{"id":25715,"date":"2007-07-04T13:13:54","date_gmt":"2007-07-04T13:13:54","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/07\/04\/darfur-as-balas-e-o-fogo\/"},"modified":"2007-07-04T13:13:54","modified_gmt":"2007-07-04T13:13:54","slug":"darfur-as-balas-e-o-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/darfur-as-balas-e-o-fogo\/","title":{"rendered":"Darfur: As balas e o fogo"},"content":{"rendered":"<p>Awad tem uns 30 anos. Casou com Ibtissam, Sorriso. T\u00eam um filhote, Bahkit, e s\u00e3o do Darfur \u2013 a casa dos Fur \u2013, a prov\u00edncia ocidental do Sud\u00e3o. Viviam em Khur el Bashar, perto de El Fashir. Os \u00abjanjauid\u00bb, as mil\u00edcias \u00e1rabes, atacaram a aldeia: casas queimadas, mulheres violadas, dezenas de mortos, gado roubado. Os sobreviventes refugiaram-se em Manauachi. Tr\u00eas meses depois decidiram voltar. Pensavam que o furac\u00e3o de morte tinha passado. Mas enganaram-se. Os ginetes \u2013 \u00e9 este o significado de \u00abjanjauid\u00bb em \u00e1rabe \u2013 voltaram montados em camelos e cavalos para secar a aldeia da sua gente. Khur el Bashar significa torrente do homem. Tr\u00eas anos depois do \u00faltimo ataque \u00e9 um leito seco sem vivalma.  Awad \u00e9 agricultor como a maioria dos mu\u00e7ulmanos negros do Darfur. \u00abTrabalhava nos campos, sempre tive o suficiente para a minha fam\u00edlia e para os meus pais. Agora vivo no campo de deslocados de Dereje. Todos os dias vou a Nyala \u00e0 procura de trabalho. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A cidade est\u00e1 cheia de desempregados como eu. V\u00eam dos campos de Dereje e de Kalma. A minha mulher cuida do menino e trabalha na Organiza\u00e7\u00e3o de Benefic\u00eancia. Ganha alguns dinars\u00bb, Awad diz. \u00abMas a maioria dos deslocados limita-se a ficar no campo por fraqueza, doen\u00e7a ou pela idade\u00bb, conclui.   <b>Genoc\u00eddio<\/b> A guerra civil do Darfur come\u00e7ou em Fevereiro de 2003. Rebeldes do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Sud\u00e3o (SLA) e mais tarde o Movimento de Justi\u00e7a e Igualdade (JEM) \u2013 as siglas correspondem aos nomes em ingl\u00eas \u2013, pegaram em armas contra Cartum, acusando o governo do Sud\u00e3o de descriminar os agricultores negros em favor dos pastores \u00e1rabes. O Governo de Omar el Bashir respondeu com as mil\u00edcias \u00abjanjauid\u00bb. Em quatro anos, mais de 200 mil pessoas morreram, 2,5 milh\u00f5es foram deslocados e quatro milh\u00f5es carecem de ajuda. Cerca de 1500 aldeias foram apagadas do mapa. O genoc\u00eddio alastrou ao Chade e \u00e0 Rep\u00fablica Centro-Africana. Os \u00abjanjauid\u00bb atacam al\u00e9m-fronteiras e come\u00e7am a matar \u00e1rabes. Nos desertos in\u00f3spitos do leste do Chade vivem 235 mil refugiados sudaneses e 140 mil deslocados internos chadianos. Todos fogem da limpeza \u00e9tnica dos janjauid.   <b>Respostas <\/b> As Na\u00e7\u00f5es Unidas montaram no Darfur uma vasta opera\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria. Catorze mil funcion\u00e1rios tentam aliviar as necessidades de quatro milh\u00f5es de v\u00edtimas do conflito. A sua ac\u00e7\u00e3o, contudo, \u00e9 limitada pela inseguran\u00e7a. A Uni\u00e3o Africana (UA) destacou 7000 homens para a regi\u00e3o. A Miss\u00e3o [da Uni\u00e3o] Africana no Sud\u00e3o (AMIS em ingl\u00eas) est\u00e1 no Darfur desde Junho de 2004 mas \u00e9 incapaz de travar a matan\u00e7a dos \u00abjanjauid\u00bb. Os soldados s\u00e3o poucos, mal armados e mal treinados. Kofi Annan, ex-secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, prop\u00f4s refor\u00e7ar a AMIS com uma for\u00e7a h\u00edbrida de 23 mil soldados da ONU e da UA. Omar el Bashir n\u00e3o aceita. Nega que haja viola\u00e7\u00f5es no Darfur, diz que \u00abno Sud\u00e3o somos todos negros\u00bb, que as v\u00edtimas dos confrontos tribais n\u00e3o passam os 9000, que o contingente africano chega para patrulhar uma \u00e1rea do tamanho da Fran\u00e7a. Entretanto, permitiu que 3000 pol\u00edcias e militares da ONU d\u00eaem apoio t\u00e9cnico \u00e0 AMIS, incluindo heli-canh\u00f5es.   <b>Alvos civis <\/b> O Conselho dos Direitos Humanos da ONU enviou uma miss\u00e3o ao Darfur em Fevereiro passado. Os delegados escreveram que a situa\u00e7\u00e3o do Darfur \u00e9 \u00abcaracterizada pela viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e brutal dos direitos humanos e infrac\u00e7\u00f5es graves da lei humanit\u00e1ria internacional\u00bb. E continuam: \u00abA matriz principal [do conflito] \u00e9 uma campanha violenta de contra-revolta levada a cabo pelo governo do Sud\u00e3o em concerto com os Janjauid\/mil\u00edcias, alvejando sobretudo civis\u00bb. O relat\u00f3rio denuncia pr\u00e1ticas constantes de assass\u00ednios, tortura, viola\u00e7\u00e3o, deslocamentos for\u00e7ados e pris\u00f5es arbitr\u00e1rias. A ONU acusa as for\u00e7as armadas do Sud\u00e3o de atacar alvos civis com avi\u00f5es e ve\u00edculos pintados com as marcas da AMIS.   <b>Cen\u00e1rio complexo <\/b> H\u00e1 vastos interesses em jogo no tabuleiro do Darfur. Os Estados Unidos denunciaram o genoc\u00eddio, mas limitam-se a amea\u00e7as. O Sud\u00e3o tornou-se fonte importante de informa\u00e7\u00e3o e um aliado na luta norte-americana contra o terrorismo internacional. A China, por seu turno, protege Cartum das san\u00e7\u00f5es no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU com o direito de veto. O Sud\u00e3o \u00e9 o seu maior fornecedor de petr\u00f3leo e parceiro econ\u00f3mico importante. A L\u00edbia e a Eritreia querem vigiar a fronteira entre o Chade e o Sud\u00e3o. A Liga \u00c1rabe e o Egipto tentam manter o di\u00e1logo entre El Bashir e Ban Ki-moon, o secret\u00e1rio-geral da ONU. O Governo semi-aut\u00f3nomo do Sul do Sud\u00e3o criou uma miss\u00e3o especial para o Darfur e quer organizar uma cimeira com todas as for\u00e7as rebeldes. A comunidade internacional est\u00e1 focalizada no Oeste do Sud\u00e3o e o Sul n\u00e3o est\u00e1 a receber as ajudas nem os investimentos que esperava.   <b>Lideran\u00e7a europeia <\/b> O governo de Al Bashir divide para reinar, diz que sim hoje e que n\u00e3o amanh\u00e3 e s\u00f3 se sentar\u00e1 \u00e0 mesa das negocia\u00e7\u00f5es se a tal for for\u00e7ado atrav\u00e9s de uma diplomacia musculada com medidas punitivas concretas. Especialistas defendem que a presen\u00e7a de uma for\u00e7a h\u00edbrida de 23 mil soldados no Darfur tem que ser complementada com o congelamento das contas sudanesas no estrangeiro, a interdi\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o a\u00e9reo do Darfur, a limita\u00e7\u00e3o das viagens da lideran\u00e7a sudanesa ao exterior e a liga\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio de Darfur \u00e0s Olimp\u00edadas de Pequim de 2008.  Cabe \u00e0 Uni\u00e3o Europeia (UE) liderar uma ofensiva diplom\u00e1tica que force Cartum a encontrar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para o Darfur atrav\u00e9s de um Acordo Compreensivo de Paz entre todas as partes envolvidas como aconteceu com a guerra civil no Sul do Sud\u00e3o. O Acordo de Paz assinado entre Cartum e uma fac\u00e7\u00e3o do SLA a 5 de Maio de 2006 morreu \u00e0 nascen\u00e7a. A Rolls Royce abriu caminho. A empresa brit\u00e2nica fornecia motores \u00e0 ind\u00fastria petrol\u00edfera sudanesa, mas suspendeu todas as actividades no pa\u00eds em protesto pelo que se passa no Darfur. Cabe \u00e0 sociedade civil europeia pressionar os seus l\u00edderes para porem termo ao genoc\u00eddio no Oeste do Sud\u00e3o. E sobretudo a Portugal na hora em que Jos\u00e9 S\u00f3crates assume a presid\u00eancia da UE. Para Ibtissam cumprir o seu nome e voltar a sorrir.   <i>Pe. Jos\u00e9 Vieiria, jornalista no Sul do Sud\u00e3o com Feliz Martins, Mission\u00e1rio Comboniano no Darfur &#8211; Texto Conjunto da Miss\u00e3oPress, Associa\u00e7\u00e3o da Imprensa Mission\u00e1ria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Awad tem uns 30 anos. Casou com Ibtissam, Sorriso. T\u00eam um filhote, Bahkit, e s\u00e3o do Darfur \u2013 a casa dos Fur \u2013, a prov\u00edncia ocidental do Sud\u00e3o. Viviam em Khur el Bashar, perto de El Fashir. 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