{"id":262334,"date":"2022-11-30T13:07:24","date_gmt":"2022-11-30T13:07:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=262334"},"modified":"2022-11-30T13:07:24","modified_gmt":"2022-11-30T13:07:24","slug":"saber-aprender-a-sair-do-bla-bla-bla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-sair-do-bla-bla-bla\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A sair do bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Antes do COP27 dizia para mim mesmo que esse era um desastre \u00e0 espera de acontecer. Aconteceu. Depois, revi-me num discurso feito o ano passado pela jovem Greta Thunberg durante o COP26, onde silenciou as pessoas com o discurso sat\u00edrico do <em>bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1<\/em> \u2014 <em>\u00abEconomia verde. Bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1. Quase zero em 2050. Bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1\u00bb<\/em> \u2014 dando a entender que os discursos pol\u00edticos nesta confer\u00eancia, que promete e n\u00e3o cumpre h\u00e1 trinta anos, n\u00e3o passam de conversa fiada, como se verificou no COP27 ocorrido no Egipto. Mas quando Thunberg termina o discurso com <em>\u00abE n\u00f3s, o povo \u2014 n\u00f3s queremos um futuro seguro, n\u00f3s queremos uma real ac\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e n\u00f3s queremos justi\u00e7a clim\u00e1tica.\u00bb<\/em> \u2014 \u00e9 o que, ao modo de Thunberg, soa como <em>bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1<\/em>, observou (com classe jornal\u00edstica) Elizabeth Kolbert para o <em>The New Yorker<\/em>, chamando a aten\u00e7\u00e3o de que, se os nossos discursos n\u00e3o provierem da vida, n\u00e3o passam de <em>bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1<\/em>. Mas qual o justo equil\u00edbrio entre o agir e o comunicar o que se pensa?<\/p>\n<figure id=\"attachment_262336\" aria-describedby=\"caption-attachment-262336\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-262336\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/miguel-henriques-RfiBK6Y_upQ-unsplash-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-262336\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Miguel Henriques em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma boa forma de organizar os nossos pensamentos \u00e9 falar sobre eles com os outros, ou at\u00e9 com as paredes. Quando articulamos um pensamento e o exteriorizamos, mais facilmente compreendemos o que tem sentido e o que n\u00e3o faz muito sentido. N\u00e3o \u00e9 por acaso que muitas crian\u00e7as estudam a fazer de conta que s\u00e3o professores e explicam a mat\u00e9ria aos seus alunos numa aula imagin\u00e1ria. Quando no \u00e2mbito das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas os pol\u00edticos se p\u00f5em a pensar e discursam num COP, neste momento, \u00e9 como se estivessem a organizar as suas ideias em vez de as concretizar, sendo poss\u00edvel entrarem na espiral do <em>bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1<\/em> sem se darem muito conta disso (ou d\u00e3o-se, mas n\u00e3o fazem conta). Pensando num outro exemplo, neste caminho sinodal que procuramos fazer na igreja Cat\u00f3lica, ser\u00e1 que o pensar e partilhar com os outros o que pensamos, \u00e9 como um <em>bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1<\/em>? Talvez fosse, se o pensar n\u00e3o fosse um acto de amor.<\/p>\n<p>O \u201cacto\u201d de amor corresponde a um agir orientado pelo amor, incluindo gesto concretos, ou actos que inspiram a seguir um caminho concreto. Quando algu\u00e9m partilha um pensamento, e o faz por amor, usualmente, esse pensamento n\u00e3o \u00e9 fechado, nem fecha o pensamento dos outros. \u00c9 abertamente e livremente dado, podendo, por isso, ser recusado. Mas quando \u00e9 recebido, quem o deu por amor faz-nos sentir como se fosse nosso. Como dizia S\u00e3o Porf\u00edrio, um santo da Igreja Ortodoxa \u2014 <em>\u00abQuem ama pouco, d\u00e1 pouco. Quem ama muito, d\u00e1 o m\u00e1ximo; e quem ama muit\u00edssimo, o que tem de mais digno para dar? D\u00e1-se a si mesmo!\u00bb<\/em> Pensar como acto de amor \u00e9 dar-se a si mesmo quando comunica o que pensa. Isso parece-me ser agir a um n\u00edvel mais profundo e necess\u00e1rio no tempo presente.<\/p>\n<p>Diante da necessidade de fazer alguma coisa pelo nosso relacionamento com o ambiente, ou de evoluir no modo de ser Igreja no mundo, sente-se como a evolu\u00e7\u00e3o cultural parece acontece em tempo real. Desde que surgiram as redes sociais que o modo de comunicar alterou-se profundamente. O facto de estarmos muito conectados n\u00e3o quer dizer que comuniquemos muito ou melhor. Pois, se quem comunica, comunica-se, porque d\u00e1-se no pensamento que oferece, se n\u00e3o houver vida por detr\u00e1s desse pensamento, pode dar a ideia, mas arrisca-se a que os outros a sintam como <em>bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1<\/em>. Por\u00e9m, quando a ideia comunicada se acompanha de uma experi\u00eancia, por detr\u00e1s sente-se estar uma vida, e ser\u00e3o as hist\u00f3rias o que muda o sentir das pessoas. Pensamentos oferecidos como actos de amor alimentados pela nossa experi\u00eancia tocam o cora\u00e7\u00e3o mais endurecido.<\/p>\n<p>Nas Jornadas de Comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos do Departamento de Engenharia Mec\u00e2nica onde trabalho na Universidade de Coimbra, um antigo aluno come\u00e7a a partilhar a sua experi\u00eancia profissional. Como est\u00e1vamos interessados no modo como a passagem pelo departamento se relacionava com o percurso de sucesso, era justific\u00e1vel o facto de ele estar a partilhar o seu. Mas ao contr\u00e1rio dos oradores anteriores, n\u00e3o havia grandes hist\u00f3rias sen\u00e3o um sucesso, ap\u00f3s outro, ap\u00f3s sucesso e a minha aten\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a desviar-se. Mas em 2021, ele diz que houve uma viragem radical no seu percurso profissional. Por um epis\u00f3dio (que percebemos ser tr\u00e1gico) na sua fam\u00edlia, passou a ser pai a tempo inteiro, voltando-se para a mec\u00e2nica de motos por gosto e para sustento. Foi neste volte-face surpreendente que me dei conta de como o <em>meu cora\u00e7\u00e3o<\/em> estava endurecido e, perdendo inesperadamente a esposa, aquele antigo aluno dedicou-se ao que era essencial para a sua vida. As l\u00e1grimas verteram-se no meu rosto porque aquele pensamento de mostrava como o sucesso profissional est\u00e1 intimamente ligado a sucesso familiar provinha da vida. Era uma escolha pessoal e localizada que se revelava como acto maior do que qualquer feito planet\u00e1rio ou sinodal.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que apontar onde est\u00e3o as falhas nos nossos sistemas \u00e9 importante se os quisermos melhorar. Mas o primeiro dedo a apontar \u00e9 para o pr\u00f3prio que reconhece essas falhas porque todos somos protagonistas do sentido e direc\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria humana percorre no tempo. At\u00e9 podemos achar que jovens como Greta Thunberg n\u00e3o se encaixam nesta categoria por terem ainda uma curta hist\u00f3ria de vida, dando-lhe \u201cautoridade\u201d suficiente para dizer \u00e0s gera\u00e7\u00f5es anteriores o que <em>\u201cn\u00f3s queremos\u201d<\/em>, quando o mundo precisa mais daquilo que podemos dar \u2014 <em>\u201dn\u00f3s oferecemos\u201d<\/em> \u2014, do que o nosso \u201cquerer\u201d.<\/p>\n<p>No per\u00edodo natal\u00edcio que se avizinha, o que temos mais digno para dar, como dizia S. Porf\u00edrio, somos n\u00f3s mesmos. Dar o nosso sorriso, olhar, aten\u00e7\u00e3o, abra\u00e7o, presen\u00e7a, em vez de nos fecharmos sobre as fotos a partilhar, as mensagens a enviar ou memes. Estar conectado com o mundo \u00e9, seguramente, menos importante do que comunicar(-se) com aqueles que est\u00e3o \u00e0 nossa volta. Aqueles com quem constru\u00edmos pequenas hist\u00f3rias e uma vida que podem converter-se em pensamentos que se tornam verdadeiros actos de amor.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-262334","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262334","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=262334"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262334\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=262334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=262334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=262334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}