{"id":257199,"date":"2022-10-23T09:30:46","date_gmt":"2022-10-23T08:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=257199"},"modified":"2022-10-20T12:45:25","modified_gmt":"2022-10-20T11:45:25","slug":"portugal-so-conseguimos-resolver-o-problema-da-pobreza-se-ele-se-tornar-um-fator-mobilizador-do-conjunto-da-sociedade-carlos-farinha-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-so-conseguimos-resolver-o-problema-da-pobreza-se-ele-se-tornar-um-fator-mobilizador-do-conjunto-da-sociedade-carlos-farinha-rodrigues\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abS\u00f3 conseguimos resolver o problema da pobreza se ele se tornar um fator mobilizador do conjunto da sociedade\u00bb &#8211; Carlos Farinha Rodrigues"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Na \u00faltima semana confirmou-se aquela que era uma perce\u00e7\u00e3o geral. A popula\u00e7\u00e3o portuguesa est\u00e1 mais pobre. E n\u00e3o fora os apoios sociais mais de quatro milh\u00f5es de pessoas seriam pobres.\u00a0Foi tamb\u00e9m no Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza que ficamos a saber que Sandra Ara\u00fajo ser\u00e1 a nova coordenadora da Estrat\u00e9gia Nacional de Combate a este flagelo.\u00a0Carlos Farinha Rodrigues, professor do Instituto Superior de Economia e Gest\u00e3o e especialista em desigualdades e pobreza, \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_218163\" aria-describedby=\"caption-attachment-218163\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-218163 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-3-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-218163\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Desde a apresenta\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia nacional de combate \u00e0 pobreza at\u00e9 \u00e0 defini\u00e7\u00e3o da sua coordenadora passou quase um ano. Numa \u00e1rea de emerg\u00eancia como esta, n\u00e3o passou demasiado tempo?<\/em><\/p>\n<p>Bom, vamos come\u00e7ar por clarificar alguns aspetos que aqui foram referidos. Eu gosto de frisar que o Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza n\u00e3o \u00e9 o Dia dos Pobres. N\u00e3o \u00e9 um dia exclusivamente para a popula\u00e7\u00e3o pobre. \u00c9 um dia para apelar a toda a sociedade para a necessidade do combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>At\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 apenas um problema deles? <\/em><\/p>\n<p>O problema da pobreza n\u00e3o \u00e9 exclusivamente um problema dos pobres, embora sejam eles que mais sofrem com a situa\u00e7\u00e3o de pobreza. \u00c9 um problema nosso enquanto sociedade, porque a pobreza trava o desenvolvimento econ\u00f3mico, p\u00f5e em causa os valores democr\u00e1ticos da nossa sociedade e p\u00f5e em causa, acima de tudo, a coes\u00e3o social. O segundo aspeto tem a ver com um conjunto muito alargado de dados que sa\u00edram e que tiveram um destaque na comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Mas s\u00e3o os dados que o INE (Instituto Nacional de Estat\u00edstica) publicou em novembro do ano passado. Ou seja, s\u00e3o dados que, acima de tudo, retratam a situa\u00e7\u00e3o de 2020. Entretanto, muita \u00e1gua passou por debaixo dos rios e, acima de tudo, muitas altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E a realidade \u00e9 pior?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que em alguns aspetos \u00e9 pior. Noutros, eventualmente, nem tanto. E isso tem a ver com a forma como n\u00f3s analisamos o que s\u00e3o os indicadores oficiais de pobreza e o que \u00e9 a realidade concreta das condi\u00e7\u00f5es de vida. Deixe-me dar-lhe um exemplo. N\u00f3s hoje estamos numa situa\u00e7\u00e3o em que, provavelmente, os rendimentos nominais das fam\u00edlias ou se mantiveram, ou cresceram ligeiramente. Estamos numa situa\u00e7\u00e3o em que o emprego atinge n\u00edveis hist\u00f3ricos. O que \u00e9 que isso significa? Significa que, da forma tradicional como n\u00f3s em Portugal e na Uni\u00e3o Europeia medimos a desigualdade e a pobreza, isso at\u00e9 pode significar um desagravamento da desigualdade e da pobreza.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Se n\u00e3o relacionarmos esses dados com outros&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Agora, o problema \u00e9 que n\u00f3s estamos a fazer a avalia\u00e7\u00e3o da pobreza e da desigualdade a partir de rendimentos nominais quando esta nova situa\u00e7\u00e3o de termos um acr\u00e9scimo do n\u00edvel de pre\u00e7os, que \u00e9 particularmente penalizador para as fam\u00edlias mais pobres, vai significar necessariamente uma forte deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 nesse sentido que lhe perguntava se n\u00e3o \u00e9 preciso um sentido de urg\u00eancia para estas mat\u00e9rias.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso um sentido de urg\u00eancia. Em princ\u00edpio, o INE divulgar\u00e1 os dados referentes a 2021 em novembro deste ano, o que nos permitir\u00e1 ter alguma ideia, n\u00e3o tanto ainda do efeito da infla\u00e7\u00e3o, mas do rescaldo da pandemia. E, portanto, a\u00ed, na minha opini\u00e3o, \u00e9 preciso ter muita aten\u00e7\u00e3o aos indicadores oficiais de pobreza, mas tamb\u00e9m a indicadores de priva\u00e7\u00e3o. Por exemplo, se n\u00f3s tivermos um agravamento da percentagem de fam\u00edlias que t\u00eam dificuldade em pagar \u00e1gua, luz e eletricidade; isso \u00e9 significativo. Portanto, claramente, n\u00f3s temos aqui um conjunto de desafios muito grandes. E, ainda por cima, num contexto de forte incerteza. N\u00f3s n\u00e3o sabemos como \u00e9 que vamos estar daqui a uns meses em termos de infla\u00e7\u00e3o, em termos do desenvolvimento econ\u00f3mico e em termos da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o europeia. Toda esta urg\u00eancia, toda esta incerteza, refor\u00e7a a necessidade de termos uma estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza. E a\u00ed h\u00e1 um primeiro aspeto que eu gostaria de refor\u00e7ar. O que \u00e9 que aconteceu?<\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos a estrat\u00e9gia aprovada em dezembro do ano passado e s\u00f3 agora, com a nomea\u00e7\u00e3o da Dr\u00aa. Sandra Ara\u00fajo, temos condi\u00e7\u00f5es para come\u00e7ar a implementar. Eu faria dois coment\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o a esse atraso. Primeiro, n\u00e3o vejo nenhuma raz\u00e3o para que esse atraso tenha acontecido. Certamente que ter\u00e1 havido boas raz\u00f5es para isso, mas eu n\u00e3o conhe\u00e7o e, de alguma forma, acho que isso penalizou a capacidade de dar respostas integradas \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de pobreza.<\/p>\n<p>H\u00e1 um segundo aspeto que eu penso que \u00e9 extremamente importante, porque de alguma forma, equilibra este aspeto negativo do atraso na implementa\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia, que \u00e9 o seguinte: se n\u00f3s olharmos para um conjunto muito significativo de medidas de \u00e2mbito social que foram tomadas este ano ou que est\u00e3o contempladas no Or\u00e7amento [do Estado para 2023], etc., n\u00f3s podemos verificar que praticamente todas elas se inserem no esp\u00edrito da estrat\u00e9gia. Aquilo que eram os eixos priorit\u00e1rios da estrat\u00e9gia, [como] a defesa das crian\u00e7as, uma preocupa\u00e7\u00e3o acrescida com os jovens, o manter os n\u00edveis de rendimento da popula\u00e7\u00e3o mais idosa. Ou seja, as v\u00e1rias medidas que foram tomadas est\u00e3o claramente imbu\u00eddas do esp\u00edrito da estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ou seja, foram beber ao esp\u00edrito da estrat\u00e9gia nacional?<\/em><\/p>\n<p>Foram beber ao esp\u00edrito da estrat\u00e9gia. T\u00eam impl\u00edcito a exist\u00eancia dessa estrat\u00e9gia. Portanto, de alguma forma, eu n\u00e3o diria que a estrat\u00e9gia esteve em &#8216;stand-by&#8217;. Agora, o facto de n\u00f3s termos demorado estes meses significa que reduzimos a nossa capacidade de criar sinergias, de olhar para o combate \u00e0 pobreza de uma forma mais integrada, como ela exige.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso decorre do qu\u00ea? De falta de vontade pol\u00edtica para definir planos e coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. Embora eu continue a pensar que o problema da pobreza no nosso pa\u00eds \u00e9 essencialmente uma quest\u00e3o de vontade pol\u00edtica, acho que seria um pouco abusivo dizer que foi por falta de vontade pol\u00edtica. Acho que outras raz\u00f5es existir\u00e3o. Agora, a estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza, que foi aprovada o ano passado e que foi amplamente discutida, quer no seio da comiss\u00e3o de que eu fiz parte, quer com v\u00e1rios agentes que no terreno atuam no combate \u00e0 pobreza, t\u00eam uma mensagem que para mim \u00e9 particularmente importante que \u00e9 o seguinte: o combate \u00e0 pobreza n\u00e3o se faz exclusivamente com pol\u00edticas sociais, por mais importante que essas pol\u00edticas sejam. Eu tenho de ser capaz de coordenar praticamente todo o universo das pol\u00edticas p\u00fablicas para o combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ou seja, n\u00e3o bastam abordagens perif\u00e9ricas \u00e9 preciso ir ao centro da quest\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o basta tentarmos resolver o problema imediato das fam\u00edlias mais carenciadas. Eu hoje estou convencido que quando n\u00f3s olhamos para a pobreza, a realidade concreta da pobreza em Portugal, a exist\u00eancia de largas fam\u00edlias com falta de recursos m\u00ednimos continua a ser um problema determinante.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O que falhou no passado foi a capacidade de quebrar ciclos?<\/em><\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m essa capacidade de quebrar ciclos. Mas a falta de recursos continua a ser determinante. \u00c9 ela que, no fundo, permite classificar uma pessoa como pobre ou n\u00e3o. pobre, mas hoje assume cada vez maior import\u00e2ncia a capacidade de acesso a bens e servi\u00e7os m\u00ednimos e isso remete-nos diretamente para as quest\u00f5es da sa\u00fade, da habita\u00e7\u00e3o, da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, os problemas da habita\u00e7\u00e3o s\u00e3o fulcrais na an\u00e1lise da pobreza. As quest\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, por exemplo, durante a pandemia, tivemos a necessidade de tomar medidas que foram profundamente geradoras de desigualdade e cujos efeitos se v\u00e3o sentir durante muitos anos, dependendo, obviamente, da sua intensidade das pol\u00edticas que forem tomadas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falou da quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o. E a infla\u00e7\u00e3o e a subida das taxas de juro n\u00e3o mereciam uma interven\u00e7\u00e3o mais musculada por parte do Governo, em particular junto das muitas fam\u00edlias com dificuldades para o cumprimento dos cr\u00e9ditos \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, porque provavelmente ser\u00e1 um dos problemas mais emergentes num futuro pr\u00f3ximo?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim, ou seja, a quest\u00e3o do cr\u00e9dito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o vai ser fundamental, mas n\u00e3o \u00e9 \u00fanica. Eu acho que de h\u00e1 muito que n\u00f3s n\u00e3o temos uma pol\u00edtica integrada de habita\u00e7\u00e3o que permita resolver problemas. No fundo permita um reajustamento s\u00e3o entre oferta e procura. N\u00f3s olhamos para Lisboa e temos milhares de casas desocupadas. N\u00f3s vemos as dificuldades que os jovens hoje t\u00eam para ter uma habita\u00e7\u00e3o com um m\u00ednimo de dignidade nas principais cidades.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E ainda assim h\u00e1 o receio de muitas pessoas ficarem sem casa&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Porqu\u00ea? Estas interven\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser devidamente pensadas e enquadradas. Deixe-me dar um exemplo. O Governo decidiu face \u00e0 atual crise, n\u00e3o permitir aumentos das rendas no pr\u00f3ximo ano superiores a dois por cento. \u00c9 uma medida com a qual concordo, mas j\u00e1 estamos a perceber que essa medida vai poder, potencialmente, ter efeitos perversos: a n\u00e3o renova\u00e7\u00e3o de contratos das fam\u00edlias que est\u00e3o a terminar o seu prazo de contrato. Ou seja, n\u00e3o basta ter medidas pontuais, temos de ser capazes de as integrar e olhar para elas de uma forma global.<\/p>\n<p>Implementar, p\u00f4r a funcionar a estrat\u00e9gia de uma forma mais efetiva pode ser um contributo muito importante no combate \u00e0 pobreza. A Dr\u00aa Sandra Ara\u00fajo, que foi nomeada como coordenadora, \u00e9 uma pessoa que tem experi\u00eancia do trabalho no terreno. Ela foi durante muitos anos diretora executiva da Rede Europeia Anti-Pobreza. Eu desejo-lhe as maiores felicidades porque vai ter uma tarefa que \u00e9 de primordial import\u00e2ncia, mas dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Agora eu espero que ela tenha capacidade para, de facto, p\u00f4r a estrat\u00e9gia a funcionar.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_218165\" aria-describedby=\"caption-attachment-218165\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-218165\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-218165\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Falava ainda agora da quest\u00e3o de as medidas terem de ser avaliadas no seu conjunto, no conjunto do setor a que se destinam.\u00a0Gravamos esta entrevista no dia em que o Governo come\u00e7ou a efetuar o pagamento extraordin\u00e1rio aos pensionistas e na v\u00e9spera de um conjunto significativo de portugueses verem cair na sua conta banc\u00e1ria 125 euros, como forma de tentar minimizar os efeitos da crise que vivemos.\u00a0J\u00e1 tem uma ideia concreta sobre a efic\u00e1cia destas medidas?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que esse impacto vai ser relativamente limitado, embora seja simultaneamente extremamente importante para as fam\u00edlias mais carenciadas. Agora \u00e9 uma ajuda, mas mais uma vez aqui \u00e9 o problema da forma como n\u00f3s jogamos com a implementa\u00e7\u00e3o de medidas pontuais que se n\u00e3o forem enquadradas numa vis\u00e3o mais global -n\u00e3o direi que s\u00e3o in\u00fateis, que n\u00e3o s\u00e3o-; s\u00e3o importantes, mas perdem a sua capacidade transformadora.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7amos por abordar a quest\u00e3o do atraso na implementa\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza. Ainda estamos a tempo de recuperar o tempo perdido. Perdeu-se o objetivo de fazer deste combate um des\u00edgnio nacional?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. A estrat\u00e9gia vai at\u00e9 2030. Este atraso, como eu referi, n\u00e3o \u00e9 despiciente. Agora, se se avan\u00e7ar rapidamente com a constitui\u00e7\u00e3o de toda a estrutura que vai gerir a pr\u00f3pria estrat\u00e9gia. Se se avan\u00e7ar rapidamente com a elabora\u00e7\u00e3o de planos trianuais para definir quais s\u00e3o os objetivos imediatos, quais s\u00e3o as metas que se pretendem alcan\u00e7ar num horizonte de dois, tr\u00eas anos, isso ser\u00e1 um passo importante. Portanto, eu penso que claramente n\u00e3o \u00e9 algo que est\u00e1 perdido. Continua a ser uma estrutura estruturante &#8211; passe a redund\u00e2ncia &#8211; para n\u00f3s combatermos a pobreza.<\/p>\n<p>O segundo especto que me tinha colocado, que era do des\u00edgnio nacional.<\/p>\n<p>Deixe me dizer-lhe que quando n\u00f3s est\u00e1vamos na comiss\u00e3o que elaborou a estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza, eu fui daqueles que propus e que lutei muito para que essa meta e esse objetivo ficasse plasmado na estrat\u00e9gia. Porqu\u00ea? Porque eu estou convencido que s\u00f3 conseguimos resolver o problema da pobreza em Portugal se ele se tornar um fator mobilizador do conjunto da sociedade. \u00a0E isso remete para o primeiro aspeto que referi. O problema da pobreza n\u00e3o \u00e9 um problema dos pobres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema do Estado\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema do Estado, claro que n\u00e3o. Mas deixe-me dar-lhe um exemplo que permite situar isso. Aqui j\u00e1 h\u00e1 muitos anos, quando eu comecei a estudar as quest\u00f5es da pobreza; eu, como a generalidade dos investigadores nesta \u00e1rea, chegamos a esta \u00e1rea a partir da perce\u00e7\u00e3o muito clara da profunda injusti\u00e7a que \u00e9 a exist\u00eancia de largos setores da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. Eu hoje continuo a ter essa mesma perce\u00e7\u00e3o. Mas eu sou economista. Olho para a realidade de uma forma, enfim, n\u00e3o direi diferente, mas com outros instrumentos. E eu hoje tamb\u00e9m estou convencido de que os n\u00edveis de pobreza e os n\u00edveis de desigualdade que n\u00f3s temos s\u00e3o um obst\u00e1culo poderos\u00edssimo para o desenvolvimento econ\u00f3mico e para o crescimento econ\u00f3mico. Portanto, o combate \u00e0 pobreza e \u00e0 desigualdade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por uma quest\u00e3o de equidade e justi\u00e7a social. E s\u00f3 por isso valia a pena. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um instrumento fundamental para termos um desenvolvimento sustentado no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos de muitas medidas direcionadas para os setores mais fr\u00e1geis da sociedade. Com o agravar da crise e do potencial aumento dos fatores de exclus\u00e3o social e pobreza, h\u00e1 um desgaste significativo no outro setor, aquilo que chamar\u00edamos a classe m\u00e9dia, que coloca mais pessoas em risco de pobreza?<\/em><\/p>\n<p>Quando olhamos para a desigualdade e a evolu\u00e7\u00e3o da desigualdade, ao longo do tempo, passamos de um paradigma de \u2018pobres vs. ricos\u2019 para algo que hoje \u00e9 cada vez mais relevante, na minha opini\u00e3o: os muito ricos contra o conjunto da sociedade, a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza no topo da distribui\u00e7\u00e3o &#8211; entre os 1 ou 2% mais ricos. \u00c9 algo que n\u00e3o s\u00f3 em Portugal, mas a n\u00edvel dos pa\u00edses mais desenvolvidos, tem tido um aprofundamento claramente perigoso para a pr\u00f3pria coes\u00e3o social.<\/p>\n<p>Hoje temos de ter medidas para o combate \u00e0 pobreza, mas h\u00e1 tamb\u00e9m que garantir que largos setores da popula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o de pobreza, mas que sofrem os efeitos da crise, tenham tamb\u00e9m capacidade de resistir e de enfrentar com os instrumentos adequados esta crise.<\/p>\n<p>Dito de outra forma, o facto de n\u00f3s defendermos medidas muito espec\u00edficas, na sua incid\u00eancia, sobre a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, n\u00e3o significa que n\u00e3o se deva pugnar por garantir um desenvolvimento mais sustentado, mais equilibrado do conjunto da sociedade.<\/p>\n<p>Entrando agora em aspetos um pouco mais t\u00e9cnicos, \u00e9 extraordinariamente dif\u00edcil dizer o que \u00e9 ser classe m\u00e9dia, hoje, em Portugal. Temos n\u00edveis limiares de pobreza \u00e0 volta dos 500 euros: o que \u00e9 que eu direi de uma pessoa que ganha 2000 euros? \u00c9 rico? \u00c9 classe m\u00e9dia? H\u00e1 aqui uma zona cinzenta. H\u00e1 uma larga zona na escala dos rendimentos que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, mas claramente t\u00eam n\u00edveis de fragilidade que \u00e9 preciso ter em conta, at\u00e9 para evitar o risco que uma parte significativa dessas pessoas caia em situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E n\u00e3o falamos aqui dos fen\u00f3menos da pobreza envergonhada que ganha cada vez maior dimens\u00e3o e que se calhar n\u00e3o cresce mais, dado o apoio da fam\u00edlia&#8230;<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de pobreza que n\u00e3o s\u00e3o detetadas pelas estat\u00edsticas oficiais. Quando n\u00f3s vemos os indicadores de pobreza que o INE e o Eurostat publicam anualmente, muitas vezes esquecemos que toda a popula\u00e7\u00e3o sem-abrigo n\u00e3o \u00e9 abrangida, que h\u00e1 uma parte da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pobre e exclu\u00edda materialmente, mas \u00e9 tamb\u00e9m autoexclu\u00edda das pr\u00f3prias estat\u00edsticas sobre a pobreza. Isso \u00e9 um problema que esta estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza tamb\u00e9m deve ter em conta. Temos pobreza envergonhada, temos igualmente franjas da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza que n\u00e3o s\u00e3o facilmente detet\u00e1veis.<\/p>\n<p>Uma das li\u00e7\u00f5es que tiramos da pandemia \u00e9 que, em crises anteriores, nomeadamente durante o per\u00edodo da troika, n\u00f3s sab\u00edamos que havia um conjunto vasto de fam\u00edlias que, apesar de n\u00e3o terem rendimentos formais conhecidos, conseguiam sobreviver \u00e0 custa da economia informal, com biscates, com sistemas v\u00e1rios. O que aconteceu durante a pandemia, durante aquele per\u00edodo em que tudo parou? Essas atividades, que serviam quase como uma almofada \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de pobreza mais extrema, deixaram de funcionar. Descobrimos uma realidade de que n\u00e3o t\u00ednhamos uma consci\u00eancia muito profunda: estas fam\u00edlias, porque est\u00e3o fora do mercado formal de emprego, est\u00e3o tamb\u00e9m fora dos mecanismos tradicionais de prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>De repente, n\u00f3s vimo-nos com uns largos milhares de fam\u00edlias que n\u00e3o tinham nada, que tinham por via da pandemia, ficavam completamente desprotegidas. A forma de responder a isso foi, na altura, tentar dar o apoio poss\u00edvel a essas fam\u00edlias, mas foi tamb\u00e9m, ou pelo menos deveria ter sido &#8211; \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o que eu, pessoalmente, ainda n\u00e3o tenho &#8211; uma tentativa de clara de os integrar na economia formal, para que eles sejam trabalhadores de pleno direito, com todos os direitos e tamb\u00e9m todos os deveres que est\u00e3o associados e que tenham acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na \u00faltima semana, a Igreja Cat\u00f3lica promoveu em F\u00e1tima um encontro nacional da Pastoral Social, no qual se disse que, face ao agravamento das condi\u00e7\u00f5es de desigualdade e da pobreza, \u00e9 poss\u00edvel que as pessoas se vejam obrigadas a escolher entre a alimenta\u00e7\u00e3o e os medicamentos?<\/em><\/p>\n<p>Nalgumas fam\u00edlias isso pode acontecer. N\u00f3s n\u00e3o temos ainda dados concretos que nos permita responder a essa quest\u00e3o. A infla\u00e7\u00e3o, \u00e9 ela, em si mesma, um fator de desigualdade, porque quando n\u00f3s temos uma subida dos bens de primeira necessidade, \u00e9 f\u00e1cil perceber que, na estrutura das despesas das fam\u00edlias mais pobres, esses bens t\u00eam um peso maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O peso relativo \u00e9 muito maior\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, aquilo que nos designamos por \u201cshare\u201d do rendimento gasto nessas despesas \u00e9 muito maior e, portanto, o efeito \u00e9 imediato. Quando n\u00f3s olhamos para o efeito do pre\u00e7o dos combust\u00edveis, vai muito para al\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e atinge largos setores da classe m\u00e9dia. Mas os principais efeitos da infla\u00e7\u00e3o incidem muito sobre a popula\u00e7\u00e3o mais pobre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_218164\" aria-describedby=\"caption-attachment-218164\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-218164\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Carlos-Farinha-Rodrigues-2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-218164\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Para fazer face a todos estes problemas, precisamos, de facto, de um Estado Social forte. Do percurso efetuado at\u00e9 agora, at\u00e9 ao momento com que identificou, vivemos de facto, ao lado desse Estado social forte?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s temos um Estado Social que, historicamente, come\u00e7ou tarde e que ainda tem muitas insufici\u00eancias, sendo fortemente condicionado pelas restri\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas. \u00c9 evidente que as medidas seriam diferentes, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o d\u00e9fice e a d\u00edvida que temos. Portanto, h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas fortes, mas n\u00e3o tenho d\u00favidas que o caminho a perseguir \u00e9 o do refor\u00e7o do Estado Social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E, nessa perspetiva, o Programa de Resolu\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia, a famosa bazuca, seria importante para esse refor\u00e7o do Estado Social, em liga\u00e7\u00e3o a outros outras pol\u00edticas p\u00fablicas, nomeadamente a Agenda 20-30?<\/em><\/p>\n<p>Deixe-me referir que n\u00f3s, em rela\u00e7\u00e3o ao Estado Social, sempre tivemos algumas vozes cr\u00edticas que s\u00e3o perfeitamente leg\u00edtimas. Eu discordo, mas admito perfeitamente que se possa defender que n\u00e3o deve existir um Estado Social. Acho que uma das poucas vantagens desta pandemia \u00e9 que mostrou claramente a necessidade da exist\u00eancia de um Estado Social t\u00e3o forte quanto poss\u00edvel. As consequ\u00eancias da pandemia seriam muito mais dr\u00e1sticas se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos a interven\u00e7\u00e3o do Estado. Isso levou a que alguns dos defensores do fim do Estado Social, n\u00e3o mudassem de opini\u00e3o, mas estivessem calados durante algum tempo. Acho que mudar de opini\u00e3o n\u00e3o mudaram e brevemente iremos ouvi-los novamente.<\/p>\n<p>O segundo aspeto \u00e9 particularmente importante: como \u00e9 que a estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza joga com o Plano de Recupera\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica e com o Plano 20-30.<\/p>\n<p>Eu fa\u00e7o parte da Comiss\u00e3o de Acompanhamento do PRR, exatamente nas \u00e1reas sociais. Em rela\u00e7\u00e3o ao PRR, pode haver aqui, se bem aplicado, um papel fundamental na resolu\u00e7\u00e3o de alguns problemas estruturais.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco fal\u00e1vamos na habita\u00e7\u00e3o. O PRR \u00e9 essencialmente um plano de investimentos e, nesse sentido, se conseguirmos implementar aquilo que est\u00e1 previsto\u2026 h\u00e1 dificuldades v\u00e1rias, n\u00e3o \u00e9 um caminho f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas vai lutar por isso?<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim. Um segundo aspeto tem a ver com o Plano 20-30, no qual j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ter medidas mais direcionadas para o apoio direto \u00e0s fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de maior pobreza. H\u00e1 algum atraso, mas espero que ele seja implementado de forma eficiente. N\u00f3s precisamos, cada vez mais, de ser capazes de fazer uma avalia\u00e7\u00e3o dos impactos, transformadores ou n\u00e3o, de cada uma das medidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos basta ter um relat\u00f3rio e dizer \u201cn\u00f3s gastamos 95% do que estava previsto, \u00e9 muito bom\u201d. N\u00e3o. O que \u00e9 importante \u00e9 saber o que mudou com aquilo que se gastou. E nesse sentido, j\u00e1 extravasando um pouco a quest\u00e3o da pobreza, mas com impacto importante, devemos ser capazes de avaliar os impactos transformadores das pol\u00edticas p\u00fablicas, em particular estas que t\u00eam uma grande componente de investimento ou de transfer\u00eancias monet\u00e1rias.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>As institui\u00e7\u00f5es sociais podem e devem ser um parceiro mais eficaz no combate \u00e0 desigualdade?<\/em><\/p>\n<p>O combate \u00e0 pobreza n\u00e3o pode ser exclusivamente do Estado, da\u00ed dizer que \u00e9 necess\u00e1rio fazer do combate \u00e0 pobreza um des\u00edgnio nacional. Muitas das organiza\u00e7\u00f5es que trabalham diretamente com a popula\u00e7\u00e3o pobre t\u00eam um papel fundamental. Quando olhamos para a atua\u00e7\u00e3o dessas institui\u00e7\u00f5es no terreno, podemos chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que estas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o a porta de entrada, s\u00e3o a entrada de emerg\u00eancia, quando uma pessoa cai numa situa\u00e7\u00e3o extremamente dif\u00edcil. Em vez de ir primeiro ao Estado, se calhar \u00e9 a primeira porta onde v\u00e3o bater s\u00e3o essas institui\u00e7\u00f5es, porque est\u00e3o mais pr\u00f3ximas. Tem a ver com as caracter\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o e, nesse sentido, s\u00e3o extraordinariamente importantes.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o destas institui\u00e7\u00f5es tem de ser complementar da interven\u00e7\u00e3o do Estado e n\u00e3o pode ser nunca um pretexto para dispensar a interven\u00e7\u00e3o do Estado. Depois, na forma de funcionamento destas institui\u00e7\u00f5es, h\u00e1 aspetos em que ganhar\u00edamos muito se fossem mudados. Por exemplo, hoje o acompanhamento dos benefici\u00e1rios do RSI \u00e9, em grande parte do pa\u00eds, efetuado por Institui\u00e7\u00f5es de Solidariedade Social, umas trabalhando muito bem, outras trabalhando um pouco menos bem.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o temos um mecanismo que permita avaliar o que \u00e9 que cada uma dessas institui\u00e7\u00f5es faz, dizendo \u201cesta Institui\u00e7\u00e3o A teve um desempenho excecional, esta experi\u00eancia deve ser exportada para outros\u201d ou \u201cesta Institui\u00e7\u00e3o B cometeu erros e n\u00f3s dev\u00edamos fazer com que eles n\u00e3o sejam repetidos\u201d. Tamb\u00e9m aqui a estrat\u00e9gia pode ter um aspeto importante. Temos de ser capazes de p\u00f4r estas v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es do Estado e institui\u00e7\u00f5es de solidariedade em di\u00e1logo e em colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 um \u00faltimo aspeto que tamb\u00e9m gostaria de referir: quando olhamos para o que tem sido o combate \u00e0 pobreza em Portugal, geralmente falamos na interven\u00e7\u00e3o do Estado e nas Institui\u00e7\u00f5es de Solidariedade Social. H\u00e1 aqui um grande ausente: o poder local, as autarquias.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 muitas autarquias com um papel fundamental e que t\u00eam desenvolvido, ao longo dos anos, atividades important\u00edssimas no combate \u00e0 pobreza. Mas geralmente n\u00e3o falamos nas autarquias quando falamos no combate \u00e0 pobreza. Para mim, tamb\u00e9m as autarquias devem ser chamadas a esta discuss\u00e3o sobre quais as melhores formas de alterar a nossa sociedade, para que ela n\u00e3o gere tanta desigualdade e tanta pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acontecer\u00e1 quando tivermos um pa\u00eds regionalizado?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me preocupa muito qual \u00e9 a forma administrativa com que isso se vai realizar. Para mim, o importante \u00e9 que seja um processo inclusivo, que todas estas institui\u00e7\u00f5es, que no fundo t\u00eam um mandato para defender as popula\u00e7\u00f5es &#8211; seja ele resultante de elei\u00e7\u00f5es ou da confian\u00e7a que a comunidade deposita em certas institui\u00e7\u00f5es- todas elas sejam chamadas a este des\u00edgnio nacional que \u00e9 o combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":218163,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[314],"class_list":["post-257199","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257199\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/218163"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}