{"id":254760,"date":"2022-09-29T10:45:37","date_gmt":"2022-09-29T09:45:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=254760"},"modified":"2022-09-29T10:46:17","modified_gmt":"2022-09-29T09:46:17","slug":"saber-aprender-a-temer-a-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-temer-a-natureza\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A temer a natureza"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O m\u00eas dedicado \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do Tempo da Cria\u00e7\u00e3o termina a 30 de setembro, embora estejamos cada vez mais conscientes da import\u00e2ncia de n\u00e3o dedicar apenas um m\u00eas, mas todo o ano. Pois, come\u00e7\u00e1mos j\u00e1 a sentir os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como a \u00e1gua que n\u00e3o chega, ou aquela que banha demais a terra, destruindo os ambientes naturais e culturais. A raz\u00e3o de n\u00e3o nos preocuparmos muito se o nosso carro continua a contribuir para estas altera\u00e7\u00f5es \u00e9 porque n\u00e3o tememos o suficiente o clima. H\u00e1 muitos anos que os Esquim\u00f3s entenderam o que precisamos de compreender para temer.<\/p>\n<figure id=\"attachment_254761\" aria-describedby=\"caption-attachment-254761\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-254761\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Trovao-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-254761\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Jeremy Thomas em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os Esquim\u00f3s mant\u00eam um relacionamento de maior proximidade com a natureza do que a maior parte de n\u00f3s no mundo ocidental. Ou pelo menos \u00e9 o que depreendi daquilo que o escritor americano Barry Lopez conta no seu livro \u201cArtic Dreams\u201d \u2014 <em>\u00abPara os Esquim\u00f3s, a maioria dos relacionamentos com animais s\u00e3o locais e pessoais. Os animais que encontramos fazem parte da nossa comunidade, e temos obriga\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a eles. Um aspecto muito confuso da cultura Ocidental para os Esquim\u00f3s \u00e9 a nossa despersonaliza\u00e7\u00e3o dos relacionamentos com os membros humanos e animais das nossas comunidades.\u00bb<\/em> \u2014 E depois Lopez partilha a origem do temor que os Esquim\u00f3s t\u00eam da natureza apesar da proximidade. \u2014 <em>\u00abOs Esquim\u00f3s n\u00e3o mant\u00eam a intimidade com a natureza sem pagar um certo pre\u00e7o. (\u2026) eles t\u00eam mais medo do que n\u00f3s. (\u2026) n\u00e3o um medo debilitante. Eles t\u00eam medo porque aceitam totalmente o que \u00e9 violento e tr\u00e1gico na natureza. \u00c9 um medo ligado ao seu conhecimento de que os eventos catacl\u00edsticos inesperados fazem tanto parte da vida, ou de realmente viver, quanto os momentos em que fazemos pausas para contemplar algo belo.\u00bb<\/em> Os Esquim\u00f3s n\u00e3o negam o conhecimento e aceitam os fins como finalidades. No mundo Ocidental, o sentimento \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Desde a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que nos habitu\u00e1mos a controlar as coisas e o ambiente \u00e0 nossa volta. Constru\u00edmos carros, navios e avi\u00f5es, bem como espa\u00e7os climatizados onde podemos controlar a temperatura ambiente dentro das nossas casas e locais de trabalho. Estamos habituados a controlar e nem nos damos conta de que o pre\u00e7o desse controlo \u00e9 o elevado consumo de energia. Depois da guerra na Ucr\u00e2nia, come\u00e7\u00e1mos (da pior maneira) a darmo-nos conta de quanto consumimos em energia, sobretudo de fonte n\u00e3o renov\u00e1vel. E o pre\u00e7o pago pelo consumo energ\u00e9tico n\u00e3o afecta apenas quem paga a factura, mas o planeta inteiro reage e todos os ecossistemas acabam por sofrer a conta que uma s\u00f3 esp\u00e9cie gerou. Parece-lhe justo?<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de aquecimento e secura poder\u00e3o, inclusive, afectar 75% das \u00e1rvores que naturalizam as nossas cidades e todas as esp\u00e9cies que delas dependem. Num artigo para o <em>New Scientist<\/em>, Manuel Esperon-Rodriguez na Universidade de <em>Western Sidney<\/em> na Austr\u00e1lia chega mesmo a afirmar que \u2014 <em>\u00abEssas \u00e1rvores \u00e9 prov\u00e1vel que morram.\u00bb<\/em> Uma solu\u00e7\u00e3o seria humedecer as \u00e1rvores das nossas cidades com \u00e1gua, mas tamb\u00e9m essa escasseia. Notemos que a \u00e1gua em falta n\u00e3o desapareceu porque a \u00fanica forma de isso acontecer seria se fosse perdida para o espa\u00e7o. A \u00e1gua existe, mas as altera\u00e7\u00f5es ao clima levam a assimetrias na sua distribui\u00e7\u00e3o, de tal modo que a escassez numa parte do mundo representa excesso noutra parte, e em ambas as partes, o resultado pode ser destrutivo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias notei na prolifera\u00e7\u00e3o de moscas pela cidade e questionei-me se teria alguma coisa a ver com as altera\u00e7\u00f5es do clima. Mas em v\u00e1rias partes do mundo se tem observado a prolifera\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, por exemplo, os besouros-de-casca que comem a \u00e1rvores no seu interior, matando-as. N\u00e3o \u00e9 que devamos erradicar essa esp\u00e9cie, mas antes as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas prop\u00edcias \u00e0 sua prolifera\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, podemos encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para o momento, mas como tudo na natureza est\u00e1 ligado, corremos o risco que ao agir de um determinado modo, produzimos efeitos desconhecidos e imprevis\u00edveis. Ser\u00e1 que o melhor seria ficar quieto? Ou talvez saber aprender a \u201ctemer\u201d a natureza como deve ser?<\/p>\n<p>A ideia do \u201ctemor\u201d est\u00e1 muitas vezes associada ao medo e a uma ansiedade sem fundamento. Mas temer a natureza como fazem os Esquim\u00f3s possui um sentido diferente. Isto \u00e9, os Esquim\u00f3s compreendem a diferen\u00e7a que existe entre a sua pequenez e a grandeza daquilo que lhes rodeia.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, como S. Jo\u00e3o na sua primeira carta (4, 18) \u2014 <em>\u00abNo amor n\u00e3o h\u00e1 temor; pelo contr\u00e1rio, o perfeito amor lan\u00e7a fora o temor; de facto, o temor pressup\u00f5e castigo, e quem teme n\u00e3o \u00e9 perfeito no amor.\u00bb<\/em> \u2014 Mas quantas vezes n\u00e3o ouvimos falar do temor de Deus? Temor de Deus \u00e9 temer como Ele teme, e em Prov\u00e9rbios 8, 13 diz que \u2014 <em>\u00abO temor do Senhor detesta o mal.\u00bb<\/em> \u2014 Por isso, o temor de Deus liga-se \u00e0 rever\u00eancia e admira\u00e7\u00e3o que sentimos por Ele, detestando o mal. Mas poder\u00edamos questionar se a admira\u00e7\u00e3o pela natureza e aceita\u00e7\u00e3o dos eventuais catacl\u00edsticos (que nos fazem mal) n\u00e3o seria aceitar algo que detestamos.<\/p>\n<p>A rever\u00eancia da natureza poderia passar pelo controlo dos nossos comportamentos. Sem d\u00favida que esse controlo \u00e9 necess\u00e1rio, mas uma rever\u00eancia inspirada pela experi\u00eancia de \u201ctemor de Deus\u201d deveria orientar os nossos comportamentos para algo mais profundo. Ningu\u00e9m consegue segurar com as m\u00e3os um vento a uma velocidade de 120 km\/h. Para um vento assim somos como uma folha que vai at\u00e9 onde o vento a levar. Deixar-te levar.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo que andamos a fazer a nossa vontade. E se experiment\u00e1ssemos n\u00e3o fazer a nossa vontade por um per\u00edodo e procurar incessantemente a Vontade de Deus? Saber aprender a \u201ctemer\u201d a natureza significa, hoje, abandonarmo-nos ao cataclismo da Vontade de Deus, de modo a deixar morrer em n\u00f3s o desejo de querer controlar tudo e a deixarmo-nos conduzir por uma Vontade diferente da nossa. A seguir ao Tempo da Cria\u00e7\u00e3o poder\u00e1 vir o Tempo da Pausa para aprender o desapego que sincroniza a nossa com a Vontade de Deus.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-254760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=254760"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254760\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=254760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=254760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=254760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}