{"id":25909,"date":"2007-07-14T16:40:56","date_gmt":"2007-07-14T16:40:56","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/07\/14\/a-misericordia-para-um-mundo-de-justica\/"},"modified":"2007-07-14T16:40:56","modified_gmt":"2007-07-14T16:40:56","slug":"a-misericordia-para-um-mundo-de-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-misericordia-para-um-mundo-de-justica\/","title":{"rendered":"A Miseric\u00f3rdia para um mundo de Justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Palavras de D. Jorge Ortiga na prociss\u00e3o das velas de 12 de Julho <!--more--> Caros disc\u00edpulos de Jesus Cristo e peregrinos nos caminhos de Maria: Digo-vos a v\u00f3s que me escutais. Estas s\u00e3o as palavras que introduzem o Evangelho desta eucaristia. Jesus dirige-se aos disc\u00edpulos que escutam a proclama\u00e7\u00e3o das bem-aventuran\u00e7as, que na vers\u00e3o de Lucas, \u00e9 feita na plan\u00edcie depois de Jesus, no monte, ter rezado e escolhido os Doze. <b>1. Convite \u00e0 diferen\u00e7a<\/b> Tamb\u00e9m os pecadores amam a quem os ama e emprestam a quem lhes poder\u00e1 retribuir; V\u00f3s, por\u00e9m\u2026 Jesus, o profeta do Evangelho, da proximidade do Reino de Deus, interpela os que escolheu e O seguem \u00e0 diferen\u00e7a, \u00e0 novidade de vida que se expressa de um modo particular no an\u00fancio do dom recebido, ou seja, a miseric\u00f3rdia de Deus revelou-se de forma plena no hoje do Messias. Da\u00ed que o disc\u00edpulo deva ser aquele que canta com Maria: Olhou para a humildade da Sua serva, a Sua miseric\u00f3rdia permanece de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Ela, a primeira e a mais excelsa disc\u00edpula do seu filho e Filho de Deus, descobre que o Deus de Abra\u00e3o, da Alian\u00e7a, \u00e9 fiel \u00e0s Suas promessas e, agora, quando o tempo se cumpriu e chegou \u00e0 plenitude, visita o Seu povo atrav\u00e9s do Filho, rosto do Seu Amor misericordioso. O disc\u00edpulo experimenta a miseric\u00f3rdia de Deus e visita os outros levando-lhes gestos de miseric\u00f3rdia e, em simult\u00e2neo, proposta de convers\u00e3o. Deus, Pai rico de miseric\u00f3rdia, que sente alegria em perdoar, que prepara uma festa para o filho perdido nos seus devaneios de juventude, que s\u00f3 sabe dar e dar-Se, n\u00e3o \u00e9, todavia, indiferente. A Escritura para expressar a sensibilidade de Deus face ao mal recorre \u00e0 linguagem dos sentimentos humanos: a ira quer traduzir precisamente a paix\u00e3o, o sofrimento, a paci\u00eancia, o pathos de Deus que perdoa os pecados, acolhe o pecador arrependido mas est\u00e1 sempre do lado do oprimido, do injusti\u00e7ado, do pobre, do marginalizado. O clamor do inocente perseguido, rejeitado, instrumentalizado pelos poderes deste mundo chega aos Seus ouvidos, comove-O e Deus n\u00e3o deixar\u00e1 de intervir para fazer justi\u00e7a, ou seja, para salvar, redimir, instaurar uma nova ordem, onde a Paz e a justi\u00e7a h\u00e3o-de resplandecer. Ele n\u00e3o quer a morte do pecador, mas antes que se converta e viva. Toda a Sua pedagogia paterna, que corrige, admoesta, exorta, amea\u00e7a n\u00e3o \u00e9 atitude arbitr\u00e1ria dum ser todo-poderoso, mas nasce dum cora\u00e7\u00e3o que chora com o mal dos Seus filhos. A ira divina n\u00e3o \u00e9 o mal-humor por ver a Sua majestade desrespeitada, mas a op\u00e7\u00e3o soberana de consolar os atribulados e isto p\u00f5e em causa aquelas for\u00e7as que, orgulhosamente, pretendem decidir, quais pequenos deuses, no lugar do Deus vivo e verdadeiro. <b>2. A miseric\u00f3rdia exige fidelidade<\/b> O povo de Israel experimentou na hist\u00f3ria das suas infidelidades \u00e0 Alian\u00e7a esta pedagogia divina: pela boca dos profetas, exortava-o \u00e0 convers\u00e3o, ao voltar-se para Ele e com amea\u00e7as procurava evitar a desgra\u00e7a; nem sempre o povo entendeu e o desenlace dram\u00e1tico tornou-se inevit\u00e1vel. Na interpreta\u00e7\u00e3o destes epis\u00f3dios da hist\u00f3ria, os textos falam de castigo, da ira de Deus. Estas express\u00f5es indiciadoras da condescend\u00eancia divina nas palavras e categorias da experi\u00eancia humana escondem na sua profundidade um dado fundamental: Deus n\u00e3o \u00e9 c\u00famplice, na sua indiferen\u00e7a, do mal da humanidade mas antes como pai amoroso tenta tudo e sempre que os seus filhos encontrem a fonte da vida n\u00e3o nas cisternas vazias e secas, nas palavras de Jeremias, mas no rochedo que, pela Sua generosidade e prodigalidade, pode tornar-se torrente de \u00e1gua no deserto do homem. Sempre na revela\u00e7\u00e3o se afirma a primazia do dom: a Sua ira dura um momento, a sua miseric\u00f3rdia \u00e9 para sempre. E Paulo na 1\u00aa Carta aos Tessalonicenses dir\u00e1 que para os eleitos o Dia do Senhor n\u00e3o \u00e9 de ira mas de salva\u00e7\u00e3o (soter\u00eda). Maria no seu Magnificat conjuga bem as dimens\u00f5es da miseric\u00f3rdia: a Sua miseric\u00f3rdia permanece de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o na ac\u00e7\u00e3o salv\u00edfica que se traduz em Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes! Os Fara\u00f3s e os Herodes de todos os tempos n\u00e3o se sentir\u00e3o tranquilos com o Deus que exige a liberta\u00e7\u00e3o do Seu povo e que envia o Seu Filho, feito menino, para ser Rei no Amor, na Paz, na Justi\u00e7a e na Verdade.  Os filhos deste rei s\u00e3o chamados a ser como ele: misericordiosos, dando mais do que se pede, bendizendo, perdoando. Esta \u00e9 a viol\u00eancia dos pac\u00edficos que n\u00e3o aniquila o advers\u00e1rio, mas que pela energia do amor o desarma, o converte, o salva do seu orgulho, da sua prepot\u00eancia, dos tronos da idolatria. Quem se ajoelha para adorar a Sant\u00edssima Trindade, como os pastorinhos, \u00e9 livre para se dar na miseric\u00f3rdia, sem ser oprimido por qualquer poder pretensamente absoluto. Nada te perturbe, nada te espante, s\u00f3 Deus basta dizia Santa Teresa. \u00c9 destas vestes que o disc\u00edpulo de Cristo se reveste e assim ser\u00e1 um sinal para o mundo, um altar da d\u00e1diva do Deus verdadeiro, como nos ensina F\u00e1tima, altar do mundo. Ser misericordioso \u00e9 testemunhado e muitos poder\u00e3o aprender um estilo de vida. S\u00f3 que, em certos momentos, a mesma miseric\u00f3rdia pode exigir den\u00fancia de quem n\u00e3o condena o pecador mas reconhece os m\u00faltiplos pecados. Hoje, como disc\u00edpulos de Cristo, somos chamados \u00e0 coragem &#8211; que pode suscitar incompreens\u00e3o \u2013 de apontar o erro dos prepotentes, de colocar o dedo em muitas feridas da humanidade \u2013 desde o lucro f\u00e1cil \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia ao terrorismo, da explora\u00e7\u00e3o ao aproveitamento dos inocentes, dos crimes contra a maternidade \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida degradantes, etc. Caros crist\u00e3os: Gostaria de evocar nesta hora a figura do servo de Deus, Jo\u00e3o Paulo II, v\u00e1rias vezes peregrino deste santu\u00e1rio: v\u00edtima da agress\u00e3o do mal, venceu-o nos gestos de perd\u00e3o oferecido gratuitamente e confessou aqui: trago nos meus l\u00e1bios o Canto de Maria, M\u00e3e de Miseric\u00f3rdia; a miseric\u00f3rdia \u00e9 a mensagem deste lugar, \u00e9 o seu segredo! Estou convencido que uma nova civiliza\u00e7\u00e3o, a do Amor nas palavras de outro peregrino, Paulo VI, \u00e9 poss\u00edvel se os disc\u00edpulos de Cristo forem misericordiosos como o Seu Deus \u00e9 misericordioso. Parece uma utopia. Mas o povo crist\u00e3o reza mesmo neste vale de l\u00e1grimas em que se transforma o mundo quando os orgulhosos parecem triunfar: Salve Rainha, M\u00e3e de Miseric\u00f3rdia, Vida, do\u00e7ura, esperan\u00e7a nossa, Salve! \u00d3 Maria, Senhora de F\u00e1tima, d\u00e1-nos a sabedoria para ler a nossa hist\u00f3ria com os olhos e o cora\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a, da esperan\u00e7a na provid\u00eancia e na miseric\u00f3rdia do Deus de quem \u00e9s serva. Em ti confiamos, \u00f3 piedosa, \u00f3 doce Virgem Maria; Rogai por n\u00f3s, Santa M\u00e3e de Deus para que sejamos dignos da Promessa do Pai, o Esp\u00edrito que renova a face da terra. \u00c1men. <i>F\u00e1tima, 12.07.2007 D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palavras de D. 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