que \u00e9 precisamente de como as coisas t\u00eam de mudar, tem de mudar culturalmente,\u00a0 \u00e9 este. N\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o de ordenados, mas tamb\u00e9m porque se os nossos m\u00e9dicos nos quais investimos &#8211;\u00a0 o Estado, a na\u00e7\u00e3o investiu milh\u00f5es e milh\u00f5es na sua forma\u00e7\u00e3o e depois v\u00e3o para fora porque aqui n\u00e3o se encontram minimamente remunerados de uma forma condigna &#8211; alguma coisa tem de mudar. E\u00a0 tem de mudar na cultura de tudo isto. Mas mais: eu lembro-me, antes da pandemia, pois n\u00e3o \u00e9 de agora que n\u00f3s temos listas de espera para opera\u00e7\u00f5es, para interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas e para consultas que s\u00e3o de premente necessidade. E discutimos, discutimos, mas n\u00e3o fomos capazes de chegar a programas de regime que sejam de facto capazes de solucionar os problemas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s continuamos a lutar ideologicamente. Os nossos discursos, tamb\u00e9m nestes dias, s\u00e3o bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 que n\u00e3o trazem solu\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m discute as solu\u00e7\u00f5es concretas. O que \u00e9 que vai ser preciso para mudar o sistema? Quanto \u00e9 que vai custar e quais s\u00e3o os passos que temos de dar? O que se diz \u00e9\u00a0 \u2018isso n\u00e3o presta\u2019, \u2018voc\u00eas no passado n\u00e3o fizeram\u2019, \u2018voc\u00eas hoje n\u00e3o fazem\u2019&#8230; \u00c9 um descarregar de barris, mas\u00a0 n\u00e3o nos sentamos para estudar com racionalidade, longe das ideologias, mas com o fundamento de servir bem o pa\u00eds. E isto \u00e9 o que nos est\u00e1 faltando: se pusermos a situa\u00e7\u00e3o e os problemas das pessoas em primeiro lugar e se for esse o nosso interesse (eu duvido que para alguns seja esse o interesse), n\u00f3s vamos encontrar sempre caminhos. Se n\u00f3s procuramos \u00e9 saber quem \u00e9 que tira mais votos de tudo isto, n\u00f3s baralhamos tudo! E quem &#8211; desculpa a express\u00e3o &#8211; quem \u201cse lixa\u201d s\u00e3o aqueles que est\u00e3o em necessidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E foi uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica que levou a legislar nesta altura e neste contexto sobre a eutan\u00e1sia?<\/em>\u00a0 <em>E, j\u00e1 agora, espera um veto presidencial face \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o crescente e aos pedidos para que o presidente intervenha, por exemplo, das regi\u00f5es aut\u00f3nomas?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que o senhor Presidente vai fazer \u00e9 evidente que \u00e9 responsabilidade dele e eu respeito. O que eu acho que esta lei de agora n\u00e3o ficou melhor. As altera\u00e7\u00f5es feitas s\u00f3 alargaram mais o leque de acesso e com formas preocupantes. Eu n\u00e3o quero com isto culpabilizar ningu\u00e9m. Quero \u00e9 uma pol\u00edtica de bom senso e se afirme uma pol\u00edtica que sustente a vida e a fragilidade humana. E esta [lei] n\u00e3o vai \u00e9 nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu achei dram\u00e1tico que, no auge da pandemia, foi votada no Parlamento a vers\u00e3o anterior do diploma. Agora, nestes dias, quando a gente v\u00ea o sistema de sa\u00fade a colapsar, quando h\u00e1 necessidades b\u00e1sicas de pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas de doen\u00e7as incur\u00e1veis e doen\u00e7as onde fazem falta precisamente os cuidados paliativos e a ideia de prote\u00e7\u00e3o e de acompanhamento das pessoas se revela com maior necessidade,\u00a0 \u00e9 precisamente a\u00ed que voltamos a legislar, em vez de buscar os tais consensos necess\u00e1rios para solucionar os problemas e que devem ser transversais a todos os partidos, porque isto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ideologia, isto \u00e9 uma quest\u00e3o de humanidade. Eu encontro pouca l\u00f3gica nesta lei.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O presidente Marcelo lamentou h\u00e1 uns dias a pouca presen\u00e7a dos cat\u00f3licos na sociedade, que torna mais dif\u00edcil a quem tem de exercer a sua magistratura nestes momentos de decis\u00e3o, nomeadamente da lei de eutan\u00e1sia. Concorda com esta perspetiva do Presidente da Rep\u00fablica?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Presidente da Rep\u00fablica fala bem do seu ponto de vista e acho que, de facto, n\u00f3s dev\u00edamos estar mais atentos. Por outro lado, n\u00f3s n\u00e3o usamos os meios pol\u00edticos. N\u00f3s\u00a0 usamos uma voz que \u00e9 sempre clara, concretamente a\u00a0 Igreja em Portugal ao seu mais alto n\u00edvel, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel de movimentos da sociedade civil e de liga\u00e7\u00e3o com outros elementos da sociedade, como por exemplo a posi\u00e7\u00e3o da Ordem dos M\u00e9dicos e de outras associa\u00e7\u00f5es c\u00edvicas nacionais. Veja-se mesmo a converg\u00eancia com outras religi\u00f5es, com outras formas de acreditar. N\u00f3s temos procurado criar esse consenso. S\u00f3 que a nossa forma de estar talvez n\u00e3o seja tanto de ganhar as audi\u00eancias do ponto de vista de quem tem um poder pol\u00edtico. Mas n\u00f3s queremos, sim, que esta seja uma chamada de aten\u00e7\u00e3o. A nossa posi\u00e7\u00e3o e os temas que levantamos, sem uma carga pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, \u00e9 fruto da nossa convic\u00e7\u00e3o que \u00e9 a base da viv\u00eancia humana e do respeito pela vida e por todas as pessoas. A nossa miss\u00e3o \u00e9 dar-lhes condi\u00e7\u00f5es para que a eutan\u00e1sia n\u00e3o se torne necess\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Falemos de alguns aspetos da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal que marcaram este ano 2022. Desde logo, o estudo dos casos de abuso sexual sobre menores: que alcance vai ter esta decis\u00e3o da Confer\u00eancia Episcopal? O que \u00e9 que vai ser feito com as conclus\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A primeira coisa: deixemos chegar as conclus\u00f5es&#8230; Acho que eles est\u00e3o a trabalhar bem. E crescemos todos: cresceu a comiss\u00e3o, crescemos n\u00f3s como bispos com todo este processo, acho que est\u00e1 a crescer a Igreja, numa consci\u00eancia clara e transversal de que situa\u00e7\u00f5es destas n\u00e3o podem, n\u00e3o podem ter lugar no seio da Igreja, no seio da sociedade. E que, para a Igreja, \u00e9 mais grave cada vez que se passa uma situa\u00e7\u00e3o destas, porque \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o absoluta daquilo que se quer, daquilo que deve ser a Igreja e que devem ser as atitudes daqueles que est\u00e3o ao seu servi\u00e7o, particularmente em cargos de responsabilidade. Isto \u00e9 o fundamental! Acho tamb\u00e9m que esta forma de agir \u00e9 um apelo a toda a sociedade. Sabemos que acontece na Igreja e, como digo, \u00e9 sempre um drama e \u00e9 completamente aberrante ter de tratar de quest\u00f5es destas. Mas sabemos que a maior parte destas coisas n\u00e3o se passam no seio da Igreja. Passam-se onde era mais necess\u00e1rio o carinho, o afeto, o respeito, que \u00e9 no seio da fam\u00edlia. Este processo que estamos a fazer, tamb\u00e9m com os equ\u00edvocos dos ecos que est\u00e1 a ter na comunica\u00e7\u00e3o social, leva sempre &#8211; e isso \u00e9 claro &#8211; a uma recusa em considerar como normal que haja situa\u00e7\u00f5es destas. Isto vai mudando a cultura e espero que isso seja o grande contributo de tudo isto. Para n\u00f3s, na Igreja, \u00e9 muito importante termos consci\u00eancia de que estas coisas n\u00e3o s\u00e3o para calar. E, por mais penoso que seja tratar delas, t\u00eam de ser tratadas como se trata de uma doen\u00e7a e de uma doen\u00e7a que, neste caso, \u00e9 tremendamente injusta para aqueles que sofrem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00c9 o momento da apresenta\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio ser\u00e1 um momento de clarifica\u00e7\u00e3o ou a presen\u00e7a do Papa em Portugal poder\u00e1 potenciar ainda mais a discuss\u00e3o \u00e0 volta do assunto?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o tenho medo do relat\u00f3rio&#8230; Tenho medo \u00e9 do que causa o relat\u00f3rio. N\u00e3o quero sequer especular sobre isto: primeiro deixe ver as conclus\u00f5es, que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, ainda. Conhe\u00e7o algumas coisas, que t\u00eam vindo a p\u00fablico. Mas n\u00f3s vamos estud\u00e1-lo. Pedimos um estudo para conhecer a realidade e para que ela nos permita a conhecer, avaliar, discernir e ver que caminhos novos podemos ter para evitar estas coisas no seio da Igreja e, o mais poss\u00edvel, no seio da sociedade. Dar um contributo para toda a sociedade. Portanto, quando chegarem, n\u00f3s vamos ver. N\u00e3o tenho medo nenhum e eu s\u00f3 quero que o trabalho seja bem feito e acho que tem todos os pressupostos, por aquilo que eu vou vendo e acompanhando o trabalho da Comiss\u00e3o, em geral, e concretamente deste grupo que est\u00e1 a visitar os arquivos da diocese, penso que est\u00e1 a correr bem.\u00a0 O que interessa que isto seja bem feito!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Se este relat\u00f3rio trouxer n\u00fameros mais ou menos elevados&#8230;\u00a0 N\u00e3o \u00e9 o ponto. O ponto \u00e9 perceber esta situa\u00e7\u00e3o e dizer: nem que fosse um s\u00f3 que encontrassem, \u00e9 mau. Agora, vamos \u00e9 estud\u00e1-los e vamos tirar consequ\u00eancias para que saiamos daqui todos refor\u00e7ados naquilo que queremos. Veja, e acho que isto \u00e9 importante: cuidar de uma crian\u00e7a \u00e9 precisamente o tema do Natal. E cuidar de uma crian\u00e7a porque \u00e9 o Menino que nos nasce. Deus vem para o meio de n\u00f3s feito crian\u00e7a, isto \u00e9: aprendam a tentar cuidar das crian\u00e7as e aprender\u00e3o a cuidar do projeto de Deus. A aberra\u00e7\u00e3o dos abusos \u00e9 que s\u00e3o absolutamente o contr\u00e1rio disto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Aconteceu tamb\u00e9m este ano a conclus\u00e3o de uma fase do S\u00ednodo, reunindo as opini\u00f5es sobre a Igreja, num documento que provocou rea\u00e7\u00f5es negativas, sobretudo ao n\u00edvel interno. Porqu\u00ea, na sua opini\u00e3o? Significa que o s\u00ednodo permitiu escutar novas vozes ou que \u00e9 dif\u00edcil ainda o di\u00e1logo com quem \u00e9 diferente?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A primeira quest\u00e3o \u00e9 esta: o S\u00ednodo n\u00e3o aconteceu, est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o entender isto, d\u00e1 equ\u00edvocos. Dizer que o S\u00ednodo est\u00e1 em curso, significa que estamos a p\u00f4r-nos a caminho. O que disse \u00e9 verdade: dar voz \u00e0s pessoas. Tantas vezes as pessoas dizem \u2018vamos \u00e0 Igreja para dizer am\u00e9m\u2019. N\u00e3o \u00e9 isso que o S\u00ednodo quer ser, nem \u00e9 isso que querem ser as celebra\u00e7\u00f5es na Igreja e muito menos que deve ser o ser Igreja. O ser Igreja \u00e9 precisamente participar nela. E participar tamb\u00e9m com aquilo que pensamos, com aquilo que pode ajudar e corrigir eventuais erros, mas sobretudo a construir um mundo e uma Igreja onde todos tenhamos voz e vez, cada um no seu lugar. Isto n\u00e3o \u00e9 feito para diminuir o poder de algu\u00e9m! N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de poder&#8230; Trata-se de uma quest\u00e3o de libertar o Esp\u00edrito e os seus dons na Igreja, para que ela possa realizar a sua miss\u00e3o. Eu digo sempre que, nestas coisas, quem preside e quem dirige na Igreja n\u00e3o deve ser antes de mais um domador de le\u00f5es; antes de domar, \u00e9 preciso ser criador de le\u00f5es. Porque isso faz falta! Faz falta uma Igreja que desperte as qualidades e os sentimentos que as pessoas t\u00eam. No meio disto, vai haver cruzamentos e encruzilhadas um pouco confusas, sim! Vamos concordar mais com umas coisas do que com outras, \u00e9 verdade. Mas isso n\u00e3o mete medo. Tenho medo de uma unanimidade de cabe\u00e7as baixas que n\u00e3o se levantam nem para cima, para ver o c\u00e9u, nem t\u00eam ouvidos para o lado para ouvir o que se passa. Isso de querer ignorar a realidade n\u00e3o funciona. \u00c9 preciso que esta Igreja aprenda e seja capaz de integrar, n\u00e3o para relativizar as coisas, n\u00e3o para abandalhar as coisas, mas para criar uma Igreja onde todos tenhamos a possibilidade de colaborar na constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>2023 ser\u00e1 o ano da Jornada Mundial da Juventude. Ser\u00e1 uma nova era para o catolicismo em Portugal e sente os jovens mobilizados?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Penso que temos de fazer as contas com a realidade que temos. Hoje, \u00e9 necess\u00e1rio partir de novo tamb\u00e9m para o meio dos jovens, com a l\u00f3gica do Natal&#8230; \u201cAh, os nossos jovens est\u00e3o afastados da Igreja\u201d. N\u00e3o \u00e9 verdade! Eu queria saber se, no mundo, h\u00e1 alguma organiza\u00e7\u00e3o que movimenta tantos jovens como a Igreja. Nem de perto nem de longe, n\u00e3o h\u00e1. \u00c9 tamb\u00e9m neste pa\u00eds! Agora, estamos aqui a contar espingardas? N\u00e3o! Queremos \u00e9 fazer com que a mensagem do Evangelho chegue ao cora\u00e7\u00e3o dos jovens. \u00c9 t\u00e3o simples como isto! E acreditamos que o Evangelho faz falta na vida das pessoas, particularmente num jovem que est\u00e1 \u00e0 procura de sentido de vida, e que nesta encruzilhada da hist\u00f3ria em que nos encontramos, desde que h\u00e1 aquilo que chamamos uma cultura mais transparente e mais universal que liga as pessoas, esta \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o sem precedentes. E, para isso, para pensar o futuro, precisamos da luz do Natal. Precisamos de assumir a atitude de um Deus todo poderoso, omnipotente, mas que se faz crian\u00e7a e que diz: eu preciso de voc\u00eas para criar o sonho, o meu sonho, o meu projeto nesta terra. E \u00e9 isso que \u00e9 importante que nas\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o dos jovens.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esta Jornada Mundial da Juventude, em boa hora criada neste tempo das comunica\u00e7\u00f5es por Jo\u00e3o Paulo II, na altura em que o mundo parecia abrir-se e deitar abaixo muros, mas quando os muros se multiplicam&#8230; Termos aqui, neste pa\u00eds, jovens de todo o mundo, apesar das dificuldades da pandemia, apesar das dificuldades da crise econ\u00f3mica que estamos a viver e da guerra, apesar disso tudo, \u00e9 um grito que vale a pena arriscar a viver com entusiasmo e com alegria. E isso n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de saber quantos milh\u00f5es v\u00eam. \u00c9 uma quest\u00e3o de saber o que \u00e9 que levam no cora\u00e7\u00e3o por terem participado neste caminho que estamos a fazer: levantar-se, como Maria, a M\u00e3e da nova humanidade, e partir ao encontro desse mundo para levar boas not\u00edcias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa disse na entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia que os encontros natal\u00edcios s\u00e3o promotores de paz, que o debate em torno da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade tem colocar as pessoas no centro, que encontra \u201cpouca l\u00f3gica\u201d na lei da eutan\u00e1sia e os casos de abuso \u00abn\u00e3o s\u00e3o para 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