{"id":257956,"date":"2022-10-30T09:30:14","date_gmt":"2022-10-30T09:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=257956"},"modified":"2022-10-27T14:31:27","modified_gmt":"2022-10-27T13:31:27","slug":"saude-as-pessoas-em-cuidados-paliativos-nao-estao-a-morrer-estao-a-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saude-as-pessoas-em-cuidados-paliativos-nao-estao-a-morrer-estao-a-viver\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade: \u00abAs pessoas em cuidados paliativos n\u00e3o est\u00e3o a morrer, est\u00e3o a viver\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00abCurando Cora\u00e7\u00f5es e Comunidades\u00bb \u00e9 o mote para falar dos projetos que neste momento decorrem na Unidade de Cuidados Paliativos, na Casa de Sa\u00fade da Idanha, apresentados pelo enfermeiro Ricardo Fernandes e S\u00edlvia Non\u00e9, psic\u00f3loga cl\u00ednica<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-257959 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2.jpeg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1500\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2.jpeg 2000w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-1080x810.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-1280x960.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Silvianone_ricardofernandes2-480x360.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 mesmo necessidade de nos prepararmos para a morte? Ou como ouvi h\u00e1 dias, apenas devemos esperar que ela venha ter connosco?<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9 &#8211;<\/em> \u00c9 uma pergunta desafiante e acho que temos de nos preparar para a vida e para todos os desafios que estar vivo tamb\u00e9m nos traz. Um deles \u00e9 aceitar a finitude, tudo aquilo que est\u00e1 inerente \u00e0 exist\u00eancia humana, tudo tem o seu tempo, tem os seus limites. E, de facto, se come\u00e7armos desde pequeninos a ter consci\u00eancia desta ideia de ciclo e de finitude, talvez a morte e o fim de vida v\u00e3o sendo experimentadas, digamos assim, de uma forma mais normativa, mais natural, dentro daquilo que s\u00e3o todas as circunst\u00e2ncias de cada caso, em concreto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que \u00e9 mais desafiante nesta experi\u00eancia de cuidar em fim-de-vida? <\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes &#8211;<\/em> Resumir em poucas palavras \u00e9 dif\u00edcil, mas acho que o mais desafiante \u00e9 exatamente cuidarmos do nosso semelhante, que, tal como n\u00f3s somos, \u00e9 infinito. E nesse sentido, \u00e9 o confronto com o tema que \u00e9 dif\u00edcil, que \u00e9 a morte, que \u00e9 a nossa finitude, que \u00e9 finitude do outro, que \u00e9 o sofrimento. E, portanto, acho que o mais desafiante passa por a\u00ed.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 mais desafiante o acompanhamento da pessoa ou da fam\u00edlia?<\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes &#8211;<\/em> Depende muito de cada caso. Existir\u00e3o pessoas que est\u00e3o doentes e que t\u00eam um sofrimento mais bem avaliado, uma adapta\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil ao seu processo de doen\u00e7a e de morrer. E, ao mesmo tempo, existir\u00e3o familiares que t\u00eam mais dificuldade em aceitar a partida que est\u00e1 anunciada daqueles que amam. Diria que varia bastante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma quest\u00e3o que surge quando se fala de paliativos: h\u00e1 algum mito associado?<\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes &#8211;<\/em> Existem muitos mitos associados aos cuidados paliativos. Talvez aquele que seja mais prenunciado \u00e9 que cuidados paliativos s\u00e3o s\u00f3 para pessoas que est\u00e3o em fim de vida e que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, cuidados destinados aos moribundos e \u00e0s pessoas que est\u00e3o mesmo numa fase final e que j\u00e1 n\u00e3o existe perspetiva de investimento de cuidados.<\/p>\n<p>E esse \u00e9 o mito que, cada vez que eu tenho oportunidade para falar sobre o assunto, me apetece muito desconstruir: as pessoas em cuidados paliativos n\u00e3o est\u00e3o a morrer, est\u00e3o a viver, est\u00e3o a viver uma circunst\u00e2ncia muito complexa, com grande sofrimento que decorre de uma doen\u00e7a grave. Isto al\u00e9m de todos os outros mitos associados \u00e0 morfina, a uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias terap\u00eauticas que utilizamos e que, muitas das vezes, est\u00e3o subvertidas e mal interpretadas pelas pessoas em geral.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 completamente errado, doutora S\u00edlvia, dizer se que acelera a morte?<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9 &#8211;<\/em> Sim. Ali\u00e1s, os estudos cient\u00edficos dizem o contr\u00e1rio, que as pessoas t\u00eam melhor qualidade de vida, muitas vezes at\u00e9 em termos da sua sobreviv\u00eancia, se podemos falar assim. Identificamos essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se pensarmos num investimento desproporcional com terapias que poder\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ser eficientes e ben\u00e9ficas, do ponto de vista de qualidade de vida e de conforto, a\u00ed sim, podemos correr o risco de trazer um desfecho mais dram\u00e1tico, quer do ponto de vista do doente, quer daquilo que \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o que os seus familiares v\u00e3o vivenciando.<\/p>\n<p>Os cuidados paliativos aceitam de facto a morte como uma inevitabilidade em alguns contextos de doen\u00e7a grave, incur\u00e1vel e progressiva. E, neste sentido, n\u00f3s n\u00e3o estamos l\u00e1 para lutar contra a morte, diria, estamos l\u00e1 para incentivar a vida. Cicely Saunders, que \u00e9 uma das fundadoras deste movimento dos cuidados paliativos, em 1969, j\u00e1 dizia isso: n\u00f3s n\u00e3o podemos dar dias \u00e0 vida, n\u00e3o est\u00e1 nas nossas m\u00e3os o tempo, mas sim dar vida aos dias. E isso n\u00f3s, de facto, fazemos e fazemos com muita convic\u00e7\u00e3o e com muito retorno, quer das pessoas que cuidamos, quer dos seus familiares e at\u00e9 nosso, da equipa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 necessidade de um grande investimento no acompanhamento das fam\u00edlias?<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9 &#8211;<\/em> Sem d\u00favida. Podemos ter pessoas de diferentes faixas et\u00e1rias, com doen\u00e7a grave, incur\u00e1vel, de progressiva, n\u00e3o \u00e9? E o que acontece \u00e9 que muitas vezes, como dizia no in\u00edcio, as circunst\u00e2ncias em que uma doen\u00e7a grave surge, a idade em que ela surge, a rapidez desde que \u00e9 feito o diagn\u00f3stico at\u00e9 percebermos que estamos numa fase muito grave e avan\u00e7ada da doen\u00e7a\u2026 \u00c0s vezes este tempo n\u00e3o se coaduna com o nosso tempo interno e a nossa necessidade nos irmos ajustando. Percebemos que as fam\u00edlias ainda n\u00e3o se adaptaram, muitas vezes, do ponto de vista psicol\u00f3gico \u00e0 not\u00edcia, ele est\u00e3o a ajustar-se \u00e0 not\u00edcia ao choque da mesma e j\u00e1 est\u00e3o a ter de gerir outras not\u00edcias diferentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui muitas not\u00edcias e m\u00e1s not\u00edcias a acontecer, num espa\u00e7o muito curto de tempo. Por melhor contexto familiar &#8211; que s\u00e3o sempre fatores muito protetores em qualquer situa\u00e7\u00e3o de crise -, por melhor que seja o padr\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia, por melhor que seja a sua coes\u00e3o e a sua flexibilidade no desempenho dos pap\u00e9is, a verdade \u00e9 que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de crise em qualquer contexto familiar.<\/p>\n<p>Claro que estes fatores que est\u00e3o a enumerar, e existiriam outros, s\u00e3o fatores que medeiam a adapta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e s\u00e3o importantes. Aquilo que n\u00f3s, enquanto psic\u00f3logos e enquanto t\u00e9cnicos da equipa, fazemos de uma forma geral, \u00e9 identificar o mais precocemente poss\u00edvel estes fatores protetores e incentiv\u00e1-los e traz\u00ea-los aqui tamb\u00e9m \u00e0 discuss\u00e3o, com as fam\u00edlias, diretamente; por outro lado, identificar aquilo que s\u00e3o os fatores de vulnerabilidade acrescida em determinados contextos familiares.<\/p>\n<p>Independentemente da maior ou menor vulnerabilidade, s\u00e3o pessoas em sofrimento e que se est\u00e3o a adaptar a circunst\u00e2ncias adversas num espa\u00e7o de tempo muit\u00edssimo curto. Durante a pandemia, acresceu a isto tudo ter de se adaptar a este contexto, enquanto se estavam a adaptar a n\u00e3o poder sentir-se livres na transmiss\u00e3o do afeto de uma forma t\u00e3o espont\u00e2nea, n\u00e3o poder estar pr\u00f3ximos da forma que gostariam de estar. Para n\u00f3s, equipa, tamb\u00e9m foi um desafio e ainda estamos, na medida em que ainda existem m\u00e1scaras no contexto hospitalar: j\u00e1 estamos numa fase diferente da pandemia, mas alguns familiares ainda t\u00eam receio, verificamos isso, de se aproximarem mais, de trazerem alguma situa\u00e7\u00e3o ou porque ficaram tamb\u00e9m eles mais ansiosos. Tem sido um percurso tamb\u00e9m para n\u00f3s, enquanto equipa, conseguir adaptar-nos e ajustar-nos a esta nova fase.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quais s\u00e3o os grandes desafios que se colocam a quem vive a experi\u00eancia de sofrimento? A espiritualidade que tem um lugar neste processo?<\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes &#8211;<\/em> \u00c9 tamb\u00e9m um aspeto crucial, quando abordamos as pessoas que est\u00e3o em sofrimento. Al\u00e9m do aspeto f\u00edsico, que \u00e9 relevant\u00edssimo, numa fase de descompensa\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, todas as outras dimens\u00f5es que nos definem enquanto pessoa s\u00e3o relevantes e a espiritualidade ocupa grande parte, sobretudo quando estamos nesta perda constante e amea\u00e7a de deixarmos de existir. As pessoas refletem, questionam-se, zangam-se ou apaziguam-se com Deus, se for esse o caso, ou com o cosmos ou a natureza, ou o que seja.<\/p>\n<p>A espiritualidade assume uma grande relev\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as equipas de cuidados paliativos t\u00eam sempre algu\u00e9m &#8211; no nosso a Dra. F\u00e1tima Gon\u00e7alves, que \u00e9 te\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o \u2013 que presta apoio nesta dimens\u00e3o, independentemente do credo religioso ou da forma como a pessoa vive a sua espiritualidade, nesta fase da vida ou previamente \u00e0 doen\u00e7a. \u00c9 um aspeto fundamental e \u00e9 um desafio important\u00edssimo ajudarmos as pessoas a reconciliar-se ou zangar-se, se for esse o caso, porque \u00e9 importante tamb\u00e9m respeitarmos os movimentos internos das pessoas &#8211; se for a zanga que est\u00e1 l\u00e1\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 poss\u00edvel identificar elementos positivos na forma como o luto vem sendo abordado no pensamento coletivo?<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9 &#8211; <\/em>Todos nos lembramos do 11 de setembro, como um marco no que diz respeito \u00e0 ideia da morte, como algo que nos pode entrar pela televis\u00e3o, os desfechos tr\u00e1gicos. Cada vez mais a morte aparece, nem sempre pelos melhores motivos &#8211; porque \u00e9 uma morte acidental, s\u00e3o mortes muit\u00edssimo traum\u00e1ticas &#8211; mas a verdade \u00e9 que somos quase que for\u00e7ados, enquanto sociedade e \u00e0s vezes apanhando este impulso, n\u00e3o das melhores formas e pelos melhores motivos, mas podemos discutir sobre estes temas e traz\u00ea-los ao panorama da sociedade em geral, da comunica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 da forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica. Mesmo no nosso pa\u00eds, a trag\u00e9dia de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande e outro tipo de trag\u00e9dias que aconteceram recentemente, na nossa hist\u00f3ria enquanto pa\u00eds, tamb\u00e9m trouxeram este tema da morte e do trauma \u00e0 discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Isso tem permitido novas abordagens?<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9 \u2013 <\/em>Tem permitido, inclusivamente, criar o procedimento de criar protocolos, sistematiz\u00e1-los. Atualmente est\u00e3o dispon\u00edveis, para quem tiver interesse em explorar esta tem\u00e1tica. A Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Sa\u00fade tem at\u00e9 dispon\u00edveis, neste momento, protocolos espec\u00edficos para abordar a morte traum\u00e1ticas, circunst\u00e2ncias traum\u00e1ticas associadas \u00e0s mortes violentas e, portanto, sim, eu penso que temos evolu\u00eddo bastante enquanto sociedade em geral e enquanto sociedade acad\u00e9mica, cient\u00edfica e t\u00e9cnica. A quest\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 sempre vari\u00e1veis, outras, e que temos de estar conscientes delas, que s\u00e3o as nossas vari\u00e1veis internas. A forma\u00e7\u00e3o fundamental, obviamente, termos acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o mais atualizada e cient\u00edfica, que nos pode ajudar sempre muito. Mas temos tamb\u00e9m de ter consci\u00eancia que somos n\u00f3s, t\u00e9cnicos, o ve\u00edculo atrav\u00e9s do qual pomos essa teoria na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Acima de tudo, precisamos de cuidar muitos de n\u00f3s, cuidar de quem cuida, estarmos tamb\u00e9m robustos do ponto de vista da nossa estrutura emocional interna e daquilo que s\u00e3o as nossas rela\u00e7\u00f5es, a nossa pr\u00f3pria espiritualidade, o nosso pr\u00f3prio sentido de vida, o nosso conceito de morte, de finitude e de exist\u00eancia em si. Isso n\u00e3o se aprende propriamente nos livros, n\u00e3o se trabalha do ponto de vista s\u00f3 te\u00f3rico, tem de se trabalhar no dia a dia, porque s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que suscitam tamb\u00e9m as nossas fragilidades e que suscitam tamb\u00e9m os nossos questionamentos, enquanto seres humanos e enquanto profissionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dissemos no in\u00edcio que voltou a ser adiada a discuss\u00e3o e vota\u00e7\u00e3o de eutan\u00e1sia no Parlamento. O que \u00e9 que nos podem dizer com base na vossa experi\u00eancia sobre o pensamento de quem vive momentos de enorme sofrimento em final de vida?<\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes:<\/em> Os pensamentos em concreto dessas pessoas, talvez n\u00e3o consiga reproduzi los porque s\u00e3o muito variados e s\u00e3o do pr\u00f3prio. Agora, do ponto de vista paliativista, posso dizer que a dicotomia, a discuss\u00e3o em torno de um sim ou n\u00e3o \u00e9 complexa. Talvez seja demasiado pobre. E eu acho que o que realmente importa \u00e9 discutirmos informadamente e esclarecidamente um assunto que \u00e9 muito complexo, que \u00e9 muito dr\u00e1stico e que, na minha perspetiva pessoal, tem havido pouco espa\u00e7o p\u00fablico para um debate claro, sem distor\u00e7\u00f5es, sem grandes eufemismos, para falar de uma coisa que \u00e9 um ato de algu\u00e9m matar outro a seu pedido. E que implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas \u00e9 que podem existir\u00a0\u00e0 volta disto. \u00a0E o que eu mais lamento enquanto cidad\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ter havido muito espa\u00e7o ainda para haver um debate esclarecido, informado e estruturado. Parece-me a mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9:<\/em> Aquilo que eu posso acrescentar \u00e9 que este aspeto da eutan\u00e1sia, e sobretudo esta ideia de a morte assistida estar misturada a este conceito, para quem est\u00e1 mais de fora da \u00e1rea da medicina e da sa\u00fade; acho que confunde. Acho que confunde bastante as pessoas. Acho que aquilo que n\u00f3s fazemos n\u00e3o s\u00f3 em cuidados paliativos, mas tamb\u00e9m. em muitos outros locais onde se praticam muitos bons cuidados; n\u00e3o s\u00f3 nos cuidados paliativos, mas em muitos outros locais onde se prestam muitos bons cuidados de sa\u00fade, tamb\u00e9m estamos a assistir no momento da morte, e acho que isso pode confundir a popula\u00e7\u00e3o em geral. Porque se me perguntarem a mim se eu quero ter uma morte assistida, obviamente que se eu tiver uma morte por doen\u00e7a grave incur\u00e1vel e uma doen\u00e7a progressiva, eu quero ter uma morte assistida. Assistida humanamente e cientificamente. Agora, da nossa experi\u00eancia e destes 16 anos de cuidados paliativos na Casa de Sa\u00fade da Idanha, das Irm\u00e3os Hospitaleiras; da nossa experi\u00eancia, como dizia, s\u00e3o raras as situa\u00e7\u00f5es em que a pessoa solicita, at\u00e9 porque o que n\u00f3s observamos \u00e9 que, no nosso caso, na nossa experi\u00eancia, os pedidos quando surgem s\u00e3o por sofrimento. Estamos a falar de quando a pessoa nos chega e em que ainda n\u00e3o conseguimos naquele momento, uma palia\u00e7\u00e3o como n\u00f3s gostar\u00edamos, um controlo sintom\u00e1tico que n\u00f3s consideramos ideal para aquela situa\u00e7\u00e3o em concreto.<\/p>\n<p>Muitas vezes essa pessoa pede-nos (eutan\u00e1sia) nessa fase inicial, em que ainda se sente em sofrimento, digamos assim. Portanto, o sofrimento, tem v\u00e1rias vertentes, como tamb\u00e9m o enfermeiro Ricardo falava das diferentes dimens\u00f5es do ser humano. Claro que eu penso que, como o enfermeiro Ricardo diz, \u00e9 uma quest\u00e3o demasiado complexa, que deve ser discutida e bem discutida&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, a minha pergunta agora seria se come\u00e7amos a discuss\u00e3o ao contr\u00e1rio. Ou seja, se deixamos os cuidados paliativos quase como uma arma de arremesso no debate\u2026 E como que esquecemos o investimento que \u00e9 necess\u00e1rio, ou \u00a0passado para segundo plano?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9:<\/em> Exatamente. Aquilo que eu penso \u00e9 que as pessoas n\u00e3o podem ser deixadas, digamos assim, com esta escolha. No sentido em que, neste momento, enquanto n\u00e3o houver vaga e cuidados paliativos para todos, como \u00e9 um direito dos cidad\u00e3os, penso que \u00e9 uma escolha que n\u00e3o \u00e9 uma escolha f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A esse prop\u00f3sito, a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Cuidados Paliativos ainda revelou esta semana, ali\u00e1s, no dia em que estamos a gravar esta entrevista, que h\u00e1 70mil portugueses sem cuidados paliativos\u2026. <\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes:<\/em> Isto representa uma car\u00eancia gigantesca de cuidados espec\u00edficos e especializados em fim de vida. E, portanto, quando existe um pa\u00eds em que n\u00e3o tem uma estrutura capaz, competente, suficiente para dar resposta a necessidades que podem ser muito bem respondidas com cuidados paliativos; acho esquisito e estranho que se sobreponha uma outra discuss\u00e3o que tamb\u00e9m \u00e9 muito v\u00e1lida e que tamb\u00e9m importa muito debater, previamente a democratizar o acesso a cuidados paliativos&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste contexto a discuss\u00e3o est\u00e1 pervertida?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9:<\/em> Eu acho que cria esta clivagem que n\u00e3o faz sentido entre os paliativos e a eutan\u00e1sia. Na minha opini\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma boa forma de colocar a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Aquilo que faria sentido era que havendo este acesso de facto equitativo, este acesso disponibilizado a todos os cidad\u00e3os que deles necessitam; a\u00ed sim poder-se-ia colocar a quest\u00e3o de pensar uma legisla\u00e7\u00e3o. Pensar uma forma de &#8211; para as situa\u00e7\u00f5es muito excecionais, de sofrimento intoler\u00e1vel do ponto de vista psicol\u00f3gico, existencial e f\u00edsico, nalguns casos, se de facto naquela pessoa em concreto, em particular, ou naquelas pessoas em particular, j\u00e1 depois de terem tido contacto com a experi\u00eancia em cuidados paliativos &#8211; se ainda assim se mantinha o desejo de uma morte por eutan\u00e1sia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes:<\/em> Por isso \u00e9 que eu acho que esta dicotomia ou esta clivagem entre o sim e o n\u00e3o; e entre os opositores \u00e0 eutan\u00e1sia ou aqueles que lhes s\u00e3o favor\u00e1veis; eu acho que existe muito mais a unir estes dois polos do que a separ\u00e1-los. Eu acho que ningu\u00e9m quer pessoas em sofrimento. Acho que a eutan\u00e1sia n\u00e3o se op\u00f5e diretamente a cuidados paliativos. A eutan\u00e1sia op\u00f5e sim a distan\u00e1sia, que \u00e9 diametralmente oposta. E eu acho que no meio h\u00e1 de haver algo. Estar\u00e3o l\u00e1 os cuidados paliativos com toda a sua ci\u00eancia, com toda a sua miss\u00e3o, com a sua filosofia e tamb\u00e9m o humanismo para cuidar das pessoas que assim o solicitam e que assim o desejam. Mas n\u00e3o me parece nada que as coisas se oponham de uma forma como o debate publico deixou parecer&#8230;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Na reta final desta entrevista, e apontando j\u00e1 as celebra\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3ximos dias, em especial a comemora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is defuntos, pergunto-lhes se a exist\u00eancia de um dia em que se assinala a mem\u00f3ria dos que j\u00e1 partiram, ganha uma maior import\u00e2ncia ou uma import\u00e2ncia particular neste p\u00f3s pandemia?<\/em><\/p>\n<p><em>Ricardo Fernandes: <\/em>Eu acho que sim. Para quem assinala a efem\u00e9ride e para quem vive este dia, conforme o seu credo religioso. Mas as datas de calend\u00e1rio s\u00e3o sempre importantes para as pessoas que perderam pessoas de quem gostam, seja o anivers\u00e1rio, seja o dia todos os santos, seja o Natal. S\u00e3o sempre dias em que pode haver uma lembran\u00e7a e um ritualizar de um trauma.<\/p>\n<p>E o trauma aqui, enquanto evento ps\u00edquico ou emocional, de ter perdido algu\u00e9m que foi sempre uma experi\u00eancia traum\u00e1tica: E, portanto, eu diria que sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9:<\/em> Eu penso que depende muito tamb\u00e9m da fase em que a pessoa se encontrar no seu processo de luto. Acho que, enquanto sociedade em geral, acho que \u00e9 importante haver esta ritualiza\u00e7\u00e3o. Em alguns contextos, n\u00f3s percebemos que tem um efeito protetor. As pessoas perceberem que aquilo que sentem e a forma que t\u00eam de manifestar a saudade, o vazio, a aus\u00eancia do outro na sua vida; tamb\u00e9m pode estar enquadrada num ritual que \u00e9 partilhado em muitos contextos.<\/p>\n<p>Mas diria que \u00e9 necess\u00e1rio perceber-se e observar-se caso a caso. Porque, nalguns contextos, nalgumas circunst\u00e2ncias de perda, e infelizmente durante a pandemia, sabemos que n\u00e3o houve sequer oportunidade de fazer funerais, e isso pode acabar por ser prejudicial. Ou seja, muitas vezes; n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto voltar ao local em que o trauma foi vivido, de uma forma ainda mais intensa; isso nalguns casos pode ser ainda mais prejudicial. Diria que teria de ser muito bem avaliada essa situa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 acho que pode ter um efeito retraumatizante para algumas pessoas, ou seja, voltar a um local que as fez viver momentos de grande priva\u00e7\u00e3o de afeto, at\u00e9 porque quem estava com m\u00e1scara&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Para quem nos ou\u00e7a se entender que n\u00e3o se sente com capacidade para ir n\u00e3o deve pensar que est\u00e1 a falhar tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00edlvia Non\u00e9: <\/em>\u00c9 isso mesmo. \u00c9 natural que seja muito dif\u00edcil para quem o contexto do cemit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 o contexto do cemit\u00e9rio a que estamos habituados; de afeto, de manifesta\u00e7\u00e3o, de toque, de beijo, de abra\u00e7o. Porque inclusivamente eu fui a funerais e vel\u00f3rios durante a pandemia &#8211; quer como amiga, como algu\u00e9m que foi acompanhar algu\u00e9m que perdeu outra pessoa, ou como pessoa que tamb\u00e9m perdeu algu\u00e9m &#8211; e, devo confessar isso que \u00e9 confuso.\u00a0 \u00c9 uma experi\u00eancia do ponto de vista cognitivo e emocional complexa. Porque eu estou num s\u00edtio em que me estou a despedir e estou a receber conforto, mas \u00e9 assim um conforto parcial. Portanto, acho que sim. Isso que disse \u00e9 muito importante: Quem n\u00e3o se sentir capaz n\u00e3o estranhe, porque o nosso corpo tem mem\u00f3ria. As emo\u00e7\u00f5es est\u00e3o l\u00e1 e se calhar, mais do que for\u00e7ar, se calhar poder encontrar formas mais privadas e em contexto de amizades pessoais, de se relembrar da pessoa perdida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abCurando Cora\u00e7\u00f5es e Comunidades\u00bb \u00e9 o mote para falar dos projetos que neste momento decorrem na Unidade de Cuidados Paliativos, na Casa de Sa\u00fade da Idanha, apresentados pelo enfermeiro Ricardo Fernandes e S\u00edlvia Non\u00e9, psic\u00f3loga cl\u00ednica<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":257959,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[204,277],"class_list":["post-257956","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-eutanasia-bioetica","tag-pastoral-da-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257956"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257956\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/257959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}