{"id":264191,"date":"2022-12-18T09:31:48","date_gmt":"2022-12-18T09:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=264191"},"modified":"2022-12-16T16:35:36","modified_gmt":"2022-12-16T16:35:36","slug":"portugal-nao-se-leva-a-serio-o-mundo-da-prisao-padre-joao-torres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-nao-se-leva-a-serio-o-mundo-da-prisao-padre-joao-torres\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abN\u00e3o se leva a s\u00e9rio o mundo da pris\u00e3o\u00bb &#8211; padre Jo\u00e3o Torres"},"content":{"rendered":"<p><em>Apresenta-se como um projeto de causas e de pessoas e \u00e9 o maior pres\u00e9pio ao vivo da Europa. Este ano, o pres\u00e9pio ao vivo de Priscos, para al\u00e9m de prosseguir com o seu grande objetivo de integra\u00e7\u00e3o da comunidade de reclusos, d\u00e1 uma import\u00e2ncia particular \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica e em particular, a viol\u00eancia no namoro. O padre Jo\u00e3o Torres, coordenador da Pastoral Penitenci\u00e1ria da Arquidiocese de Braga e principal dinamizador deste projeto, que j\u00e1 vai na 16.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_264161\" aria-describedby=\"caption-attachment-264161\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-264161\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0055.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-264161\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia<\/em>)<\/p>\n<p><em>Vamos come\u00e7ar pela visibilidade que quiseram dar este ano ao fen\u00f3meno da viol\u00eancia dom\u00e9stica que, segundo muitos especialistas, aumentou em tempo de pandemia. A ideia \u00e9 mesmo a de sublinhar esta marca do aumento substancial dos casos de viol\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Eu acredito que o Natal ajuda as pessoas a refletirem mais sobre o humano que existe nelas. E seria penoso algu\u00e9m oferecer um presente \u00e0 sua namorada ou ao seu namorado e depois virar uma esp\u00e9cie de inspetor. Quando \u00e9 que utiliza esse presente?<\/p>\n<p>Imaginemos um perfume. Em que circunst\u00e2ncias o utiliza? Com quem utilizou? Em que ambiente o utiliza? No jantar dos colegas de trabalho? E porqu\u00ea, se fui eu que teve esse perfume? S\u00f3 o deve utilizar quando est\u00e1s comigo, por exemplo. E eu acho que \u00e9 importante que as pessoas, ao oferecerem presentes elas pr\u00f3prias, possam refletir se elas s\u00e3o como pessoas, um presente para aquela pessoa.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, todo o mist\u00e9rio do Natal ajuda a refletir sobre isso. Deus, quando se apresenta no nosso meio, Ele \u00e9 um presente. E um presente que n\u00f3s vamos descobrindo nos momentos da nossa vida, os melhores ou dos piores. Mas ele nunca imp\u00f5e nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E este \u00e9 um dos problemas que mais afeta a nossa juventude, a viol\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que sim, porque as pessoas n\u00e3o t\u00eam muito tempo para refletir. As pessoas vivem muito no improviso e no impulso e pensam que isso \u00e9 que \u00e9 verdade delas pr\u00f3prias. Isso traz problemas s\u00e9rios. Muitas das nossas escolhas, se elas n\u00e3o s\u00e3o constantemente avaliadas e se eu constantemente n\u00e3o me ponho numa linha de reflex\u00e3o, avaliando como \u00e9 que eu sou como pessoa, obviamente que isso traz estragos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No caso dos casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, temos um olhar muito atento e necessariamente compassivo sobre as v\u00edtimas. E eu queria fazer lhe uma pergunta sobre os agressores. Temos encontrado como sociedade a melhor forma de lidar com quem agride e qual \u00e9 o lugar da reabilita\u00e7\u00e3o nestes casos?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 muito importante que n\u00f3s, como sociedade civil, o pr\u00f3prio governo e todas as inst\u00e2ncias de governo que lidam com esta problem\u00e1tica, refletirmos sobre que tipo de encarceramento n\u00f3s temos no nosso pa\u00eds. Como ele \u00e9 que \u00e9 avaliado? Como \u00e9 que ele \u00e9 projetado? Como \u00e9 que est\u00e3o a ser feitos os planos de readapta\u00e7\u00e3o pessoal de reclusos?<\/p>\n<p>Este plano obedece a crit\u00e9rios de humaniza\u00e7\u00e3o? Faz com que a pr\u00f3pria pessoa possa realmente construir um caminho, fazer um processo para que, quando chega o dia da sua liberdade, ele seja melhor pessoa do que aquilo que era quando entrou na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E n\u00e3o se torne uma amea\u00e7a ainda maior \u00e0s v\u00edtimas, porque se sai com desejo de vingan\u00e7a, a situa\u00e7\u00e3o pode piorar significativamente, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Obviamente. Eu acredito que estes processos, at\u00e9 dentro dos seus momentos prisionais, s\u00e3o dif\u00edceis. N\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis. E o Estado portugu\u00eas n\u00e3o pode ele pr\u00f3prio fazer tudo. A sociedade civil, a pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica e os senhores bispos era bom que refletissem. Quantos assistentes rituais religiosos t\u00eam dentro das pris\u00f5es? J\u00e1 agora, a lei de 2009, est\u00e1 a ser cumprida nos estabelecimentos prisionais?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o est\u00e1?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1. E n\u00e3o vejo grande preocupa\u00e7\u00e3o da nossa Confer\u00eancia Episcopal em que a lei seja cumprida. \u00c9 importante que tenhamos p\u00e1rocos em par\u00f3quias e em outras institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, mas se n\u00e3o temos um assistente espiritual religioso dentro das pris\u00f5es ou nos hospitais, n\u00e3o vale a pena estarmos a falar sobre defender a vida, a dignidade da vida, quando nestes s\u00edtios a vida tantas vezes anda tremida, e\u00a0n\u00f3s estamos fora. Isto n\u00e3o vai l\u00e1 com palavras. Isto vai com pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Com rela\u00e7\u00f5es\u2026<\/em><\/p>\n<p>E com rela\u00e7\u00f5es. Uma Igreja que n\u00e3o esteja num processo de humaniza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade, nos s\u00edtios onde tantas vezes o ser humano sofre &#8211; seja de doen\u00e7a ou porque est\u00e1 privado de liberdade &#8211; serve para qu\u00ea? Para fazer discursos? Isto devia-nos ajudar a refletir. N\u00f3s vamos todos fazer mensagens de Natal, de grande fraternidade, do amor de um Deus que nasce, s\u00f3 que depois isso tem de se ver na carne.\u00a0Isto tem de fazer doer as entranhas. E fa\u00e7o aqui um apelo a todos os nossos bispos que acredito que alguns se interessam e se preocupam. Mas n\u00e3o vale a pena fazer mensagens de Natal, se n\u00f3s depois, nestes locais de modo particular, n\u00e3o somos Natal, n\u00e3o ajudamos a nascer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-263654 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/presepio-priscos-2022.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Falemos do esp\u00edrito natal\u00edcio que encarna no pres\u00e9pio de Priscos. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia social para a comunidade deste projeto? N\u00f3s estamos a falar de um espa\u00e7o com 30.000 metros quadrados, com mais de 90 cen\u00e1rios e 600 figurantes. Isto exige um esfor\u00e7o particular de ajuda da popula\u00e7\u00e3o local?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu acho que as pessoas entram sempre na corrente da vida quando come\u00e7am a verificar que a coisa \u00e9 s\u00e9ria, que \u00e9 coisa s\u00e9ria para elas, porque a ajuda a refletir tamb\u00e9m sobre este mist\u00e9rio do Natal. As ajuda a estarem juntas e a terem um sentido de perten\u00e7a afinado. Quando n\u00f3s pertencemos a alguma coisa, a uma comunidade e nos reunimos como pessoas, n\u00f3s partilhamos palavras, n\u00f3s comemos juntos.\u00a0N\u00f3s sentimos que a nossa vida come\u00e7a a estar unida. N\u00e3o estamos sozinhos e isso evita depress\u00f5es, evita a solid\u00e3o e faz com que as pessoas, de uma certa forma, tamb\u00e9m se possam abrir a outros projetos. \u00c9 por isso que n\u00f3s, desde a primeira hora, sempre nos fomos preocupando com outras pessoas, nomeadamente com o norte de Mo\u00e7ambique, onde o pres\u00e9pio ao vivo de Priscos edificou l\u00e1 um po\u00e7o de \u00e1gua. Todos os anos vamos mandando algumas verbas tamb\u00e9m daquilo que angariamos no pres\u00e9pio para essa comunidade. E depois temos este processo de reinser\u00e7\u00e3o social dos pr\u00f3prios reclusos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma pergunta que eu quero fazer essa palavra de reinser\u00e7\u00e3o, de reabilita\u00e7\u00e3o. Imagino que para si seja muito querida como capel\u00e3o prisional. Que balan\u00e7o faz destes 16 anos desse trabalho com reclusos no Pres\u00e9pio Priscos?<\/em><\/p>\n<p>Olhe, \u00e9 um caminho. \u00c9 um caminho e foi um caminho de moroso e penoso, porque \u00e9 muito dif\u00edcil \u00e0s pr\u00f3prias pessoas da comunidade ver chegar uma carrinha prisional com um guarda prisional. E a\u00ed v\u00eam eles. Isto agora vai ser aqui o fim do mundo, porque v\u00eam os maus&#8230;E a pr\u00f3pria comunidade foi se habituando a olhar para esta gente como gente. Gente que tem direito a ter uma oportunidade. Gente que tem direito a sonhar. E vejam s\u00f3 que neste processo que fomos fazendo com os reclusos, n\u00f3s, neste momento temos reclusos a viajar em transportes p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essas oportunidades foram sendo aproveitadas?<\/em><\/p>\n<p>Foram. Eu acredito que os \u00edndices de sucesso, se \u00e9 essa palavra que poder\u00edamos dizer, rondou os 92, 93%. Depois vamos acompanhando estes percursos. Estes mesmo reclusos comem num espa\u00e7o p\u00fablico onde as pessoas v\u00e3o e sabem que eles s\u00e3o reclusos. Mas j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 aqueles olhares, aquelas palavras. E depois, durante o dia eles est\u00e3o ali a trabalhar. E os nossos ouvintes imaginem que h\u00e1 pessoas da comunidade que frequentam aquele espa\u00e7o todos os dias e h\u00e1 reclusos que j\u00e1 chamam algumas pessoas o meu tio, o meu av\u00f4 e a minha av\u00f3.<\/p>\n<p>Ou seja, isto demora tempo, mas isto \u00e9 importante porque estas pessoas depois tamb\u00e9m v\u00e3o carregar nas costas o peso do amor que lhes foi dado e que n\u00e3o podem trair. Quando me encontro com alguns reclusos &#8211; ex-reclusos que depois seguiram a vida por outros caminhos -e agora est\u00e3o muito bem, v\u00eam a comunidade paroquial de Santiago de Priscos. V\u00eam batizar os seus filhos v\u00eam pedir o sacramento do matrim\u00f3nio.<\/p>\n<p>Lembro-me at\u00e9 de um que h\u00e1 uns tempos me veio falar, ou confidenciar que tinha uma rela\u00e7\u00e3o que era um bocado inst\u00e1vel e que isso podia provocar alguns dissabores. E eu, conhecendo-o j\u00e1 h\u00e1 uns anos, disse: cuidado. Com o feitio tipo tempestade que tu tens, tu tens de decidir muito bem o que \u00e9 que h\u00e1s de fazer. Qualquer dia voltas a cometer outra asneira e voltas a ser preso. Nunca te esque\u00e7as daquilo que te levou antes \u00e0 pris\u00e3o.\u00a0 E fez-lhe bem porque passado uns tempos voltou-me a encontrar e disse: eu estive a refletir e realmente eu parti para outra cena; disse-me Ele. Porque aquela cena ia-me levar novamente \u00e0 pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco enviou uma carta aos chefes de Estado convidando os a gestos de clem\u00eancia para com quem est\u00e1 privado de liberdade. Tendo em conta o recente hist\u00f3rico de indultos em Portugal, esta \u00e9 uma mensagem para ser bem escutada no nosso pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que sim. \u00c9 importante que o nosso Parlamento, o nosso Governo, n\u00e3o fique t\u00e3o preso a quem faz o pedido, mas que olhe bem para o pedido, porque \u00e0s vezes podemos pensar: \u201cfoi o Papa que o fez\u201d, \u201cestas quest\u00f5es da Igreja\u201d&#8230; E deixamos andar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_264162\" aria-describedby=\"caption-attachment-264162\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-264162\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_0056.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-264162\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>No ano passado tivemos cinco indultos em Portugal. \u00c9 pouco?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito pouco! Como n\u00e3o existe uma pol\u00edtica s\u00e9ria de reabilita\u00e7\u00e3o social, ela reflete se depois nos indultos que s\u00e3o dados. Porque se n\u00f3s conhec\u00eassemos melhor a pris\u00e3o, se os muros da pris\u00e3o se fossem tornando pontes &#8211; porque eu acho que os muros da pris\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o para que aqueles que est\u00e3o l\u00e1 dentro n\u00e3o poderem sair, s\u00e3o para que os que est\u00e3o c\u00e1 fora n\u00e3o olharem l\u00e1 para dentro &#8211; e se olh\u00e1ssemos mais l\u00e1 para dentro, \u00edamos perceber que h\u00e1 tanta gente que poderia estar num processo de liberdade, que podia ser condicionada, mas que podia estar numa situa\u00e7\u00e3o diferente. E poderiam ser uma mais-valia para a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 n\u00fameros que podem ajudar \u00e0 nossa reflex\u00e3o: Portugal \u00e9 o pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia com mais presos por 100 mil habitantes, \u00e9 pa\u00eds onde se cumpre o maior tempo m\u00e9dio em rela\u00e7\u00e3o ao cumprimento de pena. Isto \u00e9 necess\u00e1rio uma mudan\u00e7a de mentalidade ou esta realidade \u00e9 reflexo da sociedade pouco solid\u00e1ria de que estava a falar?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 importante percebermos que os organismos que temos do Estado para a pol\u00edtica carcer\u00e1ria em Portugal ter\u00e3o de ser todos avaliados. E aqueles que est\u00e3o nesses servi\u00e7os t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para fazerem o seu trabalho? Um t\u00e9cnico de reinser\u00e7\u00e3o social n\u00e3o tem um carro para se deslocar a casa da fam\u00edlia de um recluso para perceber se esta fam\u00edlia tem condi\u00e7\u00f5es para poder acolher o seu familiar que est\u00e1 detido e se os processos de paz na pr\u00f3pria fam\u00edlia est\u00e3o corretos, no sentido de o aceitarem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para executar o seu trabalho&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Obviamente! Os guardas prisionais, por exemplo: como \u00e9 que eles est\u00e3o a ser tratados no nosso pa\u00eds? Eles n\u00e3o podem ser agentes de seguran\u00e7a de segunda. Esta gente tem que ser tratada com a dignidade que merece. Um guarda prisional muitas vezes est\u00e1 dentro da pris\u00e3o e est\u00e1 sobre uma press\u00e3o enorme, porque depois os reclusos reclamam aqueles que l\u00e1 est\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o o rosto do sistema&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Os guardas prisionais no nosso pa\u00eds s\u00e3o presos com os presos. \u00c9 importante que estas pessoas tamb\u00e9m sejam tratadas com dignidade para que elas pr\u00f3prias se sintam bem e possam tratar bem quem l\u00e1 est\u00e1. Os pr\u00f3prios t\u00e9cnicos de educa\u00e7\u00e3o que est\u00e3o dentro estabelecimentos prisionais: que ferramentas eles t\u00eam para poderem verdadeiramente ajudar os reclusos a fazer este processo de reabilita\u00e7\u00e3o social? E os diretores, que liberdade t\u00eam? Se tudo o que tem de decidir tem de vir da central, a base \u00e9 desvalorizada&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os n\u00fameros avan\u00e7ados d\u00e3o a ideia de que vivemos num pa\u00eds muito inseguro. H\u00e1 aproveitamento pol\u00edtico neste campo da ideia da puni\u00e7\u00e3o dos criminosos, que coloca em segundo plano a sua reinser\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o se leva a s\u00e9rio este mundo da pris\u00e3o. \u00c9 um mundo segundo e n\u00f3s ficamos longe. Sempre que algu\u00e9m comete alguma coisa menos boa para a sociedade, para encantar a sociedade, n\u00f3s colocamo-los l\u00e1 dentro. S\u00f3 que depois as pessoas esquecem-se que estas pessoas v\u00e3o ter de sair um dia (n\u00f3s em Portugal n\u00e3o temos pris\u00e3o perp\u00e9tua, ainda bem). E como \u00e9 que elas v\u00e3o sair? Isso j\u00e1 n\u00e3o interessa! Sai, comete outro crime&#8230; E arrisco-me a dizer: uma pessoa esteve detida por causa de um crime cometeu, volta outra vez \u00e0 sociedade e volta a cometer o mesmo crime&#8230; Eu acho que no banco dos r\u00e9us se deve sentar aquele que cometeu o crime, mas tamb\u00e9m aqueles que tiveram a responsabilidade do reabilitar e n\u00e3o o fizeram. Deviam tamb\u00e9m ser penalizados por isso. Mas no nosso pa\u00eds isso n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Basta pensar que, por exemplo, todos os relat\u00f3rios que s\u00e3o feitos relativamente aos reclusos, com que seriedade s\u00e3o feitos? Os atores que est\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o destes relat\u00f3rios s\u00f3 s\u00e3o atores dentro do pr\u00f3prio sistema prisional? H\u00e1 outros atores? Onde \u00e9 que est\u00e3o as pessoas da sociedade civil? Imaginemos um patr\u00e3o que acolhe durante uns tempos um recluso que est\u00e1 no regime aberto para o exterior: esta pessoa \u00e9 consultada se ele deve ou n\u00e3o ser libertado? Como \u00e9 que est\u00e1 a correr o trabalho dele? Ele respeita hor\u00e1rios? Ele tem uma postura disciplinada no trabalho? \u00c9 algu\u00e9m af\u00e1vel com os outros colegas? Isto nem sempre existe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A caminho do Natal, que mensagem gostaria de deixar a popula\u00e7\u00e3o prisional que porventura nos esteja a ouvir e que reflex\u00e3o se exija as autoridades, neste tempo? <\/em><\/p>\n<p>A todos os reclusos e reclusas digo: n\u00e3o percam a esperan\u00e7a. A pris\u00e3o n\u00e3o \u00e9 perp\u00e9tua. Mais tarde ou mais cedo, vais ser em liberdade! E aproveitem esse tempo que est\u00e3o detidos n\u00e3o para passar a vida a lamentar porque est\u00e3o detidos, mas aproveitem o tempo para sonhar: \u201ca minha vida pode ser melhor\u201d.<\/p>\n<p>Aproveitem bem as pessoas que gostam de v\u00f3s, as pessoas que vos visitam, nomeadamente o marido, a esposa, os filhos ou os pais, os amigos&#8230; Aproveitem essa e essa for\u00e7a que eles vos d\u00e3o.<\/p>\n<p>A todos os que s\u00e3o intervenientes e protagonistas dentro do sistema, digo-lhes: n\u00e3o deixem de fazer for\u00e7a para que possam fazer um trabalho s\u00e9rio. Eu acredito que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para voc\u00eas estarem numa pol\u00edtica de reivindicar isto ou aquilo, porque depois \u00e9-se mal visto. Mas era importante que quer os t\u00e9cnicos, os t\u00e9cnicos de educa\u00e7\u00e3o, os guardas prisionais e quer os pr\u00f3prios diretores dos servi\u00e7os prisionais fa\u00e7am for\u00e7a para que as coisas possam ser diferentes e olhem para as Igrejas, n\u00e3o s\u00f3 para a Cat\u00f3lica, mas para as outras Igrejas, que queiram fazer um trabalho s\u00e9rio dentro das pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Deixem-nos trabalhar. Deixem-nos estar dentro da pris\u00e3o, n\u00e3o para vender a religi\u00e3o, mas para poder ajudar nos processos de humaniza\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios estabelecimentos prisionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Natal \u00e9 uma oportunidade para ir ao encontro daqueles que s\u00e3o colocados em segundo plano e exclu\u00eddos ao longo do ano. Sente alguma mudan\u00e7a concreta?<\/em><\/p>\n<p>A Covid trouxe coisas terr\u00edveis: os portugueses sentiram na pele o que \u00e9 estar preso. A COVID n\u00e3o trouxe melhoramentos \u00e0 vida de reclusos, pelo contr\u00e1rio, privou-os de muitas liberdades que, dentro da pris\u00e3o, ter de as ter para se sentirem pessoas, para se sentirem gente. E temos todos de refletir, n\u00e3o tanto a criticar uns aos outros &#8211; porque as pessoas quando me ouvem, podem pensar: ele est\u00e1 sempre a criticar tudo e todos! Creio que n\u00e3o. A minha miss\u00e3o enquanto sacerdote dentro de uma pris\u00e3o \u00e9 ajudar a refletir: aquilo que eu sou como pessoa, l\u00e1 dentro, como \u00e9 que eu os posso ajudar, mas tamb\u00e9m poder ajudar a outros a refletir sobre o trabalho que fazem. No fundo, todos dev\u00edamos estar preocupados com aquelas pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os recursos v\u00e3o se levar ao Natal e aqueles que n\u00e3o v\u00e3o fazer, como \u00e9 que a pastoral penitenci\u00e1ria pode chegar at\u00e9 eles?<\/em><\/p>\n<p>Em Braga, j\u00e1 h\u00e1 uns anos, o senhor arcebispo primaz (antigamente, D. Jorge Ortiga, agora D. Jos\u00e9 Cordeiro) oferece todos os reclusos um presente. \u00a0\u00c9 um kit que tem um chocolate, uma pasta para lavar os dentes, tem um sabonete, tem uma carta escrita por um jovem ou por uma fam\u00edlia, \u00e0s vezes at\u00e9 mais do que uma, e tem uma mensagem do pr\u00f3prio arcebispo para cada recluso, seja ele crist\u00e3o ou n\u00e3o, agn\u00f3stico. \u00c9 uma mensagem humana, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o de converter algu\u00e9m. Eu acho o humano converte e oferecermos um presente a todos reclusos&#8230; Eles abrem o presente na noite de 24 para 25. E o mais interessante \u00e9 que eles leem as cartas uns dos outros e algu\u00e9m me dizia: como \u00e9 bom saber que algu\u00e9m nesta noite, estando em sua casa, tamb\u00e9m pensou em mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Portanto, haver\u00e1 a celebra\u00e7\u00e3o do Natal na Arquidiocese de Braga?<\/em><\/p>\n<p>Sim, desta forma. O ideal \u00e9 que houvesse uma grande celebra\u00e7\u00e3o, com a Eucaristia para aqueles que s\u00e3o crentes, para os reclusos cat\u00f3licos. Mas temos caminho a fazer. Eu acredito que ser\u00e1 diferente no futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta-se como um projeto de causas e de pessoas e \u00e9 o maior pres\u00e9pio ao vivo da Europa. 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