{"id":259030,"date":"2022-11-06T09:30:07","date_gmt":"2022-11-06T09:30:07","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=259030"},"modified":"2022-11-06T14:36:04","modified_gmt":"2022-11-06T14:36:04","slug":"portugal-o-ano-de-2023-sera-cada-vez-mais-preocupante-alda-couceiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-o-ano-de-2023-sera-cada-vez-mais-preocupante-alda-couceiro\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abO ano de 2023 ser\u00e1 cada vez mais preocupante\u00bb &#8211; Alda Couceiro"},"content":{"rendered":"<p><em>Os n\u00fameros da infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o descem, os casos de pobreza e dificuldade continuam a aumentar, as not\u00edcias sobre a priva\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e pessoas invadem o nosso quotidiano. \u00c9 sobre esta realidade que fala a presidente do Conselho Nacional da Sociedade de S\u00e3o Vicente de Paulo<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_258802\" aria-describedby=\"caption-attachment-258802\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-258802 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/IMG_8567-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-258802\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Para situar quem nos ouve, come\u00e7o por lhe perguntar pelo trabalho que as Confer\u00eancias Vicentinas realizam nas par\u00f3quias portuguesas.<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s somos um grupo de cerca de 10 mil pessoas, vicentinos e vicentinas, que, seguindo o carisma do nosso patrono e do nosso fundador Frederico Ozanam, est\u00e3o inseridos em pequenas comunidades, chamadas Confer\u00eancias, e a\u00ed procuramos minimizar as dificuldades das fam\u00edlias mais desfavorecidas, atrav\u00e9s do nosso carisma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Da experi\u00eancia no terreno, podem confirmar o cen\u00e1rio de um progressivo aumento de dificuldades?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 com muita tristeza que confirmo, porque cada dia vamos tendo ecos, dos vicentinos que est\u00e3o no terreno, das dificuldades e da situa\u00e7\u00e3o grave que est\u00e3o a passar muitas das nossas fam\u00edlias, por diversos tipos de car\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As confer\u00eancias vicentinas t\u00eam manifestado sempre preocupa\u00e7\u00e3o com a chamada pobreza envergonhada, que persiste em Portugal e dificulta a ajuda a situa\u00e7\u00f5es de fragilidade. Teme que a situa\u00e7\u00e3o se agrave?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s come\u00e7amos por ajudar, principalmente, pessoas de idade que estavam s\u00f3s e que tinham dificuldades. Hoje, infelizmente, o cen\u00e1rio \u00e9 outro. N\u00f3s temos muitas fam\u00edlias jovens, muitos casais jovens que enfrentam muitas dificuldades e, portanto, penso que a situa\u00e7\u00e3o que estamos a viver \u00e9 muito complicada, vai agravar-se e n\u00e3o vai ser f\u00e1cil. Mas temos f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a falar de pessoas que trabalham ou que um dos membros do casal trabalha, mas que os rendimentos n\u00e3o chegam para fazer face \u00e0s despesas\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, muitos que, para mitigar a fome dos filhos, prescindem da sua refei\u00e7\u00e3o normal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 sobretudo ao n\u00edvel da alimenta\u00e7\u00e3o que radica o vosso apoio, ou t\u00eam outras val\u00eancias que merecem tamb\u00e9m muita procura?<\/em><\/p>\n<p>Come\u00e7amos por alimenta\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de roupa. Hoje, n\u00f3s, com a ajuda de muitas fam\u00edlias tamb\u00e9m, temos outros tipos de car\u00eancias: temos de pagar rendas, eletricidade, \u00e1gua ou g\u00e1s, principalmente tamb\u00e9m a quest\u00e3o da sa\u00fade, a medica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 algumas consultas, porque as pessoas realmente n\u00e3o t\u00eam capacidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Essa ajuda no pagamento de faturas tem aumentado muito?<\/em><\/p>\n<p>A percentagem eu concretamente n\u00e3o poderei dizer, mas devo dizer que, sem me enganar muito, 30 ou 40% \u00e0 vontade aumentaram, porque os pedidos s\u00e3o cada vez maiores e as dificuldades v\u00e3o come\u00e7ando a ser sentidas pelas pr\u00f3prias confer\u00eancias, pelos seus membros, porque tamb\u00e9m se v\u00e3o esgotando os recursos de que disp\u00f5em. Claro, contamos com a ajuda dos p\u00e1rocos em muitas das nossas confer\u00eancias e tamb\u00e9m da boa vontade das pessoas que frequentam as igrejas e que, com os seus poucos haveres, nos ajudam tamb\u00e9m a mitigar esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Relativamente \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e a rendas, tivemos ainda h\u00e1 pouco tempo a antecipa\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o que poderia vir a ocorrer, por parte de um especialista no combate \u00e0 pobreza, Farinha Rodrigues, que nos dizia que perante este congelamento das rendas de aumento de 2%, muitos propriet\u00e1rios poderiam n\u00e3o renovar os contratos de arrendamento. J\u00e1 chegou alguma preocupa\u00e7\u00e3o a este n\u00edvel?<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o a que n\u00f3s estamos atentos e que tentaremos tamb\u00e9m minimizar, dentro das nossas possibilidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando \u00e0 quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma das preocupa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, j\u00e1 come\u00e7a a haver situa\u00e7\u00f5es de fome? Onde \u00e9 que t\u00eam detetado mais dificuldades?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muitas situa\u00e7\u00f5es de fome, as confer\u00eancias recorrem ao Banco Alimentar, mas reconhecemos que as dificuldades s\u00e3o cada vez maiores e h\u00e1 zonas do nosso pa\u00eds com graves problemas de falta de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quais s\u00e3o essas zonas?<\/em><\/p>\n<p>Poderia indicar as zonas mais do Interior e algumas zonas tamb\u00e9m do Sul do pa\u00eds. N\u00e3o estou a dizer que nas outras zonas n\u00e3o existam algumas em que as situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais agudizadas, at\u00e9 nas grandes cidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E no terreno, n\u00e3o sentem falta de articula\u00e7\u00e3o entre as diversas entidades p\u00fablicas e privadas que promovem a ajuda?<\/em><\/p>\n<p>Temos situa\u00e7\u00f5es em que a colabora\u00e7\u00e3o das autarquias \u00e9 extraordin\u00e1ria, aqui na zona de Lisboa, do Porto e outras. Na grande maioria, as autarquias, as c\u00e2maras municipais e as juntas de freguesia colaboram imenso connosco e prestam imensos servi\u00e7os e ajudam -nos muito, principalmente na quest\u00e3o da medica\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para fazer face \u00e0 crise e \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, o Governo avan\u00e7ou com um conjunto de medidas de onde se destaca o pagamento extra de meia pens\u00e3o e a atribui\u00e7\u00e3o de 125 euros a pessoas com rendimentos mensais inferiores a 2700 euros. Sentem algum impacto destas medidas? Nos vossos contactos o que ouvem da parte das pessoas?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma medida que o Governo tomou e que poder\u00e1 minorar um pouco. Relativamente aos 125 euros, \u00e9 um subs\u00eddio \u00fanico e minimiza, quando \u00e9 recebido, mas n\u00e3o serve, n\u00e3o resolve a situa\u00e7\u00e3o. Digamos que as pessoas ficam felizes quando recebem, mas rapidamente se apercebem de que \u00e9 muito pouco, face \u00e0s necessidades que t\u00eam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A crise intensifica-se de dia para dia. V\u00e3o ser necess\u00e1rias mais e novas medidas?<\/em><\/p>\n<p>Penso que sim e penso que a situa\u00e7\u00e3o nos leva para isso, que o ano 2023 ser\u00e1, para n\u00f3s, cada vez mais preocupante. Mas, como Vicentinos, acreditamos, porque para al\u00e9m dos apoios materiais n\u00f3s tamb\u00e9m damos o apoio espiritual.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dessa falta de alimentos e de alguns pagamentos, de alguns g\u00e9neros, de algumas outras tipos de faturas, temos pessoas que vivem este momento de solid\u00e3o e este momento de desespero. Aquilo que n\u00f3s, no fundo, procuramos \u00e9 levantar-lhes a autoestima, dar-lhes alguma autonomia e, essencialmente, v\u00e3o tentar que elas recobrem um pouco da alegria que v\u00e3o perdendo face a situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o dif\u00edceis. \u00c9 evidente que, no meio disto tudo, o que nos real\u00e7a mais \u00e9 a necessidade de dizer que a esperan\u00e7a, que o Esp\u00edrito Santo e que Deus nos v\u00e3o ajudar neste nosso servi\u00e7o, que pomos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o daqueles que mais precisam.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Essa mobiliza\u00e7\u00e3o espiritual e tamb\u00e9m material que tem vindo falar \u00e9 um recurso para assumir como des\u00edgnio a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza em Portugal. Mas vamos ficando cada vez mais longe desse objetivo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Algumas medidas v\u00e3o sendo tomadas nesse, mas h\u00e1 muitos anos esta \u00e9 uma luta enorme que vamos tra\u00e7ando para a tentar erradicar. Ficamos longe? Apercebo-me que sim, mas n\u00f3s acreditamos e acreditamos seriamente que havemos de conseguir chegar. Nos momentos mais pr\u00f3ximos, n\u00e3o, mas no futuro conseguiremos, parcialmente, minimizar este problema da pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em 2019, o presidente da Rep\u00fablica falava da necessidade de retirar da rua at\u00e9 2023 todas as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, mas a verdade \u00e9 que, quase no final de 2022, os n\u00fameros apontam para uma popula\u00e7\u00e3o ainda pr\u00f3xima dos 8 mil. Onde falhamos?<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes n\u00f3s temos estruturas que nos permitem ajudar, mas infelizmente tamb\u00e9m temos muitos sem-abrigo que n\u00e3o querem abandonar essa situa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o-lhes dadas muitas vezes condi\u00e7\u00f5es e eles n\u00e3o as aceitam, \u00e9 tamb\u00e9m para eles uma mudan\u00e7a radical de vida e nem todos est\u00e3o preparados para isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 um problema muito complexo, que pode ter a ver com um problema de sa\u00fade mental, com uma s\u00e9rie de adi\u00e7\u00f5es, mas aquilo que est\u00e1 a dizer \u00e9 que h\u00e1 popula\u00e7\u00e3o que vai voltar \u00e0 rua\u2026<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim. Iremos lutar contra isso, certamente, porque \u00e9 essa a nossa fun\u00e7\u00e3o. Estamos dispon\u00edveis e estamos alerta para esta situa\u00e7\u00e3o. Temos uma vantagem em rela\u00e7\u00e3o a outras institui\u00e7\u00f5es: visitamos as nossas fam\u00edlias nas suas casas, n\u00e3o as desinstalamos para saber o que se passa. E assim vamos tomando consci\u00eancia da realidade, das dificuldades que t\u00eam e do desespero em que vivem.<\/p>\n<p>Mas acreditamos tamb\u00e9m que as coisas v\u00e3o melhorar. Temos de ter esperan\u00e7a e depois temos de seguir aquele ideal do nosso patrono, S\u00e3o Vicente de Paulo: o amor \u00e9 inventivo e n\u00f3s havemos de inventar solu\u00e7\u00f5es para estes casos t\u00e3o dif\u00edceis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas, para al\u00e9m dessa resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a por parte de muitos sem-abrigo, a montante n\u00e3o haver\u00e1 outros problemas que, de alguma forma justificam os n\u00fameros atuais?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel, mas como resolv\u00ea-los \u00e9 dif\u00edcil e s\u00e3o medidas em que o Estado tamb\u00e9m ter\u00e1 de intervir. A nossa a\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diminuta para problemas t\u00e3o complexos, que envolvem tantas vertentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s estivemos a falar h\u00e1 pouco j\u00e1 da pr\u00f3xima pergunta, mas vou insistir nela. Tem a ver com as dificuldades de quem ajuda, n\u00e3o s\u00f3 de quem recebe. Acredito que as Confer\u00eancias n\u00e3o sejam imunes a esta situa\u00e7\u00e3o de crise. Ali\u00e1s, pergunto lhes, depois das limita\u00e7\u00f5es da pandemia, esta situa\u00e7\u00e3o de infla\u00e7\u00e3o, de aumento generalizado de pre\u00e7os, teve algum impacto nos donativos, por exemplo?<\/em><\/p>\n<p>Muito. Teve um grande impacto. Mas n\u00f3s portugueses temos esta caracter\u00edstica. \u00c0s vezes, e para surpresa nossa quando faz\u00edamos recolhas nos bancos junto de algumas entidades comerciais, v\u00edamos, com muita alegria interior, que afinal n\u00f3s, mesmo tendo pouco; do pouco que temos, distribu\u00edmos. E acreditamos que as ajudas junto das Confer\u00eancias n\u00e3o ir\u00e3o terminar. Diminuem substancialmente os donativos e pesa-nos tamb\u00e9m que alguns sejam feitos para terem compensa\u00e7\u00f5es a n\u00edvel de Estado, a n\u00edvel de devolu\u00e7\u00e3o de parte fiscal (impostos). Mas de qualquer forma, sem essa ajuda n\u00e3o podemos manter. Temos j\u00e1 algumas confer\u00eancias com dificuldade, mas estamos a tentar e at\u00e9 mesmo o Conselho Nacional, neste momento est\u00e1 a pensar seriamente como ajudar, atrav\u00e9s dos Conselhos Centrais, as Confer\u00eancias que est\u00e3o com mais car\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas essas dificuldades t\u00eam j\u00e1 efeitos pr\u00e1ticos na vossa ajuda ou ainda n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>De momento n\u00e3o. \u00a0Pelo que vou sabendo n\u00e3o. Ali\u00e1s, esta entrevista foi um pouco antecipada, porque n\u00f3s vamos ter reuni\u00e3o de Assembleia-geral e normalmente juntamente com os presidentes dos Conselhos Centrais apercebemo-nos das realidades, porque eles fazem-nos os retratos reais das suas dificuldades. Mas daquilo que eu vou sabendo, eu penso que h\u00e1 j\u00e1 algumas dificuldades, mas na grande maioria ainda vamos conseguindo dar solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficamos muito, muito apreensivos relativamente ao futuro. Vemos com muita apreens\u00e3o o que ser\u00e1 o ano 2023. Foram criadas estas expectativas nos 50% da reforma &#8211; eu n\u00e3o sei se de forma ou injusta, n\u00e3o estou aqui para justificar isso &#8211; dos 125 euros, mas tudo isso \u00e9 muito pouco. E vamos criando esta alegria \u00e0s pessoas e depois, quando chegar a janeiro, apercebem-se realmente que o subs\u00eddio de Natal j\u00e1 passou, os 125 euros j\u00e1 passaram, a ajudas atrav\u00e9s das reformas j\u00e1 passaram. E h\u00e1 que enfrentar esta realidade e \u00e9 aqui que n\u00f3s queremos estar presentes e queremos que eles n\u00e3o desanimem e que enfrentem com a nossa ajuda, porque n\u00f3s estamos sempre dispon\u00edveis para os ajudar, dentro das nossas limita\u00e7\u00f5es. Queremos realmente a ajudar a enfrentar esta situa\u00e7\u00e3o que vai ser muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu vou agora falar de um tema que abordou de passagem ainda pouco. N\u00f3s na \u00faltima semana ficamos a saber que 44.500 idosos vivem sozinhos ou isolados, ou em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. S\u00e3o dados que foram sinalizados pela GNR na opera\u00e7\u00e3o Censos S\u00e9nior 2022, que decorreu em outubro. Pergunto-lhe se s\u00e3o dados preocupante?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o. S\u00e3o dados preocupantes. A solid\u00e3o \u00e9 terr\u00edvel e h\u00e1 muitos idosos que est\u00e3o a viver em solid\u00e3o e inclusive com muita dificuldade em enfrentarem essas situa\u00e7\u00f5es. N\u00f3s temos realmente muita gente que vive s\u00f3 e est\u00e1 desanimado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a pandemia veio agravar essa situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Uma das coisas que a pandemia impediu foi que n\u00f3s fiz\u00e9ssemos as nossas visitas. E isso agravou. Porque eles gostam das nossas visitas. Claro que arranj\u00e1mos outras formas de ultrapassar essa situa\u00e7\u00e3o. Quer pelas visitas ao fundo das suas portas, quer atrav\u00e9s de alguns meios inform\u00e1tico, mas realmente n\u00e3o est\u00e1 a ser f\u00e1cil. A pandemia criou-nos esta incapacidade de podermos estar e de visitar as pessoas, que \u00e9 uma das nossas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E tamb\u00e9m provocou receios, sobretudo receios junto dessa popula\u00e7\u00e3o idosa. Esses receios mant\u00eam se, o que n\u00e3o permite, de alguma forma, que possam voltar a desenvolver o nosso trabalho junto dessas pessoas?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, eles estavam realmente ansiosos de nos encontrarem e de estarem connosco. E vemos que realmente neste momento j\u00e1 h\u00e1 uma abertura que nos permite visitar com alguma regularidade essas mesmas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 porque as visitas domicili\u00e1rias s\u00e3o um fator importante para responder a esta solid\u00e3o e tamb\u00e9m criar la\u00e7os, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Ali\u00e1s, como eu disse h\u00e1 pouco \u00e9 aquilo que nos distingue e \u00e9 aquilo que nos permite, tendo conhecimento da realidade\u00a0ajudar de uma maneira mais direta e mais concreta as fam\u00edlias, porque sabemos as suas preocupa\u00e7\u00f5es e vivemos as suas alegrias vivemos as suas tristezas e procuramos que elas fa\u00e7am parte da nossa fam\u00edlia, da grande fam\u00edlia que \u00e9 a fam\u00edlia vicentina.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Olhamos para o futuro das Confer\u00eancias Vicentinas. \u00c9 importante cativar tamb\u00e9m os jovens e as fam\u00edlias para a viv\u00eancia destes valores de solidariedade e de f\u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim. N\u00f3s, quando falamos em vicentinos, normalmente fica-nos a imagem daquelas pessoas de idade, de cabelo branco. E isto teve sentido no in\u00edcio das Confer\u00eancias, porque havia que ter disponibilidade total, porque n\u00f3s estamos sempre dispon\u00edveis e as pessoas que trabalhavam, ou os jovens na altura n\u00e3o tinham tanta disponibilidade, Isto apesar de o nosso fundador ser um jovem que sentiu a crise precisamente na altura da guerra em Fran\u00e7a. Mas n\u00f3s sentimos que h\u00e1 essa necessidade e temos uma oportunidade \u00f3tima agora, com a JMJ e as pr\u00e9-jornadas dos jovens vicentinos a n\u00edvel internacional, que se realizam em Felgueiras uma semana antes da Jornada Mundial, para tentar sensibilizar e cativar realmente mais jovens para esta grande realidade e para este grande sonho que \u00e9 tornar poss\u00edvel a melhoria das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que as Confer\u00eancias Vicentinas entraram na sua vida?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 engra\u00e7ado, porque eu desde sempre senti uma certa apet\u00eancia pelo social. Sou professora, ou fui professora e mesmo nessa ocasi\u00e3o eu estava ligada ao setor social das escolas, aos apoios a essas estruturas que realmente visavam esta parte social. E depois fui convidada e achei que realmente esta forma de ajudar, de um modo discreto, de um modo simples, mas que \u00e9 interventivo e que \u00e9 uma forma de contactarmos com as realidades, e de que podemos falar com as pessoas e de podermos viver os seus problemas e de podermos sentir os seus problemas, cativou-me. E a partir da\u00ed entrei no movimento. Entrei na Sociedade de S\u00e3o Vicente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E este elemento deste movimento n\u00e3o corre riscos? Digo isto porque houve anos em que muitas confer\u00eancias vicentinas como que, de alguma forma, hibernaram durante algum tempo e depois houve dificuldade em reativ\u00e1-las?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s, neste momento estamos a perder algumas confer\u00eancias. \u00c9 verdade. Porqu\u00ea? Precisamente porque as pessoas que as formavam e, portanto, que as geriam eram pessoas j\u00e1 numa certa idade. E quanto \u00e0 idade \u00e9 j\u00e1 avan\u00e7ada, chega a um limite em que n\u00e3o conseguem continuar e por vezes n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos muito empenhados em solicitar a ajuda dos p\u00e1rocos. \u00c9 muito importante isso. E de outros movimentos que existem nas par\u00f3quias, nomeadamente os movimentos da catequese. Porque h\u00e1 um momento em que os jovens saem da sua jornada, da sua caminhada de catequese e s\u00e3o momentos prop\u00edcios para os sensibilizar para a realidade do que \u00e9 a Sociedade de S\u00e3o Vicente de Paulo e no modo como podem ter, atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o, a aplica\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que foram aprendendo, apreendendo e assimilando. E \u00e9 muito importante realmente continuar a acreditar que Cristo ajuda, que Cristo est\u00e1 presente e que o Esp\u00edrito Santo nos guia todos os dias em todos os momentos e s\u00f3 por isso \u00e9 poss\u00edvel aos Vicentinos realmente continuarem a tarefa dif\u00edcil. Dif\u00edcil, mas agrad\u00e1vel &#8211; perdoem-me a express\u00e3o &#8211; mas entusiasmante, de perceber que por vezes basta um sorriso. Basta uma palavra meiga. Porque \u00e0s vezes \u00e9 mais importante do que aquilo que se d\u00e1 ou em dinheiro ou em alimentos. \u00c9 evidente que faz falta tudo isso que \u00e9 material, mas o sorriso e o estarmos presentes e saberem que a qualquer momento nos podem contactar e que ser\u00e3o por n\u00f3s atendidos, em detrimento muitas vezes do jantar, ou do abandonar a refei\u00e7\u00e3o, ou de ter que abandonar a fam\u00edlia para ir ajudar essas mesmas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os n\u00fameros da infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o descem, os casos de pobreza e dificuldade continuam a aumentar, as not\u00edcias sobre a priva\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e pessoas invadem o nosso quotidiano. \u00c9 sobre esta realidade que fala a presidente do Conselho Nacional da Sociedade de S\u00e3o Vicente de 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