{"id":26126,"date":"2007-07-29T00:43:59","date_gmt":"2007-07-29T00:43:59","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/07\/29\/ferias-saber-perder-tempo\/"},"modified":"2007-07-29T00:43:59","modified_gmt":"2007-07-29T00:43:59","slug":"ferias-saber-perder-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ferias-saber-perder-tempo\/","title":{"rendered":"F\u00e9rias: saber perder tempo"},"content":{"rendered":"<p><i>\u201cPara tudo h\u00e1 um tempo debaixo dos c\u00e9us: Tempo para nascer e tempo para morrer, Tempo para procurar e tempo para perder, Tempo para guardar e tempo para deitar fora\u201d (Ecle 3,1.6).<\/i>  \tEm tempo de f\u00e9rias \u00e9 sempre oportuno reflectirmos sobre o bem mais precioso da nossa vida: o tempo.  Perguntem <i>ao estudante que reprovou, quanto vale um ano! Perguntem \u00e0 m\u00e3e que teve o beb\u00e9 prematuro, quanto vale um m\u00eas! Perguntem aos namorados que n\u00e3o se viam h\u00e1 muito, o valor de uma hora! Para perceber o valor de um minuto, perguntem ao passageiro que perdeu o avi\u00e3o! Para perceber o valor de um segundo, perguntem a uma pessoa que conseguiu evitar um acidente!<\/i> Assim nos mostra a vida como \u00e9 precioso cada ano, cada dia, cada hora ou frac\u00e7\u00e3o de tempo. Ser\u00e1 por isso que se diz que \u201co tempo \u00e9 dinheiro\u201d? Ou ser\u00e1 que o tempo, como a moeda, se vai desvalorizando na nossa vida cronometrada do dia-a-dia? E, no entanto, Deus d\u00e1-nos todo o tempo do mundo de gra\u00e7a. Todo o tempo deste mundo: o <i>cronos<\/i> e o <i>k\u00e1iros<\/i>, o tempo medido e o tempo vivido. Os antigos consideravam que a verdadeira ocupa\u00e7\u00e3o do homem era o<i> \u00f3cio<\/i> e n\u00e3o os neg\u00f3cios. Os monges tentaram manter vivo este ideal do homem ciente da sua voca\u00e7\u00e3o: n\u00e3o fomos criados para trabalhar, mas para louvar o criador; estamos neste mundo n\u00e3o para explorar a terra, mas para cuidar do jardim da cria\u00e7\u00e3o. <i>Ora et labora <\/i>foi a f\u00f3rmula de equil\u00edbrio encontrada pelos mestres espirituais que sempre consideraram o \u00f3cio e a contempla\u00e7\u00e3o t\u00e3o importantes como o trabalho. Na escola, na fam\u00edlia e na sociedade preparam-nos para o trabalho, mas n\u00e3o nos preparam para o \u00f3cio nem nos ensinam a saber \u201cperder tempo\u201d. N\u00e3o nos faltam meios e propostas para matarmos o tempo, em vez de nos ensinarem a arte de viv\u00ea-lo com sabedoria: uns matam o tempo diante do televisor, outros \u201cocupando os tempos livres\u201d para que nunca estejam livres; outros em actividades radicais, para que nunca cheguem \u00e0 raiz das coisas e dos problemas\u2026 Matamos o tempo para n\u00e3o nos cruzarmos com a morte, e fugimos \u00e0 morte para n\u00e3o nos encontrarmos com a vida.  Passamos a vida a correr contra o tempo, a lamentarmo-nos que \u201cn\u00e3o temos tempo\u201d, quando afinal o tempo s\u00f3 nos foge porque n\u00f3s corremos contra ele. Constru\u00edmos vias r\u00e1pidas e m\u00e1quinas velozes para ganhar tempo, mas \u00e9 o tempo que foge e passa depressa sem nos permitir contemplarmos a paisagem de cada dia e saborear as paragens que a vida nos proporciona. Tornamo-nos escravos do rel\u00f3gio e cada vez sabemos menos \u201ca quantas andamos\u201d. Na ilus\u00e3o de corrermos contra o tempo estamos a correr contra n\u00f3s, pois n\u00e3o vivendo realmente, acabamos por queimar o tempo e a vida.  Como \u00e9 dif\u00edcil valorizar o tempo presente que Deus nos d\u00e1, vivendo o ritmo quotidiano da vida. Os mais velhos continuam a sonhar com o passado sempre \u201cmuito melhor\u201d (<i>no meu tempo \u00e9 que era bom!<\/i>), enquanto os mais jovens vivem obcecados com o futuro. Vamos assim contando os dias e os anos sem vivermos cada momento e cada dia: uns sempre atrasados ou desactualizados, outros t\u00e3o avan\u00e7ados que parecem viver noutro planeta e fuso hor\u00e1rio.  Necessitamos de reaprender a arte do \u00f3cio, de dar tempo a n\u00f3s mesmos, \u00e0 fam\u00edlia, aos amigos. Precisamos de perder tempo com coisas \u201cin\u00fateis\u201d: pararmos a admirar o mist\u00e9rio do amanhecer, saborear a brisa da madrugada que nos fala de Deus, escutar a polifonia dos p\u00e1ssaros que cantam sem contrato, ouvir o sil\u00eancio das criaturas e decifrar as mensagens das estrelas\u2026  O tempo de f\u00e9rias constitui uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para acertarmos a vida pelo rel\u00f3gio do sol e pelo ritmo das criaturas. \u00c9 o tempo em que podemos tapar os ouvidos ao bater das horas, para escutarmos mais as batidas do cora\u00e7\u00e3o. Longe de ser um tempo para \u201cpassar\u201d ou mal gasto, as f\u00e9rias deveriam ser o tempo bem empregue: onde conseguimos arranjar agenda para n\u00f3s e para os outros; onde redescobrirmos que o dinheiro n\u00e3o \u00e9 tudo, que as melhores coisas da vida n\u00e3o se compram, pois s\u00e3o gr\u00e1tis, s\u00e3o gra\u00e7a. Longe de ser um tempo de evas\u00e3o, as f\u00e9rias deveriam ser tempo de encontro, de reflex\u00e3o, de avalia\u00e7\u00e3o; deveriam ser uma ocasi\u00e3o para passarmos do <i>tempo de fazer<\/i> (ter que fazer), para o <i>tempo de viver<\/i>, o tempo de experi\u00eancia da autenticidade e da criatividade; Uma oportunidade para transitarmos das evasivas utopias da m\u00e1quina do tempo para voltarmos a \u201cter tempo\u201d e a viv\u00ea-lo com magia e fantasia infantil.  Quem dera que pelo menos as nossas f\u00e9rias fossem um tempo da experi\u00eancia compartilhada com o outro, tempo favor\u00e1vel ao encontro, tempo cheio de significados. Como t\u00e3o bem observou Marcel Proust: \u201cUma hora n\u00e3o \u00e9 uma hora, \u00e9 um vaso cheio de perfumes, sons, projectos e climas\u201d. Uma vida n\u00e3o \u00e9 vida se n\u00e3o for assim: cheia de perfumes, sons, projectos e climas. Pois, afinal, a vida n\u00e3o \u00e9 o tempo e os anos que vamos contando, mas uma hist\u00f3ria de tempos, lugares e encontros cheios de tudo isso. Dizia a raposa ao Princepezinho, \u201cfoi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa t\u00e3o importante\u201d. Porque esta continua a ser uma verdade esquecida entre os humanos, \u00e9 importante que haja quem saiba e ensine a \u201cperder tempo\u201d com o mais importante. E o mais importante continua a ser \u201ccriar la\u00e7os\u201d e \u201cdeixar-se cativar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPara tudo h\u00e1 um tempo debaixo dos c\u00e9us: Tempo para nascer e tempo para morrer, Tempo para procurar e tempo para perder, Tempo para guardar e tempo para deitar fora\u201d (Ecle 3,1.6). Em tempo de f\u00e9rias \u00e9 sempre oportuno reflectirmos sobre o bem mais precioso da nossa vida: o tempo. 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