{"id":26443,"date":"2007-08-16T16:55:39","date_gmt":"2007-08-16T16:55:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/08\/16\/no-centenario-de-miguel-torga\/"},"modified":"2007-08-16T16:55:39","modified_gmt":"2007-08-16T16:55:39","slug":"no-centenario-de-miguel-torga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/no-centenario-de-miguel-torga\/","title":{"rendered":"No centen\u00e1rio de Miguel Torga"},"content":{"rendered":"<p>Do meu ref\u00fagio de f\u00e9rias acompanhei pela RTP 1 e 2 a evoca\u00e7\u00e3o que, no Domingo passado, Sabrosa e Coimbra fizeram de Miguel Torga no centen\u00e1rio do seu nascimento. Na selec\u00e7\u00e3o das imagens colhidas em Tr\u00e1s-os-Montes l\u00e1 apareceram a casa do poeta e o negrilho no largo do Eir\u00f3 em S. Martinho de Anta, a capela da Senhora da Azinheira e a serra cont\u00edgua mais acima, bravia e pedregosa, a campa onde jazem os restos mortais do escritor tendo ao lado a torga que ele desejou, o incans\u00e1vel P. Avelino na varanda da sua casa, e, no p\u00f3lo oposto, S. Leonardo de Galafura sobre o rio Douro; em Coimbra, a casa que o poeta habitou, o consult\u00f3rio m\u00e9dico, as ruas que calcorreou e o rio Mondego. A acompanhar as imagens, ouviram-se alguns textos do poeta e as palavras da filha e de pessoas que do poeta tiveram um conhecimento mais pr\u00f3ximo. N\u00e3o faltaram coment\u00e1rios acad\u00e9micos sobre a obra e feitio do escritor, mas foi claro que Torga pagou caro em vida e mesmo depois de morto a sua independ\u00eancia perante grupos liter\u00e1rios, cl\u00e3s pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos.  Durante a reportagem lembrei-me do primeiro contacto que tive com a obra do escritor e do choque que na altura ela me causou.  Iniciava em 1953 o curso de Filosofia e, do curr\u00edculo acad\u00e9mico, faziam parte, al\u00e9m da Literatura Portuguesa, do Grego e do Latim, da Biologia e da F\u00edsica, o estudo da L\u00f3gica e da Ontologia que educavam a intelig\u00eancia a trabalhar com rigor total e a levar as coisas at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Miguel Torga n\u00e3o fazia parte dos autores a estudar, mas, num intervalo, puseram-me nas m\u00e3os um estudo conjunto sobre a problem\u00e1tica religiosa do poeta transmontano e de Jos\u00e9 R\u00e9gio. Li o trabalho com surpresa e agrado e depressa percebi a semelhan\u00e7a e diferen\u00e7a da problem\u00e1tica dos dois grandes poetas. Os textos arrepiaram-me um pouco, sobretudo os do Torga: \u00e1spero mas sedutor, ousado mas realista, quase blasfemo mas verdadeiro. H\u00e1 nele suficiente cultura cl\u00e1ssica e crist\u00e3 para a gente poder nadar em \u00e1guas fundas, e bastante rebeldia pag\u00e3 para se sentir provocado. Nunca \u00e9 blasfemo, ainda que proteste como outro Job. Em toda a sua obra h\u00e1 uma cosmovis\u00e3o gen\u00e9rica, uma op\u00e7\u00e3o mais voluntarista que intelectualmente conquistada e, de vez em quando, liberta-se dela e escreve noutra pauta. Torga n\u00e3o \u00e9 um poeta sistem\u00e1tico que tenha subjacente uma filosofia coesa, nem sequer um soci\u00f3logo, e alguma falta de l\u00f3gica incomodava-me a princ\u00edpio. Os anos passaram e nunca mais deixei de o ler, n\u00e3o como um profissional da arte liter\u00e1ria mas para ocupar as horas vagas. E a sensa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 a da primeira hora: as palavras andam nas p\u00e1ginas dos seus livros como pedras de colar, bem seleccionadas e medidas, e ligam-se umas \u00e0s outras por um fio an\u00edmico, austero mas elegante \u2013 ser aut\u00f3nomo perante os homens e perante Deus, sem dar raz\u00f5es da sua op\u00e7\u00e3o: \u00ab\u00e9 assim porque \u00e9, porque resolvi ser assim, sem dar contas a ningu\u00e9m\u00bb. E fica lamentar-se toda a vida das consequ\u00eancias da escolha que fez. Torga parece um ensaiador dos frutos da descren\u00e7a, e, talvez por isso, anda l\u00e1 e c\u00e1. Artisticamente, Torga \u00e9 um m\u00e9dico, um fino observador das atitudes humanas e da paisagem geogr\u00e1fica, cultural e pol\u00edtica do nosso pa\u00eds, sempre poeta, mesmo quando n\u00e3o usa o verso: ausculta, intui, mede o pulso, sente o drama do doente, acende uma luz e apaga-a em seguida, transfigura as coisas com a linguagem b\u00edblica mas inverte o sentido dessa linguagem e os s\u00edmbolos. Recordemos as figuras da \u00abarca de No\u00e9\u00bb no pref\u00e1cio dos \u00abBichos\u00bb, e a\u00ed e noutras obras as figuras do corvo, da Madalena, de Isaac, de Job e das lamenta\u00e7\u00f5es, do L\u00e1zaro, da \u00e1gua e do p\u00e3o, do vinho e do azeite como mat\u00e9ria dos sacramentos, a linguagem lit\u00fargica do ritual cat\u00f3lico do baptismo, crisma, confiss\u00e3o, extrema-un\u00e7\u00e3o, eucaristia, e a linguagem do mist\u00e9rio crist\u00e3o desde Ad\u00e3o e a \u00abcria\u00e7\u00e3o do mundo\u00bb at\u00e9 \u00e0 reden\u00e7\u00e3o, ao limbo e \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o. No que respeita \u00e0 Igreja cat\u00f3lica, \u00e0 sua doutrina e ac\u00e7\u00e3o no mundo e \u00e0 sua moral tem depoimentos comovedores (a evoca\u00e7\u00e3o dos cinquenta anos do seu casamento, por exemplo, a rejei\u00e7\u00e3o do aborto, a dimens\u00e3o da liturgia), ao lado de finas observa\u00e7\u00f5es dolorosas que revelam um cirurgi\u00e3o atento, bom conhecedor do organismo que admira e ao qual faz a pun\u00e7\u00e3o para lhe aplicar pontas de fogo. Seria curioso fazer uma antologia do perfil dos padres que figuram nos livros de Torga: parece-me que t\u00eam mais semelhan\u00e7as com os padres de Camilo que com os de E\u00e7a. \u00c9 hoje reconhecido pelos estudiosos do fen\u00f3meno religioso que a reflex\u00e3o sobre Deus se torna mais acess\u00edvel ao homem contempor\u00e2neo atrav\u00e9s da literatura e outras obras de arte do que pela reflex\u00e3o metaf\u00edsica. Talvez por isso algumas correntes art\u00edsticas tentem impor o sil\u00eancio sobre Deus na Literatura e outras obras de arte. Isso, por\u00e9m, apoucar\u00e1 a verdadeira obra de arte retirando-lhe as perguntas nascidas do enigma humano. Lamentava o saudoso P. Manuel Antunes que \u00abna hist\u00f3ria ocidental a Teologia e a Literatura ainda nunca falaram como parceiros aut\u00f3nomos. A maioria dos Te\u00f3logos tem pouca estima pela Literatura e a maioria dos escritores tem pouca estima pela Teologia\u00bb. Todos perdem: os te\u00f3logos perdem uma reflex\u00e3o sobre os problemas reais das pessoas vivas, e a Literatura perde densidade. O Conc\u00edlio vai por outro caminho e lembra que \u00ab\u00e9 dever de todo o povo de Deus, e sobretudo dos pastores e te\u00f3logos, saber ouvir, discernir e interpretar as v\u00e1rias linguagens do nosso tempo e julg\u00e1-las \u00e0 luz da palavra de Deus, de modo que a Verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida, e apresentada de um modo mais conveniente. A Igreja reconhece que muito aproveitou e pode aproveitar da pr\u00f3pria oposi\u00e7\u00e3o daqueles que a hostilizam e perseguem\u00bb (GS 44). \u00abO Deus verdadeiro dizia Wittgenstein, n\u00e3o morre no cora\u00e7\u00e3o do homem, o que morre \u00e9 a imagem cultural que d\u00b4Ele se tem\u00bb.   <i>D. Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do meu ref\u00fagio de f\u00e9rias acompanhei pela RTP 1 e 2 a evoca\u00e7\u00e3o que, no Domingo passado, Sabrosa e Coimbra fizeram de Miguel Torga no centen\u00e1rio do seu nascimento. 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