{"id":252669,"date":"2022-09-11T09:30:18","date_gmt":"2022-09-11T08:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=252669"},"modified":"2022-09-11T10:42:14","modified_gmt":"2022-09-11T09:42:14","slug":"pobreza-apoios-nao-resolvem-a-vida-de-ninguem-mas-nao-podem-ser-desvalorizados-rita-valadas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pobreza-apoios-nao-resolvem-a-vida-de-ninguem-mas-nao-podem-ser-desvalorizados-rita-valadas-2\/","title":{"rendered":"Pobreza: \u00abApoios n\u00e3o resolvem a vida de ningu\u00e9m, mas n\u00e3o podem ser desvalorizados\u00bb &#8211; Rita Valadas"},"content":{"rendered":"<p>As previs\u00f5es apontam para uma infla\u00e7\u00e3o de 8 por cento com consequ\u00eancias absolutas no custo de vida. O Governo decidiu avan\u00e7ar com um pacote de medidas para apoiar as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Para falar das consequ\u00eancias da infla\u00e7\u00e3o e comentar as propostas de combate ao aumento de pre\u00e7os \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA, Rita Valadas, presidente da C\u00e1ritas Portuguesa.<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_252667\" aria-describedby=\"caption-attachment-252667\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-252667 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1024x768.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-510x382.jpeg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1080x810.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-1280x960.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-980x735.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos-480x360.jpeg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Rita-Valadas_presidente_caritas_portugual_Foto-Agenciaecclesia_Henrique-Matos.jpeg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-252667\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/HM<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Matos (Ecclesia) e Henrique Cunha (Renascen\u00e7a)<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 quem sugira que as medidas chegam tarde. Partilha desta cr\u00edtica?<\/em><\/p>\n<p>Para quem precisa, \u00e9 sempre tarde. E claramente, neste caso, n\u00e3o podemos dizer que foi cedo porque eu acho que n\u00f3s \u00e0s vezes esquecemo-nos que a quest\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o era uma quest\u00e3o que estava colocada antes da guerra, e, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia da guerra. \u00c9 claramente majorada pela situa\u00e7\u00e3o da guerra e pelas suas consequ\u00eancias. Portanto, o que eu diria \u00e9 que h\u00e1 um alerta, que \u00e9 do fim do ano passado e que por isso o pensamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas teria sido interessante que se fosse fazendo de maneira que quando a situa\u00e7\u00e3o se agravou, tivessem acontecido. Mas ao mesmo tempo que s\u00e3o sempre tardias, quando as pessoas precisam \u00e9 sempre importante cheguem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E olhando para o conjunto de medidas. Fal\u00e1mos dos 125\u00a0\u20ac para pessoas at\u00e9 um valor mensal de ordenado, b\u00f3nus de pens\u00f5es, descida de IVA. Parece-lhe que &#8211; vou utilizar a express\u00e3o &#8211; ningu\u00e9m fica para tr\u00e1s?\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Isso adorava poder dizer, mas na verdade acho que ningu\u00e9m d\u00e1 um passo em frente. Todos n\u00f3s vamos dar um passinho atr\u00e1s e, portanto, dificilmente eu posso dizer que ningu\u00e9m fica para tr\u00e1s. Eu acho que ficamos todos um bocadinho para tr\u00e1s nesta situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 natural porque isto afeta transversalmente todas as pessoas. N\u00f3s fixamo-nos naturalmente, porque temos a preocupa\u00e7\u00e3o com as pessoas mais vulner\u00e1veis, mas a vulnerabilidade aqui \u00e9 transversal, porque as pessoas que t\u00eam um rendimento superior tamb\u00e9m t\u00eam encargos superiores. E se os encargos t\u00eam a ver com empr\u00e9stimos, os riscos s\u00e3o equivalentes ou eventualmente, talvez mais danosos. Sem ter a ver com o pacote que agora foi apresentado, a verdade \u00e9 que o risco de perder a casa, de uma pessoa que tem um empr\u00e9stimo para pagar com as taxas de infla\u00e7\u00e3o que n\u00f3s vamos vendo acontecer e que tememos para o futuro, tamb\u00e9m correm esse risco. E estas pessoas deste grupo s\u00e3o pessoas que t\u00eam vindo a ser sucessivamente atacadas por crises sucessivas. J\u00e1 em 2008 foi a classe m\u00e9dia que nessa altura perdeu. Houve muita gente a perder casa por baixa de rendimento, com aumento de custos ou com perda de emprego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 que fala dessa quest\u00e3o da classe m\u00e9dia e olhando tamb\u00e9m para as medidas, parece-lhe que tiveram em conta precisamente esse fen\u00f3meno relacionado com a pobreza envergonhada e que est\u00e1 muito relacionada com essa classe m\u00e9dia, tendo em considera\u00e7\u00e3o que falou da quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m a ela est\u00e1 associada a quest\u00e3o das rendas que o Governo n\u00e3o congelou, mas decretou um teto m\u00e1ximo para os aumentos?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Claramente que houve uma preocupa\u00e7\u00e3o clara, embora um bocadinho cosm\u00e9tica, de dar um sinal \u00e0 classe m\u00e9dia. E \u00e9 bom poder receber este apoio neste m\u00eas de outubro\u00a0que \u00e9 o m\u00eas de regresso \u00e0s aulas, at\u00e9 porque, apesar dos manuais escolares serem gratuitos, os custos de voltar \u00e0 escola n\u00e3o s\u00e3o de somenos. Portanto, poder receber este apoio neste m\u00eas faz a diferen\u00e7a. N\u00e3o faz a diferen\u00e7a na vida das pessoas, nem vai resolver os seus problemas, porque \u00e9 uma presta\u00e7\u00e3o \u00fanica que pode fazer face a este fen\u00f3meno \u00fanico que n\u00f3s temos, que \u00e9 o in\u00edcio do ano letivo, mas que n\u00e3o faz nenhuma diferen\u00e7a na vida das pessoas para o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o estas medidas est\u00e3o a ajudar as pessoas, ou a ajudar o Governo? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu conhe\u00e7o muito pouco de economia para me poder pronunciar com verdade, e n\u00e3o gosto muito pouco de falar daquilo que n\u00e3o sei. N\u00e3o sei se ajuda ao governo. Ajuda as pessoas, mas \u00e9 uma ajuda pontual. Portanto, ningu\u00e9m vai conseguir resolver a sua vida com este apoio, mas quando n\u00f3s estamos numa situa\u00e7\u00e3o de crise, n\u00e3o podemos desmerecer ou desvalorizar estes apoios.<\/p>\n<p>Eu lembro-me sempre quando eu comecei a trabalhar num servi\u00e7o de atendimento &#8211; ainda era no tempo do escudo &#8211; e havia muitos subs\u00eddios de 50 escudos na Santa Casa e era preciso rever os subs\u00eddios. E na altura, olhou-se para isso e pensou-se: 50 escudos servem para que? N\u00f3s temos que rever a situa\u00e7\u00e3o destas pessoas, mas 50 escudos n\u00e3o fazem a diferen\u00e7a. E depois, os subs\u00eddios pequenos, quando s\u00e3o muitos \u00e9 muito dinheiro. N\u00f3s ponderamos a hip\u00f3tese de descontinuar os subs\u00eddios de 50 escudos, avaliando a situa\u00e7\u00e3o das pessoas. E quando avaliamos a situa\u00e7\u00e3o das pessoas, percebemos que aqueles 50 escudos eram guardados para comprar a botija de g\u00e1s que as pessoas usavam mensalmente e que se perdessem esse subs\u00eddio, isso tinha um impacto brutal na vida delas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 o disse estas medidas de apoio imediato, n\u00e3o v\u00e3o resolver a pobreza estrutural nem retirar as fam\u00edlias da pobreza. Sendo esta uma situa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, pergunto n\u00e3o h\u00e1 o perigo de ofuscar outras interven\u00e7\u00f5es de fundo que a prazo poderiam produzir mais resultados? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que n\u00e3o \u00e9 os 125 euros, 50 euros ou at\u00e9 mesmo metade da pens\u00e3o n\u00e3o v\u00e3o ofuscar nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falo no sentido do Governo desinvestir noutras medidas mais estruturais\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, por isso dizia h\u00e1 pouco que s\u00e3o medidas um bocadinho cosm\u00e9ticas. Fica bonito durante um tempo, mas como em qualquer pintura facial, desaparecem r\u00e1pido. Eu acho que a press\u00e3o, ou melhor, o apoio que deve ser dado ao governo, deve ser no sentido desse alerta. Eu n\u00e3o me sinto em condi\u00e7\u00f5es de fazer avalia\u00e7\u00f5es macroecon\u00f3micas, mas sinto-me em condi\u00e7\u00f5es de fazer alertas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da vida das pessoas no territ\u00f3rio. E a\u00ed h\u00e1 uma coisa na qual sempre insisto. Que ningu\u00e9m julgue que conhece a realidade social por\u00a0a ver sentado a partir de um gabinete. V\u00e3o ver e percebam a diferen\u00e7a, ou o impacto que pode ter alguma medida, que \u00e0s vezes parece muito pequena e pode ser muito importante, ou que \u00e0s vezes pode parecer muito importante e n\u00e3o ter um impacto desejado.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o queria fugir \u00e0 quest\u00e3o que o Henrique me colocou relativamente \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. A habita\u00e7\u00e3o das rendas, e a habita\u00e7\u00e3o dos empr\u00e9stimos \u00e9 completamente diferente.<\/p>\n<p>E uma e outra n\u00e3o v\u00e3o ter o mesmo o impacto. Primeiro porque quem paga renda tem um senhorio pelo meio e tem aqui, \u00e0s vezes, uma almofada de proximidade. Quem paga empr\u00e9stimos de im\u00f3veis com aumento da taxa de juro, se a taxa de juro n\u00e3o amenizar, e n\u00e3o houver uma invers\u00e3o da curva, n\u00f3s vamos ter muita gente que vai ter a sua casa em risco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito menos pessoal, n\u00e3o \u00e9?\u00a0 \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro. Se n\u00e3o pagou sai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa..jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-172898 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa.-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Caritas-Portuguesa..jpg 1526w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>No que diz respeito \u00e0s rendas, a C\u00e1ritas tamb\u00e9m tem dado not\u00edcia de que cada vez mais pessoas pedem ajuda para fazer face essa responsabilidade de pagar no final do m\u00eas, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Quando a crise da pandemia se precipitou, e percebemos o que estava a acontecer, a dire\u00e7\u00e3o que me antecedeu, a dire\u00e7\u00e3o do professor Eug\u00e9nio criou um programa que \u00e9 &#8220;o vamos inverter a curva da pobreza&#8221;. \u00c9 um programa que n\u00f3s mantemos, com alguma variabilidade, de acordo com as crises que se foram somando. Este &#8220;o vamos inverter a curva da pobreza&#8221; foi exatamente para fazer face aos pedidos de fam\u00edlias que normalmente n\u00e3o estavam no nosso radar, mas que estavam exatamente com receio de perder a casa, de ficar sem luz, de ficar sem \u00e1gua e de n\u00e3o ter internet para os mi\u00fados estudarem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mergulhando na realidade e indo ao encontro dessa curva da pobreza; os pedidos de ajuda junto da C\u00e1ritas continuam a aumentar de forma consecutiva?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Tem vindo a aumentar. N\u00f3s come\u00e7amos a ter alguns sinais, mas uma vez digo, varia de acordo com os territ\u00f3rios. Por exemplo, a seguir \u00e0 pandemia, os territ\u00f3rios que s\u00e3o muito suportados no turismo conseguiram fazer uma retoma que outros territ\u00f3rios n\u00e3o fizeram em Portugal. E isto apesar da situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que o turismo tem vivido por n\u00e3o conseguir pessoas para trabalhar, que tamb\u00e9m \u00e9 um fen\u00f3meno curioso.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s conseguimos ter a press\u00e3o em alguns territ\u00f3rios, e noutros n\u00e3o.\u00a0 Mantivemos o programa e fomo-lo adaptando \u00e0s crises que vieram e, portanto, quando se iniciou a guerra, abrimo-lo \u00e0s fam\u00edlias que v\u00eam da Ucr\u00e2nia, e que precisavam de apoio. Muito recentemente, com a Renascen\u00e7a, fizemos uma campanha que olhava sobretudo para os idosos isolados. E, portanto, a flexibilidade deste programa e a forma como a Rede o conhece e o usa para n\u00f3s \u00e9 muito \u00fatil para responder rapidamente. Porque essa \u00e9 a diferen\u00e7a que n\u00f3s podemos fazer.\u00a0 O governo para lan\u00e7ar medidas tem um conjunto de burocracias e pesos que n\u00f3s n\u00e3o temos. N\u00f3s temos essa flexibilidade n\u00e3o s\u00f3 de conhecer melhor, porque sabermos que aquela a\u00e7\u00e3o tem aquela consequ\u00eancia, mas tamb\u00e9m de tentar trazer quer doadores, quer pessoas que precisam a receber esse apoio de acordo com aquilo que necessitam e da forma mais digna poss\u00edvel que lhes garanta o bem-estar e serenidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A C\u00e1ritas tem tamb\u00e9m denunciado a chamada \u201cpobreza envergonhada\u201d de forma especial na classe media. \u00c9 um fen\u00f3meno que persiste?<\/em><\/p>\n<p>De facto, o que aconteceu foi que, por exemplo na pandemia, muitas pessoas que n\u00f3s esper\u00e1vamos que retomassem a sua vida n\u00e3o conseguiram faz\u00ea-lo e s\u00e3o exatamente as pessoas desta classe m\u00e9dia, que n\u00e3o t\u00eam experi\u00eancia de depender de apoios, nem os conhece, e vive naturalmente com grande pudor em pedir, reconhecendo como reconhece, a pior situa\u00e7\u00e3o de muitos na proximidade.<\/p>\n<p>Essas pessoas n\u00e3o aparecem no primeiro momento e tamb\u00e9m devemos estar conscientes de que as crises n\u00e3o irrompem todas ao mesmo tempo. Quando existe uma crise econ\u00f3mica a crise social n\u00e3o aparece no primeiro minuto, aparece a seguir e tamb\u00e9m demora muito. Mais tempo a ir embora. E \u00e9 o tempo de demora em desaparecer que faz neste momento em Portugal, colarem-se crises e as suas consequ\u00eancias. E por isso n\u00f3s temos fam\u00edlias a precisarem de apoio que a ele nunca tinham recorrido, e essas fam\u00edlias tamb\u00e9m nos preocupam.<\/p>\n<p>Tenho sempre muita dificuldade em dizer que s\u00e3o as pessoas da pobreza envergonhada. Porque a minha esperan\u00e7a \u00e9 sempre que estas pessoas, que t\u00eam um conjunto de ferramentas pessoais, que as levou a ultrapassar tantas situa\u00e7\u00f5es, v\u00e3o conseguir utilizar essas ferramentas assim n\u00f3s as possamos apoiar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dra. Rita, Portugal tem um n\u00famero consider\u00e1vel de pobres com pleno emprego, a coes\u00e3o europeia n\u00e3o devia ser mais interventiva nestas assimetrias?<\/em><\/p>\n<p>As assimetrias que n\u00f3s temos tamb\u00e9m existem na Europa, as pessoas n\u00e3o contam \u00e9 a hist\u00f3ria da mesma maneira. N\u00f3s temos uma percentagem enorme, uma taxa elevad\u00edssima de pessoas abaixo do limiar de pobreza e temos tamb\u00e9m um n\u00famero muito preocupante de pessoas que est\u00e3o nesse limiar, nessa situa\u00e7\u00e3o, e que trabalham, o que \u00e9 extraordinariamente agressivo para quem, sob o ponto de vista cultural, sempre entendeu que quando se tem um emprego n\u00e3o se \u00e9 pobre. Assim diziam os meus av\u00f3s, o que \u00e9 preciso \u00e9 ter um emprego e quem tem um emprego n\u00e3o \u00e9 pobre.<\/p>\n<p>E esta consci\u00eancia que nos trouxe o estudo da Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos tem que nos convocar, porque claramente n\u00f3s n\u00e3o conseguimos evolu\u00e7\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o das pessoas se n\u00e3o aumentarmos o rendimento e o rendimento n\u00e3o se aumenta com subs\u00eddios. \u00c9 por isso que as medidas estruturantes s\u00e3o aquelas que acrescentam ao rendimento e que, portanto, nos permitem alterar a situa\u00e7\u00e3o de vida de uma forma consistente. Quando temos apoios pontuais, temos um certo al\u00edvio, uma alegria, mas n\u00e3o mudamos nada. A responsabilidade de cada decis\u00e3o de gasto deve ter isso em considera\u00e7\u00e3o, de que o nosso melhor desiderato\u00a0deveria ser aumentar o rendimento de maneira que nos consegu\u00edssemos de alguma forma alterar estes n\u00fameros da pobreza e, sobretudo, de manter em situa\u00e7\u00f5es de pobreza pessoas que trabalham. E passa muito pelo aumento do rendimento, mas passa tamb\u00e9m pela dignifica\u00e7\u00e3o e reconhecimento do papel de muitas profiss\u00f5es que s\u00e3o pouco procuradas porque n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda regressando \u00e0s medidas, e h\u00e1 pouco fal\u00e1vamos desta classe m\u00e9dia, entende que estas medidas tiveram em conta este fen\u00f3meno relacionado com aquela \u201cpobreza envergonhada\u201d ou ser\u00e3o mais direcionadas para quem est\u00e1 num n\u00edvel mais extremo de necessidade?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que estas medidas abrangem muitas pessoas, mas desta forma pontual. Portanto eu acredito que muitas pessoas ficar\u00e3o, e sobretudo porque \u00e9 autom\u00e1tica o que tamb\u00e9m poder\u00e1 ser question\u00e1vel, s\u00e3o autom\u00e1ticas ningu\u00e9m tem que as pedir, se calhar se fosse pedido haveria algumas pessoas n\u00e3o iriam pedir, mas \u00e9 autom\u00e1tico e, portanto, vai atingir muitas pessoas, mas sem mudar.<\/p>\n<p>Mais uma vez, para mim, aqui os n\u00fameros s\u00e3o perversos. Serem muitas pessoas n\u00e3o significa que isto vai fazer muito pela vida das pessoas. E h\u00e1 aqui algumas \u00e1reas que me preocupam, preocupa-me por exemplo a situa\u00e7\u00e3o dos estudantes. Os estudantes s\u00e3o particularmente agredidos seja pela situa\u00e7\u00e3o quer da habita\u00e7\u00e3o, quer dos custos. Quantos jovens n\u00e3o se ver\u00e3o na necessidade, se n\u00e3o houver medidas, de abandonar a universidade porque n\u00e3o conseguem suportar, j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, as fam\u00edlias n\u00e3o conseguem fazer mais, suportar estadias, alimenta\u00e7\u00e3o, transportes e tudo isso a somar na vida destes jovens. Ou, por outro lado, a gest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. N\u00f3s falamos na alimenta\u00e7\u00e3o em casa, mas aquilo que acontece numa fam\u00edlia acontece num equipamento social.<\/p>\n<p>O aumento da alimenta\u00e7\u00e3o como \u00e9 que se resolve? Diminui-se a qualidade alimentar? Porque pagar mais \u00e9 dif\u00edcil e as institui\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam gorduras que lhes permitam ir buscar para fazerem face aos custos da energia e da alimenta\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que vai ser gest\u00e3o do nosso parque de resposta social? Sobretudo quando envolve alimenta\u00e7\u00e3o ou distribui\u00e7\u00e3o de g\u00e9neros ao domic\u00edlio por exemplo.<\/p>\n<p>E eu n\u00e3o vejo isso, admito que seja para um outro pacote que ainda n\u00e3o tenham falado nisso, mas vejo isso com muita preocupa\u00e7\u00e3o. Porque realmente \u00e9 f\u00e1cil, e eu tenho assistido a algumas conversas sobre o tema, os equipamentos sociais que t\u00eam empresas a gerir as suas necessidades alimentares fizeram contratos, que at\u00e9 podem ser plurianuais, que garantem que v\u00e3o ser fornecidas refei\u00e7\u00f5es a um pre\u00e7o x. Com o aumento dos bens alimentares e da energia, como \u00e9 que vai acontecer? Estas empresas n\u00e3o v\u00e3o conseguir praticar esse pre\u00e7o do contrato, as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem pagar mais&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>V\u00e3o diminuir na qualidade&#8230;<\/em><\/p>\n<p>V\u00e3o negociar produtos&#8230; Isto n\u00e3o que \u00e9 caro, aquilo n\u00e3o&#8230; E depois quem \u00e9 que garante a sa\u00fade, o bem-estar e a alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada?<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas coisas e eu admito que n\u00e3o h\u00e1 quem consiga chegar a tudo, temos aqui um pacote de medidas que \u00e9 um pacote pontual, e \u00e9 bom que se esclare\u00e7am todas as d\u00favidas porque somar a esta dificuldade as pessoas sentirem-se enganadas, n\u00e3o h\u00e1 dinheiro que pague isto. Portanto eu animaria todos a explicar todas estas medidas e as suas consequ\u00eancias no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s estamos a caminhar para o final da nossa entrevista e h\u00e1 ainda algumas quest\u00f5es que lhe gostar\u00edamos de lhe colocar. Uma delas tem a ver com a necessidade de ajudar quem ajuda, ou seja, para al\u00e9m destas medidas que agora discutimos, como \u00e9 que as institui\u00e7\u00f5es que apoiam quem mais necessita podem ser ajudadas para melhor poderem ajudar?<\/em><\/p>\n<p>Pois eu acho que neste momento \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o de gest\u00e3o, o custo das energias \u00e9 muito importante para as institui\u00e7\u00f5es portanto medidas desse ponto de vista seriam interessantes e poderiam apoiar as institui\u00e7\u00f5es, mas tem que se olhar para a resposta efetiva das respostas sociais, analisar com toda a frontalidade se h\u00e1 coisas que est\u00e3o a ser mal feitas e podem ser melhoradas e da\u00ed diminuir os custos, mas tamb\u00e9m perceber se \u00e9 justa a medida do apoio que o Estado d\u00e1 \u00e0s institui\u00e7\u00f5es que substituem uma fun\u00e7\u00e3o que em muitos casos \u00e9 do pr\u00f3prio Estado, h\u00e1 respostas sociais que deveriam ser financiadas a cem por cento, porque \u00e9 total substitui\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o vemos filas de pessoas a pedir ajuda junto \u00e0s sedes partid\u00e1rias, encontramo-las sim junto \u00e0 C\u00e1ritas e diante de outras institui\u00e7\u00f5es similares. Entende que a pol\u00edtica deveria estar mais pr\u00f3xima da situa\u00e7\u00e3o real dos portugueses?<\/em><\/p>\n<p>Espero que muitos estejam a ouvir e que os necessitados acorram \u00e0s portas das sedes partid\u00e1rias&#8230; Como sabem para mim a palavra proximidade \u00e9 indispens\u00e1vel \u00e0 gest\u00e3o das respostas sociais e do bem-estar. Quem n\u00e3o conhece, tem que conhecer. Quem quer pensar as medidas pol\u00edticas, quem quer pensar as solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o pode estar confort\u00e1vel s\u00f3 com relat\u00f3rios porque n\u00e3o saber\u00e1 o que eles descrevem e em que \u00e9 que se baseiam. As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o diferentes&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os pol\u00edticos decidem sem conhecer a realidade?<\/em><\/p>\n<p>Eu acredito que os pol\u00edticos n\u00e3o possam conhecer toda a realidade, porque n\u00e3o conhecem como \u00e9 \u00f3bvio, mas os pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e3o sozinhos t\u00eam supostamente pessoas que trabalham no conhecimento da realidade e que lhes devem dar a conhecer tudo o que \u00e9 paradigm\u00e1tico. Diferente para bom e diferente para dif\u00edcil. N\u00e3o s\u00f3 as coisas bonitas de se ver nem s\u00f3 os erros que os outros cometem. Deviam tentar conhecer os estudos para fazer um justo equil\u00edbrio. Nem os partidos&#8230; \u00e9 mais f\u00e1cil o padre conhecer bem a par\u00f3quia do que&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O deputado o seu c\u00edrculo eleitoral&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Ah certamente. Porque ainda por cima, afastam-se cedo da sua zona mesmo que a representem e depois s\u00e3o engolidos pela m\u00e1quina de discutir estrat\u00e9gias, pol\u00edticas e leis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As previs\u00f5es apontam para uma infla\u00e7\u00e3o de 8 por cento com consequ\u00eancias absolutas no custo de vida. O Governo decidiu avan\u00e7ar com um pacote de medidas para apoiar as fam\u00edlias. 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