{"id":254,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-clonagem-nos-seres-humanos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-clonagem-nos-seres-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-clonagem-nos-seres-humanos\/","title":{"rendered":"A clonagem nos seres humanos"},"content":{"rendered":"<p>Alexandre Laureano Santos &#8211; Grupo Consultores CECS <!--more--> A clonagem nos seres humanos Os avan\u00e7os da ci\u00eancia no conhecimento da transmiss\u00e3o da vida permitiram lan\u00e7ar luz numa \u00e1rea que tem despertado um enorme interesse nas duas \u00faltimas centenas de anos. No final do S\u00e9c. XIX os conhecimentos facultados pelos trabalhos desenvolvidos por Pasteur e pelos seus continuadores sobre a origem dos seres vivos tiveram um enorme impacto no seu tempo, despertando animosidades em muitos sectores. Foi necess\u00e1rio muito mais de um s\u00e9culo para dominar com algum \u00eaxito os principais mecanismos da transmiss\u00e3o da vida humana. Um s\u00e9culo no desenvolvimento da ci\u00eancia actual \u00e9 um per\u00edodo muit\u00edssimo longo. Este lapso de tempo d\u00e1 uma ideia da complexidade dos mecanismos da transmiss\u00e3o da vida.  A ci\u00eancia parece indicar que o aperfei\u00e7oamento da transmiss\u00e3o da vida nas esp\u00e9cies vegetais e animais resultou de m\u00faltiplas tentativas. Isto \u00e9, as altera\u00e7\u00f5es na informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que foram transmitidas aos descendentes originaram novas caracter\u00edsticas nos seres vivos: uns melhoraram e outros pioraram a sua adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente. A competi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica conduziu, necessariamente, \u00e0 selec\u00e7\u00e3o dos organismos mais aperfei\u00e7oados que puderam ent\u00e3o reproduzir-se utilizando com maior rendimento os meios que a natureza colocou no espa\u00e7o em que habitavam. A \u201cfor\u00e7a da vida\u201d \u00e9 tal que permitiu a exist\u00eancia de um n\u00famero incont\u00e1vel de esp\u00e9cies adaptadas a condi\u00e7\u00f5es de vida extremamente hostis. Um dos mecanismos que as formas superiores de vida utilizam para a sua adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente \u00e9 o da reprodu\u00e7\u00e3o sexuada. A clonagem, ou dito de outro modo, a reprodu\u00e7\u00e3o assexuada \u00e9 um m\u00e9todo pr\u00f3prio dos organismos constitu\u00eddos por uma \u00fanica ou por um escasso n\u00famero de c\u00e9lulas, por via de regra absolutamente dependentes do meio onde vivem e muito vulner\u00e1veis \u00e0s suas modifica\u00e7\u00f5es. Todos os seres vivos superiores utilizam a reprodu\u00e7\u00e3o sexuada. No mundo vegetal, a reprodu\u00e7\u00e3o por estaca, bem conhecida desde tempos de que n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria, \u00e9 uma forma de reprodu\u00e7\u00e3o artificial por clonagem utilizada quando se quer fazer r\u00e9plicas de um ser vivo vegetal num ambiente ao qual se encontra excelentemente adaptado. A reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, por outro lado, permite mecanismos muito mais poderosos de adapta\u00e7\u00e3o devido \u00e0 possibilidade de recombina\u00e7\u00e3o dos genes, facultando uma descend\u00eancia com caracter\u00edsticas diversificadas, que as in\u00fameras gera\u00e7\u00f5es e a selec\u00e7\u00e3o natural foram aperfei\u00e7oando durante milh\u00f5es de anos. A leitura da informa\u00e7\u00e3o contida nos cromossomas humanos permitir\u00e1 certamente a mais correcta hist\u00f3ria da vida na terra. Nos \u00faltimos anos houve m\u00faltiplas refer\u00eancias nas publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas \u00e0 possibilidade de reprodu\u00e7\u00e3o por clonagem nos mam\u00edferos superiores. Muitas demonstraram que as c\u00e9lulas que melhor suportam a troca do seu n\u00facleo natural por outro da mesma esp\u00e9cie, mantendo a sua viabilidade, s\u00e3o as c\u00e9lulas precursoras da c\u00e9lula sexual feminina \u2013 os ovocitos. A t\u00e9cnica mais praticada consiste em retirar o n\u00facleo destas c\u00e9lulas (contendo apenas a metade feminina dos cromossomas) e substitu\u00ed-lo pelo n\u00facleo de uma c\u00e9lula de um indiv\u00edduo adulto da mesma esp\u00e9cie. O novo ser assim criado ter\u00e1 a mesma informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do indiv\u00edduo de onde o n\u00facleo celular foi retirado. Isto \u00e9, o organismo desenvolvido ser\u00e1 um g\u00e9meo verdadeiro do dador do n\u00facleo celular. Em resumo, para praticar a t\u00e9cnica da clonagem mais usada num mam\u00edfero (como na esp\u00e9cie humana) ser\u00e3o necess\u00e1rias uma c\u00e9lula vi\u00e1vel retirada de um ov\u00e1rio, uma outra c\u00e9lula adulta de um outro ou do mesmo organismo \u00e0 qual ser\u00e1 retirado o n\u00facleo a transplantar e um \u00fatero onde o pequenino ser se poder\u00e1 desenvolver at\u00e9 poder ter a autonomia pr\u00f3pria da esp\u00e9cie.  Todas estas tentativas de clonagem dos organismos superiores s\u00e3o experimentais, apenas menos de uma em cada cem experi\u00eancias tentadas resultaram na cria\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo desenvolvido, muitas terminando em abortamentos espont\u00e2neos ou em seres vivos com defici\u00eancias org\u00e2nicas m\u00faltiplas. Admite-se que uma causa importante para esta vulnerabilidade resulte do facto do material gen\u00e9tico retirado do organismo adulto ter perdido algumas das suas caracter\u00edsticas potenciais de diferencia\u00e7\u00e3o, nomeadamente a possibilidade da inibi\u00e7\u00e3o de muitos genes ocorrida no processo de forma\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os do indiv\u00edduo adulto. Estas experi\u00eancias apenas s\u00e3o poss\u00edveis num ambiente tecnol\u00f3gico muito evolu\u00eddo exigindo um grande investimento financeiro e o concurso de especialistas que s\u00e3o relativamente raros nestes dom\u00ednios cient\u00edficos.  A clonagem reprodutora humana n\u00e3o \u00e9, portanto, uma novidade cient\u00edfica. \u00c9 poss\u00edvel a clonagem de c\u00e9lulas humanas com material gen\u00e9tico clonante proveniente de outro ou do mesmo ser humano com o objectivo de produzir um embri\u00e3o vi\u00e1vel atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de um \u00fatero de uma m\u00e3e hospedeira (que um dia se poder\u00e1 eventualmente demonstrar que poder\u00e1 ser a pr\u00f3pria dadora do material gen\u00e9tico). Este tipo de interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhum interesse cient\u00edfico e n\u00e3o tem qualquer suporte \u00e9tico, sendo, portanto, uma experi\u00eancia interdita. Representaria a m\u00e1xima subordina\u00e7\u00e3o de um futuro ser humano a um capricho ou a uma obsess\u00e3o de algu\u00e9m, visto que estaria impressa em todas as suas c\u00e9lulas uma matriz biol\u00f3gica intencionalmente condicionada, provavelmente mais fr\u00e1gil e mais vulner\u00e1vel, caracter\u00edsticas que s\u00e3o transmiss\u00edveis \u00e0 sua descend\u00eancia.  A clonagem reprodutora humana foi explicitamente banida na legisla\u00e7\u00e3o de muitos pa\u00edses, apesar de algumas vozes publicamente declararem a capacidade e a inten\u00e7\u00e3o de ultrapassar a condena\u00e7\u00e3o de tal pr\u00e1tica. No nosso pa\u00eds, o Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida manifestou-se formalmente contra a clonagem reprodutora humana e a Assembleia da Rep\u00fablica acolheu o seu parecer. Portugal ratificou a Conven\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e da Biomedicina do Conselho da Europa (Conven\u00e7\u00e3o de Oviedo) e tamb\u00e9m um protocolo adicional espec\u00edfico sobre clonagem humana reprodutiva, que formalmente pro\u00edbem tais actividades. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds membro do Conselho da Europa produzir legisla\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a a regulamenta\u00e7\u00e3o do diploma, o que ainda n\u00e3o ocorreu em Portugal, constituindo este facto uma grave defici\u00eancia nas leis do nosso pa\u00eds. Surgem agora, ruidosamente e como factos consumados, as not\u00edcias da clonagem de seres humanos. Rumores de v\u00e1rias origens ocorriam \u00e0s ag\u00eancias noticiosas. A comunidade cient\u00edfica tomou conhecimento, recentemente, de uma comunica\u00e7\u00e3o formal aos media partindo de uma bioqu\u00edmica sem credenciais reconhecidas nestes dom\u00ednios, contando o nascimento por cesariana de um beb\u00e9 do sexo feminino obtido por clonagem a partir de um ovocito humano e de um n\u00facleo de uma c\u00e9lula da pele. A mistura parece explosiva: uma seita religiosa, um conjunto de pessoas de ci\u00eancia sem credenciais firmadas e uma empresa comercial que quer expandir o seu espa\u00e7o de interven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabemos se a not\u00edcia \u00e9 verdadeira, visto que a documenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel dentro de dias. Exactamente na altura em que um pequeno ser humano, uma nossa irm\u00e3, se for verdadeira a hist\u00f3ria que alguns contam, poder\u00e1 come\u00e7ar uma vida dif\u00edcil e penosa nas luzes da ribalta. Alexandre Laureano Santos Grupo Consultores CECS  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Laureano Santos &#8211; Grupo Consultores CECS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[131,189,201,203],"class_list":["post-254","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-clonagem","tag-direitos-humanos","tag-etica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}