{"id":25908,"date":"2007-07-14T16:36:15","date_gmt":"2007-07-14T16:36:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/07\/14\/a-misericordia-apelo-da-doutrina-social-da-igreja\/"},"modified":"2007-07-14T16:36:15","modified_gmt":"2007-07-14T16:36:15","slug":"a-misericordia-apelo-da-doutrina-social-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-misericordia-apelo-da-doutrina-social-da-igreja\/","title":{"rendered":"A Miseric\u00f3rdia: apelo da Doutrina Social da Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jorge Ortiga no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima <!--more--> <i>Caros filhos de Deus, Pai rico de miseric\u00f3rdia e de Maria, M\u00e3e de Miseric\u00f3rdia<\/i> Aqui, neste lugar santificado pelas apari\u00e7\u00f5es da Nossa Senhora a tr\u00eas humildes pastorinhos, chegam de toda a terra invoca\u00e7\u00f5es de miseric\u00f3rdia, clamores de justi\u00e7a, gritos de aux\u00edlio e do C\u00e9u desce a palavra da promessa: por fim o meu imaculado cora\u00e7\u00e3o triunfar\u00e1. Sim, triunfar\u00e1 o amor mais forte que a morte e o pecado, vencer\u00e1 a justi\u00e7a de miseric\u00f3rdia trazida por Aquele que foi gerado nas entranhas da Virgem e amamentado aos seus seios; porque Omnia vincit Amor (O Amor tudo vence). Sim, caros peregrinos, aqui, neste altar do mundo, mergulhamos nos dramas da hist\u00f3ria quotidiana e subimos quase ao C\u00e9u por gra\u00e7a do Filho de Maria, sacramento do encontro do C\u00e9u e da terra, da eternidade e do tempo, de Deus e do homem. Vem-me \u00e0 mente e ao cora\u00e7\u00e3o as palavras do salmista: Se tiverdes em conta os nossos pecados, \u00f3 Senhor, quem poder\u00e1 salvar-se? Mas em V\u00f3s est\u00e1 o perd\u00e3o para serdes temido com rever\u00eancia! Paulo que na Carta aos Romanos de que hoje ouvimos uma exorta\u00e7\u00e3o conclusiva tematiza e elabora com subtileza surpreendente esta equa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica: Todos pecaram [pec\u00e1mos] e est\u00e3o privados da gl\u00f3ria de Deus. Sem o merecerem, s\u00e3o justificados pela Sua gra\u00e7a (3, 23-24). E mais: a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende daquele que quer nem daquele que se esfor\u00e7a por alcan\u00e7\u00e1-la mas de Deus que \u00e9 misericordioso (9,16). Justi\u00e7a e miseric\u00f3rdia s\u00e3o atitudes do mesmo Deus, s\u00e3o express\u00f5es da sua natureza: Deus \u00e9 justo mas n\u00e3o justiceiro, Deus \u00e9 miseric\u00f3rdia mas n\u00e3o impass\u00edvel ao mal e ao pecado. Ali\u00e1s, aqui se afirmou que Deus se sente muito ofendido! Ele sofre porque \u00e9 clemente e compassivo para com o homem que se perde na procura da felicidade. A miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 a Sua fidelidade, a Sua eterna determina\u00e7\u00e3o a conduzir o homem \u00e0 plenitude da vida que \u00e9 a Alian\u00e7a de Amor para a comunh\u00e3o consigo. Deus \u00e9 incans\u00e1vel, de infinita paci\u00eancia, disposto a recome\u00e7ar sempre. A I Leitura ilustra-o bem: Mois\u00e9s demora no monte recebendo o pacto, as Dez palavras que s\u00e3o a \u00e9tica para guardar a alian\u00e7a. Na plan\u00edcie o povo logo esquece os benef\u00edcios recebidos, sente-se desamparado e fabrica um bezerro de oiro. Quando Mois\u00e9s volta, indigna-se e despeda\u00e7a as t\u00e1buas da lei escritas pelo pr\u00f3prio Deus. Tudo parece terminar. Mas o Deus fiel reescreve-as na sua clem\u00eancia e compaix\u00e3o e deixa-se comover pela prece de intercess\u00e3o do mediador Mois\u00e9s: se achei gra\u00e7a a Teus olhos, digna-Te caminhar connosco! Que seria do homem, que fabrica os seus \u00eddolos para n\u00e3o se sentir abandonado nos caminhos da sua hist\u00f3ria, se n\u00e3o fosse liberto e recebesse a gra\u00e7a da companhia do Deus que caminha com ele? Quantas trag\u00e9dias em s\u00e9culos recentes porque o homem se endeusou a si mesmo e, na injusti\u00e7a, tirania, despotismo, no orgulho de ser um deus, fez milhares de escravos e espalhou cen\u00e1rios de morte em muitos pa\u00edses! Como est\u00e3o vivos na nossa mem\u00f3ria esses momentos obscuros da hist\u00f3ria! Como \u00e9 paciente este Deus que toma a iniciativa da alian\u00e7a e a renova sempre que a infidelidade do homem a viola e transgride, dando, por vezes, a sensa\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 restam cinzas. Mas Ele renova a face da terra! A justi\u00e7a do Deus de Abra\u00e3o, de Mois\u00e9s, dos profetas, de Jesus, de todos os verdadeiros crentes, \u00e9 justi\u00e7a que justifica, n\u00e3o \u00e9 paga do mal pelo mal, antes dom gratuito, b\u00ean\u00e7\u00e3o em vez de maldi\u00e7\u00e3o, perd\u00e3o em vez de vingan\u00e7a. Deus n\u00e3o sabe sen\u00e3o amar, dar, perdoar, renovar, esperar at\u00e9 que o homem reconhe\u00e7a que s\u00f3 vive n\u2019Ele: o justo viver\u00e1 pela f\u00e9! Os seus filhos s\u00e3o bem-aventurados porque t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, n\u00e3o a sede de vingan\u00e7a, n\u00e3o o rigoroso cumprimento da Lei numa l\u00f3gica meritocr\u00e1tica. Como diz Jo\u00e3o: a Lei foi dada por Mois\u00e9s, a gra\u00e7a e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo. A l\u00f3gica da justi\u00e7a e da miseric\u00f3rdia \u00e9 esta: recebestes de gra\u00e7a, dai gratuitamente; h\u00e1 mais alegria em dar do que em receber; tal como Deus vos perdoou perdoai v\u00f3s tamb\u00e9m; quem pratica a miseric\u00f3rdia, fa\u00e7a-o com alegria\u2026 Pode aproximar-se da blasf\u00e9mia dizer: Deus \u00e9 misericordioso mas tamb\u00e9m \u00e9 justo!&#8230; como se a justi\u00e7a limitasse a miseric\u00f3rdia ou esta tornasse in\u00fatil a justi\u00e7a. N\u2019Ele n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre as duas, antes s\u00e3o express\u00e3o uma da outra. Sim, Deus n\u00e3o \u00e9 como n\u00f3s: temo que algumas das nossas domus iustitiae sejam pal\u00e1cios de interesses, de corrup\u00e7\u00e3o e de, paradoxalmente, de injusti\u00e7a! Evoco aqui Jo\u00e3o Paulo II que tendo proposto a Dives in misericordia (Rico em miseric\u00f3rdia) como a imagem de Deus, cujo Filho \u00e9 o Redentor do Homem e o Esp\u00edrito Santo Senhor que d\u00e1 a vida proclamou com ousadia de profeta a justi\u00e7a social em v\u00e1rios documentos que ficar\u00e3o como preciosa heran\u00e7a na Doutrina Social da Igreja, nomeadamente na Sollicitudo Rei Socialis, de que celebramos este ano o 20\u00ba anivers\u00e1rio (30.11.1987). E como n\u00e3o recordar Jo\u00e3o XXIII que na Pacem in terris proclamava a paz \u00e9 fruto da justi\u00e7a e Paulo VI que na Populorum Progressio , h\u00e1 40 anos (26.03.1967), declarava o desenvolvimento \u00e9 o novo nome da paz? Julgo que estes documentos revelam bem a profunda rela\u00e7\u00e3o entre a teologia, a confiss\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e a problem\u00e1tica social. Numa altura em que assistimos a uma viragem voraz laicista que, duma forma camuflada ou aberta, procura afastar Deus da hist\u00f3ria e da vida dos homens e do percurso colectivo do nosso pa\u00eds, todos os crist\u00e3os devem empenhar-se na afirma\u00e7\u00e3o da primazia de Deus e dos valores evang\u00e9licos para construir uma sociedade mais justa, com condi\u00e7\u00f5es de vida mais digna para todos os nossos cidad\u00e3os. O estudo da Doutrina Social da Igreja pode, por um lado, contribuir para o crescimento na f\u00e9 e na caridade dos seus membros e, por outro, para inspirar uma interven\u00e7\u00e3o social \u00e0 altura dos presentes desafios e das ricas propostas do pensamento da Igreja. Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a p\u00f5em em pr\u00e1tica; Felizes n\u00f3s, caros irm\u00e3os, que somos destinat\u00e1rios destas mensagens: do Evangelho desde o \u00eaxodo da escravatura at\u00e9 \u00e0 plena revela\u00e7\u00e3o em Cristo Jesus, de Maria aos pastorinhos, da Tradi\u00e7\u00e3o e do Magist\u00e9rio da Igreja e at\u00e9 dos sinais do nosso tempo, um dom da miseric\u00f3rdia divina. O doutor da lei que perguntou a Jesus qual o maior mandamento e a que Jesus replicou com a par\u00e1bola do Bom Samaritano ouviu no final esta apelo: Vai e faz o mesmo que o Samaritano fez. Vamos n\u00f3s tamb\u00e9m e pratiquemos obras de miseric\u00f3rdia e de justi\u00e7a tal como Jesus que passou pelo mundo fazendo o bem. E \u00e9 a Senhora de F\u00e1tima que insiste connosco: Fazei tudo o que Ele vos disser. Que os beatos Francisco e Jacinta que ofereceram as suas vidas partilhando com Deus a sua compaix\u00e3o pelos pobres pecadores intercedam por n\u00f3s para que sejamos ouvintes e praticantes da Palavra, testemunhando o Amor misericordioso de Deus que \u00e9 Amor e que quer renovar a face da terra na Paz, na Justi\u00e7a, na Verdade e na Fraternidade universal. <i>F\u00e1tima, 13.07.2007 D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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