{"id":259410,"date":"2022-11-09T10:13:27","date_gmt":"2022-11-09T10:13:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=259410"},"modified":"2022-11-09T10:23:53","modified_gmt":"2022-11-09T10:23:53","slug":"saber-aprender-a-ver-a-net-com-olhos-ciberteologicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-ver-a-net-com-olhos-ciberteologicos\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A ver a net com olhos ciberteol\u00f3gicos"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A internet n\u00e3o \u00e9 um meio de evangeliza\u00e7\u00e3o, mas um contexto onde podemos evangelizar. Esta \u00e9 uma ideia-chave que encontrei recentemente ao ler o livro &#8220;Cybertheology&#8221; (Ciberteologia) do P. Antonio Spadaro S.J., editor da revista italiana <em>La Civilt\u00e0 Cattolica<\/em>. Neste sentido, n\u00e3o importa o modo como usamos a internet. Importa, sim, como <em>viver bem<\/em> na era da internet. Como diz Spadaro, a internet \u00e9 \u2014 <em>\u00abo contexto no qual a f\u00e9 \u00e9 chamada a expressar-se, n\u00e3o atrav\u00e9s de uma mera vontade de estar presente, mas pela compatibilidade entre o Cristianismo e a vida dos seres humanos.\u00bb<\/em> Agora que caminhamos a passos largos para as Jornadas Mundiais da Juventude, um dos argumentos mais escutados orienta-se para a import\u00e2ncia de estarmos presentes na web e nas redes sociais por serem onde est\u00e3o os jovens. A leitura ciberteol\u00f3gica de Spadaro sugere um caminho mais interessante e profundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_259411\" aria-describedby=\"caption-attachment-259411\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-259411\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/ciberteologia-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-259411\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Sigmund em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>J\u00e1 pensaram que ao dizermos \u2014 &#8220;<em>salvar<\/em> um ficheiro&#8221;, &#8220;<em>converter<\/em> uma imagem&#8221; ou &#8220;<em>justificar<\/em> o texto&#8221;, estamos a usar termos t\u00edpicos de uma linguagem teol\u00f3gica no \u00e2mbito inform\u00e1tico? Poder\u00edamos dizer antes que vamos &#8220;armazenar um ficheiro&#8221;, &#8220;alterar o tipo de imagem&#8221; e &#8220;alinhar um texto&#8221;, mas o mais comum ser\u00e1 usarmos os termos anteriores. Com a internet acontece algo semelhante. Pensamos nessa como um instrumento de comunica\u00e7\u00e3o e um modo de nos ligarmos uns aos outros atrav\u00e9s da informa\u00e7\u00e3o que partilhamos, mas essa assemelha-se mais ao <em>ambiente<\/em> que nos rodeia. O ciberespa\u00e7o ajuda-nos a compreender como somos finitos. Quando nesse mergulhamos, o mundo estende-se e, em alguns jogos como o <em>minecraft<\/em>, pode assemelhar-se mesmo a um espa\u00e7o infinito. Isso significa que deste contraste experimentado na internet entre a nossa finitude e algo (aparentemente) infinito, a espiritualidade e a tecnologia podem intersectar-se.<\/p>\n<p>Spadaro diz que \u2014 <em>\u00aba internet \u00e9 um plano da exist\u00eancia que se est\u00e1 a tornar, cada vez mais, integrado com os outros planos da exist\u00eancia humana; j\u00e1 n\u00e3o temos a percep\u00e7\u00e3o dos meios digitais que nos rodeiam como entidades separadas, mas misturadas com o nosso ambiente ao ponto de que j\u00e1 n\u00e3o nos damos conta deles.\u00bb<\/em> \u00c9 normal usar-se um GPS em vez de perguntar o caminho a algu\u00e9m, ou j\u00e1 n\u00e3o sentimos fazer muito sentido explicarem-nos o caminho para chegar a casa de uns amigos, bastando enviarem-nos a morada ou um <em>pin<\/em> (isto \u00e9, coordenadas GPS por mensagem ou aplica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria). Para muitas pessoas envolvidas nas redes sociais, o ambiente exterior torna-se um pretexto para a pr\u00f3xima foto a partilhar com as pessoas que nos seguem ou com os nossos amigos. Ou mesmo a foto mais banal serve para manifestar naquele ambiente intern\u00e9tico como estou a &#8220;ser real&#8221; (<em>be real<\/em>, que \u00e9 mais uma App de redes sociais).<\/p>\n<p>Aquilo que somos, e o modo como nos vamos transformando ao longo da vida, est\u00e1 profundamente afectado pelo ambiente \u00e0 nossa volta. Basta pensar que se houver tr\u00eas a quatro pessoas que, de repente, olham para o c\u00e9u, todos faremos o mesmo. Por isso, a internet como ambiente no qual a maior parte da popula\u00e7\u00e3o humana mergulha, ir\u00e1 mudar o modo de sermos humanos. E isso acontece com tal alcance que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os nossos meios de comunicar que se transformam, mas a nossa pessoa e a cultura a que pertencemos. Talvez por esse motivo estejamos a assistir a uma certa uniformiza\u00e7\u00e3o cultural que pode levar \u00e0 perda de alguma humano-diversidade com reflexo na vida espiritual.<\/p>\n<p>Se pensarmos bem, a experi\u00eancia crist\u00e3 \u00e9 um evento comunicativo. A Palavra de Deus, as medita\u00e7\u00f5es dos santos, e at\u00e9 as palavras do Papa que nos chegam em tempo real s\u00e3o parte do an\u00fancio da Boa Nova que nos alimenta espiritualmente. E uma segunda parte do evento comunicativo acontece atrav\u00e9s dos nossos relacionamentos de comunh\u00e3o uns com os outros. Deus em n\u00f3s e entre n\u00f3s. Por isso, a Palavra ou a comunh\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o meios de chegar \u00e0 vida em Deus, mas s\u00e3o j\u00e1 um viver em Deus. Da\u00ed que Spadaro chame \u00e0 aten\u00e7\u00e3o de que \u2014 <em>\u00aba Web n\u00e3o \u00e9 um novo <strong>meio<\/strong> de evangeliza\u00e7\u00e3o, mas antes, e acima de tudo, um contexto&#8230;\u00bb<\/em> \u2014 como referi no in\u00edcio. Pensemos, por exemplo, no bot\u00e3o de <em>reset<\/em> de um computador.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o no contexto da nossa uni\u00e3o com Deus vai muito para al\u00e9m de acreditar n&#8217;Ele ou n\u00e3o. A convers\u00e3o mais profunda ocorre na passagem entre &#8220;n\u00e3o comunicar&#8221; e &#8220;comunicar&#8221;. Quando n\u00e3o &#8220;comunicamos&#8221; com Deus, \u00e9 dif\u00edcil compreender o Seu modo de ser e estar, a Sua exist\u00eancia. Quando estamos com dificuldades em comunicar com o nosso computador porque esse se encontra bloqueado, fazemos <em>reset<\/em>. \u00c9 um bot\u00e3o muito simples e pr\u00e1tico conotado com <em>abertura<\/em> e <em>restauro<\/em> de uma rela\u00e7\u00e3o comunicativa com o nosso computador. Se a convers\u00e3o fosse a <em>reden\u00e7\u00e3o da incomunicabilidade<\/em>, re-iniciar (<em>reset<\/em>) o computador, no seu sentido metaf\u00f3rico, seria a abertura e restauro de um relacionamento de comunica\u00e7\u00e3o que expressaria uma convers\u00e3o tecnol\u00f3gica. Analogamente, diz Spadaro, <em>\u00abiluminamos a convers\u00e3o teol\u00f3gica atrav\u00e9s do significado original de re-abrir uma rela\u00e7\u00e3o quebrada para re-estabelecer um contacto que gera sentido.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>O que consumimos atrav\u00e9s da internet \u00e9, hoje, o &#8220;p\u00e3o&#8221; di\u00e1rio de milhares de milh\u00f5es de pessoas. Durante o dia recebemos &#8220;part\u00edculas culturais&#8221; que nos transformam por dentro ao influenciar as nossas opini\u00f5es, modos de nos comportarmos, ideias que se modificam, sentimentos que se experimentam, e tudo atrav\u00e9s de um meme, v\u00eddeo, mensagem, <em>post<\/em>, etc. N\u00e3o seria mais f\u00e1cil compreender a internet como um ve\u00edculo de memes, v\u00eddeos, mensagens e <em>posts<\/em> sobre temas espirituais que possam servir de alimento para a nossa vida crist\u00e3? Qual a necessidade de mudar o paradigma para um que seja mais ciberteol\u00f3gico, como seria o caso da internet como contexto?<\/p>\n<p>Saber aprender a ver a net com olhos ciberteol\u00f3gicos permite uma leitura mais profunda daquilo que a internet representa para a nossa vida, ajudando-nos a tomar mais consci\u00eancia de como esse contexto nos afecta. E se estamos mais conscientes dos ambientes, mais livres somos de estarmos neles ou de sairmos. Imaginam aquela sensa\u00e7\u00e3o de entrar numa sala para uma confer\u00eancia. Sentamo-nos e aguardamos pela palestra. Quando come\u00e7a, apercebemo-nos de que estamos na sala errada. Ooops. Quem tem coragem de se levantar e sair porque o assunto, realmente, n\u00e3o \u00e9 do seu interesse? O mais comum \u00e9 aguentarmos a sess\u00e3o por termos vergonha de sair da sala. Hoje, n\u00e3o acontece o mesmo com os grupos WhatsApp? N\u00e3o estamos em alguns grupos porque temos vergonha de sair e nos perguntarem qual a raz\u00e3o? Seremos livres espiritualmente nesse contexto que \u00e9, hoje, a internet?<\/p>\n<p>Os ambientes de espiritualidade como uma missa ou noite de ora\u00e7\u00e3o s\u00e3o livres. Podemos entrar na Igreja ou sala de encontro, como podemos sair porque a liberdade \u00e9 um dos maiores dons (se n\u00e3o o maior) que Deus nos deu. Enquanto n\u00e3o chegarmos ao ponto de nos sentirmos livres de entrar e sair do contexto intern\u00e9tico que muitas vezes habitamos, muito h\u00e1 ainda que evoluir para que a internet possa servir de ambiente de evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-259410","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259410","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259410"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259410\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}