{"id":254032,"date":"2022-09-25T09:30:28","date_gmt":"2022-09-25T08:30:28","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=254032"},"modified":"2022-09-23T12:09:44","modified_gmt":"2022-09-23T11:09:44","slug":"igreja-sociedade-e-preocupante-quando-transformamos-os-migrantes-em-bodes-expiatorios-eugenia-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-sociedade-e-preocupante-quando-transformamos-os-migrantes-em-bodes-expiatorios-eugenia-quaresma\/","title":{"rendered":"Igreja\/Sociedade: \u00ab\u00c9 preocupante quando transformamos os migrantes em bodes expiat\u00f3rios\u00bb &#8211; Eug\u00e9nia Quaresma"},"content":{"rendered":"<p><em>A Igreja celebra o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado desde 1914, uma celebra\u00e7\u00e3o que ocorre no \u00faltimo domingo de setembro<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Na sua mensagem anual, o Papa Francisco prop\u00f5e nos construir o futuro com os migrantes e refugiados. Para refletirmos sobre a mensagem do Papa e para olharmos para esta realidade, muito ampliada pelas situa\u00e7\u00f5es de conflito, em particular a guerra na Ucr\u00e2nia, \u00e9 convidada esta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia a diretora da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa de Migra\u00e7\u00f5es (OCPM)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em> <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-254034 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7amos com a proposta que o Papa apresenta para este dia. Ela foi acompanhada por v\u00e1rios v\u00eddeos ao longo dos \u00faltimos meses e ainda esta semana chegou um dedicado aos jovens, pedindo que sejam protagonistas de mudan\u00e7a. Que mudan\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Mudan\u00e7a na narrativa, mudan\u00e7a na capacidade de construirmos em conjunto. Isto \u00e9 fruto de uma evolu\u00e7\u00e3o que temos a n\u00edvel do trabalho que a Igreja faz e fazia, temos crescido nesta capacidade de construir em conjunto. Temos percebido cada vez mais que, para respondermos ao fen\u00f3meno migrat\u00f3rio, temos de trabalhar em conjunto, n\u00e3o s\u00f3 a Igreja, mas a sociedade civil, os Estados, a n\u00edvel das for\u00e7as de seguran\u00e7a. Temos de trabalhar cada vez mais em conjunto e de uma forma interligada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sentes que a Igreja Cat\u00f3lica tem sido uma interlocutora nesse processo? <\/em><\/p>\n<p>Creio que sim. A n\u00edvel das migra\u00e7\u00f5es foi capaz de dar sinais, se calhar at\u00e9 mais avan\u00e7ados e vision\u00e1rios, porque o fen\u00f3meno migrat\u00f3rio obriga-nos a andar para a frente, obriga-nos a fazer aquilo que que um dos v\u00eddeos prop\u00f5e: crescermos juntos como Igreja, crescer em catolicidade. Disso d\u00e1 um testemunho, por exemplo, a nossa di\u00e1spora l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Francisco defende que ningu\u00e9m deve ser exclu\u00eddo da sociedade, rejeitando que migrantes e refugiados sejam vistos como como invasores. H\u00e1 muito trabalho por fazer a esse n\u00edvel? <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1. porque n\u00f3s somos humanos e existe o medo, o medo do desconhecido. Quem trabalha diariamente com migrantes e refugiados consegue estar mais dispon\u00edvel para escutar as hist\u00f3rias, para ver estes irm\u00e3os e reconhecer o sentido da fraternidade. Quem n\u00e3o est\u00e1 habituado, quem n\u00e3o conhece esta realidade deixa-se mais facilmente contagiar pelo medo, o medo do desconhecido. Portanto, temos mesmo de trabalhar para que ningu\u00e9m fique exclu\u00eddo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa quest\u00e3o leva-nos ao cen\u00e1rio atual, que \u00e9 o da guerra na Ucr\u00e2nia, que provocou uma desloca\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de pessoas. Este conflito provoca uma maior preocupa\u00e7\u00e3o ou um maior desafio de integra\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es migrantes e refugiados, depois do acolhimento inicial?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Este movimento foi extraordin\u00e1rio em termos de resposta, nomeadamente a sociedade civil e at\u00e9 dos pr\u00f3prios Estados, que se mobilizaram e criaram respostas, se calhar em tempo recorde. Quem est\u00e1 no terreno surpreendeu-se tamb\u00e9m com a rapidez da resposta. Aquilo que n\u00f3s pedimos \u00e9 que algumas dessas respostas sejam fixadas e alargadas a outras nacionalidades. \u00c9 isso que \u00e9 preciso trabalhar.<\/p>\n<p>Um dos momentos de tristeza neste movimento todo foi quando, nas fronteiras, sentimos que houve pessoas que ficaram para tr\u00e1s porque n\u00e3o eram identificadas como vindas da Ucr\u00e2nia, apesar de estarem l\u00e1 a estudar e precisarem exatamente do mesmo acolhimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa diferen\u00e7a foi muito chocante? Olhando para um cen\u00e1rio mais global, a diferen\u00e7a do tratamento que tem fugiu da guerra de outras latitudes \u00e9 evidente? <\/em><\/p>\n<p>Sim, houve uma empatia maior com aqueles que vieram da Europa, mas tamb\u00e9m tenho de reconhecer a resposta solid\u00e1ria da sociedade civil quando foi a quest\u00e3o de Mo\u00e7ambique, quando houve tamb\u00e9m uma resposta solid\u00e1ria, muito bonita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do Afeganist\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p>O Afeganist\u00e3o mais ou menos, mas ainda permanecem. Tenho ecos de dioceses que deixaram a quest\u00e3o dos refugiados, por exemplo, para as autarquias e, enquanto Igreja, ficaram com os afeg\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 alguma explica\u00e7\u00e3o para isso acontecer, para essa diferen\u00e7a de tratamento?<\/em><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da empatia maior, quanto mais distante mais longe do cora\u00e7\u00e3o. A proximidade, por exemplo, com Mo\u00e7ambique em que existem la\u00e7os hist\u00f3ricos e a quest\u00e3o da l\u00edngua comum, e em que temos mo\u00e7ambicanos entre n\u00f3s que contribu\u00edram para esta aproxima\u00e7\u00e3o. Com o Afeganist\u00e3o n\u00e3o temos tantos la\u00e7os culturais e sei que, a n\u00edvel da Uni\u00e3o Europeia, sempre houve muito mais desconfian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao povo do Afeganist\u00e3o e, portanto, a dificuldade de acolhimento a esse povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-254036 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma1.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>A Obra Cat\u00f3lica tem denunciado situa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico e j\u00e1 este m\u00eas de setembro foi not\u00edcia o resgate por parte da pol\u00edcia francesa de 38 imigrantes ilegais que viajavam para Portugal para trabalhar. Isto significa que, por causa da necessidade de m\u00e3o de obra, o nosso pa\u00eds est\u00e1 atrativo e vulner\u00e1vel \u00e0s redes de tr\u00e1fico?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Portugal que est\u00e1 vulner\u00e1vel e atrativo. Infelizmente, sempre que existe esta situa\u00e7\u00e3o; estas situa\u00e7\u00f5es de guerra, temos redes muito atentas para explorar. N\u00f3s ouvimos isto com os deslocados da Ucr\u00e2nia e soubemos que havia pessoas ali nas fronteiras prontas a desvi\u00e1-las do pa\u00eds de destino seguro. Prontas para explorar. Isto fez com que as autoridades se mobilizassem, trabalhassem em rede e estivessem muito mais atentas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isto continua a acontecer&#8230; Significa que n\u00e3o h\u00e1 uma verdadeira fiscaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma verdadeira pol\u00edtica de combate a este tr\u00e1fico de seres humanos? <\/em><\/p>\n<p>Eu acho que existe, que est\u00e1 a crescer, nomeadamente a n\u00edvel da Igreja, n\u00f3s tamb\u00e9m temos orienta\u00e7\u00f5es pastorais contra o tr\u00e1fico humano. Mas \u00e9 esta necessidade de crescer no trabalho em rede para combater as redes de tr\u00e1fico. O ter apanhado 38 pessoas em Paris significa que as pol\u00edcias est\u00e3o a trabalhar em rede.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas foi por mero acaso, uma situa\u00e7\u00e3o de rotina&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Mas significa que est\u00e3o atentas. Eu sei que esse trabalho n\u00e3o \u00e9 muito divulgado, mas as pol\u00edcias est\u00e3o atentas para investigar e para acompanhar. Temos outras dificuldades que passam por reconhecer que, de facto, as pessoas est\u00e3o a ser v\u00edtimas de tr\u00e1fico. Mas h\u00e1 pol\u00edcias atentas e a especializar-se nesta \u00e1rea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A este prop\u00f3sito recordava uma quest\u00e3o que tem sido avan\u00e7ada muitas vezes pelo Papa e que tem a ver com estas orienta\u00e7\u00f5es pastorais de que falou: a necessidade de n\u00e3o nos fixarmos apenas na quest\u00e3o judicial. Ou seja, se as pessoas est\u00e3o a ser traficadas \u00e9 porque h\u00e1 clientes e procura de m\u00e3o de obra ilegal. \u00c9 tamb\u00e9m por a\u00ed que se deve atacar o problema? <\/em><\/p>\n<p>Exatamente. O trabalho de sensibiliza\u00e7\u00e3o, nomeadamente da Igreja tem a ver com isto: n\u00e3o nos transformarmos em exploradores, como n\u00e3o sermos consumidores seja da explora\u00e7\u00e3o laboral, seja da explora\u00e7\u00e3o sexual, seja a quest\u00e3o, por exemplo, da ado\u00e7\u00e3o. N\u00f3s sabemos que, infelizmente h\u00e1 esta procura por crian\u00e7as e crian\u00e7as que est\u00e3o traficadas para ser adotadas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os. Portanto, \u00e9 uma realidade que mexe com as nossas consci\u00eancias, com os valores em que devemos acreditar e temos que os trabalhar. Eu acho que a Igreja tem esta miss\u00e3o e esta voca\u00e7\u00e3o educativa e que n\u00e3o pode demitir se dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda h\u00e1 pouco referiu a quest\u00e3o dos discursos do medo e da sua explora\u00e7\u00e3o. No contexto da peregrina\u00e7\u00e3o dos migrantes a F\u00e1tima houve uma condena\u00e7\u00e3o dos discursos pol\u00edticos xen\u00f3fobos que considerou muito graves. Isto \u00e9 uma tend\u00eancia crescente em Portugal. \u00c9 poss\u00edvel identificar isso? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel identificar n\u00e3o s\u00f3 em Portugal, mas tamb\u00e9m na Europa. Infelizmente. Eu creio que, nestes discursos, aquilo que \u00e9 preocupante \u00e9 quando transformamos os migrantes em bodes expiat\u00f3rios. E \u00e9 isso que a Igreja n\u00e3o pode aceitar e que a Igreja n\u00e3o aceita. Toda a campanha &#8211; esta constru\u00e7\u00e3o do futuro com migrantes e refugiados- passa por aceitar o fen\u00f3meno migrat\u00f3rio como algo natural, como algo muito humano. Passa por reconhecer as causas n\u00e3o s\u00f3 da migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, mas tamb\u00e9m quando n\u00f3s queremos que esta imigra\u00e7\u00e3o fa\u00e7a parte de um projeto de vida, de um projeto de desenvolvimento&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aconteceu com milh\u00f5es de portugueses ao longo da hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m. Passa por reconhecer que crescemos como sociedade, culturalmente e socialmente, economicamente. Passa por perceber que, como Igreja, crescemos espiritualmente e crescemos nesta capacidade de nos relacionarmos com todos e de dialogar com todos e de construir projetos conjuntos. Passa por esta capacidade de crescer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas quando vemos que certas ideologias que defendem esses discursos xen\u00f3fobos t\u00eam tend\u00eancia a crescer, inclusivamente do ponto de vista pol\u00edtico no nosso pa\u00eds; isso significa que n\u00e3o se tem feito tudo ao n\u00edvel do descodificar desses discursos?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Precisamos de trabalhar os discursos e precisamos de trabalhar no sentido da coes\u00e3o social, porque se as pessoas sentirem que n\u00e3o h\u00e1 desigualdade, se as pessoas sentirem que a justi\u00e7a funciona para todos, estes discursos n\u00e3o t\u00eam lugar. Portanto, \u00e9 preciso trabalhar ao n\u00edvel da aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas. N\u00e3o basta s\u00f3 ter pol\u00edticas boas no papel. \u00c9 preciso realmente p\u00f4-las em pr\u00e1tica e ir trabalhando as mentalidades aos diferentes n\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 poucos dias, aquando da sua desloca\u00e7\u00e3o a Portugal, o bispo de Pemba, no norte de Mo\u00e7ambique, alertava para o esquecimento da realidade dos deslocados internos. Ser\u00e3o, nesta altura, de acordo com as suas palavras, cerca de 1 milh\u00e3o. Isto por causa dos ataques terroristas. Esta \u00e9 outra realidade que exige a a\u00e7\u00e3o da comunidade internacional e tamb\u00e9m das comunidades cat\u00f3licas? <\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m temos orienta\u00e7\u00f5es pastorais para estes deslocados internos. \u00c9 uma realidade que Portugal, por exemplo, conhece menos, mas h\u00e1 pa\u00edses que lidam com isto, com esta realidade.\u00a0 E temos de nos aproximar, estar dispon\u00edveis para a quest\u00e3o do acolhimento e escutar a voz do bispo, porque de facto, por estar mais longe, pode ficar mais facilmente esquecido. Estas pessoas continuam a precisar do nosso apoio, nomeadamente a n\u00edvel do desenvolvimento de outras regi\u00f5es, para que possam acolher. O deslocamento interno acontece dentro das fronteiras do pr\u00f3prio pa\u00eds e \u00e9 uma quest\u00e3o tamb\u00e9m de desenvolver as freguesias vizinhas -digamos assim- para que possam acolher e que n\u00e3o vivam a tens\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este Dia Mundial do Migrante e Refugiado, que estamos a celebrar hoje, faz-nos olhar para a lideran\u00e7a inequ\u00edvoca do Papa Francisco neste campo. Como \u00e9 que as palavras e os gestos muito simb\u00f3licos do Papa, nesta \u00e1rea, do seu ponto de vista, contrastam com discursos que at\u00e9 usam valores crist\u00e3os para justificar o fecho de fronteiras? <\/em><\/p>\n<p>O Papa Francisco com os gestos diz-nos: \u00e9 poss\u00edvel fazer diferente. E n\u00e3o s\u00f3 as palavras dele, sobretudo os gestos porque os gestos falam e inspiram a esta mudan\u00e7a. \u00c9 poss\u00edvel fazer diferente N\u00e3o faz sentido fechar fronteiras numa casa, num planeta que \u00e9 nossa casa comum. Aquilo que ele nos leva a pensar \u00e9 que esta quest\u00e3o das fronteiras tem de ser repensada. A quest\u00e3o dos nacionalismos tem de ser repensada. N\u00e3o faz sentido, temos de cuidar. Cuidamos do nosso pa\u00eds, \u00e9 verdade, mas \u00e9 preciso cuidar como um todo e ser capaz de estabelecer pontes. Estamos a trabalhar neste sentido. H\u00e1 v\u00e1rios trabalhos a n\u00edvel do desenvolvimento, mas de uma forma interligada, de uma forma que reconhe\u00e7a que outros povos, que outros pa\u00edses t\u00eam o mesmo direito \u00e0 autonomia, t\u00eam o mesmo direito a crescer, a desenvolver-se e que haja uma rela\u00e7\u00e3o de igualdade e n\u00e3o de subservi\u00eancia de um pa\u00eds para o outro. \u00c9 isto que, \u00e0s vezes, \u00e9 dif\u00edcil crescer assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Historicamente h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de determinada superioridade de uma parte do mundo em rela\u00e7\u00e3o a outra&#8230;..\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Sim, a quest\u00e3o do colonialismo, do imperialismo tem isso subjacente. Agora, para\u00a0crescermos noutro sentido de reconhecer esta igualdade e reconciliar-nos com aquilo que aconteceu no passado. \u00c9 um outro trabalho a fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-254035\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/eugenia_quaresma_foto_1_foto_manuel_costa_ecclesia2034e7dcdefaultlarge_1024.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Estamos habituados a pensar no contributo que os emigrantes portugueses d\u00e3o \u00e0s comunidades cat\u00f3licas dos outros pa\u00edses, j\u00e1 aqui falamos dessa situa\u00e7\u00e3o. Mas o Papa recorda que, tamb\u00e9m como pa\u00eds de acolhimento, \u00e9 preciso reconhecer o contributo dos migrantes e refugiados para o crescimento das sociedades e a vida das comunidades religiosas. Falta esse discurso de valoriza\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei se faltar\u00e1\u2026 Eu procuro lembrar isso quando falo da nossa di\u00e1spora, porque d\u00e3o este contributo, d\u00e3o este testemunho, nomeadamente nos pa\u00edses l\u00e1 fora, mas quando regressam v\u00eam com uma sabedoria, v\u00eam com uma experi\u00eancia nova. O apelo \u00e9 para que as nossas dioceses possam acolher esta viv\u00eancia nova e crescer com a nossa di\u00e1spora. Portanto, n\u00e3o s\u00f3 apoiamos que cres\u00e7am com a imigra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com a emigra\u00e7\u00e3o quando retorna. Faz parte da nossa miss\u00e3o. Eu tenho procurado falar desta realidade. Espero ser cada vez mais ouvida.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Uma \u00faltima quest\u00e3o mais jur\u00eddica, por assim dizer. No final de agosto foi publicada a nova Lei de Estrangeiros. Tem novas modalidades de vistos e regimes jur\u00eddicos que visam facilitar a perman\u00eancia do titular no territ\u00f3rio portugu\u00eas. <\/em><em>V\u00ea isto como uma mudan\u00e7a positiva? <\/em><\/p>\n<p>Sim. S\u00e3o vias legais e seguras para que os migrantes possam chegar at\u00e9 n\u00f3s e para que possamos fazer face \u00e0 quest\u00e3o do tr\u00e1fico humano. Porque o tr\u00e1fico humano cresce quando as leis s\u00e3o mais restritivas, porque procuram caminhos ilegais, procuram mostrar facilidades que n\u00e3o existem. Por outro lado, esta lei publicada exige que os servi\u00e7os correspondam com a mesma celeridade, porque isso tamb\u00e9m \u00e9 um obst\u00e1culo, \u00e0s vezes, para a obten\u00e7\u00e3o de vistos, para a quest\u00e3o do trabalho&#8230;\u00a0Mas tenho experi\u00eancia, quando os vistos s\u00e3o adequados \u00e0quilo que as pessoas veem fazer, que os servi\u00e7os t\u00eam respondido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem essa ideia? Pergunto isto porque ainda esta semana, numa entrevista, um sacerdote oriundo dos Camar\u00f5es, que nesta altura se encontra na Nig\u00e9ria em tr\u00e2nsito para Portugal, lamentava a demora na emiss\u00e3o do visto. Dizia-me ele que o visto estava a demorar muito tempo e que n\u00e3o sabia a raz\u00e3o do que estava a acontecer&#8230;.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Isso deve prender-se certamente com as quest\u00f5es da investiga\u00e7\u00e3o. Infelizmente temos esta realidade: pa\u00edses que conhecemos um pouco menos, levamos mais tempo a investigar e dificultamos a obten\u00e7\u00e3o de vistos. Eu penso que esta lei que foi aprovada agora facilita, sobretudo, a quest\u00e3o dos vistos para os pa\u00edses com quem temos rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas mais pr\u00f3ximas. E a CPLP\u00a0(Comunidade de Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa)\u00a0 trabalhou nesse sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja celebra o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado desde 1914, uma celebra\u00e7\u00e3o que ocorre no \u00faltimo domingo de setembro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":254036,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[258,274,291],"class_list":["post-254032","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-migracoes","tag-papa-francisco","tag-refugiados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=254032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254032\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/254036"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=254032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=254032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=254032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}