{"id":26381,"date":"2007-08-13T12:54:58","date_gmt":"2007-08-13T12:54:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/08\/13\/cardeal-jean-marie-lustiger-amigo-da-comunidade-portuguesa\/"},"modified":"2007-08-13T12:54:58","modified_gmt":"2007-08-13T12:54:58","slug":"cardeal-jean-marie-lustiger-amigo-da-comunidade-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cardeal-jean-marie-lustiger-amigo-da-comunidade-portuguesa\/","title":{"rendered":"Cardeal Jean Marie Lustiger, Amigo da Comunidade Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>O Cardeal Lustiger foi um pastor que nunca deixou de lan\u00e7ar pontes entre os crist\u00e3os e entre os judeus, embora criando opositores que depois lhe deram raz\u00e3o. A comunidade portuguesa de Paris sempre foi das maiores em Fran\u00e7a, assistida por sacerdotes portugueses e franceses, que se serviam das igrejas paroquiais, criando por vezes tens\u00f5es. O cardeal, descurando as opini\u00f5es contr\u00e1rias, concedeu aos portugueses uma igreja em Gentilly que se tornou uma das maiores e mais frequentadas. S\u00f3 a catequese, durante alguns anos orientada por uma religiosa madeirense de S. Jos\u00e9 de Cluny, tinha mil e duzentas crian\u00e7as, o maior n\u00famero em toda a Diocese. Posteriormente surgiu-lhe um problema com a grande bas\u00edlica Notre Dame Mediatrice, voto de um cardeal por ocasi\u00e3o da guerra, constru\u00edda junto de um grande hospital maternidade. A C\u00e2mara tentou abater o edif\u00edcio que estava encerrado, embora deixando uma pequena capela. O cardeal quis salvar o edif\u00edcio sacro com os portugueses que, no seu entender, tinham o sentido da maternidade e poderiam ajudar no hospital.  Entendeu-se com a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa e foi nomeado um Reitor portugu\u00eas que em pouco tempo p\u00f4s a bas\u00edlica santu\u00e1rio a funcionar. Foi no tempo em que eu era o Presidente da Comiss\u00e3o Episcopal para as Migra\u00e7\u00f5es. Tive v\u00e1rios encontros com Sua Emin\u00eancia que sofreu uma forte press\u00e3o do clero diocesano e at\u00e9 dos capel\u00e3es portugueses. Consciente de estar no caminho certo, n\u00e3o se interessou com o que pensavam dele.  Numa peregrina\u00e7\u00e3o em F\u00e1tima agradeceu ao episcopado e de uma forma especial ao grande Cardeal Ant\u00f3nio Ribeiro, por o ter ajudado a resolver o problema da bas\u00edlica que, desde ent\u00e3o foi chamada de Nossa Senhora Medianeira e Senhora de F\u00e1tima. Algumas vezes, encontrei-me com Sua Emin\u00eancia em Paris, Lourdes e Roma e sempre me falou do Santu\u00e1rio e dos portugueses em Paris.  2 &#8211; Quem era o Cardeal Lustiger? Ele definiu-se como o \u00abcardeal judeu e filho de emigrantes\u00bb. Este homem percorreu uma traject\u00f3ria singular at\u00e9 se tornar cardeal de uma das principais Dioceses da Europa. Quando entrou na Academia francesa dos imortais, tomando lugar entre os quarenta ilustres homens de Fran\u00e7a, respondeu a um seu bi\u00f3grafo que lhe perguntou porque recebera tal nomea\u00e7\u00e3o: \u00ab\u00c9 o sinal dum reconhecimento quase un\u00e2nime da fun\u00e7\u00e3o da Igreja como componente da nossa cultura\u00bb. Aar\u00e3o Lustiger nasceu em Paris em 1926 de pais judeus, duma fam\u00edlia vinda da Alta Sil\u00e9sia, na Pol\u00f3nia, da classe dos L\u00e9s, os servidores do Templo. \u00abN\u00f3s \u00e9ramos pobres, escreveu o Cardeal, eu n\u00e3o estava vestido como os outros estudantes, mas eu era muitas vezes o primeiro da escola, raz\u00e3o para me tornar mais conhecido\u00bb. Apesar disso os colegas quando discutiam entre si diziam-lhe: \u00abisto n\u00e3o te diz respeito judeu impuro\u00bb. Com a idade de 11 anos conheceu o nazismo na Alemanha. Na casa onde se hospedava encontrou um rapaz da juventude hitleriana que lhe mostrou uma faca dizendo: \u00abNo solst\u00edcio do ver\u00e3o vamos matar todos os judeus\u00bb. Foi neste per\u00edodo que lhe caiu nas m\u00e3os ao frequentar uma biblioteca, a B\u00edblia, e o Novo Testamento foi visto por ele como o cumprimento do anunciado pelos profetas ao povo de Deus. Leu a b\u00edblia com paix\u00e3o, mas n\u00e3o o disse a ningu\u00e9m. Tornou-se crist\u00e3o mas os seus pais n\u00e3o aceitaram a sua decis\u00e3o. A m\u00e3e levou-o a um rabino para o elucidar, mas por fim diz o religioso a sua m\u00e3e: \u00abN\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, deixe-o seguir o seu caminho\u00bb.  Foi baptizado com 14 anos, escolhendo ent\u00e3o os nomes de Jo\u00e3o e Maria que ajuntou ao de Aar\u00e3o. No fim da guerra o pai pede em v\u00e3o a anula\u00e7\u00e3o do seu baptismo. A m\u00e3e morrera no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz. Como estudante na Sorbone, toma a decis\u00e3o de ser padre. Com 43 anos \u00e9 nomeado p\u00e1roco, tendo como coadjutor o actual arcebispo de Paris Mons. Andr\u00e9 Vinght-Trois. Jo\u00e3o Paulo II nomeia-o bispo de Orl\u00e9ans e, no dia da ordena\u00e7\u00e3o, seu pai est\u00e1 presente numa cadeira da primeira fila. Ap\u00f3s 15 meses \u00e9 nomeado arcebispo de Paris. Jo\u00e3o Paulo II e o arcebispo Lustiger s\u00e3o duas almas g\u00e9meas no campo da pastoral. A sociedade ocidental est\u00e1 em crise porque perdeu a consci\u00eancia dos fundamentos crist\u00e3os da sua moral. \u00c9 preciso reencontrar o sentido da f\u00e9, afrontar o tr\u00e1gico da condi\u00e7\u00e3o humana e confront\u00e1-la com a esperan\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.  3 &#8211; O di\u00e1logo com os judeus, foi uma das caracter\u00edsticas do Cardeal Lustiger que, no princ\u00edpio, o rejeitaram. Com o passar dos anos os sentimentos de desconfian\u00e7a dos judeus, d\u00e3o lugar a orgulho deste filho do povo escolhido. Quando o Papa Jo\u00e3o Paulo II anuncia a sua inten\u00e7\u00e3o de fazer um acto de penit\u00eancia pelas faltas do passado contra os judeus, o que suscitou muitas controv\u00e9rsias, o cardeal Lustiger apoiou-o discretamente. Ele contribuiu para a organiza\u00e7\u00e3o da viagem do Papa \u00e0 Terra Santa no ano 2000. O Cardeal procurou dialogar com os judeus ortodoxos. Sabendo que era em Nova York que se formava a maioria dos rabinos, e que estes transplantavam as suas ideias para a Europa oriental e davam o tom ao juda\u00edsmo mundial, unindo a autoridade moral com os recursos financeiros, o cardeal Lustiger privilegiou os seus contactos com esta institui\u00e7\u00e3o, tendo-a visitado ainda em Mar\u00e7o deste ano, j\u00e1 muito doente. O cardeal Lustiger foi um inovador que abateu os conformismos e precedia as evolu\u00e7\u00f5es da cultura e da sociedade. O Papa e o cardeal tinham a mesma apreens\u00e3o do destino da Europa. Para renovar a sua Diocese, o Cardeal interessou-se pela renova\u00e7\u00e3o do clero, refazendo o Semin\u00e1rio; com a Escola da Catedral procurou a renova\u00e7\u00e3o do laicado, criou a R\u00e1dio Notre Dame e investiu na televis\u00e3o. Para realizar a coloca\u00e7\u00e3o da Igreja na sociedade moderna, no pensamento e na vida quotidiana, o Cardeal Lustiger, ap\u00f3s consultar os mais diversos meios cat\u00f3licos e intelectuais, andava em frente, por vezes contra ventos e mar\u00e9s. Para comunicar o seu pensamento e convic\u00e7\u00f5es publicava um livro por ano, sendo o mais conhecido e mais traduzido, \u00abLe choix de Dieu\u00bb, publicado em 1987. O Cardeal Lustiger tinha a capacidade de ver longe, era um homem de esperan\u00e7a. Apesar de arcebispo de Paris, ele possu\u00eda uma autoridade para al\u00e9m da sua diocese. Tinha uma grande estima e uma verdadeira obedi\u00eancia ao Papa, no qual via o sucessor de S\u00e3o Pedro.  Funchal, 12 de Agosto de 2007  <i>\u2020Teodoro de Faria, Bispo Em\u00e9rito do Funchal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Cardeal Lustiger foi um pastor que nunca deixou de lan\u00e7ar pontes entre os crist\u00e3os e entre os judeus, embora criando opositores que depois lhe deram raz\u00e3o. A comunidade portuguesa de Paris sempre foi das maiores em Fran\u00e7a, assistida por sacerdotes portugueses e franceses, que se serviam das igrejas paroquiais, criando por vezes tens\u00f5es. 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