{"id":254120,"date":"2022-09-23T15:36:53","date_gmt":"2022-09-23T14:36:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=254120"},"modified":"2022-09-23T15:36:53","modified_gmt":"2022-09-23T14:36:53","slug":"saber-aprender-a-contemplar-com-os-teus-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-contemplar-com-os-teus-limites\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A contemplar com os teus limites"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u00c0 meia-noite, o <em>HMS Saunders-Hill<\/em> navegava serenamente pelo rio Tamisa em Inglaterra quando todos sentiram um choque violento. A tripula\u00e7\u00e3o acorda, levanta-se e tenta perceber o que fazer. As pessoas gritavam e o escuro da noite dificultava ainda mais o esfor\u00e7o da tripula\u00e7\u00e3o para se dar conta do que havia acontecido. Aparentemente, um navio de carv\u00e3o errante colidiu com o <em>Saunders-Hill<\/em>, partindo a sua \u00e2ncora no choque, impulsionando-o a entrar em deriva ao sabor da corrente do rio Tamisa. As boas not\u00edcias eram que o navio mantinha-se \u00e0 tona sem afundar. Um passageiro, James Holman, antigo marinheiro da <em>Royal Navy<\/em>, dirige-se ao leme para ajudar o capit\u00e3o, mas o capit\u00e3o n\u00e3o estava l\u00e1 e o leme rodava livremente. Ent\u00e3o, Holman toma consigo o leme e sob as indica\u00e7\u00f5es do capit\u00e3o que estava noutro s\u00edtio a acudir aquela emerg\u00eancia, consegue levar o barco a porto seguro. S\u00f3 quando o capit\u00e3o chegou junto de James Holman para o felicitar \u00e9 que se apercebeu de que ele era cego.<\/p>\n<figure id=\"attachment_254121\" aria-describedby=\"caption-attachment-254121\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-254121 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"851\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280-1080x718.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280-980x652.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/people-gad2342be4_1280-480x319.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-254121\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de StockSnap em Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>James Holman foi o primeiro cego a dar a volta ao mundo, mas se n\u00e3o fosse capaz de estar sens\u00edvel ao ambiente ao seu redor, ao som, cheirou ou toque, n\u00e3o teria chegado t\u00e3o longe quanto chegou. N\u00e3o cedeu aos seus limites, mas usou-os para atravessar os terrenos mais in\u00f3spitos ou subir as montanhas mais agrestes. Imagino James no pico de uma montanha a contemplar o horizonte. \u00c9 cego, mas isso n\u00e3o limita a sua contempla\u00e7\u00e3o porque ele contempla com os seus limites. Que percursos far\u00edamos se neste Tempo de Cria\u00e7\u00e3o contempl\u00e1ssemos com os nossos limites?<\/p>\n<p>Para muitos de n\u00f3s, contemplar \u00e9 ficar parado, em sil\u00eancio, e a olhar com profundidade para o que est\u00e1 diante de n\u00f3s. \u00c9 f\u00e1cil imaginar algu\u00e9m a contemplar uma pintura, mas n\u00e3o se for cego. \u00c9 f\u00e1cil imaginar algu\u00e9m a contemplar a melodia de canto, mas n\u00e3o se for surdo. Por\u00e9m, se travarmos amizade com um cego, percebemos como \u201cv\u00ea\u201d o mundo como n\u00f3s (que vemos) n\u00e3o conseguimos ver. E o surdo \u201cescuta\u201d o mundo como n\u00f3s (que ouvimos) n\u00e3o conseguimos escutar.<\/p>\n<p>Em 1994, o jornalista Andrew Solomon foi convidado pelo <em>New York Times<\/em> a escrever um artigo sobre uma cultura no mundo dos surdos, onde as pessoas distinguiam \u201cSurdez\u201d de \u201csurdez\u201d. Com \u201cS\u201d mai\u00fasculo, a <strong>S<\/strong>urdez \u00e9 a cultura daquele que contempla no sil\u00eancio, enquanto a <strong>s<\/strong>urdez com \u201cs\u201d min\u00fasculo descreve aquele que sofre de uma perda patol\u00f3gica de audi\u00e7\u00e3o. A \u201cSurdez\u201d seria semelhante ao que alguns investigadores definiram como <em>\u201dGanho Surdo\u201d<\/em> (<em>Deaf Gain<\/em>) onde se compreende a surdez como um ganho pessoal e social. Estes investigadores reconceberam a surdez, n\u00e3o como uma perda, mas algo que adiciona diversidade \u00e0 vida humana (Dirksen, Bauman, Murray eds. \u201cDeaf Gain: Raising the Stakes for Human Diversity\u201d, University of Minnesota Press, 2014). Ser\u00e1 que contemplar no Tempo da Cria\u00e7\u00e3o usando os nossos limites pode abrir a uma nova cultura de uni\u00e3o com Deus onde os limites n\u00e3o sejam um obst\u00e1culo, mas um trampolim?<\/p>\n<p>O maior limite que as pessoas, aparentemente, parecem ter, nem sequer \u00e9 material: o tempo. Ningu\u00e9m tem tempo para as coisas que a maior parte das pessoas considera in\u00fatil, inclusiv\u00e9 \u2014 receio \u2014 contemplar no Tempo da Cria\u00e7\u00e3o. Os limites que sentimos no tempo devem-se \u00e0 quantidade de \u201csim\u201ds que demos a compromissos que por atrasos ou inesperada sobreposi\u00e7\u00e3o come\u00e7am a consumir demasiada energia e aten\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 natural chegar ao fim do dia (ou at\u00e9 a meio do dia) e ser muito dif\u00edcil pensar em qualquer acto de contempla\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. E mesmo os intervalos que temos, muitos aproveitam para tratar de expediente, ou seja, coisas r\u00e1pidas como enviar a uma mensagem, responder a um email, ler aquela not\u00edcia guardada h\u00e1 dois dias no <em>browser<\/em>, etc.<\/p>\n<p>Tempo. Usamo-lo, tentamos control\u00e1-lo ou sentimo-lo escapar por entre os dedos (metaforicamente falando, claro). Contemplar o limite da falta de tempo que temos seria o qu\u00ea? Como poder\u00edamos usar o tempo limitado para gerar uma nova cultura de contempla\u00e7\u00e3o no Tempo da Cria\u00e7\u00e3o e, assim, chegar a uma maior uni\u00e3o com Deus?<\/p>\n<p>Aqueles que fazem coisas extraordin\u00e1rias apesar da sua cegueira ou surdez, conseguiram perceber que os limites n\u00e3o os tornam menores, mas diferentes. S\u00e3o especiais porque t\u00eam de criar modos novos de interagir com o mundo. Na s\u00e9rie <em>See<\/em> (Ver) da Apple, imagina-se um mundo onde o ser humano deixou de ver. Isto \u00e9, a maioria da humanidade \u00e9 cega e isso significou acolher ser-se diferente e recriar o mundo \u00e0 sua volta. S\u00f3 tenho pena da s\u00e9rie explorar mais a vers\u00e3o violenta desse mundo do que a criatividade da descoberta, mas tenho esperan\u00e7a de essa seja mais pr\u00f3xima da vida real do que da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ser sincero, quando contemplo a falta de tempo, lembro-me de tudo menos do Tempo da Cria\u00e7\u00e3o. E \u00e0s vezes penso que poder ver, ouvir, cheirar, tocar ou falar \u00e9 a raz\u00e3o de ter tanta falta de tempo porque os outros esperam tudo e mais alguma coisa de mim, que pare\u00e7o n\u00e3o ter grandes limites. Consideram-me, de certo modo, ilimitado e carregado-me com mais coisas e tarefas, acabam por limitar-me. E eu deixo-me limitar com uma m\u00e1 gest\u00e3o dos \u201csim\u201ds, perdendo a sensibilidade para a necessidade de viver bem cada momento, sobretudo neste Tempo da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em certa medida, pergunto-me se contemplar os limites ser\u00e1 aceitar que a imperfei\u00e7\u00e3o que torna cada pessoa diferente das outras, possa revelar-se uma virtude. \u00c9 estranho contemplar o espa\u00e7o vazio entre duas \u00e1rvores. O mais \u00f3bvio \u00e9 contemplar as \u00e1rvores. Por isso, ser\u00e1 que os limites assemelham-se mais ao espa\u00e7o vazio, ou mais \u00e0s \u00e1rvores que parecem estar a bloquear a vista, limitando-a? Saber aprender a contemplar com os nossos limites talvez passe por reconhecermos que esses tornam-nos diferentes um dos outros, e convidam-nos a precorrer caminhos de originalidade porque tamb\u00e9m n\u00f3s fazemos parte da Cria\u00e7\u00e3o cujo tempo celebramos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-254120","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=254120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254120\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=254120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=254120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=254120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}