{"id":255053,"date":"2022-10-02T09:30:05","date_gmt":"2022-10-02T08:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=255053"},"modified":"2022-10-01T11:58:26","modified_gmt":"2022-10-01T10:58:26","slug":"idosos-a-resposta-e-poder-ficar-em-casa-ate-ao-mais-tarde-possivel-antonio-tavares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/idosos-a-resposta-e-poder-ficar-em-casa-ate-ao-mais-tarde-possivel-antonio-tavares\/","title":{"rendered":"Idosos: \u00abA resposta \u00e9 poder ficar em casa at\u00e9 ao mais tarde poss\u00edvel\u00bb &#8211; Ant\u00f3nio Tavares"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->O Dia Internacional do Idoso \u00e9 comemorado anualmente a 1 de outubro. Criada em 1991 pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), a data objetiva sensibilizar a sociedade mundial para as quest\u00f5es do envelhecimento, destacando a necessidade de prote\u00e7\u00e3o e de cuidados para com essa popula\u00e7\u00e3o. O lema deste ano \u00e9 \u201cResili\u00eancia das pessoas idosas num mundo em mudan\u00e7a\u201d (OMS).<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Tavares, Provedor da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia do Porto \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_255056\" aria-describedby=\"caption-attachment-255056\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-255056 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/IMG_2707-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-255056\" class=\"wp-caption-text\">Foto: SCMP<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 tempo de alterar a forma como olhamos para os nossos idosos? Por vezes ainda s\u00e3o vistos como um fardo para as fam\u00edlias\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Eu acho que hoje infelizmente fruto das circunst\u00e2ncias que estamos a viver &#8211; e n\u00e3o esquecer que vivemos uma crise das dividas soberanas, depois uma crise da pandemia, e agora estamos a viver esta crise motivada pela guerra &#8211; o que n\u00f3s vemos \u00e9 que aquele que era o grande sustent\u00e1culo da sociedade moderna, as fam\u00edlias est\u00e3o neste momento a viver um momento de crise. E essa crise n\u00e3o deixa de ser uma crise econ\u00f3mica, mas tamb\u00e9m uma crise social. E os idosos inevitavelmente ser\u00e3o as maiores v\u00edtimas deste problema. E porqu\u00ea? Porque s\u00e3o os mais indefesos, s\u00e3o aqueles que precisam de mais cuidados de sa\u00fade, s\u00e3o aqueles que t\u00eam as suas pens\u00f5es extremamente reduzidas, as suas reformas com valores perfeitamente irris\u00f3rios e est\u00e3o, portanto, desarmados. E desarmados quer perante o Estado, quer perante a sociedade. E por isso temos de olhar para os idosos de uma maneira diferente. Temos de olhar para o problema demogr\u00e1fico que Portugal tem, tamb\u00e9m diferente. N\u00f3s precisamos de rapidamente renovar o nosso tecido social.<\/p>\n<p><em>Gostaria de perguntar-lhe se o PRR &#8211; a famosa bazuca &#8211; pode ser uma oportunidade importante, por exemplo no que diz respeito ao apoio domicili\u00e1rio?<br \/>\n<\/em>Bom, eu acho que o PRR, tal como acontece com qualquer fundo comunit\u00e1rio \u00e9 sempre muito importante. N\u00f3s por exemplo na Santa Casa da Miseric\u00f3rdia do Porto ensaiamos um modelo novo de apoio domicili\u00e1rio assente acima de tudo numa resposta inovadora. Uma resposta que traz tecnologia. Isto \u00e9: equipamentos que estejam pr\u00f3ximos dos idosos e que os fa\u00e7am sentir-se acompanhados. Que os fa\u00e7am sentir envolvidos na sua vida com a comunidade. Que traga tamb\u00e9m os servi\u00e7os tradicionais de apoio domicili\u00e1rio. \u00c9 muito importante tamb\u00e9m que a sa\u00fade esteja com os nossos idosos, e que os nossos idosos se sintam apoiados. Quer atrav\u00e9s da ida de um enfermeiro, da ida de um m\u00e9dico, da ida do psic\u00f3logo. N\u00f3s temos estado a fazer isso nesse novo modelo de servi\u00e7o de apoio domicili\u00e1rio que teve um grande sucesso. Esse sucesso passou inclusive por uma primeira fase de contratualiza\u00e7\u00e3o com as autarquias da \u00e1rea metropolitana do Porto, j\u00e1 que que muitos desses idosos n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es financeiras para poder ter acesso a esse trabalho, e a esse servi\u00e7o. E este novo figurino do apoio comunit\u00e1rio, do apoio da Uni\u00e3o Europeia, veio ajudar a criar essas condi\u00e7\u00f5es. Porque este n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema de Portugal. \u00c9 um problema de toda a Uni\u00e3o Europeia. Vivemos mais tempo, temos mais esperan\u00e7a de vida, e isso obriga naturalmente a novas respostas sociais e o servi\u00e7o de apoio domicili\u00e1rio pode ser uma nova resposta para os nossos cidad\u00e3os mais idosos, porque pode trazer valor acrescentado para eles. Conforme eu disse com estas novas vertentes, onde a tecnologia ganha um papel importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fruto das circunst\u00e2ncias de cada fam\u00edlia, os idosos s\u00e3o deixados em lares ou ERPIS \u2013 estruturas residenciais para idosos \u2013 e depois, pelo menos aparentemente n\u00e3o se cuida devidamente do chamado envelhecimento ativo\u2026. Concorda?<\/em><\/p>\n<p>Concordo. Muitas vezes isso acontece porque por exemplo h\u00e1 idosos que est\u00e3o hoje a viver nos hospitais, ocupam camas de\u00a0hospitais\u00a0que acabam por ser camas sociais e saem muito caro ao servi\u00e7o nacional de sa\u00fade. Portanto, h\u00e1 aqui claramente uma\u00a0aus\u00eancia\u00a0de resposta. por outro lado, as ERPIS e o tal envelhecimento ativo que falou n\u00e3o podem de maneira nenhuma ser a \u00fanica resposta do sistema. A institucionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a resposta. A resposta \u00e9 poder ficar em casa at\u00e9 ao mais tarde poss\u00edvel. \u00c9 poder ficar em casa a viver o m\u00e1ximo poss\u00edvel no seu ambiente, naquilo que as pessoas gostam e conhecem bem e ao\u00a0mesmo\u00a0tempo tamb\u00e9m permitir que as pessoas possam ter\u00a0alternativas a essa institucionaliza\u00e7\u00e3o. Uma das alternativas \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o chamado co-housing\u00a0&#8211; isto \u00e9 a habita\u00e7\u00e3o partilhada, onde h\u00e1 \u00e1reas que s\u00e3o comuns e h\u00e1 \u00e1reas\u00a0quest\u00e3o\u00a0individuais. Isto \u00e9 um conceito que ainda n\u00e3o chegou muito a Portugal, ainda n\u00e3o est\u00e1 muito em Portugal em voga, mas que inevitavelmente vai-se colocar at\u00e9 porque as novas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais exigentes, tem mais cultura e isso obviamente leva a que o Estado e as\u00a0Institui\u00e7\u00f5es\u00a0tenham que encontrar uma nova gera\u00e7\u00e3o de\u00a0pol\u00edticas\u00a0sociais neste\u00a0dom\u00ednio\u00a0vocacionadas para o envelhecimento. E o envelhecimento ativo \u00e9 tamb\u00e9m fazer com que estas pessoas continuem a sentir-se cidad\u00e3os e n\u00e3o algu\u00e9m que est\u00e1 \u00e0 espera, ou aguardar que chegue a morte.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falou h\u00e1 pouco de uma realidade muito cruel\u00a0<\/em><em>a envolver os idosos e que est\u00e1 relacionada com o abandono. O abandono em casa, mas sobretudo o abandono em contexto hospitalar, havendo not\u00edcias de que h\u00e1 cada vez mais idosos abandonados nos hospitais \u00e0 espera de vaga em lares ou cuidados continuados\u2026 Como se combate este flagelo, sabendo-se que, por exemplo desde o in\u00edcio da pandemia e at\u00e9 dezembro de 2020 mais de 1250 idosos foram colocados pela seguran\u00e7a social em lares porque continuam a ocupar camas de hospital por n\u00e3o terem para onde ir?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente por esse motivo. Ou seja, a pandemia deu o alarme e ent\u00e3o a\u00ed o Estado arrega\u00e7ou as mangas. \u00c9 preciso trabalhar em rede e ver de que forma \u00e9 poss\u00edvel a coopera\u00e7\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es, a coopera\u00e7\u00e3o entre os v\u00e1rios sectores da economia social e do Estado e isso vai ser poss\u00edvel agora. \u00c9 uma das novas tarefas do CEO do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade (SNS). \u00c9 exatamente poder casar estas situa\u00e7\u00f5es. \u00c9 exatamente poder aproximar estas pessoas e poder trazer aqui condi\u00e7\u00f5es para que entre a sa\u00fade e a seguran\u00e7a social haja um caminho mais estreito e que o Or\u00e7amento seja mais bem gerido, mais bem aproveitado. E que n\u00e3o haja aqui um virar de costas que \u00e9 o que tem havido at\u00e9 aqui. O Dr. Fernando Ara\u00fajo pode dar um excelente contributo nesta mat\u00e9ria. Conhece bem esta realidade. \u00c9 algu\u00e9m que tem um conhecimento desta situa\u00e7\u00e3o e de certeza absoluta vai poder conciliar o papel da sa\u00fade com o papel da seguran\u00e7a social e evitar estas situa\u00e7\u00f5es constantes de abandono e de maus tratos que as pessoas v\u00e3o sofrendo, nomeadamente aqueles que s\u00e3o mais incapacitantes, como s\u00e3o o caso de idosos de elevada idade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Um\u00a0v\u00eddeo divulgado recentemente chocou a sociedade e as institui\u00e7\u00f5es. A Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias fala de um caso isolado. O que se passou na Santa Casa da Miseric\u00f3rdia de Boliqueime requer uma vigil\u00e2ncia permanente da parte de quem dirige?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 evidente que sim. Ningu\u00e9m est\u00e1 imune a isto. A Santa Casa da\u00a0Miseric\u00f3rdia\u00a0do Porto tamb\u00e9m foi alvo de alguma suspei\u00e7\u00e3o, mas acima de tudo o que acho \u00e9 que t\u00eam de acontecer mecanismos de preven\u00e7\u00e3o e mecanismos de auditoria permanente. E Isso s\u00f3 se ganha com qualidade. Isso s\u00f3 se ganha com procedimentos preparados que\u00a0obede\u00e7am\u00a0a certifica\u00e7\u00f5es em termos de qualidade e a recursos humanos extremamente bem preparados. E isto implica recursos humanos com capacidade para trabalhar o idoso. Que tenham intelig\u00eancia emocional e que acima de tudo gostem de pessoas. Isto n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica, n\u00e3o \u00e9 um talho onde qualquer pessoa pode estar. N\u00e3o. T\u00eam de ser locais onde o trabalho implique envolvimento, implique\u00a0perman\u00eancia,\u00a0implique a\u00a0aten\u00e7\u00e3o, implique o cuidado. Eu quero acreditar que de certeza, a provedora da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia de Boliqueime de maneira nenhuma se aproxima sequer daquele tipo de situa\u00e7\u00f5es. Foi de certeza uma m\u00e1 pr\u00e1tica, que se exige seja esclarecida, como disse o senhor presidente da Rep\u00fablica e que se procure\u00a0efetivamente\u00a0responsabilizar as pessoas. Em institui\u00e7\u00f5es como as Miseric\u00f3rdias ou outras\u00a0quaisquer,\u00a0o\u00a0maltrato\u00a0a idosos n\u00e3o \u00e9 permitido, n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel, n\u00e3o\u00a0admiss\u00edvel, e portanto, sobre isso o nosso\u00a0comportamento\u00a0dever\u00e1 ser sempre de repulsa, de censura, mas acima de tudo para quem est\u00e1 nesse ato concreto e para quem atuou daquela maneira. Porque uma situa\u00e7\u00e3o como aquela obviamente choca-nos a todos. E isto implica que todos n\u00f3s, mas absolutamente todos n\u00f3s somos\u00a0respons\u00e1veis\u00a0e temos de ter uma palavra de repudio sobre esta situa\u00e7\u00e3o. Agora criar meios de auditoria, meios de controle, meios que envolvam entidades de certifica\u00e7\u00e3o e entidades de qualidade, custa dinheiro e tamb\u00e9m a\u00ed eu gostava de dizer que muitas vezes o Estado n\u00e3o \u00e9 generoso com as institui\u00e7\u00f5es. O Estado faz um financiamento \u00e0s institui\u00e7\u00f5es\u00a0subavaliado\u00a0e isso obviamente n\u00e3o permite que se encontrem depois meios para poder dar respostas a essas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias est\u00e1 a promover um ciclo de confer\u00eancias para debater os desafios que se colocam ao setor social, e a 4 de outubro o destaque ir\u00e1 para a experi\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es durante a pandemia. A Covid-19 deixou muitas marcas na vida dos mais velhos e de quem cuida deles? <\/em><\/p>\n<p>A Covid-19 vai, acima de tudo, deixar uma cicatriz, a cicatriza da solid\u00e3o, do medo, do isolamento. N\u00f3s tivemos uma pandemia que separou pessoas, afastou netos e av\u00f3s, filhos e pais, foi muito cr\u00edtica. N\u00e3o tenho quaisquer d\u00favidas: independentemente do recurso a novas tecnologias, do recurso a outras pr\u00e1ticas, a pandemia \u00e9 algo que ningu\u00e9m quer lembrar.<\/p>\n<p>As grandes li\u00e7\u00f5es foram o cuidado com as infe\u00e7\u00f5es, com as m\u00e1s pr\u00e1ticas, isso ficou muito interiorizado. Os n\u00edveis de higiene elevaram-se bastante nas Institui\u00e7\u00f5es e, acima de tudo, o apoio m\u00e9dico e de enfermagem.<\/p>\n<p>O Estado hoje est\u00e1 mais sens\u00edvel a esses custos, a essas despesas, no passado n\u00e3o foi assim\u2026 O Estado era sempre mais resistente a este tipo de comparticipa\u00e7\u00f5es e eu penso que n\u00e3o se perdeu tudo, ganhou-se tamb\u00e9m alguma coisa com a pandemia: ganhou-se em solidariedade, em disponibilidade, em dedica\u00e7\u00e3o. Isto hoje \u00e9 algo que tem um impacto brutal e vamos saber ultrapassar, naturalmente, estamos a saber faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pergunto-lhe se persistem muitos receios, por parte dos idosos, que os mant\u00eam isolados. Qual \u00e9 a experi\u00eancia da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia do Porto?<\/em><\/p>\n<p>O receio existe, desde logo porque as pessoas t\u00eam medo de que a Covid volte no inverno, volte nos tempos mais frios, e agora com os problemas de racionamento de energia, esse medo aumenta. Mas a nossa experi\u00eancia mostra que as pessoas continuam a acreditar no dia de amanh\u00e3, que continuam a acreditar na bondade humana, na disponibilidade das pessoas. Hoje h\u00e1 a convic\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 passou o pior, que o pior j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1, muito para tr\u00e1s. A pr\u00f3xima fase vai ser enfrentada com mais tranquilidade. Sinceramente, as pessoas s\u00f3 se lembram da pandemia quando t\u00eam de colocar a m\u00e1scara, para estar junto dos seus familiares. A\u00ed \u00e9 que elas se lembram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Depois da pandemia, estamos a viver um per\u00edodo muito marcado pela guerra na Ucr\u00e2nia, a infla\u00e7\u00e3o\u2026 Em crises anteriores, vimos que os idosos funcionaram quase como o \u201c\u00faltimo recurso\u201d para muitas fam\u00edlias. Admite que venha a acontecer o mesmo, nos pr\u00f3ximos meses?<\/em><\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o. Com as medidas que o Governo adotou, que a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 a adotar, talvez isso n\u00e3o venha a acontecer como aconteceu aquando da troika. Nessa altura, lembro-me que muitos idosos sa\u00edram dos Lares e foram para casa, porque as receitas que tinham, as suas reformas, eram importantes para o equil\u00edbrio das fam\u00edlias. Penso que, neste momento, n\u00e3o corremos esse risco, n\u00e3o teremos essas dificuldades: foram feitas pol\u00edticas p\u00fablicas de apoio, quer \u00e0s fam\u00edlias, quer \u00e0s Institui\u00e7\u00f5es, e independentemente de todos acharmos que \u00e9 pouco ou n\u00e3o chega, poderemos estar em melhores circunst\u00e2ncias do que est\u00e1vamos aquando da troika. Eu quero acreditar que esta guerra tamb\u00e9m n\u00e3o vai demorar muito mais tempo, que esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai demorar, mas os problemas que agora vamos enfrentar s\u00e3o diferentes: a infla\u00e7\u00e3o, a energia, a capacidade de fazermos com\u00e9rcio, como antes da guerra. Esses ser\u00e3o talvez os grandes problemas.<\/p>\n<p>Em Portugal, diria, o sistema social est\u00e1 preparado para enfrentar esta nova fase e o Estado n\u00e3o se tem demitido das suas fun\u00e7\u00f5es, os governantes t\u00eam estado em articula\u00e7\u00e3o direta com as Institui\u00e7\u00f5es. Quero acreditar que Institui\u00e7\u00f5es, fam\u00edlias, idosos, todos juntos vamos conseguir ultrapassar esta crise e n\u00e3o ter situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas como tivemos por altura da troika.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Numa altura de aumentos generalizados dos pre\u00e7os e, consequentemente, das despesas das fam\u00edlias, v\u00e1rias Institui\u00e7\u00f5es que apoiam quem mais precisa enfrentam v\u00e1rios desafios. Segundo o presidente da Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias Portuguesas, um desses desafios \u00e9 a pr\u00f3pria sustentabilidade destas Institui\u00e7\u00f5es\u2026<\/em><\/p>\n<p>As Institui\u00e7\u00f5es, neste momento, est\u00e3o de rastos. As Institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o a passar uma crise brutal, do ponto de vista financeiro. A prova disso \u00e9 o apoio ao g\u00e1s, \u00e0 energia, que o Estado definiu, de 120 milh\u00f5es de euros, e uma linha de cr\u00e9dito, para apoiar a tesouraria, de 120 milh\u00f5es, tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 para investimento, \u00e9 \u00e0 tesouraria das Institui\u00e7\u00f5es. Isto mostra bem o estado em que elas se encontram, as Institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o todas de rastos, porque os seus resultados s\u00e3o sistematicamente deficit\u00e1rios, desde logo porque quem nos compra o servi\u00e7o, o Estado, paga abaixo do pre\u00e7o de custo. Quando assim \u00e9, com as exig\u00eancias estatais \u2013 os pagamentos de impostos, contribui\u00e7\u00f5es para a Seguran\u00e7a Social -, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito complicada, muito dif\u00edcil. Espero que se consiga ultrapassar, a curto prazo, porque t\u00eam sido 10 anos de dificuldades \u2013 troika, pandemia e agora a guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou na necessidade de investimento. No in\u00edcio desta conversa, record\u00e1vamos que muitas das estruturas para idosos foram pensadas para outro tipo de popula\u00e7\u00e3o. Precisam de ser adaptadas, remodeladas? At\u00e9 por causa dos problemas de sa\u00fade, por exemplo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Diria que n\u00f3s estamos numa primeira gera\u00e7\u00e3o de equipamentos sociais, que foram feitos com capacidade financeira das pr\u00f3prias Institui\u00e7\u00f5es. A seguir, houve uma segunda gera\u00e7\u00e3o, feitos com os primeiros fundos comunit\u00e1rios, h\u00e1 cerca de 30 anos; da\u00ed para c\u00e1, h\u00e1 pouca coisa nova feito. Isso significa que precisamos de remodelar todo o parque existente, dando-lhe mais condi\u00e7\u00f5es, tornando-o mais moderno, com tecnologia, equipamento, mobili\u00e1rio, que respondam \u00e0s novas necessidades que temos nesta segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. Estes s\u00e3o os grandes desafios que temos, precisamos de uma nova gera\u00e7\u00e3o de equipamentos sociais, precisamos de ter dinheiro para remodelar. O PRR n\u00e3o foi simp\u00e1tico, apenas apostou em novos equipamentos, esquecendo a necessidade de remodelar os equipamentos que existem, de novo mobili\u00e1rio e, acima de tudo, a necessidade de colocar novas tecnologias. Ainda temos muitos equipamentos que v\u00eam do final do s\u00e9culo XX, est\u00e3o desatualizados, n\u00e3o t\u00eam conceitos de modernidade que s\u00e3o exig\u00edveis. As novas leis da vida, digamos, a isso obrigam e os nossos idosos exigem-no.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para encerrar a nossa conversa, gostaria de voltar a falar da viol\u00eancia sobre os idosos. A APAV apoiou, em m\u00e9dia, quatro idosos por dia, v\u00edtimas de crime e de viol\u00eancia, em 2021. Tamb\u00e9m se confronta com esta realidade, nas Institui\u00e7\u00f5es que a Santa Casa da Miseric\u00f3rdia do Porto dirige?<\/em><\/p>\n<p>Muitas vezes, temos essas situa\u00e7\u00f5es, pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas de maus-tratos e depois v\u00eam para a Santa Casa, para ficarem protegidas, tal como acontece com as pessoas v\u00edtimas de viol\u00eancia, com crian\u00e7as. Os cidad\u00e3os e as fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e3o preparados para estas situa\u00e7\u00f5es, o risco aumenta a partir do momento em que aumenta a pobreza, quando as pessoas vivem em zonas suburbanas da cidade. Muitas vezes estes idosos est\u00e3o sozinhos, s\u00e3o v\u00edtimas de assaltos violentos, de roubo. Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que existe, as autoridades judiciais nem sempre conseguem compreender este fen\u00f3meno, ainda estamos num tempo de aprendizagem, de enquadramento novo sobre estas quest\u00f5es. Diria que o principal crime ser\u00e1 o abandono, porque quando se junta o abandono \u00e0 viol\u00eancia, estamos num dom\u00ednio que atenta contra a dignidade humana, da pessoa concreta que \u00e9 idoso. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que nos preocupa a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falta mais preven\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A preven\u00e7\u00e3o faz-se com mais gente na rua, em equipas de apoio domicili\u00e1rio. O caminho seria este, eu sou um grande entusiasta do apoio domicili\u00e1rio, de novos modelos. A experi\u00eancia que fizemos na Miseric\u00f3rdia do Porto, da \u2018Chave de Afetos\u2019, mostra isso: equipas que est\u00e3o mobilizadas, preparadas, um call-center que responde ao apelo do idoso. A\u00ed, pelo menos, vamos dando uma resposta. A preven\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se as equipas que est\u00e3o no terreno tiverem capacidade t\u00e9cnica para apoiar. Gostaria de deixar um elogio \u00e0 PSP e \u00e0 GNR, que t\u00eam trabalhado muito nesse dom\u00ednio e s\u00e3o hoje, indiscutivelmente, os primeiros a defender os idosos, a sinalizar situa\u00e7\u00f5es menos boas, para que depois as Institui\u00e7\u00f5es possam responder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":255056,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[187,314],"class_list":["post-255053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-diocese-do-porto","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255053"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255053\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/255056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}