{"id":25827,"date":"2007-07-10T10:45:52","date_gmt":"2007-07-10T10:45:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/07\/10\/miguel-torga-o-poeta-e-a-sua-historia\/"},"modified":"2007-07-10T10:45:52","modified_gmt":"2007-07-10T10:45:52","slug":"miguel-torga-o-poeta-e-a-sua-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/miguel-torga-o-poeta-e-a-sua-historia\/","title":{"rendered":"Miguel Torga, o poeta e a sua hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Portugal assinala este Domingo o centen\u00e1rio do seu nascimento, em S\u00e3o Martinho de Anta, Sabrosa, Tr\u00e1s-os-Montes <!--more--> Miguel Torga, pseud\u00f3nimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S\u00e3o Martinho de Anta, Sabrosa, Tr\u00e1s-os-Montes, no dia 12 de Agosto de 1907. Ap\u00f3s uma fugaz passagem pelo Semin\u00e1rio de Lamego emigrou para o Brasil, em 1920. Tendo regressado a Portugal cinco anos depois, ou seja em 1925. Em 1933 concluiu o curso na Faculdade de Medicina de Coimbra e nesta cidade se radicou como cl\u00ednico. A sua estreia, como escritor, data de 1928, com ANSIEDADE, logo seguida de RAMPA (1930), TRIBUTO (1931) e ABISMO (1932). Foi colaborador da &#8220;Presen\u00e7a&#8221;, mas dela se afastou com Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca, ciosos de preservar a sua liberdade est\u00e9tica (1930). Lan\u00e7a ent\u00e3o com o segundo a ef\u00e9mera Revista &#8220;Sinal&#8221; e depois (1936) funda com Paulo Quintela, Lopes Gra\u00e7a, \u00c1lvaro Salema e Afonso Duarte o &#8220;Manifesto&#8221;. Em breve, por\u00e9m, se isola de grupos e correntes, para seguir com intransigente independ\u00eancia caminhos pr\u00f3prios, nos dom\u00ednios da poesia, da fic\u00e7\u00e3o narrativa e do teatro. Se nas primeiras obras encara a vida como luta contra o poder e as leis divinas, em O OUTRO LIVRO DE JOB (1936) exprime a sua revolta contra a injusti\u00e7a que, para o homem, representa o pecado original. J\u00e1 em LAMENTA\u00c7\u00c3O (1943) o dramatismo se atenua e em LIBERTA\u00c7\u00c3O (1944) a esperan\u00e7a renasce perante as gera\u00e7\u00f5es que se renovam, enquanto em NIHIL SIBI (1948) o poeta se exalta, porque dotado de uma miss\u00e3o que lhe permite desprezar os deuses, no C\u00c2NTICO DO HOMEM (1950) comunica a sua indigna\u00e7\u00e3o, ou o seu louvor do futuro desse mesmo homem, e nos POEMAS IB\u00c9RICOS (1952) explana uma concep\u00e7\u00e3o da Ib\u00e9ria moldada pela pobreza do solo, pela aventura da expans\u00e3o, pela sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 carne e pela resist\u00eancia \u00e0 sua hist\u00f3rica cadeia de opress\u00f5es. Mas \u00e9 em momentos como os de ORFEU (1958) e ao longo dos 16 volumes do DI\u00c1RIO (1941 &#8211; 1994), em prosa e verso, que a poesia de Miguel Torga atinge a mais \u00edntima das densidades. Optando por uma confid\u00eancia, embora n\u00e3o biogr\u00e1fica, da sua humanidade sofredora perante o sofrimento, Miguel Torga sente e cria poesia na observa\u00e7\u00e3o da natureza, dos indiv\u00edduos e dos grupos sociais, enquanto, em sintonia com o seu militantismo democr\u00e1tico, faz reportagem, conta, critica ou tenta actuar perante os atropelos contra a dignidade, a liberdade e a justi\u00e7a.  Para isso mergulha na sua experi\u00eancia de cl\u00ednico, sempre em contacto com as dores f\u00edsicas e morais do seu semelhante. A poesia nasce ent\u00e3o da sua presen\u00e7a actuante na vida, das ra\u00edzes tel\u00faricas e ancestrais de que o seu pr\u00f3prio ser se sustenta, da luta entre as limita\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas que aprisionam o Homem e a revolta contra essas pris\u00f5es, entre a consciente satisfa\u00e7\u00e3o da sua capacidade criadora e o receio do seu desfasamento em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Daquele mesmo contacto com a vida e com a natureza arranca quase toda a sua obra de ficcionista, iniciada com P\u00c3O \u00c1ZIMO (1931), seguido de A TERCEIRA VOZ (1934), BICHOS (1940), CONTOS DA MONTANHA (1941), RUA (1942), SR. VENTURA (1943), NOVOS CONTOS DA MONTANHA (1944), VINDIMA (1945) e PEDRAS LAVRADAS (1945). O homem eleva-se a\u00ed como instintivo e en\u00e9rgico protesto contra os padr\u00f5es convencionais, consciente do seu poder de luta, movido pela coragem de viver o seu drama quotidiano entre o nascer e o morrer, haurindo a sua for\u00e7a no ch\u00e3o a que se agarra e na natureza em que se integra. Da\u00ed que os seus contos e novelas se enrique\u00e7am daquela sua poesia feita de sensibilidade perante a alegria e o sofrimento, o sentido do divino, n\u00e3o expresso em profiss\u00f5es de f\u00e9 confessional, mas patente em atitudes emocionais, por vezes com laivos de quase blasf\u00e9mia, intenso dramatismo, fulgura\u00e7\u00f5es de estesia pag\u00e3 ou delicados pormenores de simplicidade franciscana. E o dramaturgo \u00e9 ainda poeta, quando procura temas nos ambientes populares  (TERRA FIRME  E MAR, 1941) quando confia ao poeta a profecia da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o realizada (SINFONIA, 1947), ou quando recria em termos modernos o fratr\u00edcidio de Caim ( PARA\u00cdSO, 1949). Nascida do seu apego ancestral ao torr\u00e3o portugu\u00eas, em \u00edntima inser\u00e7\u00e3o no conjunto ib\u00e9rico, a obra de Miguel Torga adquire, assim, uma dimens\u00e3o universal. Por outro lado, dominando uma t\u00e9cnica narrativa perfeita, manejando um vocabul\u00e1rio bebido nas fontes mais ricas do expressionismo do povo, sem, no entanto, cair no rebuscado inintelig\u00edvel, plasmando a sua po\u00e9tica na sobriedade cl\u00e1ssica e submetendo o seu estilo a um permanente trabalho de lima, Miguel Torga \u00e9 formalmente um dos mais correctos escritores portugueses. Por isso a sua modernidade n\u00e3o se extinguir\u00e1 com o tempo. <b>A CRIA\u00c7\u00c3O DO POETA  NO DI\u00c1RIO PORTUGU\u00caS<\/b> O DI\u00c1RIO de Miguel Torga (16 volumes publicados), constitui, na express\u00e3o do pr\u00f3prio autor, o registo, em s\u00ednteses aleg\u00f3ricas, do quotidiano significativo (\u201cA Cria\u00e7\u00e3o do Mundo\u201d, Quinto Dia, p\u00e1gina 50), um &#8220;gr\u00e1fico vivencial&#8230; abalado pelos estremecimentos p\u00e2nicos de um tempo s\u00edsmico&#8221; (Di\u00e1rio XIII). Radiografia profunda de cinquenta anos de vida portuguesa, n\u00e3o \u00e9, contudo, a cr\u00f3nica dos seus dias, mas a &#8220;par\u00e1bola deles&#8221;(Di\u00e1rio XI). Uma obra de arte \u00e9 sempre, como observa Ortega e Gasset, &#8220;um tro\u00e7o da vida de um homem e da sua intimidade&#8221; (Miguel Torga, Poeta Ib\u00e9rico). Por isso se p\u00f5e desde logo o problema, e neste caso com mais acuidade, de saber se o DI\u00c1RIO \u00e9 uma autobiografia, \u00e0 semelhan\u00e7a de A CRIA\u00c7\u00c3O DO MUNDO. De facto, as duas obras, como reconhece Clara Crabb\u00e9 Rocha, &#8220;mant\u00eam estreitas rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas e ocupam um lugar espec\u00edfico no espa\u00e7o autobiogr\u00e1fico torguiano&#8221; (Espa\u00e7o Autobiogr\u00e1fico em Miguel Torga). Tanto o DI\u00c1RIO como a CRIA\u00c7\u00c3O representam a mesma &#8220;viv\u00eancia \u00edntima&#8221; do quotidiano, no dizer daquela autora. Por\u00e9m, como um rio que se bifurca na nascente comum, para se reencontrar na foz, h\u00e1 uma dist\u00e2ncia escatol\u00f3gica entre as duas obras. Ambas d\u00e3o testemunho do mesmo itiner\u00e1rio de ang\u00fastia num tempo de inquieta\u00e7\u00e3o. Ambas s\u00e3o &#8220;carne viva&#8221; onde se estampa o &#8220;plasma matricial da P\u00e1tria&#8221;. Mas enquanto na CRIA\u00c7\u00c3O o her\u00f3i \u00e9 o pr\u00f3prio autor, e a escrita assume uma natureza mais intimista, &#8220;numa dupla exig\u00eancia de pudor e sinceridade&#8221;, em que o autor n\u00e3o se desnuda mas tamb\u00e9m n\u00e3o se oculta (O Sexto Dia), no DI\u00c1RIO, o verdadeiro her\u00f3i \u00e9, sobretudo, o povo e a P\u00e1tria. Torga assume aqui, em toda a plenitude, a condi\u00e7\u00e3o portuguesa, no duplo sentido tel\u00farico e humano. Quem l\u00ea o DI\u00c1RIO, escreve Sofia de Melo Breyner, &#8220;percorre Portugal de l\u00e9s a l\u00e9s, o seu espa\u00e7o tel\u00farico, humano, e o espa\u00e7o hist\u00f3rico e cultural&#8221; (Miguel Torga, Poeta Ib\u00e9rico). No entanto, o DI\u00c1RIO \u00e9 tamb\u00e9m um reposit\u00f3rio de viv\u00eancias \u00edntimas do inquieto mundo torguiano, &#8220;tr\u00e2mites aventurosos e dram\u00e1ticos da corrida solid\u00e1ria, contra-rel\u00f3gio, dum poeta obstinado&#8221;(Di\u00e1rio X), &#8220;crucifica\u00e7\u00e3o espiritual de um homem insubmisso&#8221; (Di\u00e1rio VII). Contudo, o DI\u00c1RIO excede, no meu entender, o espa\u00e7o autobiogr\u00e1fico do autor. N\u00e3o \u00e9 a sua imagem estampada que vemos, numa esp\u00e9cie de santo-sud\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 o seu retrato, mas a sua moldura. O retrato que nele se desenha \u00e9 o do povo e da condi\u00e7\u00e3o portuguesa. Torga assume, fiel e medularmente, essa condi\u00e7\u00e3o, como aut\u00eantico &#8220;selo de origem, impresso no barro da carne&#8221;. Por isso, o DI\u00c1RIO \u00e9 o auto-retrato de Portugal. Como escreveu Jacinto Prado Coelho &#8220;Torga n\u00e3o \u00e9 apenas a express\u00e3o de uma paisagem ou de uma alma colectiva: a sua obra \u00e9 ele e a Natureza; ele e Portugal, um Portugal que o fez, mas que em parte ele inventou&#8221; (Miguel Torga, Poeta Ib\u00e9rico). Eis, segundo cremos, a chave-mestra, o fulcro desta obra fundamental da literatura portuguesa, que representa, no dizer de Carlos Reis, &#8220;not\u00e1vel contributo para o conhecimento da mundivid\u00eancia dum escritor incapaz de viver divorciado do que o cerca&#8221; (Homenagem a Miguel Torga). Ora, o que cerca o escritor, \u00e9 Portugal, &#8220;um Portugal com oito s\u00e9culos de exist\u00eancia e que n\u00e3o encontrou ainda a sua identidade nacional&#8221;(Di\u00e1rio XII). \u00c9 essa identidade que Torga procura, e encontra, no apelo constante das suas (nossas) ra\u00edzes profundas. A realidade de um povo &#8220;timbrada na carne e no esp\u00edrito como uma tatuagem dignificadora&#8221; (Fogo Preso). \u00c9 por isso que Torga visita e revisita todos os recantos da P\u00e1tria, numa procura insofrida do n\u00facleo essencial da matriz lusitana. &#8220;Vi Portugal sozinho, sem guias, sem interlocutores, a ouvir apenas nas fragas, nos matagais, nos restolhos, nas areias e nas cal\u00e7adas o eco dos meus pr\u00f3prios passos&#8221; (Di\u00e1rio XI). N\u00e3o houve aceno de monte ou de plan\u00edcie a que n\u00e3o respondesse. &#8220;Subi todas as serras e calcorreei todos os vales desta p\u00e1tria&#8221; (Di\u00e1rio VIII). Torga palmilhou o Pa\u00eds, n\u00e3o por nacionalismo, como ele pr\u00f3prio reconhece, mas por uma &#8220;funda necessidade cultural&#8221;. &#8220;A realidade tel\u00farica de um pa\u00eds descoberta pelos m\u00e9todos de um almocreve&#8221;&#8230;.. pois \u00e9 &#8220;com o seu pr\u00f3prio corpo que o homem mede o ber\u00e7o e o caix\u00e3o&#8221;(Di\u00e1rio V). \u00c9 por isso que Torga pode reconhecer qualquer lugar portugu\u00eas por coisas aparentemente t\u00e3o simples, como tactear a terra que pisa ou provar o tempero da carne de porco. A derme e a epiderme da mesma realidade, desvendada pelo sentido f\u00edsico e metaf\u00edsico, pois se a terra \u00e9 a face vis\u00edvel, o tempero \u00e9 &#8220;assinatura inconfund\u00edvel que identifica a regi\u00e3o e o habitante dela. A pimenta e o cravo das nossas andan\u00e7as mar\u00edtimas, e o vinho, o alho e o louro da nossa rotina tel\u00farica, depois de complicadas alquimias, passaram de meros condimentos a puras ess\u00eancias de sabedoria&#8221; (Di\u00e1rio VII). A liga\u00e7\u00e3o medular de Torga ao ch\u00e3o nativo, a procura quase obsessiva e m\u00edtica das ra\u00edzes da lusitanidade, da nossa cultura ancestral, constituem, na opini\u00e3o de Claire Cayron, tradutora francesa do DI\u00c1RIO (En Franchise Interieure), o tema principal da obra. Essa busca, esse t\u00e3o falado e, por vezes, mal entendido telurismo torguiano \u00e9, afinal, se bem compreendemos o pensamento do escritor, condi\u00e7\u00e3o essencial para construir o futuro. Ao olhar o passado, \u00e9 o porvir que Torga perscruta. &#8220;O homem escreve n\u00e3o s\u00f3 o instante em que se contempla num espelho, mas tamb\u00e9m a saudade doutras imagens passadas de que se recorda, e a certeza doutras imagens futuras que adivinha&#8221; (Di\u00e1rio V). Em recente artigo do &#8220;Jornal de Letras&#8221;, Maria L\u00facia Lepecki considera a  &#8220;Terra&#8221; o conte\u00fado preferencial do DI\u00c1RIO entendida &#8220;como Tellus, a m\u00e3e primacial, a primeira  fonte da vida&#8221;, a Terra-Mater, ou M\u00e1tria, com a qual o escritor realiza um verdadeiro &#8220;encontro eucar\u00edstico&#8221;. O DI\u00c1RIO \u00e9, assim, a &#8220;ponte da sua comunh\u00e3o com o sofrimento do seu povo, com o que o seu povo foi, \u00e9 e poder\u00e1 vir a ser. Com qualidades e defeitos, com dram\u00e1ticas oscila\u00e7\u00f5es ao longo da Hist\u00f3ria, o povo portugu\u00eas \u00e9 a \u00faltima e definitiva subst\u00e2ncia do ritual eucar\u00edstico de Torga&#8221;. Tamb\u00e9m Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es Gon\u00e7alves, um dos mais l\u00facidos analistas de Torga, fala de um &#8220;culto c\u00f3smico&#8221; do poeta, &#8220;de uma vis\u00e3o do mundo transparente \u00e0 beleza, \u00e0 eternidade, \u00e0 transcend\u00eancia e \u00e0 iman\u00eancia do sagrado. Como um toque de super-realidade que atravessa a estrutura da realidade. Uma sacralidade que a natureza cont\u00e9m, mas n\u00e3o det\u00e9m. Que esta exprime, porque aquela a trespassa e ultrapassa&#8221; (Sete Medita\u00e7\u00f5es sobre Miguel Torga). Vem a prop\u00f3sito citar aqui palavras do Prof. Ferrer Correia na abertura da Sess\u00e3o Solene promovida pela Universidade de Coimbra, comemorativa dos cinquenta anos de actividade liter\u00e1ria de Miguel Torga: &#8220;A liga\u00e7\u00e3o do artista com a terra, com as for\u00e7as tel\u00faricas, \u00e9 uma constante da obra de Miguel Torga. Mas a terra para o escritor n\u00e3o \u00e9 apenas, nem sequer principalmente, uma entidade geol\u00f3gica ou uma abstrac\u00e7\u00e3o da paisagem. Para Miguel Torga, a terra \u00e9 uma grandeza, um tempo fisico e moral, uma realidade elementar a que n\u00e3o \u00e9 estranha a hist\u00f3ria e o destino do povo. Como o gigante indom\u00e1vel da mitologia recobrava for\u00e7as cada vez que tocava o solo&#8221; (Homenagem a Miguel Torga). <b>O ENIGMA DE DEUS NA VIDA TORGUIANA<\/b> Deus \u00e9 o grande e \u00faltimo mist\u00e9rio para a consci\u00eancia atormentada de Miguel Torga. Todos os porqu\u00eas originantes, todos os enigmas existenciais e todas as perguntas que o homem coloca ao seu ser e existir s\u00e3o al\u00edneas da problem\u00e1tica geral que o nome de Deus encerra. Como interpretar a sua esperan\u00e7a sen\u00e3o pela vontade ind\u00f3mita de encontrar uma via de sa\u00edda para os seus enigmas, que s\u00f3 a f\u00e9 em Deus pode assegurar? Como penetrar na obsess\u00e3o do seu conceito sobre a morte, sen\u00e3o a partir das trevas que lhe adv\u00e9m pelo facto de n\u00e3o se decidir por um acto de f\u00e9 convicto no Deus da Revela\u00e7\u00e3o? Sim, Deus \u00e9 o grande mist\u00e9rio de Torga. De tal maneira \u00e9 verdade que este autor s\u00f3 raramente tem coragem de olhar olhos nos olhos o fulcro da sua solid\u00e3o, esperan\u00e7a e morte. De um modo geral, Deus n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m com quem dialogue em col\u00f3quio directo, antes, permanece \u00e0 volta da raz\u00e3o \u00faltima dos seus problemas num pudor retra\u00eddo de quem n\u00e3o sente coragem de entrar no SANCTUS SANCTORUM. (Miguel Torga: Na Rota de um Peregrino) O peregrinar dos seus dias e as sendas tra\u00e7adas no sentido de desvendar os seus horizontes por que anseia est\u00e3o condicionados pelas suas origens, pela sua forma e pela sua gera\u00e7\u00e3o, como \u00e9 \u00f3bvio. Miguel Torga n\u00e3o se libertar\u00e1 do que de negativo estas influ\u00eancias possam exercer sobre si. Podemos dizer que s\u00e3o cumes muito elevados e densos que tolhem ao poeta a possibilidade de habitar em vales f\u00e9rteis. O Semin\u00e1rio, a emigra\u00e7\u00e3o precoce, as mortes de familiares, o positivismo latente e o per\u00edodo pol\u00edtico atravessado s\u00e3o n\u00f3s evidentes da rede que envolve o seu quotidiano di\u00e1rio. Miguel Torga nasce num ambiente marcadamente cat\u00f3lico. Recebe a catequese, faz a primeira comunh\u00e3o, entra mesmo no Semin\u00e1rio Menor. Podemos afirmar, que o primeiro conceito de Deus e os primeiros assomos do religioso s\u00e3o de matriz declaradamente cat\u00f3lica. Ser\u00e1 sempre esta experi\u00eancia inicial, o bar\u00f3metro para o seu turbulento caminho. E \u00e9 com ela, que ele vai medir for\u00e7as ao longo destes anos. Logo no primeiro volume do seu DI\u00c1RIO reconhece que este ligame com a f\u00e9 crist\u00e3 foi passando, e secando com o passar dos tempos. Mas mais do que liberta\u00e7\u00e3o, nesta secura, experimentou uma maior desilus\u00e3o, pois, nada at\u00e9 agora substitui a f\u00e9 e a comunidade eclesial das quais se afastou. &#8220;Isto de religi\u00e3o est\u00e1 cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiados, a coisa foi secando at\u00e9 chegar a esta mirra m\u00edstica, que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Jord\u00e3o teol\u00f3gico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conte\u00fado humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manh\u00e3, ir \u00e0 missa, e voltar da Igreja com a cara que trazia o meu vizinho&#8221;. (Di\u00e1rio I) <i>Luis Filipe Santos<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal assinala este Domingo o centen\u00e1rio do seu nascimento, em S\u00e3o Martinho de Anta, Sabrosa, Tr\u00e1s-os-Montes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[122,127,174,176],"class_list":["post-25827","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-brasil","tag-catequese","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-de-lamego"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25827"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25827\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}