{"id":25447,"date":"2007-06-20T10:45:03","date_gmt":"2007-06-20T10:45:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/06\/20\/um-drama-que-chega-sem-avisar\/"},"modified":"2007-06-20T10:45:03","modified_gmt":"2007-06-20T10:45:03","slug":"um-drama-que-chega-sem-avisar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-drama-que-chega-sem-avisar\/","title":{"rendered":"Um drama que chega sem avisar"},"content":{"rendered":"<p>No Dia Mundial dos Refugiados, o Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados fala de uma realidade dura e do apoio que prestam <!--more--> Adi Gomes Dias \u00e9 uma jovem t\u00edmida guineense. Mas os seus 19 anos nos documentos e os 21 de vida, denunciam uma avidez e a certeza de saber o que quer. Adora crian\u00e7as e a conversa desenrola-se com duas  \u00e0 volta &#8211; uma no colo, outra presa \u00e0s costas por um len\u00e7ol, que rapidamente adormece. A m\u00e3e de Adi Badgi morreu quando ela nasceu. Foi criada por uma av\u00f3 e quando o pai faleceu tamb\u00e9m, foi para a Guin\u00e9. Viveu dois meses com um tio, antes de vir para Portugal.  Quer regressar ao seu pa\u00eds. Veio para Portugal com uma senhora que j\u00e1 conhecia na Guin\u00e9, porque lhe prometeu emprego. Veio com documentos falsos, dai que o registo \u00abGomes Dias\u00bb n\u00e3o seja verdadeiro. A promessa de emprego, da possibilidade de estudar nunca aconteceu e durante quatro anos Adi suportou maus tratos.   O conhecimento que travou com a sua catequista, quando pediu para ser baptizada, ajudou-a numa altura em que \u201cj\u00e1 n\u00e3o aguentava mais\u201d. Tem recorda\u00e7\u00f5es de lhe baterem muito. Nunca teve nada, nem os documentos falsos.   Depois de muito custo conseguiu contactar o tio que \u201ctamb\u00e9m n\u00e3o quer que eu fique\u201d. Por diversas vezes sublinha a desejo de partir, para fazer o qu\u00ea? \u201cTrabalhar, eu quero trabalhar\u201d. Tem muitas saudades da Guin\u00e9 onde gostava de formar uma fam\u00edlia.  H\u00e1 um ano e dois meses a viver no Centro de Acolhimento Pedro Arrupe, do Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados &#8211; JRS Portugal, na Ameixoeira, Adi ajuda as m\u00e3es a tomar conta das crian\u00e7as, estuda durante o dia, \u201cfa\u00e7o tamb\u00e9m manicure e cabelos e ganho algum dinheiro assim\u201d, enquanto os seus documentos n\u00e3o se regularizam para voltar \u00e0 Guin\u00e9-Bissau.  Adi faz parte da estat\u00edsticas que indicam os poucos refugiados que chegam ao nosso pa\u00eds. De facto, Portugal \u00e9 o pa\u00eds da Europa com menor n\u00famero de refugiados. A trabalhar nesta \u00e1rea est\u00e1 o Conselho Portugu\u00eas para os Refugiados &#8211; CPR &#8211; e desde 1992 o JRS, que apesar de ter crit\u00e9rios para funcionar onde h\u00e1 mais falta e onde ningu\u00e9m est\u00e1, com a vaga de imigrantes de Leste em 1999, deixou de ser uma institui\u00e7\u00e3o de retaguarda e um \u00abbra\u00e7o da rede europeia\u00bb para estar em contacto directo com os refugiados.   <b>Abrir a porta a quem precisa<\/b> 75% da popula\u00e7\u00e3o que procura o Centro de Atendimento chega da Europa de Leste. Por isso se percebe que na recep\u00e7\u00e3o esteja uma pessoa que fala russo e que na mesa da entrada esteja um jornal na mesma l\u00edngua.  Agora em novas instala\u00e7\u00f5es, o Centro de Atendimento ganhou mais espa\u00e7os, e uma maior capacidade de resposta. O gabinete de Apoio Social \u00e9 o mais solicitado, mas tamb\u00e9m o que tem menos recursos. H\u00e1 uma vasta equipa para atendimento. Psic\u00f3logos, assistente social, m\u00e9dicos, juristas, alguns a t\u00edtulo volunt\u00e1rio, outros dedicados a 100%.   No JRS n\u00e3o se fecha a porta a ningu\u00e9m. E de facto muitos s\u00e3o os imigrantes que os procuram tamb\u00e9m, porque, conforme explica a directora, Ros\u00e1rio Farmhouse, \u201cn\u00e3o sendo refugiados foram for\u00e7ados a partir, dadas as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas no seu pa\u00eds\u201d, e ao chegar a Portugal encontravam-se completamente desamparados, \u201cenganados por redes ficando em situa\u00e7\u00e3o de ref\u00e9ns\u201d. Era por isso necess\u00e1rio ajud\u00e1-los. E assim se deu in\u00edcio a este trabalho. Come\u00e7ando com as aulas de portugu\u00eas, percebeu-se depois que havia falta de trabalho, de habita\u00e7\u00e3o, \u201cque por detr\u00e1s havia casos de ilegalidade e fomos montando as nossas respostas em fun\u00e7\u00e3o dessas necessidades\u201d, pois um problema n\u00e3o chega isolado.  <b>Refugiado ou imigrante?<\/b> Segundo a Conven\u00e7\u00e3o de Genebra, refugiado \u00e9 toda a pessoa que por causa de fundados temores de persegui\u00e7\u00e3o devido \u00e0 sua ra\u00e7a, religi\u00e3o, nacionalidade, associa\u00e7\u00e3o a determinado grupo social ou opini\u00e3o pol\u00edtica, encontra-se fora de seu pa\u00eds de origem e que, por causa dos ditos temores, n\u00e3o pode ou n\u00e3o quer regressar ao mesmo.  O dif\u00edcil \u00e9 provar uma situa\u00e7\u00e3o concreta e, uma vez que na sua maioria s\u00e3o quest\u00f5es culturais,  \u201c\u00e9 muito dif\u00edcil para n\u00f3s, pa\u00edses europeus, perceber e confiar que algu\u00e9m de facto corria perigo\u201d, aponta Ros\u00e1rio Farmhouse. A grande diferen\u00e7a que sublinha existir entre refugiado e imigrante \u00e9 n\u00e3o ter tempo de fazer a mala e n\u00e3o poder voltar a seu pa\u00eds. Um refugiado n\u00e3o tem tempo para preparar a viagem, porque quando percebe que tem de fugir n\u00e3o pode organizar nada, por isso \u201ca sua maioria n\u00e3o traz consigo qualquer documento, deixou fam\u00edlia ou perdeu-a, acrescido ao drama de n\u00e3o poder voltar. \u00c9 uma dor muito profunda\u201d, aponta a directora.   Um imigrante partilha essa dor, porque deixa o seu pa\u00eds, porque tem de deixar a fam\u00edlia para tr\u00e1s e n\u00e3o poucas vezes o processo de reagrupamento \u00e9 extenso, mas se o entender pode regressar, mesmo que seja para visitar, situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o acontece com os refugiados. Havendo alguma confus\u00e3o com os dois termos, \u201cem Portugal somos muito procurados por imigrantes\u201d.   <b>Lutadores e sobreviventes<\/b> O reduzido n\u00famero de refugiados em Portugal apresenta v\u00e1rios motivos. \u201cEstamos na ponta da Europa porque as condi\u00e7\u00f5es que proporcionamos s\u00e3o menos apelativas e faz com que se opte por outro pa\u00eds\u201d, apesar de manifestarmos \u201cboas pr\u00e1ticas de acolhimento\u201d.   A parte econ\u00f3mica \u00e9 a primeira diferen\u00e7a, acentuada por uma crise que se vive nesta \u00e1rea. O desemprego empurra as pessoas para onde h\u00e1 mais condi\u00e7\u00f5es. Os refugiados em alguns pa\u00edses recebem um subs\u00eddio muito elevado, quando em Portugal \u201co que est\u00e1 estabelecido \u00e9 o m\u00ednimo dos m\u00ednimos\u201d.   Ao chegar a Portugal carrega-se um passado que \u00e9 dram\u00e1tico e as pessoas \u201ctrazem um grande stress, um desespero e uma grande depress\u00e3o\u201d, mas todos eles s\u00e3o professores de esperan\u00e7a \u201ce nos d\u00e3o aulas de agradecer por pequenas coisas que temos e \u00e0s quais nada ligamos\u201d, refere. A integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, principalmente se forem pessoas altamente qualificadas e desprovidas de documentos que n\u00e3o possam comprovar as habilita\u00e7\u00f5es. \u201cS\u00e3o lutadores e sobreviventes\u201d.   T\u00eam dificuldade na integra\u00e7\u00e3o porque carregam uma \u201crevolta interior que s\u00f3 o tempo ajuda\u201d e se alguns tentam arranjar trabalho e organizar a vida, outros alimentam mais o sofrimento. S\u00e3o pessoas que nunca na vida dependeram de ningu\u00e9m, tinham a vida organizada e de repente ficam dependentes de comida oferecida, de roupa para vestir &#8211; sendo esta a que causa mais sofrimento. Mas os h\u00e1bitos variam consoante o seu pa\u00eds de origem &#8211; os da Europa de Leste, por exemplo, manifestam dificuldade em ser auto suficientes e dificuldade em aceitar esta situa\u00e7\u00e3o. Os imigrantes dos PALOP est\u00e3o \u201cmais habituados \u00e0 depend\u00eancia\u201d. Para quem estava plenamente integrado e \u201cde repente tem de come\u00e7ar tudo do zero \u00e9 muito dif\u00edcil. H\u00e1 um grande sentimento de tristeza\u201d.  A Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo \u00e9 a origem mais frequente dos refugiados em Portugal, a somar \u00e0 Col\u00f4mbia e alguns pa\u00edses da \u00c1sia. Ros\u00e1rio Farmhouse afirma que tem acompanhado principalmente homens \u201cque deixaram a sua fam\u00edlia\u201d, nuns casos porque foi morta, noutros porque no meio da fuga a uni\u00e3o tornou-se imposs\u00edvel\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de m\u00e3es que chegam com os filhos desencontrados, que acabam por se encontrar, mas com alguns anos de hiato.  S\u00e3o pessoas que tinham uma vida \u201cabsolutamente\u201d integrada, onde de repente tudo muda. A directora relembra a hist\u00f3ria de uma mulher do Ruanda com seis filhos, que no seu pa\u00eds natal era rica, o marido era ministro, tinham duas casas e \u201c100 vacas\u201d. Com a guerra \u00e9tnica que houve no Ruanda, entre os tutsis e os hutus, \u201cela apenas teve tempo de p\u00f4r os seus filhos no carro e fugir\u201d. O marido foi preso porque era hutu, \u201cela, filha de hutu e tutsi, nunca foi aceite em qualquer campo de refugiados, tendo sofrido um drama muito complicado\u201d.   Ros\u00e1rio Farmhouse lembra tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o em que distribuiu iogurtes na sala de espera \u00e0s pessoas que aguardavam atendimento e \u201cestava tamb\u00e9m a comer porque o queria a partilhar com todos e um deles de repente come\u00e7a a chorar porque nunca na vida tinha estado nesta situa\u00e7\u00e3o\u201d. Pessoas que tinham empregados e que \u201cde repente t\u00eam eles de ser empregados de outras \u00e9 doloroso\u201d.  O papel que assume desempenhar no JRS \u00e9 \u201crespeitar o tempo, que \u00e9 diferente para cada um e ir preparando as pessoas para a realidade. N\u00e3o podemos permitir que a pessoa viva fechada no seu mundo quando precisa de ajuda\u201d.  As hist\u00f3rias s\u00e3o muitas. Hist\u00f3rias de vida que \u201cme ensinam muito na vida e me d\u00e3o grandes li\u00e7\u00f5es\u201d. Outro refugiado que recorda \u00e9 Erfani, do Ir\u00e3o, que neste momento se encontra no Canad\u00e1 com a fam\u00edlia. Engenheiro inform\u00e1tico, foi refugiado por raz\u00f5es religiosas porque era crist\u00e3o num pa\u00eds que \u00e9 mu\u00e7ulmano. Uma vizinha sua, mu\u00e7ulmana, engravidou e como n\u00e3o estava previsto casar, \u00eda ser morta por apedrejamento. Erfani, junto com a sua mulher, que era enfermeira, recolheram-na em casa e tentaram proteg\u00ea-la. Ao revistarem a casa de Erfani descobriram que ele tinha uma b\u00edblia, constituindo por isso dois crimes &#8211; recolher uma ad\u00faltera e ser crist\u00e3o.   Ao ter que fugir de repente, os filhos e a esposa foram para o Canad\u00e1 e ele s\u00f3 teve dinheiro para vir para Portugal. \u201cTeve que esperar dois anos at\u00e9 se juntar \u00e0 sua fam\u00edlia\u201d. Como engenheiro inform\u00e1tico, o JRS tentou encontrar-lhe trabalho dentro dessa \u00e1rea, situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil pois n\u00e3o tinha documentos a comprovar e apenas encontrou emprego numa cozinha a descascar cenouras e batatas. \u201cDisse-me que nunca tinha feito aquele trabalho e nunca pensou ser poss\u00edvel, mas que iria dar o seu melhor porque queria ser exemplo para aquela empresa e abrir as portas para outros refugiados que pudessem chegar e n\u00e3o tivessem trabalho, e que a empresa visse nos refugiados pessoas que se esfor\u00e7am\u201d. Neste momento \u201cj\u00e1 est\u00e1 bem\u201d e frequentemente envia not\u00edcias.   A solid\u00e3o \u00e9 outra caracter\u00edstica dos refugiados \u201ce esse \u00e9 o principal drama de qualquer pessoa que est\u00e1 num pa\u00eds diferente e que n\u00e3o programou a viagem, n\u00e3o tem ningu\u00e9m consigo, e constantemente pensa no passado\u201d. A carga psicol\u00f3gica \u00e9 muito pesada e os problemas existentes \u201cs\u00e3o multiplicados pela solid\u00e3o\u201d.   As principais barreiras s\u00e3o a l\u00edngua, a falta de trabalho, a press\u00e3o psicol\u00f3gica, a habita\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 muito dif\u00edcil conseguir alugar uma casa a estrangeiros\u201d. A escolha de Portugal \u00e9 aleat\u00f3ria. \u201cO barco parou aqui ou alguns &#8211; poucos &#8211; j\u00e1 ouviam falar de algu\u00e9m que tinha c\u00e1 estado\u201d, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que retratam a escolha do nosso pa\u00eds. A morosidade em obter informa\u00e7\u00f5es e a burocracia desmotiva tamb\u00e9m a perman\u00eancia em Portugal.  <b>Boas pr\u00e1ticas mas falta de meios<\/b> Ros\u00e1rio Farmhouse acredita que a sociedade portuguesa \u00e9 um povo generoso, mas \u201cestamos a tornar-nos extremamente ego\u00edstas e fechados\u201d. A directora considera que \u201cperdemos a capacidade de acolhimento que t\u00ednhamos\u201d, merc\u00ea das circunst\u00e2ncias mais dif\u00edceis na vida, mas destaca a mentalidade reinante do \u201cnem para mim tenho quanto mais para os outros\u201d. Isto sem se dar conta que \u201cna maioria das vezes as pessoas n\u00e3o querem nada de econ\u00f3mico, apenas falar connosco e ouvir um conselho de algu\u00e9m\u201d, quest\u00e3o que \u201cn\u00e3o se prende tanto com a imigra\u00e7\u00e3o mas mais com n\u00f3s pr\u00f3prios\u201d, e se manifesta numa mentalidade economicista, apesar \u201cde alguns sinais de esperan\u00e7a\u201d de alguns jovens, por exemplo com \u201cgrandes sinais de generosidade\u201d.   Este quadro vai-se percebendo tamb\u00e9m na procura de parcerias e de apoios, e nas conversas que vai ouvindo pela rua sobre emigrantes \u201conde ou\u00e7o muito aquilo que n\u00e3o gosto\u201d. No JRS mostra-se uma realidade e uma riqueza muito grande pela variedade cultural que se encontra e pode-se dar uma ajuda preciosa, \u201cmais que n\u00e3o seja por darmos uma informa\u00e7\u00e3o, por mostrarmos interesse, por perguntarmos\u201d, explica.   Portugal n\u00e3o \u00e9 s\u00edtio onde os refugiados permane\u00e7am. Os que podem v\u00e3o embora para outros pa\u00edses europeus &#8211; \u201co seu pa\u00eds natal est\u00e1 fora de quest\u00e3o\u201d &#8211; onde os apoios sejam maiores. As comunidades j\u00e1 estabelecidas ajudam a cimentar a perman\u00eancia, e Portugal \u201cn\u00e3o tem essas comunidades\u201d. Os que ficam por c\u00e1, \u201cadoram o nosso pa\u00eds e n\u00e3o querem sair\u201d, porque sentiram na pele \u201ca nossa generosidade\u201d.   A chegada ao Centro de Atendimento d\u00e1-se \u201cporque ouviram falar entre eles ou atrav\u00e9s de outras entidades que os encaminham\u201d. O n\u00famero de refugiados n\u00e3o tem aumentando significativamente, o referente aos imigrantes legais reduziu e \u201cacredito que os ilegais tenham estagnado\u201d. N\u00e3o estamos num \u201cboom migrat\u00f3rio como aconteceu em 2001\u201d, recorda.   No JRS h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o da multiculturalidade. Uma das t\u00e9cnicas fala russo, uma das empregada \u00e9 brasileira, outra ucraniana, porque \u00e9 \u201cmuito importante a identifica\u00e7\u00e3o pessoal e a possibilidade de algu\u00e9m que nos chega desesperado poder falar na sua l\u00edngua\u201d.  A procura de trabalho \u00e9 a principal preocupa\u00e7\u00e3o para quem procura o Centro. Acrescido a isso, junta-se uma \u201ccasa com poucas condi\u00e7\u00f5es, problemas de sa\u00fade, de l\u00edngua, de legaliza\u00e7\u00e3o\u201d, muitas vezes com a conjuga\u00e7\u00e3o de todos estes factores.   \u201cAs parcerias s\u00e3o o caminho\u201d, sublinha Ros\u00e1rio Farmhouse. O JRS tem-nas em v\u00e1rias \u00e1reas e com diversas entidades. O gabinete m\u00e9dico conta com volunt\u00e1rios, \u201ce temos um laborat\u00f3rio que nos faz an\u00e1lises a um pre\u00e7o de custo\u201d. Par\u00f3quias que oferecem medicamentos, dentista que d\u00e1 consultas no seu consult\u00f3rio, \u201cvamos tendo ajudas atrav\u00e9s de volunt\u00e1rios que s\u00e3o uma mais valia, mas tamb\u00e9m encontramos nas institui\u00e7\u00f5es respostas essenciais\u201d.   Em 2002 o JRS conseguiu que os imigrantes e refugiados com habilita\u00e7\u00f5es na \u00e1rea da sa\u00fade tivessem esse reconhecimento. Na altura, constatava-se o d\u00e9fice de profissionais nessa \u00e1rea em Portugal e havia compet\u00eancias dos emigrantes para tal. \u201cFoi um acordar para esta situa\u00e7\u00e3o\u201d, da\u00ed a profissionaliza\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos Imigrantes e do projecto de equival\u00eancia de habilita\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas e profissionais de enfermeiros emigrantes, projecto este realizado em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian.   Est\u00e1 em aberto o alargamento a outras \u00e1reas profissionais, \u201cdepende da efectiva\u00e7\u00e3o e das parcerias que surjam\u201d, mas s\u00f3 avan\u00e7am caso haja possibilidade efectiva de estabelecer as pessoas no mercado de trabalho, \u201cporque \u00e9 um desperd\u00edcio n\u00e3o aproveitar as qualifica\u00e7\u00f5es que nos chegam e n\u00e3o \u00e9 justo passarmos por longos processos de qualifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o levam a nada\u201d, aponta a directora.  <b>Centro Pedro Arrupe<\/b> Muitas s\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia que chegam ao Centro de Atendimento. H\u00e1 um ano, o JRS  criou o Centro Pedro Arrupe que alberga homens, mulheres e crian\u00e7as com capacidade para 25 pessoas, que \u201cgeralmente est\u00e1 sempre cheio\u201d. Na sua curta hist\u00f3ria, j\u00e1 passaram pelas instala\u00e7\u00f5es 77 pessoas.  A perman\u00eancia ideal s\u00e3o tr\u00eas a quatro meses, mas \u201ch\u00e1 pessoas que est\u00e3o l\u00e1 h\u00e1 um ano\u201d, com situa\u00e7\u00f5es muito complicadas para resolver, nomeadamente crian\u00e7as que chegaram a Portugal ao abrigo de acordos de sa\u00fade da Guin\u00e9, n\u00e3o conseguiram o acompanhamento pela qual a Embaixada se devia responsabilizar e n\u00e3o o faz.  Crian\u00e7as com problemas de sa\u00fade, ou adultos que nessas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem trabalhar, porque chegam com um visto de tratamento e \u201cse n\u00e3o estiveram l\u00e1, est\u00e3o na rua\u201d.   O Centro Pedro Arrupe tem financiamento da Seguran\u00e7a Social, contando ainda com a ajuda de outras entidades fundamentais para o seu funcionamento. O Centro de Atendimento \u00e9 uma IPSS, mas \u201cainda sem acordo com a Seguran\u00e7a Social\u201d e o apoio financeiro \u00e9 \u201ccrucial para se desenvolver este trabalho\u201d.   Trabalho este que para ter algum sucesso \u00e9 muito \u201cmoroso e h\u00e1 a ideia de que n\u00e3o \u00e9 rent\u00e1vel\u201d. O caminho percorrido para autonomizar algu\u00e9m \u201c\u00e9 muito dif\u00edcil, \u00e9 essencial que a pessoa queira mas \u00e9 preciso dar-lhe condi\u00e7\u00f5es para isso tamb\u00e9m\u201d e sem meios \u00e9 \u201cimposs\u00edvel\u201d. O trabalho no Gabinete Social n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer com volunt\u00e1rios, \u201c\u00e9 t\u00e9cnico e n\u00e3o pode ficar \u00e0 merc\u00ea de disponibilidades\u201d e para isso, falta financiamento.   Ana Jesus \u00e9 psic\u00f3loga no Centro Pedro Arrupe, destacada a partir do ACIDI &#8211; Alto Comissariado para a Imigra\u00e7\u00e3o e Di\u00e1logo Intercultural. A proposta de entrada no Centro \u00e9 feita atrav\u00e9s de uma candidatura, que pode chegar ou atrav\u00e9s do Servi\u00e7o Social da Sede ou vindos de outras institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 feita uma entrevista e o caso \u00e9 analisado entre a equipa t\u00e9cnica, dentro da maior celeridade poss\u00edvel.   Como se opta entre dois casos especificamente dram\u00e1ticos? &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil&#8221;. D\u00e1-se prioridade quando h\u00e1 crian\u00e7as e idosos envolvidos que se encontram numa situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. Os crit\u00e9rios para a entrada no Centro s\u00e3o a emerg\u00eancia, a falta de resposta noutro local, as possibilidades de legaliza\u00e7\u00e3o, um projecto de vida desenhado com ideias estabelecidas, o desejo de alterar a sua situa\u00e7\u00e3o, \u201cque juntamente com o utente, ajudamos a concretizar\u201d, aponta Ana Jesus.   O acompanhamento semanal permite efectivar essa ajuda \u201cmais personalizada, mas estamos sempre atentos e somos solicitados mais vezes\u201d. \u00c9 dado apoio em termos jur\u00eddicos, de transporte, alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade e aulas de portugu\u00eas &#8211; obrigat\u00f3rio se o utente pretende ficar em Portugal. Duas pessoas a viver no Centro frequentam um n\u00edvel mais avan\u00e7ado no Col\u00e9gio S\u00e3o Jo\u00e3o de Brito, havendo outros que apenas fazem alfabetiza\u00e7\u00e3o.   A conviv\u00eancia comum e a diversidade de culturas pede, at\u00e9 exige, regras. Ana Jesus explica que tudo tem de estar em esquemas, com hor\u00e1rios espec\u00edficos para refei\u00e7\u00f5es, entradas e sa\u00eddas. As refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas feitas no Col\u00e9gio das Irm\u00e3s de S\u00e3o Vicente de Paulo que, por uma quest\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o e \u201cpara evitar confus\u00f5es assim se optou\u201d. Apenas o pequeno almo\u00e7o e o lanche s\u00e3o feitos no Centro.  A manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pelos utentes, \u201cporque os ajuda a responsabilizar e tamb\u00e9m os autonomiza\u201d. Assim que um utente consegue emprego \u201cdamos cerca de um m\u00eas para que possa estabelecer-se numa casa pr\u00f3pria\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de partilha de casa entre v\u00e1rios utentes.  As aulas, o acompanhamento semanal, o tratamento de pap\u00e9is e documentos, os cuidados de sa\u00fade s\u00e3o uma variedade que comp\u00f5em o dia a dia de quem vive no Centro Pedro Arrupe, que ganhou o nome do fundador do JRS.  As festividades s\u00e3o todas assinaladas no Centro, \u201ctanto a tradi\u00e7\u00e3o portuguesa como as outras\u201d. A festa de Natal, por exemplo, contou com variadas anima\u00e7\u00f5es culturais. A sala de estar ainda evidencia o festejos das marchas populares, com bandeiras e fitas coloridas. \u201cEles t\u00eam muita curiosidade sobre as tradi\u00e7\u00f5es e falam tamb\u00e9m das suas culturas\u201d, destaca a psic\u00f3loga de servi\u00e7o.   Culturas diferentes que tamb\u00e9m d\u00e3o lugar a conflitos, normais, mas que a somar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o limite em que se encontram, se podem tornar mais complicados. Mas \u201ctenta-se desconstruir os atritos\u201d. Ana Jesus lembra tamb\u00e9m alguns casos de expuls\u00e3o. \u201cN\u00e3o fechamos a porta a pessoas que tenham tido problemas de alcoolismo ou toxicodepend\u00eancia, mas como temos crian\u00e7as, temos tamb\u00e9m de ser muito exigentes\u201d.   Gil Sambu \u00e9 um rapaz guineense a viver no Centro. Est\u00e1 em Portugal h\u00e1 um ano e dois meses e \u00e9 uma das pessoas que chegou atrav\u00e9s do acordo de sa\u00fade. Foi-lhe diagnosticado um cancro no bra\u00e7o, que acabou por perder. Est\u00e1 sozinho e lembra que a primeira vez que falou com a m\u00e3e ao telefone, \u201cs\u00f3 a ouvia chorar\u201d. Mas n\u00e3o quer regressar. Gostava que a fam\u00edlia viesse, \u201cmas sem documentos \u00e9 imposs\u00edvel\u201d.  Tem consci\u00eancia que o crime e o estado actual da Guin\u00e9 Bissau n\u00e3o lhe iria dar a vida que quer ter. L\u00e1 era agricultor, aqui quer estudar e ser inform\u00e1tico. Mesmo o irm\u00e3o n\u00e3o quer que ele regresse, apesar das saudades.   N\u00e3o tem documentos. Est\u00e1 \u00e0 espera de um visto de estudante para poder dar um rumo \u00e0 sua vida. Sonha com os pais e num lugar s\u00f3 para si. Pensa em ter uma fam\u00edlia, mas nunca sonhou com isso. Gosta de Portugal e por c\u00e1 quer ficar.  <b>Envolvimento a mais ou a menos?<\/b> Atr\u00e1s das burocracias e dos n\u00fameros est\u00e3o rostos e hist\u00f3rias humanas. A psic\u00f3loga n\u00e3o esconde o envolvimento com o seu trabalho, mas diz que \u201ctemos de parar e reflectir at\u00e9 onde podemos ajudar as pessoas\u201d. Uma ajuda que passa por os ouvir e por \u201celes sentirem que estamos aqui para os ajudar\u201d. H\u00e1 que perceber que cada pessoa tem os seu tempo, e isso demora tamb\u00e9m tempo.  A dimens\u00e3o da f\u00e9 trespassa quem trabalha no JRS. N\u00e3o \u00e9 evidente, \u201cnem tem de o ser\u201d, aponta Ros\u00e1rio Farmhouse, mas ajuda a enfrentar \u201cimenso as dificuldades que s\u00e3o muitas\u201d. A preocupa\u00e7\u00e3o de ter uma grande abertura a todas as religi\u00f5es \u00e9 vis\u00edvel na Capela ecum\u00e9nica que o Centro de Atendimento tem e no acompanhamento e abertura que o Pe. Paulo Teia manifesta no seu trabalho de assist\u00eancia espiritual. Mas tenta-se que as pessoas, a n\u00edvel espiritual, frequentem a sua zona de resid\u00eancia \u201cporque ajuda a criar ra\u00edzes na sua comunidade\u201d.   Um trabalho que n\u00e3o esconde la\u00e7os que se criam e n\u00e3o esquece hist\u00f3rias. Optando entre a dist\u00e2ncia e o envolvimento \u201cdigo \u00e0 equipa que prefiro que estejam perto demais do que longe demais\u201d, refere a directora. Tem de se gostar das pessoas e dos estrangeiros e \u201c\u00e9 muito gratificante sentir que todos os dias podemos ajudar a melhorar a vida das pessoas\u201d.   Recentemente foi estabelecido entre o Alto Comiss\u00e1rio da ONU para os Refugiados (ACNUR), Ant\u00f3nio Guterres e o Ministro da Administra\u00e7\u00e3o Interna, Rui Pereira, uma \u201cQuota de Reinstala\u00e7\u00e3o\u201d que permite, al\u00e9m do processo normal de asilo, receber tamb\u00e9m refugiados que ser\u00e3o indicados pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas. A quota para este ano estabelece que Portugal receba 30 pessoas nestas circunst\u00e2ncias, permitindo  que se disponibilize ajuda a pa\u00edses particularmente atingidos pelo fluxo de refugiados. Desta forma, poder\u00e3o chegar a Portugal pessoas vindas por exemplo, de Malta, que recebe uma grande quantidade de refugiados e que tem uma capacidade muito limitada de acolhimento. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia Mundial dos Refugiados, o Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados fala de uma realidade dura e do apoio que prestam<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[122,154,168,187,203,206,219,266,267,291],"class_list":["post-25447","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-brasil","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-europa","tag-familia","tag-guine-bissau","tag-nacoes-unidas","tag-natal","tag-refugiados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25447"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25447\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}