{"id":259826,"date":"2022-11-13T09:31:10","date_gmt":"2022-11-13T09:31:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=259826"},"modified":"2022-11-13T09:26:42","modified_gmt":"2022-11-13T09:26:42","slug":"dia-mundial-dos-pobres-sem-abrigo-nao-e-so-quem-nao-tem-casa-frei-filipe-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-mundial-dos-pobres-sem-abrigo-nao-e-so-quem-nao-tem-casa-frei-filipe-rodrigues\/","title":{"rendered":"Dia Mundial dos Pobres: \u00abSem-abrigo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quem n\u00e3o tem casa\u00bb &#8211; Frei Filipe Rodrigues"},"content":{"rendered":"<p><em>Respons\u00e1vel pela Associa\u00e7\u00e3o \u2019Jo\u00e3o 13\u2019, de apoio aos sem abrigo em Lisboa, confirma que h\u00e1 mais estrangeiros e mais jovens a precisar de ajuda, vivam na rua ou em quartos, e situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas mesmo entre quem trabalha<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_259527\" aria-describedby=\"caption-attachment-259527\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-259527 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-4-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-259527\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Ricardo Fortunato<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>V\u00e1rios indicadores apontam para o aumento do n\u00famero de pobres em Portugal<\/strong><strong>\u00a0e de\u00a0<\/strong><strong>quem vive na rua, que \u00e9 um dos rostos mais dram\u00e1ticos da pobreza. Haver\u00e1 9 mil sem abrigo por todo o pa\u00eds, mais 800 do que em 2020<\/strong><strong>, a<\/strong><strong>\u00a0maioria concentra-se precisamente aqui, em Lisboa. T\u00eam sentido este aumento? O n\u00famero de utentes que atendem est\u00e1 a crescer?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Temos notado bastante este aumento, n\u00e3o s\u00f3 em n\u00famero como tamb\u00e9m temos visto uma viragem: nos primeiros anos t\u00ednhamos pessoas de alguma idade, de 50, 60, 70 anos, e no relat\u00f3rio que fizemos agora,\u00a0pela primeira vez a grande maioria &#8211; 60% &#8211; das pessoas que atendemos t\u00eam menos de 50 anos. Isto\u00a0significa que as faixas et\u00e1rias mais jovens &#8211;\u00a0 a partir dos 18 at\u00e9 aos 40, 45 &#8211; s\u00e3o neste momento as mais afetadas e as que est\u00e3o na rua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A partir dos 18 anos, m<\/strong><strong>uito jovens&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim, porque\u00a0menores n\u00e3o podem estar na\u00a0rua. Mas temos pessoas com 18 anos, raparigas gr\u00e1vidas, creio que duas neste momento. Depois, obviamente, vamos dando resposta. Mas,\u00a0isto para dizer que est\u00e1 a aumentar o n\u00famero&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E mudou o perfil.<\/strong><\/p>\n<p>Mudou, gente\u00a0bastante mais nova.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esse \u00e9 um dos dados que \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar, o perfil. A partir do relat\u00f3rio<\/strong><strong>,\u00a0<\/strong><strong>quantas pessoas \u00e9 que est\u00e3o a ajudar neste momento? A ideia de que aqueles que ajudam s\u00e3o na mai<\/strong><strong>o<\/strong><strong>ria sem abrigo vai-se desfazendo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s\u00a0estamos a servir neste momento uma m\u00e9dia de refei\u00e7\u00f5es para 75 pessoas, mas\u00a0abrangemos mais, porque n\u00e3o v\u00e3o todas todos os dias. Temos uma lista de cerca de 170 pessoas e s\u00f3 servimos 75 refei\u00e7\u00f5es, porque um pode ir hoje e n\u00e3o ir amanh\u00e3. Embora seja tamb\u00e9m um dado novo, nosso, de que h\u00e1 uma fideliza\u00e7\u00e3o maior, temos pessoas que praticamente\u00a0j\u00e1\u00a0v\u00e3o todos os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 n\u00e3o prescindem deste apoio?<\/strong><\/p>\n<p>Porque\u00a0outras respostas\u00a0tamb\u00e9m\u00a0deixaram de existir. Este voluntarismo de pessoas que em grupo preparavam refei\u00e7\u00f5es e iam para a rua tem tend\u00eancia a diminuir, este \u00e9 um dado. Depois h\u00e1 uma vulnerabilidade muito grande.\u00a0Quando\u00a0falamos em sem abrigo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 as pessoas que n\u00e3o t\u00eam em casa. As que est\u00e3o em quartos tamb\u00e9m s\u00e3o consideradas pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E h\u00e1 muitos casos?<\/strong><\/p>\n<p>Temos muitas\u00a0pessoas, porque as que est\u00e3o na rua,\u00a0mesmo,\u00a0s\u00e3o um tipo de pessoas dentro do grupo dos sem abrigo, mas temos tamb\u00e9m um grande n\u00famero de pessoas que conseguem algum apoio, sobretudo da Miseric\u00f3rdia de Lisboa, para terem acesso a um quarto que \u00e9 pago pela Santa Casa, mas depois n\u00e3o t\u00eam mais nada, n\u00e3o\u00a0t\u00eam onde tomar banho, n\u00e3o t\u00eam produtos de higiene nem onde fazer, \u00e9 muito complicado.<\/p>\n<p>No \u00faltimo meio ano t\u00eam tamb\u00e9m aparecido muito mais pessoas estrangeiras, que era uma coisa que n\u00e3o t\u00ednhamos, eram sempre portugueses, algumas brasileiras e africanas. Mas, agora\u00a0t\u00eam-nos sido referenciadas pessoas do M\u00e9dio Oriente e de uma \u00c1frica mais mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tem havido not\u00edcias sobre os timorenses que t\u00eam chegado nos \u00faltimos meses a Portugal, e que est\u00e3o muitos deles a dormir na rua, na zona da Baixa de Lisboa. Tamb\u00e9m t\u00eam pedido a vossa ajuda?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o para esta resposta, mas a nossa associa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 tem ajudado estes grupos com roupa. Como temos um banco de roupa para os nossos utentes, obviamente que nestas circunst\u00e2ncias, quando nos pedem, tamb\u00e9m ajudamos. E\u00a0estamos a ajudar um grupo de cerca de 40 timorenses,\u00a0levando-lhes roupa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_259526\" aria-describedby=\"caption-attachment-259526\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-259526\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-3.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-259526\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Ricardo Fortunato<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>As\u00a0institui\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias confirmam um aumento dos pedidos de ajuda. Os dados oficiais, ali\u00e1s, mostram que a pobreza tem aumentado at\u00e9 entre quem trabalha. H\u00e1 quem esteja nestas circunst\u00e2ncias e procure a ajuda da associa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Temos pessoas que trabalham e v\u00e3o ali.\u00a0Por exemplo, pessoas que t\u00eam\u00a0d\u00edvidas ao Estado, ao trabalhar ficam com uma reten\u00e7\u00e3o da parte da d\u00edvida, depois para pagar o quarto, n\u00e3o conseguem.<\/p>\n<p>No \u00faltimo ano tivemos um apoio extra, demos almo\u00e7o \u00e0s pessoas que trabalhavam, para terem um suporte e n\u00e3o ficarem todo o dia sem alimenta\u00e7\u00e3o.\u00a0Mas\u00a0\u00e9 um drama. Vemos pessoas que est\u00e3o a trabalhar&#8230;\u00a0estou-me a lembrar de uma pessoa que est\u00e1 a trabalhar e que est\u00e1 a dormir na rua, e a mala das ferramentas \u00e9 a almofada dele. Isto\u00a0n\u00e3o \u00e9 fantasia, \u00e9 a verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o agravou-se desde a pandemia. Agora, com a guerra, infla\u00e7\u00e3o, aumento generalizado dos pre\u00e7os<\/strong><strong>\u00a0e<\/strong><strong>\u00a0muitos problemas no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o em Lisboa, significa que estas situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade v\u00e3o continuar a aumentar?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Mas eu acho\u00a0que h\u00e1 uma falta de investimento.<\/p>\n<p><strong>Nas\u00a0pol\u00edticas do Estado?<\/strong><\/p>\n<p>Do Estado e\u00a0a n\u00edvel local.\u00a0H\u00e1 uma falta de investimento. Estamos numa de manuten\u00e7\u00e3o, manter as respostas, mas depois faz-se muito pouco na mudan\u00e7a de vida da pessoa.\u00a0\u00c9 obvio que a pessoa precisa de jantar, precisa de tomar o pequeno almo\u00e7o e tomar banho, mas tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3bvio que a pessoa precisa do seu espa\u00e7o, de quem a ajude a regularizar a sua situa\u00e7\u00e3o e a encontrar trabalho. E\u00a0estes mecanismos n\u00e3o funcionam.<\/p>\n<p>A nossa resposta (da associa\u00e7\u00e3o) come\u00e7ou por ser uma resposta b\u00e1sica, de cumprirmos as obras de miseric\u00f3rdia &#8211; dar comida a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os n\u00fas, dar banhos. Aos poucos fomos percebendo que as necessidades s\u00e3o maiores e na medida das nossas capacidades, que s\u00e3o muito poucas, come\u00e7\u00e1mos a ver a situa\u00e7\u00e3o das\u00a0pessoas. No\u00a0ano passado conseguimos dar casa a duas fam\u00edlias, uma tinha uma gr\u00e1vida, outra tinha um beb\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, corriam o risco de lhes tirarem os beb\u00e9s. Conseguimos articular com outra institui\u00e7\u00e3o, mas tem de ser tudo muito pessoal, n\u00e3o \u00e9 em termos de pol\u00edtica. \u00c0s vezes parece que n\u00e3o h\u00e1 um investimento.<\/p>\n<p>Todos\u00a0queremos tirar os pobres da rua, \u00e9 um bom desejo, mas depois n\u00e3o h\u00e1 um investimento pr\u00e1tico no acompanhamento das pessoas. Por exemplo, neste refeit\u00f3rio que temos n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel que estejam pessoas\u00a0ali h\u00e1 tr\u00eas anos, todos os dias a jantar. N\u00e3o devia ser. Este refeit\u00f3rio\u00a0devia ser para pessoas que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o constrangedora, mas que depois t\u00eam que ter uma resposta mais concreta e mais pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ainda a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o<\/strong><strong>:<\/strong><strong>\u00a0estamos a falar da capital portuguesa, sabemos que os pre\u00e7os s\u00e3o internacionais e que os rendimentos s\u00e3o nacionais. Estamos num momento em que h\u00e1 mais not\u00edcias sobre despejos e\u00a0<\/strong><strong>sobre\u00a0<\/strong><strong>as consequ\u00eancias que a limita\u00e7\u00e3o imposta pelo Estado ao aumento das rendas pode ter para quem est\u00e1 a acabar contrato. S\u00e3o\u00a0situa\u00e7\u00f5es que preocupam e podem levar mais gente para a rua?<\/strong><\/p>\n<p>Sim.\u00a0Empurrar as pessoas para a rua \u00e9 uma das coisas que observamos muito. \u00c9 empurrar as pessoas para a rua, porque as pessoas n\u00e3o conseguem sustentar a vida pobre que j\u00e1 tinham.<\/p>\n<p>Se formos ver, numa crise destas, a descer degraus, os muito ricos ficam um bocadinho menos ricos, os ricos ficam na classe m\u00e9dia, a classe m\u00e9dia desce um bocadinho e os que j\u00e1 est\u00e3o no \u00faltimo degrau, caem. Se\u00a0conseguiam pagar uma renda, aumentou o pre\u00e7o de renda, j\u00e1 n\u00e3o conseguem. Tinham trabalho, ficaram desempregados, n\u00e3o conseguem pagar renda, v\u00e3o para a rua. Tudo isto ajuda a que a pessoa termine na rua, que \u00e9 a pior coisa. E n\u00e3o estamos a falar de quem j\u00e1 esteja na rua h\u00e1 muito tempo, mas de pessoas que aparecem ali pela primeira vez, est\u00e3o na rua um, dois dias. E d\u00e1-nos pena que, quando se v\u00e3o embora, tenham de ir para a rua.\u00a0Mas, l\u00e1 est\u00e1, a nossa associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue e tamb\u00e9m n\u00e3o vemos respostas eficazes para que as pessoas possam ter um s\u00edtio onde pudessem pernoitar duas ou tr\u00eas noites. \u00c9\u00a0um investimento muito grande, mas \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos dizer &#8216;temos que acabar com a pobreza&#8217; se n\u00e3o fizermos por isso. N\u00e3o pode ficar s\u00f3 nas boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O cardeal Tolentino, num dos textos que escreveu h\u00e1 uns anos sobre os pobres, dizia isto: &#8220;a qualidade de um Estado v\u00ea-se pela maneira como trata os mais fr\u00e1geis&#8221;.\u00a0Vemos\u00a0a qualidade das sociedades pela maneira como tratamos os mais fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o houver aqui uma decis\u00e3o pol\u00edtica, social, n\u00e3o s\u00f3 de apoio \u00e0s pessoas sem abrigo, \u00e0s pessoas mais fr\u00e1geis, mas de acompanhamento e de interesse, n\u00e3o vamos conseguir, porque isto n\u00e3o \u00e9 uma ferida, \u00e9 uma hemorragia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Existe uma Estrat\u00e9gia Nacional para a Integra\u00e7\u00e3o das Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Sem Abrigo, e outra Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Pobreza. O que \u00e9 que est\u00e1 a falhar?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, temos que reconhecer que s\u00e3o duas estruturas muito importantes, porque permitem-nos trabalhar em conjunto, e isso \u00e9 muito bom.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Trabalhar em rede, as v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es que existem<\/strong><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Temos\u00a0o mesmo plano municipal, trabalhamos em rede, conhecemo-nos, contactamos. Isto foi muito importante na maneira como cuidamos destas pessoas sem abrigo. Mas depois faltam meios t\u00e9cnicos, s\u00edtios onde as pessoas possam ir dormir, faltam pessoas que possam acompanhar os casos.<\/p>\n<p>Termos uma t\u00e9cnica social a cuidar de 200 casos&#8230; n\u00e3o pode, n\u00e3o consegue.\u00a0Uma das queixas que os nossos utentes fazem muito em rela\u00e7\u00e3o a algumas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 que t\u00eam entrevistas marcadas daqui a dois meses.\u00a0Imaginemos uma pessoa que foi ao hospital, mandaram-lhe tomar quatro ou cinco medicamentos, um deles antibi\u00f3tico, n\u00e3o tem dinheiro, s\u00f3 tem assistente social daqui a duas semanas, o doente vai ficar duas semanas sem um antibi\u00f3tico?<\/p>\n<p><strong>\u00c9 preciso agilizar.<\/strong><\/p>\n<p>Era preciso\u00a0ter\u00a0um acompanhamento quase lado a lado, mais personalizado, e se calhar em vez de estarmos a tratar de todos, neste m\u00eas vamos tratar de\u00a0cinco. Creio que poder\u00edamos avan\u00e7ar muito com este interesse particular para com a pessoa, n\u00e3o vermos s\u00f3 o mundo dos sem abrigo, mas fazer zoom e ver esta pessoa. Chegou\u00a0 hoje\u00a0\u00e0 rua? Em tempo recorde vamos ter que a tirar da rua, n\u00e3o pode ali ficar. E o que \u00e9 que podemos fazer? N\u00e3o h\u00e1 respostas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para quem n\u00e3o est\u00e1 familiarizado com o vosso trabalho, ser\u00e1 \u00fatil falar da Jo\u00e3o 13<\/strong><strong>: q<\/strong><strong>ue apoio \u00e9 que presta, onde \u00e9 que \u00e9 e o que \u00e9 que\u00a0assegura aos utentes?<\/strong><\/p>\n<p>A Jo\u00e3o 13 \u00e9 uma\u00a0associa\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios, foi criada em 2015 na sequ\u00eancia da primavera do Papa Francisco. Nasceu um bocadinho antes dos balne\u00e1rios que ele abriu no Vaticano (para os sem abrigo). Foi a partir da enc\u00edclica &#8216;A Alegria do Evangelho&#8217; que nasceu\u00a0esta associa\u00e7\u00e3o de pessoas que se reuniam \u00e0 volta do Convento de S\u00e3o Domingos e que achavam que o cristianismo n\u00e3o era s\u00f3 teoria,\u00a0que t\u00ednhamos de fazer aqui alguma coisa. Ent\u00e3o,\u00a0fomos para o mundo dos mais pobres.<\/p>\n<p>Somos cerca de 230 volunt\u00e1rios, temos o NAL (N\u00facleo de Apoio Local), que \u00e9 uma resposta da C\u00e2mara Municipal de Lisboa integrada no projeto municipal para as pessoas sem abrigo. Abrimos o refeit\u00f3rio, o espa\u00e7o que temos, por volta das 18h00. Ali, as pessoas podem\u00a0tomar banho, deixar a roupa suja que n\u00f3s lavamos, trocam de roupa, podem fazer a barba, toda essa higiene \u00e9 permitido fazer ali. Depois passam ao refeit\u00f3rio, onde volunt\u00e1rios prepararam o jantar para poderem ter ali todos a mesma refei\u00e7\u00e3o quente, sentados \u00e0 mesa. Isto marca a\u00a0 diferen\u00e7a com a distribui\u00e7\u00e3o nas ruas. N\u00f3s n\u00e3o vamos \u00e0s ruas, quem est\u00e1 na rua sabe que pode ir ali.<\/p>\n<p><strong>As quest\u00f5es da higiene, da roupa lavada, mostra que h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com a dignidade de quem est\u00e1 ali?<\/strong><\/p>\n<p>Claro,\u00a0\u00e9 toda essa dignidade.\u00a0Creio que a grande diferen\u00e7a da Jo\u00e3o 13 \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o somos t\u00e9cnicos a tratar ali de coisas como vemos noutras institui\u00e7\u00f5es, em que as pessoas recebem um ordenado, t\u00eam de p\u00f4r comida na mesa, podem estar bem ou mal dispostas.\u00a0Na Jo\u00e3o 13 vemos\u00a0uma grande humaniza\u00e7\u00e3o, conhecem-nos, n\u00f3s conhecemo-los a eles, ouvimos, escutamos, tentamos resolver problemas e acaba por ser uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Creio que nenhum volunt\u00e1rio se envergonha de dizer que tem ali uma fam\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 um estranho que ali est\u00e1.\u00a0Creio que isso \u00e9 muito importante na humaniza\u00e7\u00e3o do tratamento destas pessoas, tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o da fraternidade. Se eu volunt\u00e1rio vou para l\u00e1 com um estilo de superioridade em rela\u00e7\u00e3o a \u201cestes coitados\u201d, e n\u00e3o vale a pena ser ali volunt\u00e1rio, n\u00f3s temos de estar de igual para igual. Se eles est\u00e3o a jantar, eu vou jantar. Antes da pandemia, n\u00f3s at\u00e9 t\u00ednhamos alguns que jantavam com as pessoas sem-abrigo \u00e0 mesa- para podermos falar melhor. Vamos retomar em breve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A pandemia condicionou o vosso trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Muito, a pandemia condicionou muito a nossa rela\u00e7\u00e3o com eles. N\u00e3o fech\u00e1mos, mas a modalidade teve de ser outra: n\u00e3o podiam entrar, porque a nossa resposta \u00e9 equivalente a um restaurante, portanto, tudo o que aconteceu nos restaurantes aconteceu connosco. N\u00e3o pudemos abrir, eles n\u00e3o podiam tomar banho, n\u00f3s d\u00e1vamos umas toalhitas h\u00famidas para que eles pudessem minimamente fazer a sua higiene, depois prepar\u00e1vamos as refei\u00e7\u00f5es em takeaway, e entreg\u00e1vamos. N\u00e3o pod\u00edamos lavar roupa, porque n\u00e3o sab\u00edamos se estava infetada, foi um bocadinho um caos. Mas demos resposta e\u00a0a pandemia trouxe uma coisa boa: n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos abertos todos os dias, havia um ou dois dias em que n\u00e3o t\u00ednhamos volunt\u00e1rios, e fez com que n\u00f3s abr\u00edssemos todos os dias e agora esteja a funcionar em pleno. Todos os dias do ano, a associa\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta.<\/p>\n<p>Depois do jantar, ainda damos a cada pessoa um kit com pequeno-almo\u00e7o: p\u00e3o com queijo ou com doce, leite de chocolate e uma fruta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_259528\" aria-describedby=\"caption-attachment-259528\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-259528\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/freifiliperodrigues-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-259528\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Ricardo Fortunato<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Que tipo de ajuda \u00e9 que a associa\u00e7\u00e3o recebe para poder prestar esse apoio?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma ajuda da C\u00e2mara Municipal de Lisboa, \u00e9 um subs\u00eddio que n\u00e3o cobria, e agora muito menos\u2026 Vamos imaginar que temos uma despesa de 70 mil euros, a C\u00e2mara Municipal d\u00e1 25 mil, o resto s\u00e3o donativos de pessoas.\u00a0N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m remunerado na associa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o bem-fazer das pessoas. As pessoas acreditam na institui\u00e7\u00e3o, apoiam e n\u00f3s, depois, vamos usando esse dinheiro nas v\u00e1rias coisas que s\u00e3o precisas preparar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E j\u00e1 conseguem de facto dar essa resposta todos os dias da semana. Queria insistir nesta quest\u00e3o da dignidade da pessoa pobre, da pessoa carenciada. Lembro-me que h\u00e1 uns anos dizia que ia ter uma campanha para comprar pr\u00f3teses dent\u00e1rias. N\u00e3o pensamos nisso, mas \u00e9 muito importante, por exemplo, para quem sai da rua ter uma apar\u00eancia cuidada\u2026 Continuam a dar essa ajuda?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos, semanalmente. Temos dois tipos de ajuda na medicina dent\u00e1ria: uma ajuda para quem n\u00e3o tem dentes e precisa das pr\u00f3teses. A\u00ed vamos a um laborat\u00f3rio, faz-se os moldes e essas pessoas t\u00eam esse cuidado. Quem tem mais problemas, todas as semanas temos um volunt\u00e1rio que leva nove pessoas a uma Faculdade de Medicina, onde s\u00e3o tratadas e acompanhadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabem a alegria que era, na pandemia, as pessoas tirarem a m\u00e1scara s\u00f3 para a gente ver os dentes!<strong>\u00a0<\/strong>Isto \u00e9 o\u00a0que nos d\u00e1 alegria de servir as pessoas: aquilo que\u00a0 far\u00edamos para n\u00f3s, fazemos tamb\u00e9m para os outros. Creio que isto \u00e9 ver o outro de maneira igual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nestes anos de funcionamento j\u00e1 conseguiram tirar quantas pessoas da rua e encaminhar?<\/strong><\/p>\n<p>Encaminhar muitas. Arranjar emprego tamb\u00e9m, para algumas. N\u00e3o temos isso quantificado, s\u00f3 encaminhamos, depois s\u00e3o outras institui\u00e7\u00f5es que fazem os acompanhamentos. Mas algumas pessoas acabaram por deixar de ir, \u00e9 porque foram para outras para outras estruturas.<\/p>\n<p>N\u00f3s, na Associa\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o\u00a013, vamos passar a ter agora uma coisa boa, a partir deste final de ano, que \u00e9 uma t\u00e9cnica de Servi\u00e7o Social. Ou seja, vamos passar a ter ali algu\u00e9m da nossa institui\u00e7\u00e3o que possa olhar para a vida destas pessoas e tentar encaminh\u00e1-las, ir buscar estes casos mais antigos, entrar em contacto com quem as credenciou para ver o que \u00e9 que est\u00e1 a passar. Para n\u00f3s \u00e9 uma esperan\u00e7a, que possamos n\u00e3o depender de outros, para come\u00e7ar a resolver a vida das pessoas. Isso \u00e9 uma coisa muito boa.<\/p>\n<p>Depois,\u00a0estas ajudas todas que vamos dando \u00e0s pessoas para poderem comer melhor, para poderem sorrir, para poderem arranjar um emprego. Isto \u00e9 mesmo ser semelhan\u00e7a minha, \u00e9 ser humano como eu sou humano<strong>.<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Falava h\u00e1 pouco de inspira\u00e7\u00e3o que o Papa Francisco representou para a cria\u00e7\u00e3o desta associa\u00e7\u00e3o. O Dia Mundial dos Pobres \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o do Papa, j\u00e1 estamos na sua sexta edi\u00e7\u00e3o, e na mensagem para 2022 fala do drama da guerra, dos refugiados, \u00e9 incontorn\u00e1vel, mas tamb\u00e9m alerta muito para a indiferen\u00e7a que existe em rela\u00e7\u00e3o a quem vive na mis\u00e9ria.<\/strong><strong>\u00a0Ainda h\u00e1 muito preconceito, at\u00e9 entre os crist\u00e3os, para encarar quem \u00e9 pobre?<\/strong><\/p>\n<p>Sim.\u00a0Por isso \u00e9 que o Papa escreve estas mensagens. Eu costumo dizer que\u00a0estas mensagens s\u00e3o para os &#8216;n\u00e3o pobres&#8217;, isto n\u00e3o \u00e9 para os pobres. Os &#8216;n\u00e3o pobres&#8217; t\u00eam de perceber que existe esta realidade e que n\u00f3s n\u00e3o podemos ser indiferentes.<\/p>\n<p>A mensagem do Papa este ano toca nos v\u00e1rios tipos da indiferen\u00e7a, como a quest\u00e3o da teoria \u2013 porque n\u00e3o falta teoria sobre os pobres. A gente abre a boca e fala dos pobres, que s\u00e3o a riqueza da Igreja, mas depois, na pr\u00e1tica, o que \u00e9 que tu fazes pelos pobres? Em que \u00e9 que tu ajudas os mais pobres?<\/p>\n<p>Hoje na Missa, irei dizer \u00e0s pessoas que, ao almo\u00e7ar, se virem alguma pessoa na rua, sem-abrigo, que lhe v\u00e3o dar o almo\u00e7o. Vou dizer isto, para que as pessoas percebam, quando se sentarem \u00e0 mesa, que neste dia deram de comer a algu\u00e9m que estava a passar\u00a0fome. Isto \u00e9 a consciencializa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os, ainda que seja uma quest\u00e3o que a sociedade tem de resolver, n\u00f3s pertencemos \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo e tantos outros Santos, como S\u00e3o Louren\u00e7o, v\u00eam dizendo isso: a f\u00e9 sem obras \u00e9 morta, como diz S\u00e3o Tiago, e a assist\u00eancia aos mais pobres est\u00e1 desde o in\u00edcio, nos Atos Ap\u00f3stolos, em que os ap\u00f3stolos serviam \u00e0s mesas dos mais pobres.<\/p>\n<p>\u00c9 pena que ainda haja alguns crist\u00e3os que ainda n\u00e3o tenham percebido o alcance: isto n\u00e3o \u00e9 moda do Papa Francisco. A quest\u00e3o dos pobres n\u00e3o \u00e9 moda do Papa, n\u00e3o \u00e9 lema do pontificado\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 cr\u00edticas ao Papa Francisco de algumas pessoas que o acusam de promover um \u201ccredo pauperista\u201d, ou seja, olha para a pobreza como ideal, mas o que as pessoas entendem \u00e9 que toda a gente tem de viver na mis\u00e9ria, toda a gente tem de ser pobre. Como \u00e9 que se olha para este valor da pobreza, do ponto de vista do ensinamento da teologia cat\u00f3lica, da sua tradi\u00e7\u00e3o, e se distingue da \u201cpobreza que mata\u201d, como escreve o Papa?<\/strong><\/p>\n<p>A pobreza que mata \u00e9 a pobreza desumanizante, a pobreza da indiferen\u00e7a, a pobreza de vermos que as pessoas sem-abrigo d\u00e3o despesa. Isto aparece nos discursos pol\u00edticos, que s\u00e3o &#8220;parasitas&#8221; da sociedade. Tudo isto \u00e9 aquela que mata, que n\u00e3o tem interesse nenhum. A pobreza que d\u00e1 vida, libertadora, \u00e9 quando os ricos, quem tem, partilha com quem n\u00e3o tem, porque foi esta a pastoral que Jesus fez com os ricos. Queria que os ricos se salvassem. Como? Partilhando a riqueza. Isto \u00e9 o que se devia dizer dos p\u00falpitos abaixo:\u00a0os ricos n\u00e3o t\u00eam culpa de serem ricos, t\u00eam culpa em acumular a riqueza, porque a podem partilhar. Essa \u00e9 uma pobreza que liberta. Quando partilhamos o que somos e o que temos, estamos a ser a imagem da liberalidade de Deus, que nos d\u00e1 todos os bens.<\/p>\n<p>Temos f\u00e9, imitamos Jesus Cristo nas suas palavras e nas suas obras. Mas isto n\u00e3o \u00e9 moda do Papa Francisco, isto \u00e9 Evangelho puro, puro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fal\u00e1mos de um projeto aqui, numa cidade como Lisboa. H\u00e1 quem diga que a solidariedade \u00e9 mais dif\u00edcil nas grandes cidades. \u00c9 isso que a sua experi\u00eancia demonstra?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o me posso queixar, porque tenho muitos volunt\u00e1rios.\u00a0\u00c9 preciso que haja institui\u00e7\u00f5es cred\u00edveis, para que as pessoas se sintam bem em ajudar, coisas pr\u00e1ticas. Quer dizer, quando lavamos a roupa de uma pessoa que a deixou l\u00e1\u2026 pod\u00edamos p\u00f4r l\u00e1 umas m\u00e1quinas e eles que lavassem as roupas deles. Mas, quando estamos a lavar, percebemos que a roupa veio com manchas de sangue, por exemplo, e temos de falar com a pessoa: o que \u00e9 que se passa consigo?<\/p>\n<p>Conseguimos criar aqui uma onda.\u00a0Nunca fizemos nenhuma campanha de angaria\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios. Nunca, nunca fizemos. O que acontece \u00e9 que as pessoas v\u00e3o, identificam-se, gostam, veem nisso uma resposta ao seu ser crist\u00e3o, para ser crist\u00e3o ativo na sociedade;\u00a0veem na Jo\u00e3o 13 uma maneira concreta de praticar o Evangelho, chamam outras pessoas e a partir da\u00ed vai-se construindo esta rede de volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Jo\u00e3o 13 \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios porque a ideia dos fundadores n\u00e3o foi ajudar os pobres, foi p\u00f4r os volunt\u00e1rios a trabalhar, p\u00f4r os cat\u00f3licos, os crist\u00e3os a trabalhar. N\u00e3o h\u00e1 desculpas para dizer \u201cn\u00e3o sei onde ir\u201d. T\u00eam aqui uma estrutura, uma resposta concreta de voluntariado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Que ajuda a olhar o pobre como um igual\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Como um irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respons\u00e1vel pela Associa\u00e7\u00e3o \u2019Jo\u00e3o 13\u2019, de apoio aos sem abrigo em Lisboa, confirma que h\u00e1 mais estrangeiros e mais jovens a precisar de ajuda, vivam na rua ou em quartos, e situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas mesmo entre quem trabalha<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":259526,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[492,190,314],"class_list":["post-259826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-dia-mundial-dos-pobres","tag-dominicanos","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259826\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/259526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}