{"id":256194,"date":"2022-10-12T13:17:50","date_gmt":"2022-10-12T12:17:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=256194"},"modified":"2022-10-12T13:17:50","modified_gmt":"2022-10-12T12:17:50","slug":"saber-aprender-que-a-realidade-e-relacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-que-a-realidade-e-relacional\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; Que a realidade \u00e9 relacional"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 2005, o modo como eu compreendia o mundo iria alterar-se radicalmente. Encontrava-me em It\u00e1lia para um congresso do EcoOne, uma iniciativa cultural do Movimento dos Focolares dedicada \u00e0s quest\u00f5es ecol\u00f3gicas, e um dos fundadores desta iniciativa, o fil\u00f3sofo S\u00e9rgio Rondinara, perguntou \u2014 <em>\u00abqual a marca de Deus na cria\u00e7\u00e3o?\u00bb<\/em> Ocorreram-me algumas coisas, mas n\u00e3o esperava a sua resposta\u2014 <em>a relacionalidade<\/em>. E a partir daquele momento, o mundo era totalmente diferente para mim.<\/p>\n<figure id=\"attachment_256195\" aria-describedby=\"caption-attachment-256195\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-256195\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/priscilla-du-preez-VTE4SN2I9s0-unsplash-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-256195\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Priscilla Du Preez em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>A ideia de que tudo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com tudo na natureza vem do tempo do explorador Alexander von Humboldt. Depois, durante aquele encontro, lemos juntos uma carta que Chiara Lubich, a fundadora dos Focolares, tinha escrito como manifesto do EcoOne, onde acrescentava \u2014 <em>\u00abtudo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o <strong>de amor<\/strong> com tudo\u00bb<\/em> \u2014 E, finalmente, o Papa Francisco na <em>Laudato Si\u2019<\/em> torna esta ideia fundacional da nossa compreens\u00e3o da natureza, uma ideia-chave da leitura crist\u00e3 para a vida espiritual. Outra coisa n\u00e3o seria de esperar quando a experi\u00eancia de Deus \u00e9 a de um Deus-Trindade. O que me levou a n\u00e3o ficar admirado com a linha interpretativa que est\u00e1 a emergir na Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo que Carlo Rovelli tem disseminado uma vis\u00e3o relacional da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica partilhada por outros f\u00edsicos como Lee Smolin e a portuguesa Marina Cort\u00eas. Nessa vis\u00e3o, os objectos n\u00e3o existem se n\u00e3o estiverem em rela\u00e7\u00e3o entre si. Apesar de n\u00e3o haver ainda um teste para verificar esta teoria, a intui\u00e7\u00e3o dos f\u00edsicos alinha-se com a de Alexander von Humboldt, Sergio Rondinara, Chiara Lubich, o Papa Francisco, e tantos outros das mais diversas \u00e1reas do saber humano. A ideia principal \u00e9 a de uma vis\u00e3o relacional do mundo. Quer isso dizer que posso percepcionar a minha exist\u00eancia ao relacionar-me com a porta de um carro?<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o foi-me feita pelo fil\u00f3sofo Manuel Curado em 2009. Na altura, n\u00e3o sabia se estava a gozar com a vis\u00e3o relacional que havia partilhado numa comunica\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito de um congresso dedicado a Darwin, ou estaria a fazer-me, seriamente, a quest\u00e3o. Acho que estava a gozar&#8230; Mas a orienta\u00e7\u00e3o que Rovelli e outros est\u00e3o a dar aos desenvolvimentos da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica aponta para a resposta \u2014 <em>Sim.\u00bb<\/em> \u2014 que dei ao Manuel Curado. Por\u00e9m, da mesma forma que o relacionamento que tinha com a minha filha beb\u00e9 n\u00e3o \u00e9 o mesmo, agora, que entrou na fase adulta, tamb\u00e9m os relacionamentos possuem diferentes graus de viv\u00eancia e n\u00e3o podemos reduzi-los ao mesmo tipo.<\/p>\n<p>Num mundo em que empresas como a Meta, pretendem voltar o nosso olhar e exist\u00eancia para realidades virtuais, se temos dificuldade em distinguir a realidade-tal-qual-\u00e9 sem a digitaliza\u00e7\u00e3o, temo que esta \u00faltima possa agravar a t\u00e9nue percep\u00e7\u00e3o que temos da realidade f\u00edsica experimentada atrav\u00e9s dos relacionamentos. Do mesmo modo que uma casa precisa de bons alicerces, a percep\u00e7\u00e3o da realidade precisa de alicerces assentes na relacionalidade. Eu, por mim pr\u00f3prio, sou muito limitado naquilo que conhe\u00e7o e compreendo daquilo que conhe\u00e7o, mas ao relacionar-me com outras pessoas, assento o que informa a minha vis\u00e3o do mundo na partilha dessa vis\u00e3o com os outros. Por esse motivo, \u00e9 de extremo valor termos relacionamentos com pessoas que pensam de forma diferente de n\u00f3s. Um desafio, certamente.<\/p>\n<p>Recentemente ouvi os argumentos do te\u00f3logo e fil\u00f3sofo Luis Manuel Pereira da Silva sobre as raz\u00f5es que fazem da lei da eutan\u00e1sia, uma lei m\u00e1. Revi-me na l\u00f3gica e nos argumentos. E quando percebi que a primeira pessoa que interagiu com o Luis era a deputada Isabel Moreira, pessoalmente, fiquei logo de p\u00e9 atr\u00e1s por discordar em muito sobre a forma de argumenta\u00e7\u00e3o desta deputada que me parece mais fechada sobre si mesma, do que aberta \u00e0 vis\u00e3o dos outros. Realmente, a interven\u00e7\u00e3o de Isabel Moreira come\u00e7a por salientar as clivagens e da\u00ed n\u00e3o passou. Isso n\u00e3o deveria acontecer quando vivemos a realidade como relacional, assim como eu n\u00e3o devia estar de p\u00e9 atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o a pessoas que t\u00eam vis\u00f5es diferentes da minha.<\/p>\n<p>Saber aprender que a realidade \u00e9 relacional implica estar atento \u00e0 opini\u00e3o diferente da minha porque dessa diferen\u00e7a surgem compreens\u00f5es novas e impensadas. A mec\u00e2nica qu\u00e2ntica assenta muito do papel que a observa\u00e7\u00e3o de algo na decis\u00e3o sobre o que existe ou n\u00e3o. Assim, se a vis\u00e3o relacional estiver correcta, e a exist\u00eancia depender antes da interac\u00e7\u00e3o das coisas entre si, os relacionamentos abertos \u00e0 mudan\u00e7a (nem que seja de opini\u00e3o) seria um elemento chave para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Contudo, o que \u00e9 mesmo a realidade? Honestamente, n\u00e3o sei. E neste n\u00e3o saber abre-se uma via relacional de aprofundamento rec\u00edproco entre o meu saber e o saber dos outros. Ali\u00e1s, quando criticamos o valor das opini\u00f5es por serem subjectivas, na relacionalidade, as opini\u00f5es tornam-se inter-subjectivas e mant\u00eam uma cultura de abertura \u00e0 vis\u00e3o da realidade que o relacionamento com o outro revela.<\/p>\n<p>O facto de Rovelli reconhecer que n\u00e3o existe teste ainda para esta vis\u00e3o relacional da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica poderia demover qualquer um de a explorar melhor. Mas Rovelli diz que \u2014 <em>\u00aba ci\u00eancia n\u00e3o se restringe \u00e0s coisas directamente test\u00e1veis. Procura, tamb\u00e9m, a estrutura conceptual certa, uma que funcione.\u00bb<\/em> \u2014 mas quando na entrevista fala sobre as realidades \u00faltimas, afirma que \u2014 <em>\u00abdever\u00edamos sair da atitude mental de que a realidade \u00faltima \u00e9 mat\u00e9ria ou linguagem ou Deus ou mente ou esp\u00edrito.\u00bb<\/em> Eu percebo a ideia de quem n\u00e3o acredita em Deus, ao consider\u00e1-Lo como uma coisa entre outras coisas, ou uma explica\u00e7\u00e3o entre outras explica\u00e7\u00f5es, mas aqui a vis\u00e3o relacional deveria procurar entrar mais em di\u00e1logo com a teologia. Pois, a realidade \u00faltima n\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, mais uma entre v\u00e1rias realidades.<\/p>\n<p>A intui\u00e7\u00e3o presente na experi\u00eancia crist\u00e3 de um Deus-Trindade \u00e9 a de que a Realidade \u00daltima n\u00e3o passa de um construto humano que nos mant\u00e9m abertos ao novo. Isto \u00e9, dizer \u2014 <em>\u00abN\u00e3o sei.\u00bb<\/em> \u2014 perante aquilo que pensamos ser a Realidade \u00daltima \u00e9 muito mais do que um reconhecimento humilde. \u00c9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de quem tem uma atitude mental aberta que reconhece a import\u00e2ncia dos relacionamentos para n\u00e3o se fechar na omnipot\u00eancia das suas opini\u00f5es. E dessa <em>douta ignor\u00e2ncia<\/em> se abrem vias criativas relacionais que revelam como sozinhos, h\u00e1 quem chegue mais r\u00e1pido, mas que juntos, todos chegaremos mais longe.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-256194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=256194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256194\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=256194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=256194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=256194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}