{"id":252356,"date":"2022-09-07T10:29:45","date_gmt":"2022-09-07T09:29:45","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=252356"},"modified":"2022-09-07T10:30:38","modified_gmt":"2022-09-07T09:30:38","slug":"saber-aprender-a-contemplar-o-que-escutas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-contemplar-o-que-escutas\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A contemplar o que escutas"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Caminhava pela encosta junto \u00e0 praia na Ericeira. Observava as aves a surfar no vento, as pessoas a surfar nas ondas e outras, caminhantes como eu, que \u201csurfavam\u201d pelos trilhos. A um dado momento, depois de uma subida e diante da decis\u00e3o de voltar para casa, parei por uns minutos. Pensava que estava a observar o horizonte atrav\u00e9s daquela linha infinita que distingue o mar do c\u00e9u azul, mas comecei gradualmente a dar-me conta de que fazia algo mais para al\u00e9m de observar. Escutava.<\/p>\n<figure id=\"attachment_252357\" aria-describedby=\"caption-attachment-252357\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-252357\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1030\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-379x260.jpg 379w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-1024x703.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-768x527.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-474x324.jpg 474w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-1080x742.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-1280x879.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-980x673.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/EscutarNatureza1-480x330.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-252357\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Miguel Pan\u00e3o (2022)<\/figcaption><\/figure>\n<p>O vento que refresca e as ondas do mar oce\u00e2nico produzem o mesmo som desde os prim\u00f3rdios da Terra. Por isso, quando os escuto \u00e9 como viajasse no tempo e estivesse a escutar o ambiente de uma Terra primitiva antes das plantas e dos animais existirem. <em>\u00abTodo o universo material \u00e9 uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por n\u00f3s. O solo, a \u00e1gua, as montanhas: tudo \u00e9 car\u00edcia de Deus.\u00bb<\/em> \u2014 diz o Papa Francisco na Laudato Si\u2019 (n. 84). Por isso, se o universo \u00e9 a linguagem de amor atrav\u00e9s da qual Deus nos fala, o que nos est\u00e1 a dizer desde os prim\u00f3rdios do nosso planeta?<\/p>\n<p>No Santu\u00e1rio da Fonte Colombo, S. Francisco escreveria a sua primeira Regra. Entrei na capela de S. Miguel e ali estava, suspensa na parede. Senti-me convidado a sentar, parar, e fazer um momento de sil\u00eancio, recolhendo-me como nos tinham proposto naquela peregrina\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o fiquei por ali. Decidi caminhar pela floresta porque gostaria de fazer a mesma experi\u00eancia que S. Francisco fazia ao imergir-se pela natureza. Na floresta, o canto dos p\u00e1ssaros e das cigarras, o zumbido das abelhas, e outros sons cuja fonte desconhe\u00e7o, sobrepunham-se ao vento que fazia as \u00e1rvores dan\u00e7ar. O canto primitivo do vento era sucedido na hist\u00f3ria do planeta pelo <em>canto das criaturas<\/em>. Nesse momento compreendi a raz\u00e3o da profundidade do escrito de S. Francisco \u2014 provinha da experi\u00eancia de <em>contemplar a escuta<\/em>. N\u00e3o poder\u00e1 esta <em>contempla\u00e7\u00e3o da escuta<\/em> dos sons primitivos, e dos mais recentes, ser uma forma de celebrar o Tempo da Cria\u00e7\u00e3o? E de onde vem a capacidade de escutar?<\/p>\n<p>Os sons primitivos s\u00e3o impulsionados pelo sol, pela gravidade e pelo calor no nosso planeta Terra. Quando existem diferen\u00e7as de temperatura, geram-se diferen\u00e7as de concentra\u00e7\u00e3o no ar e esse, \u00e0 procura do equil\u00edbrio, move-se e faz-se vento. A gravidade e o vento, ao interagirem com a superf\u00edcie do mar geram a ondas que junto \u00e0 margem encontram a resist\u00eancia no solo que induz uma diferen\u00e7a na velocidade entre a base e o topo que leva ao rebentamento da onda e ao som t\u00e3o caracter\u00edstico que ouvi nas praias da Ericeira. Existem raz\u00f5es f\u00edsicas para a escuta dos sons de natureza geol\u00f3gica. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio do vento e das ondas do mar, por mais f\u00f3sseis que encontremos, nenhum d\u00e1-nos pistas dos sons produzidos pelos primeiros seres multicelulares. \u00c9 como se durante 3 mil milh\u00f5es de anos, a terra fervilhasse cada vez mais numa vida silenciosa. O que aconteceu \u00e0 vida para lhe dar a sensibilidade de ouvir sons?<\/p>\n<p>David George Haskell num artigo para a <em>Resurgence<\/em> (Jul\/Ago, 2022) explica que \u2014 <em>\u00abdurante aqueles longos, silenciosos anos, a evolu\u00e7\u00e3o construiu a estrutura que mais tarde transformaria os sons da Terra. Esta inova\u00e7\u00e3o &#8211; um min\u00fasculo ondulante cabelo na membrana de uma c\u00e9lula &#8211; ajudou as c\u00e9lulas a nadar e a arranjar comida. Este cabelo, conhecido como c\u00edlio, projecta-se no fluido em torno da c\u00e9lula.(&#8230;) O movimento da \u00e1gua circundante \u00e9 transmitido ao conjunto de prote\u00ednas no n\u00facleo do c\u00edlio e volta de novo para a c\u00e9lula, tornando-se o fundamento para a consci\u00eancia que a vida tem das ondas de som.\u00bb<\/em> Ou seja, a causa da nossa capacidade de escutar est\u00e1 num singelo cabelo ondulante. Contudo, a vida fisicamente transformada para escutar n\u00e3o deveria, em n\u00f3s, seres conscientes das nossas experi\u00eancias, produzir uma liga\u00e7\u00e3o diferente com a terra?<\/p>\n<p>No seu livro \u201c<em>Artic Dreams<\/em>\u201d, o escritor Barry Lopez partilha a seguinte experi\u00eancia \u2014 <em>\u00abUm homem de Anaktuvuk Pass, em resposta \u00e0 quest\u00e3o sobre o que fazia quando visitava um novo lugar, disse-me, \u201cEu escuto.\u201d \u00c9 tudo. Eu escuto, queria ele dizer, \u00e0quilo que a terra est\u00e1 a dizer. Caminho por ela e apuro os meus sentidos em aprecia\u00e7\u00e3o a essa por um longo tempo antes de eu pr\u00f3prio falar qualquer palavra que seja. Entrando deste modo respeitoso, acreditava, a terra abrir-se-ia a ele.\u00bb<\/em> Que intimidade em t\u00e3o grande simplicidade. A vida exterior pela experi\u00eancia do sentido de ouvir adquire a oportunidade de na vida interior descobrir o sentido de escutar. Mas atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o que em n\u00f3s, humanos, passou a ser cultural, os sons voltaram a mudar.<\/p>\n<p>Acordo cedo e vou para a sala onde se encontra o meu caderno para escrever as p\u00e1ginas pessoais. Abro o estore de uma das janelas que mantenho fechada, e a abro a outra janela mantendo o estore fechado. Assim, renovo o ar da sala com a frescura da manh\u00e3 e preparo-me para escutar. Por\u00e9m, n\u00e3o consigo escutar o vento ou o canto dos p\u00e1ssaros. A eles sobrep\u00f5e-se o som dos pneus na estrada e dos motores. Naquele momento dou-me conta de como mud\u00e1mos os sons do planeta com os nossos estilos de vida. E ao perder o contacto com os sons naturais, parece que uma parte de mim encontra-se incompleta.<\/p>\n<p>Neste Tempo da Cria\u00e7\u00e3o, a que dedicamos o m\u00eas de setembro, creio que saber aprender a contemplar o que escutamos pode aumentar a nossa sensibilidade para a necessidade de mudar os nossos estilos de vida. Voltar a caminhar pela floresta, jardim, ou praia, \u00e9 o mesmo que ir ao encontro da voz de Deus que, atrav\u00e9s dos sons mais primitivos misturados com os mais actuais, n\u00e3o cessa de nos dizer \u2014 <em>\u00abamo-te imensamente&#8230;\u00bb<\/em> \u2014 e se cada um de n\u00f3s, por ter escutado, se sentir por Deus amado, ser\u00e1 natural querer amar por reencontrar a serenidade de quem se predisp\u00f5e a escutar. Tudo o que escutamos prov\u00e9m daquele \u00ednfimo cabelo ciliar. Por isso, cada acto de escuta da natureza ou do outro, pode ser aquele \u00ednfimo acto que nos transforma, e ao outro, interiormente. Contemplar o que escutas \u00e9 dar uma oportunidade para descobrires Aquela Voz que fala interiormente atrav\u00e9s do sil\u00eancio.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-252356","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=252356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252356\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=252356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=252356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=252356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}