{"id":26242,"date":"2007-08-06T10:29:22","date_gmt":"2007-08-06T10:29:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/08\/06\/liberdade-do-coracao-em-relacao-aos-bens-materiais\/"},"modified":"2007-08-06T10:29:22","modified_gmt":"2007-08-06T10:29:22","slug":"liberdade-do-coracao-em-relacao-aos-bens-materiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/liberdade-do-coracao-em-relacao-aos-bens-materiais\/","title":{"rendered":"Liberdade do cora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos bens materiais"},"content":{"rendered":"<p>Ano Jubilar de S\u00e3o Rosendo (907 \u2013 2007), origin\u00e1rio de Santo Tirso \u2013 Diocese do Porto <!--more--> Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo de Orense. Rev.mos sacerdotes e car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s:  Com muito gosto me associo a estas festas jubilares de S\u00e3o Rosendo, not\u00e1vel monge e pastor, que provindo da diocese do Porto, realizou um fecundo e memor\u00e1vel minist\u00e9rio por toda a antiga Galiza e concluiu aqui em Celanova uma prodigiosa vida que sempre louvamos e compartilhamos.  Bendizemos a Deus, \u201cnos seus anjos e nos seus santos\u201d. Louvamo-Lo hoje, por S\u00e3o Rosendo e pela gloriosa Virgem Maria da Encarna\u00e7\u00e3o, aqui honrada com jubilosos festejos. Partilham ambos &#8211; e Nossa Senhora inteiramente &#8211; da gl\u00f3ria de Cristo, que S\u00e3o Paulo anunciava na segunda leitura, deste XVIII Domingo do Tempo Comum. Gl\u00f3ria de Cristo, vida verdadeira a que todos somos chamados. Vida verdadeira e aut\u00eantica, come\u00e7ada em cora\u00e7\u00f5es convertidos e realizada no amor a Deus e aos irm\u00e3os. Vida que garante a eternidade na caridade e a plenitude no bem.  E s\u00f3 assim, irm\u00e3os, s\u00f3 assim pode e deve acontecer. &#8211; Quando celebramos a Virgem Maria, quando lembramos S\u00e3o Rosendo, que fazemos afinal? Reconhecemos e confessamos que est\u00e3o vivos em Cristo, porque se realizaram inteiramente nos sentimentos de Cristo, na sua P\u00e1scoa e no seu Esp\u00edrito. P\u00e1scoa quer dizer passagem: e eles passaram definitivamente deste mundo para o Pai. Esp\u00edrito \u00e9 a pr\u00f3pria vida divina, que circula entre o Pai e o Filho, e este mesmo nos legou, para reproduzir em n\u00f3s os seus sentimentos e atitudes. Sabemo-lo bem, todos os baptizados. E por isso nos sentimos contempor\u00e2neos de S\u00e3o Rosendo, mil e cem anos depois do seu nascimento, e contempor\u00e2neos da Virgem Maria, dois mil anos depois. Porque somos contempor\u00e2neos de Cristo, em cujo Esp\u00edrito eles viveram e vivem, em cujo Esp\u00edrito vivemos tamb\u00e9m, j\u00e1 na comunh\u00e3o dos santos, nossa fam\u00edlia sem fim. H\u00e1, por\u00e9m, uma escolha a fazer: a escolha que fez a Virgem da Encarna\u00e7\u00e3o, a escolha que fez S\u00e3o Rosendo. A escolha que talvez tenha feito depois aquela personagem sem nome que interpelou Jesus no Evangelho que escut\u00e1mos.  Esse mesmo que lhe disse: \u201cMestre, diz a meu irm\u00e3o que reparta a heran\u00e7a comigo\u201d. Ainda n\u00e3o tinha compreendido Jesus, nem a novidade da sua miss\u00e3o. O seu horizonte mantinha-se imediato e fechado, naquilo que o preocupava na altura, uma mera quest\u00e3o de partilhas&#8230; Para ouvir de seguida uma resposta inesperada, t\u00e3o inesperada que n\u00e3o sei se j\u00e1 todos a entendemos hoje. Retorquiu-lhe Jesus, amavelmente: \u201c &#8211; Amigo, quem Me fez juiz ou \u00e1rbitro das vossas partilhas?\u201d. Resposta inesperada, pois era normal esperar dos mestres respostas para tudo; e assim mesmo se esperaria de Jesus\u2026 Mas Jesus traz ao mundo a verdadeira ordem das coisas, em que a realidade temporal \u00e9 entregue por Deus aos homens, encarregados de \u201cencher e dominar a terra\u201d, segundo o mandato do G\u00e9nesis. \u00c9 o campo das nossas responsabilidades c\u00edvicas e jur\u00eddicas, onde nos encontramos com os nossos cidad\u00e3os, crentes ou n\u00e3o crentes, numa s\u00e3 secularidade. Nisso mesmo Jesus se apresenta como um entre iguais, na humanidade comum que assumiu e n\u00e3o desfez: n\u00e3o se arvorou em magistrado, como n\u00e3o negaria depois a autoridade pol\u00edtica, mesmo representada por Pilatos; trabalhou e pagou impostos. Assim devemos estar tamb\u00e9m n\u00f3s como cidad\u00e3os crentes: cumprimos a cidadania como todos os outros, nos v\u00e1rios campos da sociedade; ainda que, a exemplo de Cristo, a preenchamos de filia\u00e7\u00e3o e caridade divinas. Sem confundir os planos, sem menosprezar as realidades terrestres na sua justa autonomia, mas sem desistir do C\u00e9u como destino e crit\u00e9rio. E ao C\u00e9u nos leva Jesus, na continua\u00e7\u00e3o do trecho evang\u00e9lico que escut\u00e1mos. Porque, depois de se eximir ao papel de juiz de causas correntes, n\u00e3o deixa de advertir: \u201cVede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa n\u00e3o depende da abund\u00e2ncia dos seus bens\u201d. &#8211; Seria preciso lembr\u00e1-lo ontem? \u2013 Ser\u00e1 preciso lembr\u00e1-lo hoje ainda, car\u00edssimos devotos e peregrinos da Virgem da Encarna\u00e7\u00e3o e de S\u00e3o Rosendo? Na verdade, nunca tivemos tanta coisa com que nos ocupar ou distrair na terra, com o perigo grande de esquecermos o sentido geral da vida, que ela necessariamente deve ter, para ser humana, para ser feliz, para ser divina. A\u00ed est\u00e3o as graves evid\u00eancias: na nossa Europa, mesmo com um consumo nunca antes atingido, crescem as doen\u00e7as da fartura e o n\u00famero das depress\u00f5es. Abund\u00e2ncia de bens, pen\u00faria de vida. Neste contexto, o sinal distintivo do real cristianismo de cada um tem de ser a liberdade do cora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos bens materiais, n\u00e3o para prescindir do necess\u00e1rio para todos, nem para abrandar os esfor\u00e7os em favor da sua justa distribui\u00e7\u00e3o, mas para manter aberto um horizonte existencial em que a vida se realize na comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os. A partir deste horizonte pleno e aberto \u00e9 que devemos usar os bens, igualmente frugais e solid\u00e1rios, ou seja, livres e fraternos, como aut\u00eanticos filhos de Deus, como Cristo e no seu Esp\u00edrito. Foi assim a Virgem da Encarna\u00e7\u00e3o: teria os seus planos terrenos, como as jovens do seu tempo. Mas, ao ouvir a mensagem divina, abriu-lhe inteiramente o cora\u00e7\u00e3o e concebeu o Filho de Deus, nela mesma assim humanado e entregue a todos n\u00f3s, como salva\u00e7\u00e3o do mundo. Estamos aqui hoje, louvando a Virgem da Encarna\u00e7\u00e3o, porque somos todos filhos do seu \u201csim\u201d incondicional \u00e0 vontade divina, onde tudo o que esperava ganhou outra consist\u00eancia e figura. Foi assim S\u00e3o Rosendo: nasceu nobre e rico, e mais o poderia ser, porventura. Mas foi monge e pastor, acendendo em v\u00e1rios pontos e por fim em Celanova a luz viva do amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, rezando muito e ensinando a rezar, libertando escravos e pacificando os cora\u00e7\u00f5es.  \u00c9 a nossa vez agora, amados irm\u00e3os. Aprendamos como a Virgem da Encarna\u00e7\u00e3o, aprendamos com S\u00e3o Rosendo, aprendamos com Cristo, seu e nosso mestre: olhemos o mundo do nosso dia a dia, como campo exigente de responsabilidades familiares, c\u00edvicas e sociais. Demos o melhor de n\u00f3s mesmos \u00e0s tarefas concretas do trabalho e da cidadania. Mas, em tudo isso, mantenhamos o cora\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e aberto a Deus e a todos. Assim se reconhece a liberdade dos filhos de Deus, assim se anuncia ao mundo o Evangelho da vida em abund\u00e2ncia, assim nos integramos, com Maria e Rosendo, na comunh\u00e3o e na gl\u00f3ria dos salvos em Cristo!  Ourense, 5 de Agosto de 2007 <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano Jubilar de S\u00e3o Rosendo (907 \u2013 2007), origin\u00e1rio de Santo Tirso \u2013 Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,187,203,206,275],"class_list":["post-26242","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-europa","tag-familia","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26242"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26242\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}