{"id":26169,"date":"2007-08-01T11:57:09","date_gmt":"2007-08-01T11:57:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/08\/01\/que-modelo-social-para-o-desenvolvimento\/"},"modified":"2007-08-01T11:57:09","modified_gmt":"2007-08-01T11:57:09","slug":"que-modelo-social-para-o-desenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/que-modelo-social-para-o-desenvolvimento\/","title":{"rendered":"Que modelo social para o desenvolvimento?"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo <!--more--> Confer\u00eancia de Abertura do Semin\u00e1rio de Ver\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Estudos Europeus da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra  <b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> Foi-me pedido que fizesse uma introdu\u00e7\u00e3o geral ao tema do vosso Col\u00f3quio. Ele sup\u00f5e, a meu ver, uma dimens\u00e3o doutrinal sobre o conceito e natureza do desenvolvimento, da pessoa e das sociedades, e outra mais da ordem das pol\u00edticas a aplicar e dos modelos de sociedade a desenvolver. Ao pedir-me a mim esta introdu\u00e7\u00e3o, prevejo que esperais que o fa\u00e7a \u00e0 luz da doutrina da Igreja sobre o homem e a sociedade, a que vulgarmente chamamos \u201cdoutrinal social da Igreja\u201d, rica e abundante na dimens\u00e3o doutrinal, menos concreta na proposta de pol\u00edtica e defini\u00e7\u00e3o de modelos de sociedade, porque a Igreja considera n\u00e3o ser essa a sua miss\u00e3o directa, embora os sugira, pois fazer doutrina sobre realidades concretas e dinamismos hist\u00f3ricos inclui a sugest\u00e3o de caminhos concretos.  A natureza da Doutrina Social da Igreja  1. A f\u00e9 crist\u00e3 inspira uma exist\u00eancia crist\u00e3, um modo de conceber e viver a realidade. Desde o Novo Testamento \u00e9 claro que \u00e0 f\u00e9 confessada, deve corresponder a f\u00e9 vivida nas obras, isto \u00e9, nos comportamentos. \u201cA f\u00e9 sem obras \u00e9 morta\u201d. O testemunho crist\u00e3o exprime-se tanto na confiss\u00e3o de f\u00e9, como nas obras da f\u00e9. Quer isto dizer que a f\u00e9 crist\u00e3 sugere e fundamenta uma moral, isto \u00e9, uma maneira de interpretar a realidade e de agir. A f\u00e9 \u00e9 um desafio cont\u00ednuo \u00e0 intelig\u00eancia e \u00e0 liberdade.  Assim, desde o in\u00edcio, no ensinamento da Igreja, na catequese, na prega\u00e7\u00e3o, no Magist\u00e9rio e na Teologia est\u00e1 presente esta dimens\u00e3o existencial pr\u00e1tica da viv\u00eancia crist\u00e3. Como na Igreja impera o valor da tradi\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, da perenidade dos ensinamentos da Igreja em que as dimens\u00f5es perenes permanecem de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, foi-se, assim, constituindo um vasto corpo doutrinal sobre as exig\u00eancias da viv\u00eancia dos crist\u00e3os em sociedade. Estes valores perenes permanecem, pois radicam no mist\u00e9rio de Cristo e do seu Evangelho. O que muda \u00e9 a realidade da sociedade, desafiando a novas concretiza\u00e7\u00f5es dessa inspira\u00e7\u00e3o fundamental. A sua ess\u00eancia \u00e9 sempre a ilumina\u00e7\u00e3o da realidade e das consci\u00eancias dos crist\u00e3os com a luz de Cristo e da Sua Palavra. A express\u00e3o \u201cdoutrina social da Igreja\u201d s\u00f3 aparece no Pontificado de Pio XI[1], designando esse vasto corpo doutrinal sobre a sociedade e o crist\u00e3o na sociedade.  Do ponto de vista epistemol\u00f3gico, a doutrina social da Igreja n\u00e3o \u00e9 uma ideologia, n\u00e3o se situa no \u00e2mbito de qualquer ci\u00eancia pol\u00edtica. Situa-se, antes, no \u00e2mbito da Teologia e, concretamente, da Teologia moral, apesar da express\u00e3o mais abundante desse corpo doutrinal ser constitu\u00eddo pelo Magist\u00e9rio, sobretudo desde o Pontificado de Le\u00e3o XIII. Os seus primeiros destinat\u00e1rios s\u00e3o os crist\u00e3os e o seu agir na sociedade.  Embora situando-se no \u00e2mbito epistemol\u00f3gico da Teologia, apresenta-se com uma forte componente multidisciplinar e mesmo interdisciplinar. \u00c9 not\u00f3rio, antes de mais, o contributo da filosofia que fornece \u00e0 doutrina social um quadro de pensamento e de an\u00e1lise, como os seus conceitos basilares: a pessoa, a sociedade, a liberdade, a consci\u00eancia, a \u00e9tica, o direito, a justi\u00e7a, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, e a pr\u00f3pria racionalidade da vis\u00e3o crist\u00e3 da sociedade[2]. Mas sente-se, igualmente, a influ\u00eancia de outras ci\u00eancias, como a sociologia e a an\u00e1lise social, a economia, a pol\u00edtica, o direito. Esta componente multidisciplinar faz com que a doutrina social da Igreja possa ser acolhida, n\u00e3o apenas pelos cat\u00f3licos, mas por outros intervenientes na sociedade que reconhecem a Igreja como voz autorizada nos problemas da humanidade: \u201cperita em humanidade\u201d, lhe chamou Paulo VI no seu discurso nas Na\u00e7\u00f5es Unidas.  2. N\u00e3o competindo \u00e0 Igreja hier\u00e1rquica conduzir os destinos da sociedade, intervindo na pol\u00edtica e nos sistemas econ\u00f3micos, nem sequer propor sistemas econ\u00f3mico-pol\u00edticos, este seu ensinamento \u00e9 uma express\u00e3o da profecia. Esta doutrina \u00e9 express\u00e3o da miss\u00e3o prof\u00e9tica da Igreja. E nesta qualidade, ela assume as duas express\u00f5es fundamentais da profecia: o an\u00fancio e a den\u00fancia. \u201cEm primeiro lugar, o an\u00fancio do que a Igreja tem de pr\u00f3prio: uma vis\u00e3o global do homem e da humanidade. E isto n\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel dos princ\u00edpios, mas tamb\u00e9m ao n\u00edvel da pr\u00e1tica. A doutrina social, com efeito, n\u00e3o oferece somente significados, valores e crit\u00e9rios de ju\u00edzo, mas tamb\u00e9m as normas e as directrizes de ac\u00e7\u00e3o que da\u00ed decorrem. Com a sua doutrina social, a Igreja n\u00e3o persegue fins de estrutura\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, mas de apelo, orienta\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias\u201d[3].  Mas \u00e9 tamb\u00e9m den\u00fancia. \u201cA doutrina social da Igreja comporta tamb\u00e9m um dever de den\u00fancia, em presen\u00e7a do pecado: \u00e9 o pecado de injusti\u00e7a e de viol\u00eancia que de v\u00e1rio modo atravessa a sociedade e nela toma corpo. Tal den\u00fancia faz-se ju\u00edzo e defesa dos direitos ignorados e violados, especialmente dos direitos dos pobres, dos pequenos, dos fracos, e tanto mais se intensifica quanto mais as injusti\u00e7as e as viol\u00eancias se estendem, envolvendo categorias inteiras de pessoas e amplas \u00e1reas geogr\u00e1ficas do mundo, e d\u00e3o lugar a quest\u00f5es sociais, ou seja, a opress\u00f5es e desequil\u00edbrios que conturbam as sociedades. Boa parte do ensinamento social da Igreja \u00e9 solicitado e determinado pelas grandes quest\u00f5es sociais, de que quer ser resposta de justi\u00e7a social\u201d[4].  A inspira\u00e7\u00e3o perene do Evangelho ao ritmo das mudan\u00e7as da hist\u00f3ria  3. A harmonia intr\u00ednseca deste corpo doutrinal n\u00e3o foi decidida \u00e0 partida; \u00e9 antes uma verifica\u00e7\u00e3o de um longo per\u00edodo de Magist\u00e9rio. Sempre iluminada pela vis\u00e3o crist\u00e3 do homem e da sociedade, a Igreja interveio a prop\u00f3sito dos grandes problemas concretos da sociedade, em cada tempo hist\u00f3rico, de tal modo que, ao analisar essas interven\u00e7\u00f5es durante um longo per\u00edodo, identificamos a muta\u00e7\u00e3o da sociedade e a evolu\u00e7\u00e3o dos seus problemas.  Temos de reconhecer que com o Pontificado de Le\u00e3o XIII, finais do s\u00e9c.\u00ba XIX, se inicia um per\u00edodo particularmente significativo, constitutivo dos principais elementos deste corpo doutrinal. Mant\u00e9m-se na continuidade ininterrupta da doutrina crist\u00e3 sobre a sociedade, mas corresponde a uma profunda muta\u00e7\u00e3o cultural e de transforma\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es, ainda hoje em curso. A primeira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, alterou dados primordiais da civiliza\u00e7\u00e3o: as rela\u00e7\u00f5es do homem com a natureza, o sentido humano do trabalho como interven\u00e7\u00e3o do homem, aperfei\u00e7oando a cria\u00e7\u00e3o. \u201cOs acontecimentos ligados \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Industrial subverteram a secular organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, levantando graves problemas de justi\u00e7a e pondo a primeira grande quest\u00e3o social, a quest\u00e3o oper\u00e1ria, suscitada pelo conflito entre capital e trabalho\u201d[5]. As rela\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho, a defesa de massas gigantescas de trabalhadores explorados, tornam-se um desafio premente: \u00e9 preciso, na nova ordem, lutar pela justi\u00e7a, por uma ordem social justa. Todas as for\u00e7as intervenientes t\u00eam responsabilidades, cooperando nessa nova ordem social justa.  4. As altera\u00e7\u00f5es sociais e culturais, provocadas pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, geram problemas novos na primeira metade do s\u00e9c.\u00ba XX. Depois da euforia da \u201cbelle-\u00e8poque\u201d, em que novos ricos e novos modelos de riqueza ocupam o palco, as guerras s\u00e3o um traumatismo colectivo. As novas tecnologias voltam-se contra o homem e s\u00e3o utilizadas ao servi\u00e7o da guerra. A crise econ\u00f3mica de 1929, em que os problemas da industrializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o agravados com a especula\u00e7\u00e3o financeira dos mercados de capitais e a influ\u00eancia dos grupos financeiros. Implantam-se em toda a Europa regimes totalit\u00e1rios, agrava-se a luta de classes, ideologias de sinal contr\u00e1rio dominam a pol\u00edtica europeia. A doutrina da Igreja procura orientar os crist\u00e3os neste quadro preocupante e sombrio. O tema da paz entra definitivamente na doutrina da Igreja, apresentando-a como indeslig\u00e1vel da justi\u00e7a e fruto do desenvolvimento. Condenam-se ideologias e regimes totalit\u00e1rios, afirmando o princ\u00edpio da solidariedade, promovendo a ideia de uma sociedade com dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, e o da subsidiariedade, redimensionando o papel dos Estados e afirmando a constru\u00e7\u00e3o da sociedade como fruto do contributo de todos, pessoas e organiza\u00e7\u00f5es. Defende-se o direito de associa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, parceiros indispens\u00e1veis de uma sociedade justa. Se no tempo de Le\u00e3o XIII os temas mais focados s\u00e3o o proletariado, a defesa dos trabalhadores e as rela\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho, nos pontificados de Pio XI e Pio XII, acentua-se sobretudo a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da constru\u00e7\u00e3o da sociedade, \u00fanico modelo que respeita e valoriza a dignidade do homem enquanto protagonista da sua hist\u00f3ria. Fala-se do dinamismo comunit\u00e1rio das empresas, perspectiva que s\u00f3 mais tarde ser\u00e1 assumida e desenvolvida pela teoria das organiza\u00e7\u00f5es. Condena-se o comunismo, cuja ideologia nega o justo exerc\u00edcio da liberdade e da participa\u00e7\u00e3o e em que o poder absoluto do Estado acaba por destruir a participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os.  Mas refuta-se igualmente o liberalismo radical em que a liberdade econ\u00f3mica compromete as outras express\u00f5es da liberdade e cria clima prop\u00edcio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o como busca de solu\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que, neste per\u00edodo, \u00e9 a sociedade como um todo, os seus conflitos, os caminhos de solu\u00e7\u00e3o, que ocupa o centro da doutrina social da Igreja.  5. Com Jo\u00e3o XXIII e o Conc\u00edlio Vaticano II inicia-se um novo per\u00edodo. A quest\u00e3o social, muito sentida na Europa nos per\u00edodos anteriores, universaliza-se. A den\u00fancia do colonialismo e o seu fim, com a emerg\u00eancia de novos pa\u00edses, traz para a ribalta a import\u00e2ncia da ordem internacional e do sentido da responsabilidade de todos para com todos. O tema da justi\u00e7a e da paz, est\u00e3o ligados ao desenvolvimento dos povos; h\u00e1 uma \u00fanica \u201cfam\u00edlia humana\u201d e o bem comum \u00e9 universal. O tema da comunidade volta a estar em primeiro plano, nas duas Enc\u00edclicas de Jo\u00e3o XXIII, a \u201cMater et Magistra\u201d e a \u201cPacem in Terris\u201d. Distingue-se socialismo e socializa\u00e7\u00e3o: aquele \u00e9 uma ideologia e a proposta de um modelo pol\u00edtico; esta \u00e9 o objectivo de uma humanidade solid\u00e1ria, com igualdade de direitos e em que os bens da terra t\u00eam um destino universal.  Na Gaudium et Spes, a doutrina sobre a sociedade ganha uma amplitude e uma envolv\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o nunca expressa. A Igreja e a humanidade aparecem unidas, nas alegrias e sofrimentos, num destino comum a construir. A Igreja redescobre, no contexto do drama do mundo contempor\u00e2neo, o sentido da sua miss\u00e3o no mundo. Jesus Cristo aparece como a chave da solu\u00e7\u00e3o do drama humano e n\u2019Ele a Igreja s\u00f3 pode olhar o mundo com esperan\u00e7a. \u00c9 mesmo convidada a ler no conjunto do drama humano sinais de esperan\u00e7a. O assento \u00e9 posto no mist\u00e9rio do homem e da sua dignidade. \u201cA Gaudium et Spes aborda organicamente os temas da cultura, da vida econ\u00f3mico-social, do matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia, da comunidade pol\u00edtica, da paz e da comunidade dos povos, \u00e0 luz da vis\u00e3o antropol\u00f3gica crist\u00e3 e da miss\u00e3o da Igreja. Tudo \u00e9 considerado a partir da pessoa e em ordem \u00e0 pessoa: \u00fanica criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma. A sociedade, as suas estruturas e o desenvolvimento n\u00e3o podem ser queridos por si mesmos, mas para o progresso da pessoa humana. \u00c9 a primeira vez que o magist\u00e9rio solene da Igreja, no seu mais alto n\u00edvel, se exprime t\u00e3o amplamente acerca dos diversos aspectos temporais da vida crist\u00e3: deve reconhecer-se que a aten\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as sociais, psicol\u00f3gicas, pol\u00edticas, econ\u00f3micas, morais e religiosas estimulou cada vez mais, nos \u00faltimos vinte anos, a preocupa\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja com os problemas dos homens e o di\u00e1logo com o mundo\u201d[6].  6. O tema central deste per\u00edodo \u00e9, sem d\u00favida, o desenvolvimento dos povos, cujo ritmo deve ser marcado pelo desenvolvimento integral da pessoa humana. N\u00e3o basta ter mais, \u00e9 preciso ser mais; s\u00f3 assim o desenvolvimento \u201cser\u00e1 o novo nome da paz\u201d. Acentua-se a responsabilidade dos pa\u00edses ricos em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses pobres, chamados em \u201cvias de desenvolvimento\u201d e a responsabilidade dos antigos colonizadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s na\u00e7\u00f5es emergentes. O problema da pobreza, \u00e0 escala mundial, continua a ser um espinho cravado na consci\u00eancia do mundo, problema incontorn\u00e1vel em termos de civiliza\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o se resolve s\u00f3 na atitude assistencial de distribui\u00e7\u00e3o, mas sup\u00f5e pol\u00edticas coordenadas que levem as verbas investidas a promover o desenvolvimento dos povos. A esta luz, s\u00e3o retomados todos os grandes temas anteriores, no contexto global do mundo visto como um todo, onde a justi\u00e7a e a paz s\u00f3 se consolidar\u00e3o numa \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d. O trabalho, a empresa, a responsabilidade dos pol\u00edticos, a compet\u00eancia e o sentido de servi\u00e7o, a colabora\u00e7\u00e3o e a solidariedade, ganham uma densidade nova num contexto alargado. Acentua-se a consci\u00eancia de uma responsabilidade global, de todos para com todos. Fala-se de uma sociedade \u201cpost-industrial\u201d, n\u00e3o porque a industria tenha deixado de existir, mas porque esta perspectiva global chama a aten\u00e7\u00e3o para problemas como as tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, a preserva\u00e7\u00e3o do planeta, casa comum da humanidade. Tem-se mais consci\u00eancia dos atentados contra o futuro, do homem e do Universo.   O desenvolvimento torna-se tema nuclear  7. A afirma\u00e7\u00e3o de Paulo VI \u201co desenvolvimento \u00e9 o novo nome da paz\u201d, mostra bem como tudo converge para este desafio da humanidade. N\u00e3o se trata, apenas, de progresso econ\u00f3mico e de bem-estar material, mas da plena realiza\u00e7\u00e3o do homem e da sociedade: \u201cdesenvolvimento integral do homem e desenvolvimento solid\u00e1rio da humanidade\u201d. O desenvolvimento \u00e9 \u201ca passagem de condi\u00e7\u00f5es menos humanas a condi\u00e7\u00f5es mais humanas\u201d. Esta passagem n\u00e3o est\u00e1 circunscrita \u00e0s dimens\u00f5es meramente econ\u00f3micas e t\u00e9cnicas, mas implica para cada pessoa a aquisi\u00e7\u00e3o da cultura, o respeito pela dignidade dos outros, o reconhecimento dos valores supremos, e de Deus que \u00e9 a origem e o termo deles. O desenvolvimento favor\u00e1vel de todos responde a uma exig\u00eancia de justi\u00e7a \u00e0 escala mundial que garanta uma paz planet\u00e1ria e torne poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o de um humanismo total, orientado pelos valores espirituais\u201d[7].  A doutrina sobre o desenvolvimento tem sempre, como pano de fundo, n\u00e3o uma mera posi\u00e7\u00e3o doutrinal te\u00f3rica, mas situa\u00e7\u00f5es concretas da humanidade, dram\u00e1ticas e preocupantes. A pr\u00f3pria doutrina \u00e9 um existencial hist\u00f3rico, \u00e9 uma forma de interven\u00e7\u00e3o no concreto, tem a marca do prof\u00e9tico. Assenta num alicerce antropol\u00f3gico, na compreens\u00e3o da pessoa humana e da sua dignidade sagrada a promover e respeitar. \u00c9 esta vis\u00e3o antropol\u00f3gica que nos apresenta o homem como um ser essencialmente solid\u00e1rio e co-respons\u00e1vel. A sociedade digna do homem s\u00f3 pode ser fruto do di\u00e1logo e da colabora\u00e7\u00e3o co-respons\u00e1vel de todos, a que se chamou democracia. Uma sociedade solid\u00e1ria comporta diferen\u00e7as, mas n\u00e3o injusti\u00e7as, sejam elas expressas na rela\u00e7\u00e3o de cada homem com o seu semelhante, nas rela\u00e7\u00f5es do Estado com a sociedade, do capital com o trabalho, ou nos mecanismos do mercado. O dilema das sociedades \u00e9 vencer estas injusti\u00e7as, implementando valores ou recorrer \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia, que acabam por n\u00e3o contribuir para o verdadeiro desenvolvimento. A doutrina da Igreja sobre o desenvolvimento \u00e9 uma condena\u00e7\u00e3o clara de toda a viol\u00eancia, e uma desconfian\u00e7a quanto \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o como caminho de progresso.  8. A doutrina da Igreja sobre a sociedade \u00e9 insepar\u00e1vel da dimens\u00e3o escatol\u00f3gica da hist\u00f3ria, ou seja, de uma meta-hist\u00f3ria ou, em linguagem mais comum, da vida eterna, e da rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica entre estas duas fases da vida e da hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 definitiva a experi\u00eancia presente, o que faz da esperan\u00e7a uma for\u00e7a dinamizadora da hist\u00f3ria.  Esta perspectiva d\u00e1 import\u00e2ncia primordial \u00e0 dimens\u00e3o transcendente do homem e \u00e0 sua interdepend\u00eancia com Deus, o que faz da liberdade de consci\u00eancia e da liberdade religiosa as mais nobres concretiza\u00e7\u00f5es do respeito pela liberdade. Num tempo de quase universaliza\u00e7\u00e3o dos diversos ate\u00edsmos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos, est\u00e3o por demonstrar as suas consequ\u00eancias no progresso da civiliza\u00e7\u00e3o.  Supondo inevitavelmente uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica, o desenvolvimento exige valores, isto \u00e9, dinamismos \u00e9ticos, que s\u00e3o desafios \u00e0 liberdade, para se consolidar como verdadeiro desenvolvimento humano. Refiro apenas os principais, irrenunci\u00e1veis na vis\u00e3o da Igreja, sobre o progresso da sociedade: a dignidade da pessoa humana e o car\u00e1cter sagrado da vida; a igual dignidade de todos os seres humanos, independentemente do sexo, da ra\u00e7a, da cor, da religi\u00e3o; o valor da liberdade e da sua rela\u00e7\u00e3o com a verdade; a voca\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e comunit\u00e1ria do ser humano, onde sobressai a fam\u00edlia como comunidade primordial; o direito aos bens da terra, cujo destino \u00e9 universal; o direito \u00e0 express\u00e3o da pr\u00f3pria criatividade, contribuindo, cada um, para o bem de todos; o direito ao trabalho; o direito a construir a pr\u00f3pria felicidade.  Estes valores est\u00e3o impressos no c\u00f3digo gen\u00e9tico da humanidade, constituem aquilo a que poder\u00edamos chamar um \u201cuniversal humano\u201d, patrim\u00f3nio de uma \u201clei natural\u201d, antes de qualquer outra lei, religiosa ou civil. O cultivo destes valores acontece no seio das culturas e do seu aprofundamento, para o qual contribui a dimens\u00e3o religiosa, o que torna a cultura um dado decisivo no desenvolvimento, e o acesso a ela um direito fundamental. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que as culturas podem aprofundar-se ou regredir, amea\u00e7ando o equil\u00edbrio b\u00e1sico da harmonia da sociedade.  Neste processo de muta\u00e7\u00e3o cultural, sempre em curso, \u00e9 importante equacionar, de modo equilibrado, as rela\u00e7\u00f5es entre religi\u00e3o e culturas. A hist\u00f3ria da humanidade mostra que as religi\u00f5es tiveram grande influ\u00eancia no caldear das culturas, mas a religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico elemento constitutivo das culturas. Em casos como o da cultura chinesa \u00e9 claro que o elemento mais importante foi uma filosofia moral. A religi\u00e3o concretiza-se, espontaneamente, em moral, e a f\u00e9 torna-se cultura. Esta, por sua vez, enriquece e interpela a f\u00e9 religiosa, oferecendo-lhe o quadro da sua inteligibilidade e racionalidade.  Hoje est\u00e1 na moda falar de conflito de civiliza\u00e7\u00f5es. Penso que para as culturas, integrando as religi\u00f5es, no seu contributo positivo para a realiza\u00e7\u00e3o do homem, \u00e9 mais natural convergirem do que entrarem em conflito. Este \u00e9, normalmente, o fruto de outros elementos que n\u00e3o s\u00e3o plenamente assumidos pelas culturas e pertencem ao dom\u00ednio da \u201canti-cultura\u201d, fruto de ego\u00edsmos pessoais ou grupais. O di\u00e1logo inter-cultural \u00e9, hoje, muito importante para o desenvolvimento a n\u00edvel global.  Um modelo social para o desenvolvimento?  9. Um \u201cmodelo social\u201d n\u00e3o pode ficar prisioneiro de modelos econ\u00f3micos, concep\u00e7\u00f5es do Estado e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, mesmo com modelos de democracia pol\u00edtica. Tem de ser flex\u00edvel e universal, de modo a inspirar todas as formas pr\u00e1ticas de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Tem de assentar em valores primordiais, aut\u00eanticos imperativos \u00e9ticos, a conduzir a alma dos povos. Sempre que aqueles valores fundamentais n\u00e3o s\u00e3o respeitados, introduzem-se na vida social traumatismos, que n\u00e3o contribuem para que o desenvolvimento seja o novo nome da paz.  No mundo contempor\u00e2neo, o desenvolvimento sup\u00f5e compet\u00eancia, lucidez de an\u00e1lise, ousadia e criatividade inovadora na inven\u00e7\u00e3o dos caminhos a seguir. Mas sup\u00f5e, sobretudo, um ideal, uma m\u00edstica a comunicar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais jovens em vez do des\u00e2nimo e pessimismo que lhes transmitimos. Este ideal s\u00f3 pode ser espiritual, porque assente na generosidade, na alegria de dar as m\u00e3os, na confian\u00e7a de que n\u00e3o h\u00e1 obst\u00e1culos intranspon\u00edveis e que o futuro positivo da humanidade est\u00e1 garantido em Jesus Cristo.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; [1] Comp\u00eandio de Doutrina Social da Igreja, n\u00ba 87  [2] Ibidem, n\u00ba 77  [3] Ibidem, n\u00ba 81  [4] Ibidem  [5] Ibidem, n\u00ba 88  [6] Ibidem, n\u00ba 96  [7] Ibidem, n\u00ba 98<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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