{"id":253115,"date":"2022-09-14T10:49:11","date_gmt":"2022-09-14T09:49:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=253115"},"modified":"2022-09-14T10:50:43","modified_gmt":"2022-09-14T09:50:43","slug":"saber-aprender-a-contemplar-enquanto-andas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-contemplar-enquanto-andas\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A contemplar enquanto andas"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Numa entrevista \u00e0 poetisa americana Mary Oliver (1935-2019), a jornalista Krista Tippett refere como Mary fala nos seus poemas de ter crescido num lar triste e que o lugar onde passava mais tempo era a caminhar pelos bosques de Ohio (EUA). Mary reconhece que isso salvou a sua vida. \u2014 <em>\u00abAt\u00e9 hoje, n\u00e3o tenho qualquer carinho por espa\u00e7os fechados em edif\u00edcios. (&#8230;) Mas eu fui salva pela poesia, e fui salva pela beleza do mundo. (&#8230;) Eu ia muito para os bosques com livros (&#8230;) mas tamb\u00e9m gostava de movimento. Por isso, eu come\u00e7ava com uns pequenos blocos de notas e escrevinhava coisas conforme me vinham \u00e0 mente, e depois trabalhava-as para se tornarem poemas.\u00bb<\/em> Muito se pode criar a caminhar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_253116\" aria-describedby=\"caption-attachment-253116\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-253116 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Andamos-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-253116\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Arek Adeoye em unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando Walt Disney construiu a Disneyland, os engenheiros queriam pavimentar os caminhos, mas Walt pediu que esperassem. Deixando as pessoas caminhar livremente pelos relvados, ao longo do tempo foram-se formando o que chamamos de \u201ctrilhos de desejo\u201d, isto \u00e9, caminhos formados espontaneamente pelas pessoas sem qualquer ordenamento pr\u00e9-definido. Alguns dos tortuosos impressos na relva induziram os engenheiros a perguntar a Walt se poderiam colocar umas veda\u00e7\u00f5es para as pessoas n\u00e3o pisarem tanto a relva, mas ele ofereceu-lhe uma perspectiva diferente. Aqueles trilhos feitos pelas pessoas eram os que ofereciam menos resist\u00eancia entre os edif\u00edcios. Logo, foi esses que Walt Disney pavimentou. Como diz Torbj\u00f8rn Ekelund no seu livro <em>\u201cIn Praise of Paths\u201d<\/em> (Em Louvor dos Trilhos) \u2014 <em>\u00abum trilho \u00e9 o oposto de uma linha direita. Enquanto um trilho \u00e9 real, uma linha direita \u00e9 uma experi\u00eancia mental, um construto te\u00f3rico.\u00bb<\/em> \u2014 n\u00e3o vos faz lembrar o ditado de que Deus escreve direito por linhas tortas?<\/p>\n<p>A maior parte de n\u00f3s talvez pense que n\u00e3o existem mais caminhos no mundo para explorar. Aqui, explorar significa descobrir, desbravar e n\u00e3o usar e abusar. A ideia que a maioria parece-me ter \u00e9 a de que qualquer caminho ou trilho existe porque muitos j\u00e1 ter\u00e3o pisado aquele espa\u00e7o com os seus p\u00e9s. \u00c9 verdade. Mas por que raz\u00e3o isso faz de n\u00f3s menos exploradores? Todo o caminho que nunca trilh\u00e1mos faz de n\u00f3s exploradores desse caminho por ser a primeira vez que caminhamos nele. Partilho uma experi\u00eancia pessoal.<\/p>\n<p>Recordo como h\u00e1 uns poucos meses, a c\u00e2mara de Coimbra decidiu cortar algumas \u00e1rvores numa zona perto de casa que eu desconhecia, por ter estado antes do corte, ocultada por uma elevada densidade de canas e \u00e1rvores. Enquanto caminhava ali perto notei que o desbaste teria aberto um novo trilho e resolvi experimentar. Era novo para mim, mas, neste caso, era novo para muitos outros, por estar ainda pouco pisado por pessoas e mais pela m\u00e1quinas. A cada curva sentia receio por n\u00e3o saber o que viria a seguir. Um c\u00e3o raivoso? Um ninho de vespas? Esforcei-me por colocar todos os receios de lado e experimentar contemplar o caminho. Importava apenas o passo seguinte que dava. Ao chegar ao sop\u00e9 da encosta, n\u00e3o consegui distinguir qualquer caminho. Experimentei um, mas deparei-me com troncos que o bloqueavam. Experimentei outro e pisava folhas ca\u00eddas sem haver qualquer caminho. Nesse momento, dou-me conta de que talvez fosse dos primeiros a caminhar por ali e que os meus passos estivessem a iniciar um novo trilho. Ao cima de alguns metros, n\u00e3o resisti e parei. Fiz uns momentos de pausa, sil\u00eancio, e decidi voltar para tr\u00e1s com um sorriso nos l\u00e1bios. Todos somos exploradores naturais convidados pelos caminhos a contempl\u00e1-los. Mas uma grande parte das pessoas vive na cidade. \u00c9 a\u00ed poss\u00edvel contemplar enquanto se anda?<\/p>\n<p>Quando era mi\u00fado ficava sempre fascinado ao ver um calceteiro a construir um passeio. Com a per\u00edcia no martelo a esculpir a pedra de cal\u00e7ada, de modo a ajustar-se \u00e0s que estariam ao seu lado, de joelhos, o calceteiro transmitia-me paci\u00eancia, resili\u00eancia e (imaginava) algum cansa\u00e7o. Por ele sentia uma grande admira\u00e7\u00e3o e respeito. Mas depois de completo, com o passar dos dias e das esta\u00e7\u00f5es, os nossos passos calcavam o passeio e consolidavam o piso do caminho. Por\u00e9m, comecei a reparar que alguns passeios continham mais erva do que o passeio do lado oposto. Ou seja, tamb\u00e9m o passeio evolu\u00eda com o tempo, interagindo com a natureza e o Sol. Outros rebentam pelas ra\u00edzes das \u00e1rvores. Outros ainda cediam pelos pesados ve\u00edculos que por eles passam, gerando grandes sulcos. Nuns passeios a pedra \u00e9 mais rugosa e aderente, e noutros a superf\u00edcie lisa e suave \u00e9 um perigo para se escorregar em dias que chuva mi\u00fada. Quantas vezes n\u00e3o passamos pelos mesmos caminhos urbanos, desatentos, e que se lhes prest\u00e1ssemos aten\u00e7\u00e3o nos revelariam coisas novas e diferentes. A vida urbana pode ser, tamb\u00e9m, uma oportunidade para contemplar enquanto andamos. Mas h\u00e1 quem tenha muita dificuldade em caminhar.<\/p>\n<p>Na ruas das nossas cidades \u00e9 sempre poss\u00edvel encontrar aquela pessoa com mais idade a dar passos pequenos e arrastados. Muitos com a idade perdem a capacidade de andar com a mesma vitalidade de antes. Como pode algu\u00e9m que tanta dificuldade tem em caminhar, saber aprender a contemplar enquanto anda?<\/p>\n<p>O Tempo da Cria\u00e7\u00e3o convida a quem d\u00e1 passos, e a quem n\u00e3o consegue mais caminhar, a desfrutar de um andar pelo tempo. Num dos seus poemas, Mary Oliver escrever que <em>\u00abA aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o in\u00edcio da devo\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em> O acto de estar atento e observar tudo o que se move \u00e0 nossa volta, mesmo quando n\u00e3o nos conseguimos mover, significa que \u201candamos pelo tempo\u201d e abrimo-nos ao despertar de um sentido misterioso de devo\u00e7\u00e3o dentro de n\u00f3s. Os trilhos temporais percorrem-se interiormente, atrav\u00e9s dos pensamentos que nos passam pela cabe\u00e7a, ou no discreto sil\u00eancio de quem olha para o movimento do mundo \u00e0 sua volta, ao modo como diria George Mallory quando lhe perguntaram por que raz\u00e3o queria subir o t\u00e3o agreste Evereste \u2014 <em>\u00abPorque est\u00e1 l\u00e1.\u00bb<\/em> (<em>Because it\u2019s there.)<\/em> \u2014 E saber aprender a contemplar enquanto andamos, pelo espa\u00e7o ou pelo tempo, sobretudo na proximidade dos ambientes naturais \u2014 uma floresta, jardim, ou flor dentro de um jarro \u2014, pode ser uma forma de permanecer em ora\u00e7\u00e3o no Tempo da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira 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