{"id":264963,"date":"2022-12-24T11:13:57","date_gmt":"2022-12-24T11:13:57","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=264963"},"modified":"2022-12-24T11:13:57","modified_gmt":"2022-12-24T11:13:57","slug":"o-presepio-do-silvestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-presepio-do-silvestre\/","title":{"rendered":"O Pres\u00e9pio do Silvestre"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-264964\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1314\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra.jpg 2000w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-396x260.jpg 396w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-1024x673.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-768x505.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-1536x1009.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-1080x710.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-1280x841.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-980x644.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Presepio-de-Pedra-480x315.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Naquele Dezembro o Silvestre andava mais entusiasmado que nunca. Ali\u00e1s, ele andava cada ano com maior entusiasmo quando se aproximava o Natal. Mas, naquele ano, tinha entrado na escola e a escola era um outro mundo.<\/p>\n<p>A sala da escola do Silvestre havia sido enfeitada com uma \u00e1rvore de Natal cheia de estrelas, bolas de mil cores e outros enfeites. As janelas agrinaldadas com fitas, estrelas e sinos num colorido variado e brilhante. No vidro maior da janela principal, havia sido colocada a figura do Pai Natal. Nas costas trazia um enorme saco. Vinha t\u00e3o cheio que aquela figura de bigode e barbas brancas se encontrava encurvado, como que a aguentar, com dificuldade, o peso de t\u00e3o enorme carga. E na escola j\u00e1 ningu\u00e9m perguntava o que o Pai Natal levava em t\u00e3o grande sacola. Todos sabiam que eram presentes. Presentes a fingir, como era a fingir aquele Pai Natal da vidra\u00e7a central da escola. O Pai Natal verdadeiro encontrava-se no centro comercial da vila, sentado num cadeir\u00e3o de ouro a prometer presentes, enquanto, risonho e com gargalhadas do outro mundo, se deixava fotografar com as crian\u00e7as que aparecessem. E, se crian\u00e7as n\u00e3o apareciam, com a m\u00e3o direita elevava o sino, tamb\u00e9m de ouro, a chamar por elas. E verdade \u00e9 que vinham. N\u00e3o tivessem elas andado com os pais, de montra em montra, a alimentar os seus sonhos!<\/p>\n<p>O Silvestre, que colaborara com entusiasmo na decora\u00e7\u00e3o da sala, foi aparecendo, depois, cada vez mais triste. Na escola ficou a faltar o pres\u00e9pio. \u00c9 verdade que ele, vencendo a natural timidez, ainda apontou essa falha e sugeriu uma instala\u00e7\u00e3o com os recursos dispon\u00edveis na cerca. Mas n\u00e3o encontrou correspond\u00eancia na maior parte dos colegas. S\u00f3 tr\u00eas foram excep\u00e7\u00e3o: um menino e duas meninas. A pr\u00f3pria professora recusou a ideia de um pres\u00e9pio na escola, invocando a tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era costume, dizia ela, para desilus\u00e3o do Silvestre e daqueles tr\u00eas companheiros. Nem aqueles rostos, feitos de meiguice triste, convenceram a professora. \u00abN\u00e3o \u00e9 costume\u00bb, dizia marcando bem cada palavra e cada s\u00edlaba.<\/p>\n<p>\u00abTem de haver um pres\u00e9pio, na nossa escola\u00bb, ia repetindo cada dia o Silvestre para aqueles tr\u00eas companheiros. E os tr\u00eas iam concordando. Mas como?<\/p>\n<p>A professora tinha proposto a realiza\u00e7\u00e3o de um lanche natal\u00edcio. Cada um poderia contribuir com o que pudesse e quisesse. A ideia foi aprovada por unanimidade da assembleia geral da turma. E o lanche ficou logo agendado para o \u00faltimo dia de aulas daquele frio Dezembro.<\/p>\n<p>Um dia, no recreio da manh\u00e3, num cantinho da cerca escolar, fizeram um concili\u00e1bulo aqueles quatro amigos. A vigilante, estranhando aquele recolhimento de quatro crian\u00e7as no meio da algazarra do recinto, ainda os ia surpreendendo. Olhou, observou e perguntou qualquer coisa sem import\u00e2ncia. Sem chegar a ouvir a resposta, virou as costas e deixou em paz as inocentes crian\u00e7as.<\/p>\n<p>E a reuni\u00e3o continuou. Delinearam um plano, distribu\u00edram tarefas e, em segredo, cada uma foi realizando o seu trabalho. Como gente grande, conscientes da sua responsabilidade, realizavam, de vez em quando, r\u00e1pidos encontros na casa dos pais do Silvestre para todos se inteirarem do andamento das coisas e realizarem tarefas comuns.<\/p>\n<p>E o \u00faltimo dia de aulas chegou. Era um dia do lanche. Cada crian\u00e7a, em vez da habitual bolsa com o material escolar, trazia, numa cestinha, numa bolsita ou num embrulho, a iguaria natal\u00edcia que a m\u00e3e lhe havia preparado. E a variedade era grande, como se tivesse havido uma perfeita combina\u00e7\u00e3o: p\u00e3es de leite, sonhos, rabanadas, filhoses, bolo rei, bolachas de todos os tipos. E n\u00e3o faltaram as adequadas bebidas a condizer. Tudo ia sendo colocado numa extensa mesa instalada para o efeito com a ajuda da vigilante. Enfeitada, a condizer.<\/p>\n<p>Faltavam os quatro amigos e a professora j\u00e1 se preparava para assinalar as suas faltas. Houve, ent\u00e3o, um toque suave na porta da sala que ningu\u00e9m ouviu. L\u00e1 dentro o entusiasmo era ensurdecedor. Houve um segundo toque, suave tamb\u00e9m, e nada. L\u00e1 dentro j\u00e1 se cantava com entusiasmo. Fez-se, ent\u00e3o, um sil\u00eancio na sala. Ia falar a professora e todos deveriam prestar a devida aten\u00e7\u00e3o. Houve, ent\u00e3o, um terceiro toque. Suave e delicado como os outros dois. No sil\u00eancio, ouviu-se em toda a sala. E fez-se ainda maior sil\u00eancio. A respira\u00e7\u00e3o ficou suspensa por momentos.<\/p>\n<p>Abriu-se a porta e, receosos como quem \u00e9 apanhado em falta, pedem licen\u00e7a para entrar e compreens\u00e3o pelo atraso. O \u00faltimo a entrar foi o Silvestre abra\u00e7ado a um grande embrulho revestido de papel dourado, enfeitado por uma fita vermelha que terminava num la\u00e7o na parte superior.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o nosso contributo. Abra. \u2013 Dizia o Jo\u00e3o enquanto entregava \u00e0 Professora aquele inesperado embrulho. Misterioso mesmo, para a professora e, particularmente, para todas as crian\u00e7as que n\u00e3o levantavam os olhos daquele objecto que aparentava ser um grande presente. E j\u00e1 iam comentando, uns com os outros, que a professora estava num dia de sorte. S\u00f3 os quatro se encontravam ansiosos por conhecer a reac\u00e7\u00e3o da professora e dos companheiros.<\/p>\n<p>Com a ajuda do Silvestre, a professora desfez o la\u00e7o vermelho, e, enquanto ia retirando o papel dourado, foi aparecendo uma caixa de cart\u00e3o que ia abrindo cautelosamente. A descoberta foi sendo realizada. E logo, para surpresa da professora, aclamada com uma salva de palmas de todo o grupo. Era um pres\u00e9pio. O ch\u00e3o era uma tabuinha velha; as paredes eram de vimes de videira entran\u00e7ados toscamente; o tecto, de vimes tamb\u00e9m, estava coberto com musgo fresquinho acabado de arrancar de um barroco que parecia nunca ter visto o Sol. L\u00e1 dentro tr\u00eas pedras, mal-amanhadas, mas trabalhadas com carinho, representavam as tr\u00eas figuras da fam\u00edlia sagrada. \u00abForam as melhores pedras que encontr\u00e1mos no campo de carvalhos despidos\u00bb, dizia o Guilherme como que a pedir compreens\u00e3o para a imperfei\u00e7\u00e3o da obra.<\/p>\n<p>Quando o pres\u00e9pio foi colocado no centro da mesa, o Guilherme, abre uma pequena caixa. Era uma vela vermelha de onde sobressa\u00edam quatro algarismos a assinalar dois mil\u00e9nios. Acesa a vela, todos cantaram os parab\u00e9ns de Natal ao Menino nascido h\u00e1 mais de dois mil anos.<\/p>\n<p>A festa continuou com a vela acesa e todos iam mirando aquela gruta tosca, enquanto iam saboreando o Bolo Rei que serviu de bolo de anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>A festa terminou, mas o pres\u00e9pio ficou na escola, numa mesa em lugar de destaque.<\/p>\n<p>As f\u00e9rias passaram e as crian\u00e7as, j\u00e1 em Janeiro, regressaram \u00e0 escola. Surpresa das surpresas. O pres\u00e9pio l\u00e1 se encontrava, mas com as tr\u00eas pedras trabalhadas com cinzel de mestre. A not\u00edcia espalhou-se na vila e logo a escola passou a ser local de peregrina\u00e7\u00e3o todos os anos pelo Natal. E em cada ano foram surgindo novas figuras. Primeiro os pastores, depois os magos e depois muitas outras. O pres\u00e9pio ia aumentando de dimens\u00e3o de ano para ano. A sala j\u00e1 n\u00e3o chegava. A pequena cabana, feita de vime com as figuras de pedra, passou a ser exposta no recinto exterior da escola. Agora todo ele se transforma cada ano num imenso pres\u00e9pio que cobre todo aquele espa\u00e7o. E os peregrinos aparecem cada vez em maior n\u00famero.<\/p>\n<p>Nunca ningu\u00e9m soube quem cinzelou aquelas pedras, mas toda a gente diz que a vila foi aben\u00e7oada e que possui o maior pres\u00e9pio do mundo.<\/p>\n<p>Guarda, 13 de Dezembro de 2022<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":264964,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-264963","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=264963"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264963\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/264964"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=264963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=264963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=264963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}