{"id":25212,"date":"2007-06-08T10:46:41","date_gmt":"2007-06-08T10:46:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/06\/08\/responder-as-fomes-do-nosso-mundo\/"},"modified":"2007-06-08T10:46:41","modified_gmt":"2007-06-08T10:46:41","slug":"responder-as-fomes-do-nosso-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/responder-as-fomes-do-nosso-mundo\/","title":{"rendered":"Responder \u00e0s fomes do nosso mundo"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, na Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo <!--more--> N\u00e3o foi preciso muito tempo para que Paulo enunciasse o essencial da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, como a recebera e agora passava aos crist\u00e3os de Corinto. E soava assim: \u201cEu recebi do Senhor o que tamb\u00e9m vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o p\u00e3o e, dando gra\u00e7as, partiu-o e disse: \u2018Isto \u00e9 o meu Corpo, entregue por v\u00f3s. Fazei isto em mem\u00f3ria de Mim\u2019. Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o c\u00e1lice e disse: \u2018Este c\u00e1lice \u00e9 a nova alian\u00e7a no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o e mem\u00f3ria de Mim\u2019\u201d. E assim nos deixava tudo o que havemos de receber e anunciar como Igreja de Cristo: a mem\u00f3ria viva \u201cda morte do Senhor, at\u00e9 que Ele venha\u201d. Na verdade, recebemos a sua morte, enquanto vida retribu\u00edda ao Pai e entregue a cada um de n\u00f3s; entrega total, de \u201ccorpo e sangue\u201d; realidade final, que vem e se completa em cada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, \u201cpela vida do mundo\u201d. Como prometera, noutro passo guardado do Evangelho de Jo\u00e3o (6, 51): \u201cEu sou o p\u00e3o vivo, o que desceu do C\u00e9u: se algu\u00e9m comer deste p\u00e3o, viver\u00e1 eternamente; e o p\u00e3o que Eu hei-de dar \u00e9 a minha carne, pela vida do mundo\u201d. Sim, amados irm\u00e3os, o mundo tem fome. Fome de alimento material, numa tremenda contradi\u00e7\u00e3o entre os recursos realmente dispon\u00edveis e a p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o deles, a n\u00edvel local ou internacional, provocando a discrep\u00e2ncia atroz e o insuport\u00e1vel esc\u00e2ndalo de uns poucos morrerem de fartura e em cada minuto morrer algu\u00e9m de extrema pen\u00faria, neste nosso planeta.  Mas fome tamb\u00e9m de humanidade, conviv\u00eancia e partilha. Fome do esp\u00edrito, que precisa de alimento amig\u00e1vel e sublime, de companhia e cultura, contra a solid\u00e3o que deprime e todas as ignor\u00e2ncias que diminuem o que hav\u00edamos de ser. Mas n\u00f3s recebemos e transmitimos o mesmo que Paulo e todos os primeiros. Recebemos o dom de Deus, que em Cristo se faz alimento e companhia, vida doada e corpo entregue. Recebemo-lo sempre e hoje o adoramos de modo t\u00e3o especial e solene. Em boa hora os nossos antepassados da Idade M\u00e9dia &#8211; sempre t\u00e3o desejosos de \u201cver\u201d a Deus e tornar mais sens\u00edvel o que, de si, sempre ultrapassa a sensibilidade imediata \u2013 desenvolveram e estipularam esta celebra\u00e7\u00e3o tocante do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo. Em boa hora o fizeram e em boa hora a continuamos n\u00f3s. T\u00e3o grande \u00e9 este mist\u00e9rio, de Deus se tornar em Cristo \u201ccorpo e sangue\u201d, sacramento e d\u00e1diva de vida inteiramente partilhada connosco para saciar a nossa fome, que, ano ap\u00f3s ano, se desdobra em motivos pr\u00f3prios de medita\u00e7\u00e3o e compromisso. Como ser\u00e1 este, de a nossa tradi\u00e7\u00e3o portuguesa lhe chamar \u201cCorpo de Deus\u201d, express\u00e3o recheada de significados \u00fateis. Express\u00e3o interessante, deveras. Faz-nos lembrar que, em Cristo, Deus tomou corpo neste mundo. Ora, por \u201ccorpo\u201d entendemos a manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel, a realidade e concretiza\u00e7\u00e3o material de um ser; e entendemos sobretudo de um ser em rela\u00e7\u00e3o com os outros, rela\u00e7\u00e3o que a media\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea significa e permite. \u00c9 muito importante lembrar isto agora, no nosso tempo e cultura, quando uma antropologia fraca e um pensamento d\u00e9bil dividem o indiv\u00edduo, separando o que se chamou corpo e alma, traduzindo esta como simples disposi\u00e7\u00e3o subjectiva ou sensibilidade transit\u00f3ria e reduzindo o corpo a mero objecto de prazer e consumo, ao sabor dos devaneios\u2026  Que importante \u00e9, ent\u00e3o, lembrarmos o verdadeiro significado do corpo, manifesta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica do nosso ser em rela\u00e7\u00e3o, s\u00f3 realiz\u00e1vel em solidariedade e fidelidade, ou seja, como d\u00e1diva fiel e persistente. Assim mesmo e n\u00e3o de outra maneira, acreditamos n\u00f3s e professamos a verdadeira incarna\u00e7\u00e3o do Filho eterno de Deus, que realmente se fez um de n\u00f3s, ganhando de sua M\u00e3e, a Sant\u00edssima Virgem Maria, a nossa comum natureza humana, resgatando-a da autodestrui\u00e7\u00e3o do pecado e preenchendo-a da divindade que partilha com o Pai. Assim nos recria tamb\u00e9m no seu Esp\u00edrito, para uma comunh\u00e3o nova e \u00faltima, onde a nossa dimens\u00e3o corp\u00f3rea expresse consequentemente aquela caridade \u201cque nunca acabar\u00e1\u201d.  Sendo porventura menos te\u00f3ricos e mais pr\u00e1ticos, sejamos sempre mais evang\u00e9licos e eclesiais. &#8211; Pois haver\u00e1 algum relato da vida de Cristo, do \u201cCorpo de Deus\u201d entre n\u00f3s, que n\u00e3o manifeste a realiza\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea \u2013 quer dizer vis\u00edvel, aud\u00edvel, tang\u00edvel e pr\u00f3xima \u2013 do amor de Deus que est\u00e1 em Cristo e a sua rela\u00e7\u00e3o com os outros, com cada um de n\u00f3s? Na sua rela\u00e7\u00e3o connosco hoje, pois que a ressurrei\u00e7\u00e3o o torna presente em todo o lado, como corpo glorioso e activo, em cada momento e local, falando-nos na Palavra, tocando-nos nos Sacramentos e na caridade eclesiais, convertendo-nos com o seu Esp\u00edrito de amor, isto \u00e9 de verdadeira e absoluta rela\u00e7\u00e3o, com o Pai, com os outros, com o mundo inteiro. \u00c9 assim, amados irm\u00e3os, que o Corpo de Cristo, tomado de Maria, se entrega eucaristicamente e se alarga naqueles que o recebem, para chegar ao mundo e responder a cada fome do corpo ou do esp\u00edrito. Lembra-o o Papa Bento XVI na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Sacramentum Caritatis (n\u00ba 15), em frases essenciais e program\u00e1ticas: \u201cA Eucaristia \u00e9, pois, constitutiva do ser e do agir da Igreja. Por isso, a antiguidade crist\u00e3 designava com as mesmas palavras \u2013 corpus Christi &#8211; o corpo nascido da Virgem Maria, o corpo eucar\u00edstico e o corpo eclesial de Cristo. Bem atestado na tradi\u00e7\u00e3o, este dado faz crescer em n\u00f3s a consci\u00eancia da indissolubilidade entre Cristo e a Igreja. Oferecendo-Se a Si mesmo em sacrif\u00edcio por n\u00f3s, o Senhor Jesus preanunciou de modo eficaz no seu dom o mist\u00e9rio da Igreja\u201d. Ou seja, havemos de ser o que Cristo foi, como corpo entregue e sangue derramado, como vida partilhada e doada para a salva\u00e7\u00e3o do mundo. Chamar-se-\u00e1 a isto a verdadeira celebra\u00e7\u00e3o da solenidade de hoje em cada dia da nossa vida, como Igreja no e para o mundo. Ou melhor, havemos de deixar que o Esp\u00edrito de Cristo continue em n\u00f3s a sua obra eucar\u00edstica e salvadora. Nem outra li\u00e7\u00e3o poder\u00edamos tirar do Evangelho que escut\u00e1mos. Estava ali a multid\u00e3o faminta. Os disc\u00edpulos julgavam-se naturalmente incapazes de alimentar tanta gente. Mas, bem no centro, estava Cristo e a sua activa compaix\u00e3o, donde tudo brotar\u00e1 sem dispensar a coopera\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. E a sua ordem foi como sabemos: \u201cDai-lhes v\u00f3s de comer!\u201d. Tinham cinco p\u00e3es e dois peixes, coisa de nada para cinco mil homens. Com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Jesus, chegaram para todos e recolheram-se as sobras. Do pouco que os disc\u00edpulos lhe ofereceram, Cristo fez alimento para a multid\u00e3o, mas n\u00e3o dispensou esse pouco nem a colabora\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos na distribui\u00e7\u00e3o. Tudo isto \u00e9 connosco agora, amados irm\u00e3os. Est\u00e1 Cristo vivo, estamos n\u00f3s com Ele, est\u00e3o as necessidades do mundo\u2026 Celebramos o seu Corpo, somos o seu corpo eclesial, as suas m\u00e3os no mundo e para o mundo. &#8211; Como n\u00e3o haver\u00edamos de crescer em comunh\u00e3o com Ele, para cumprirmos a vontade do Pai, que \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o de todos, na resposta completa \u00e0s suas necessidades integrais, de corpo e esp\u00edrito?! Sejam esta celebra\u00e7\u00e3o e este dia, de adora\u00e7\u00e3o e compromisso, eclesial e p\u00fablico, a realiza\u00e7\u00e3o em n\u00f3s e por n\u00f3s da caridade divina. Em dia do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo, recebamo-los e entreguemo-los no nosso pr\u00f3prio corpo e sangue \u2013 quer dizer, nas nossas vidas -, unidos no mesmo Esp\u00edrito, para a esperan\u00e7a e salva\u00e7\u00e3o de todos. Porto, Igreja da Trindade, 7 de Junho de 2007 <i>+ Manuel Clemente, (Bispo do Porto) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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